A associação cultural Plutão de Verão leva a palco uma “Retrospectiva de um Faro futuro” no dia 4 de setembro e a peça “Sara Sara” entre 16 e 19 do mesmo mês, em Faro. Passando pelas Ruínas Romanas de Milreu e pela Blackbox do LAMA Teatro, a história algarvia, o quotidiano e as gerações são os temas centrais dos espetáculos que contam com a direção artística de Diogo Simão.

A Plutão de Verão. Assinalou a sua existência em 2019. No entanto, já se tivera feito ouvir no pensamento de Diogo Simão e da sua equipa antes disso. Em 2015 o artista foi convidado a integrar a equipa do festival de cinema Shortcutz Faro como programador. Coincidentemente, na mesma altura, realizou a sua primeira curta-metragem, (des)ligado. "Aceitei estes projectos pro bono, mas sempre com a esperança que, a determinada altura, surgisse alguma compensação monetária. Um bocado a história do teu average millennial... Estas circunstâncias arrastaram-se e fizeram-me perceber o sistema que estava criado em Portugal para atribuição de apoios. São raras as oportunidades para que um conjunto não-formal de criadores possa receber, ou sequer candidatar-se, a qualquer tipo de apoio. E falo de apoios públicos porque o mecenato ou o investimento privado na cultura é um oásis no deserto. Tem de haver uma partilha de expectativas de parte a parte e uma (re)educação de ambos os lados. Há muito a ganhar na cooperação entre agentes culturais e privados", conta Diogo.

Durante vários anos foram "tentando contornar o sistema", fazendo os seus projetos com os apoios que eram possíveis para um grupo não formal. "Até que chegámos a um momento em que já não era exequível fazê-los sem a tal estrutura formal. A essência dos nossos objetivos, a maneira verdadeira com que vivemos cada projecto e nos entregamos a causas que nos tocam já estava em tudo o que fazíamos antes da Plutão: e continuarão a estar", acrescenta.

O primeiro ano de existência da associação (2019) foi focado na criação do Young South Film Festival. Através de parcerias com o IPDJ, Loulé Film Office, Teatro Estúdio Fontenova, Cineteatro Louletano, Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, Cineclube de Faro e com o artista Welket Bungué, foram exibidas dezenas de curtas-metragens a milhares de espectadores, organizadas inúmeras masterclasses com vários realizadores. A associação foi também a responsável pela preparação de vários projetos voltados para o nível educativo: um dos principais focos da associação.

Querendo "criar sinergias entre entidades culturais e participar activamente na educação e capacitação das próximas gerações”, os projetos evidenciados assinalam assim os primeiros passos para que os objetivos centrais da associação aconteçam. Sendo o nível educativo uma das principais premissas da associação, o diretor artístico reconhece ainda que "é cada vez mais importante a partilha e a criação de experiências específicas na educação. O sistema de ensino português cheira a bafio e tem de ser desafiado. No ano letivo passado dei algumas aulas no contexto do Plano Nacional de Artes na Escola Secundária de Albufeira, a convite da associação JuvAlbuhera. A cara dos alunos, quando lhes pedi para usarem o telemóvel para algo tão simples como ir ao IMDB, foi do choque à felicidade em segundos. Estamos em 2021 e a utilização do telemóvel como ferramenta de ensino ainda é uma novidade."

A capital algarvia é importante para a associação. Sendo a cidade berço de alguns dos membros da mesma, esta preocupação torna-se ainda mais assente. Diogo revela que, no que toca à educação, a cidade tem apresentado esforços em dotar a formação artística, como é o caso do (PNA). Questionado sobre a importância do desenvolvimento educativo na formação artística, o artista reconhece ainda que "Agora, estes esforços são inúteis se o ensino superior e a oferta profissional na região não acompanharem. O brain drain que o Algarve tem sofrido ao longo das últimas décadas vai-se continuar a intensificar se a Universidade do Algarve não olhar para o que se passa na região e colmatar as lacunas que existem na oferta curricular. Nós, Plutão de Verão, queremos sempre fazer parte da solução, não do problema. Promovemos formações pelo país inteiro em várias áreas (teatro, fotografia, iluminação, argumento, edição, produção, interpretação, criação) e com vários tipos de alunos diferentes. Temos mantido contactos com a UAlg e estamos disponíveis para trabalhar com qualquer entidade que veja valor no que os nossos membros têm para oferecer, que são décadas de experiência, teórica e empírica, em várias áreas artísticas".

O(s) pontapé(s) de partida

Os espetáculos que acontecem no dia 4 de setembro e entre os dias 16 e 19 do mesmo mês estão inseridos no Programa DiVaM - Dinamização e Valorização dos Monumentos (primeiro) e no Programa de Apoio à Acção Cultural no Algarve (segundo).

“Retrospectiva de um Faro futuro” consiste na leitura de oito lendas sobre a cidade de Faro ao som de hip-hop, tendo as ruínas romanas de Milreu como pano de fundo. A criação dos instrumentais originais está a cargo de Nuno “Kabula” Esmael, produtor farense e membro da Plutão de Verão. As leituras serão feitas por membros de todas as companhias/associações de teatro de Faro: André Canário (te-Atrito), Catarina SIlva (DoisMaisUm), Fúlvia Almeida (ArQuente), João de Brito (LAMA Teatro), Luís Vicente (ACTA), Miguel Martins Pessoa (JAT), Tânia Silva (AFera) e Vasco Seromenho (JAT), que as interpretará em língua gestual portuguesa. 

Cartaz de Ana Monteiro

Diogo explica que "quando descobri a existência do Centro de Estudos Ataíde Oliveira da Universidade do Algarve e do seu arquivo de lendas ( https://www.lendarium.org/pt/) fiquei com muita vontade de o trabalhar. As lendas e os mitos são uma forma de realismo mágico. Permitem entender a evolução de cada local ao longo dos séculos e tornam coletivas memórias de coisas que não aconteceram: por isso, de certa forma, moldam e descrevem o povo de determinado local. Quando surgiu a oportunidade de nos candidatarmos ao DiVam achei que nada seria mais apropriado do que unir todas as companhias de teatro de Faro para ler lendas, especificamente farenses, nas ruínas romanas."

Foi então que a escolha do registo musical surge porque "as novas gerações têm de evoluir", diz-nos. "Têm que se apropriar do conhecimento que é deles e levá-los para o futuro. O trabalho do Nuno “Kabula” Esmael é intemporal. A capacidade que ele tem para nos fazer viajar para outro tempo sem nos fazer esquecer de onde viemos é a argamassa que une todo projecto. Tencionamos gravar o evento na íntegra e lançá-lo quase como um álbum ao vivo. Desta maneira perpetuamos o espaço que é inacreditavelmente belo, perpetuamos as vozes dos atores, trazemos as lendas do passado de volta para o futuro e lançamos o talento do Kabula para o mundo conhecer", continua.

Já "Sara Sara", peça de teatro escrita e encenada por Diogo, protagonizada pela atriz Sara Afonso e, também, pelo músico Nuno “Kabula” Esmael, parte de um processo criativo com a protagonista. "A Sara Afonso costuma dizer que a peça é uma sessão de terapia". Questionado sobre o mote da peça e a sua relação de identidade com cada uma dos artistas que originou, Diogo acredita que representa "três anos de terapia condensados em 50 minutos. Claro que isso tanto pode ser absolutamente catártico como tremendamente perturbador. Eu acredito que vamos bailar entre os dois de forma elegante, mas o público será o verdadeiro juíz. Todas as nossas cicatrizes, inseguranças, más experiências, pesadelos, represálias, identitárias ou não: está tudo ali. Eu e a Sara não tivemos medo nesta criação. Claro que à medida que a data de estreia se vai aproximando os nervos vão surgindo, mas no processo de partilha e de criação deste ser chamado Sara Sara foi muito importante a honestidade brutal que tivemos um com o outro."

Design de Ana Monteiro e fotografia de Ricardo Vargues

 O aconselhamento artístico do Bruno Schiappa e do João de Brito foram também essenciais para a peça se 'erguer'. Trouxe-lhes novas formas de observar o texto com o qual já estavam "demasiado familiarizados". "O Bruno tem o condão de libertar a emoção real que cada um tem dentro de si e o João vê sempre a possibilidade de beleza nos espaços que outras pessoas diriam vazios. Isto para nós é absolutamente essencial: de que outra forma poderemos surpreender o público se não nos conseguirmos surpreender a nós próprios? A Sara Sara é um ser vivo e alimenta-se de sentimentos reais. Temos que continuar disponíveis para lhe dar de comer", determina.

Abraçando todo o seu processo criativo e de desenvolvimento da peça, xs artistas estão a realizar um documentário sobre a mesma. Diogo partilha com o Gerador que apesar de algumas mudanças e impedimentos de manter presente o documentário tanto quanto gostariam, "tenho documentado, sobretudo com o telemóvel, parte do processo. A ideia é fazer algo muito simples e sem pretensões nenhumas de circuitos de festivais. O objetivo, e aqui voltamos ao tema da educação e da capacitação, é: mostrar aos alunos da região algarvia e, quiçá, de outras também, como é possível fazer uma criação de raíz, profissional, pagando (pouco, mas pagando) a todos os envolvidos, circular o espetáculo e tudo isto, sem ter de “fugir para Lisboa ou para o estrangeiro”. No fundo, queremos dar esperança e lutar para mais pessoas se juntarem a nós. Se nos juntarmos tudo fica mais fácil."

Texto por Patrícia Silva
Fotografia de Ricardo Vargues

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