O lirismo épico de Memorial do Convento, de José Saramago, foi o ponto de partida para a criação de um itinerário histórico e cultural que, ao longo de 58 km, entre Casa dos Bicos e o Largo da Igreja de Cheleiros, convida a conhecer monumentos históricos e paisagísticos do século XVIII, mas também pontos de interesse patrimonial dos municípios de Lisboa, Loures e Mafra.

No Rossio, é recordado o primeiro encontro de Baltasar e Blimunda, que acontece durante um auto de fé onde a mãe da protagonista é condenada por feitiçaria. Já no Terreiro do Paço, conhecemos a história do padre Bartolomeu Gusmão e da invenção da máquina voadora que cruzará os céus de Lisboa. Mas é a Casa dos Bicos – que é, desde 2012, sede da Fundação José Saramago – o primeiro ponto da Rota do Memorial do Convento, uma iniciativa que uniu aqueles três municípios na criação de um itinerário original que promove o património religioso, estético e turístico dos seus territórios.

“Trata-se de uma rota que é iminentemente literária, no sentido em que nasce de um livro, neste caso concreto, do José Saramago, mas é uma rota que tenta abranger também outras componentes da cultura, no sentido mais lato, seja o património arquitetónico, o património arquitetónico-religioso, porque há vários edifícios ligados à igreja, a questão da gastronomia também”, explica Sérgio Letria, diretor da Fundação Saramago, no início de uma visita de imprensa.

Este projeto turístico e cultural já existe desde 2017, mas ganhou novo fôlego, após a assinatura, em novembro do ano passado, de um protocolo para a sua dinamização, entre a Fundação e os três municípios envolvidos, bem como do lançamento do site da Rota do Memorial do Convento, onde é possível aceder a um mapa interativo e marcar os pontos a conhecer, em visitas organizadas ou programas livres, para além de descobrir uma série de outras informações e iniciativas.

“Para nós, Fundação, obviamente, é sempre um momento de grande alegria perceber que há coisas que continuam a nascer a partir da obra de José Saramago”, afirma o responsável da instituição, que é parceira da iniciativa, assumindo as componentes das atividades e da comunicação. “A ideia é que, a partir de agora, as pessoas possam começar a percorrer os caminhos do Memorial do Convento.”

A Casa dos Bicos, um dos pontos estruturantes da Rota, é desde 2012 sede da Fundação José Saramago, em frente à qual se situa a oliveira trazida de Azinhaga do Ribatejo, cujas raízes acolhem as cinzas do escritor. Foto de Diana Mendes

Baltasar e Blimunda, o sonho utópico de voar de Bartolomeu de Gusmão, a corte de D. João V, os trabalhos árduos dos operários envolvidos na construção do grande Palácio de Mafra e a devoção à música de Domenico Scarlatti ganham nova vida, para lá das palavras, em lugares físicos. A obra Memorial do Convento converte-se assim num ponto literário aglutinador de momentos e monumentos históricos e paisagísticos do século XVIII, entre Lisboa e Mafra, passando por Loures, bem como pontos de interesse patrimonial situados em Sacavém, Santo António dos Cavaleiros, Unhos, Santo Antão do Tojal, Fanhões, Malveira, Mafra e Cheleiros.

Ao longo do caminho, treze pontos de informação, na forma de totems – com textos, da autoria do escritor Miguel Real, que enquadram aqueles locais na obra –, marcam os vários lugares da rota. “Temos sempre, em todos os locais, estes pontos de informação, onde cada visitante tem a noção de todo o percurso. Tem um excerto do livro, que faz a ligação do sítio à obra – no fundo, isto é um circuito patrimonial, mas essencialmente literário, baseado na obra do José Saramago –, tem um QR Code, que permite ligar ao site, onde podem fazer mais pesquisas, tem muito mais informação”, refere Florbela Estevão, que, juntamente com Paula Pitacas – ambas funcionárias da Câmara Municipal de Loures –, fazem o acompanhamento pela parte do percurso existente naquele município.

Em cada totem, há ainda uma proposta de locais a visitar no concelho. Foto de Diana Mendes

“O que se pensou foi, por um lado, seguir o fluxo que, na altura, no século XVIII, era utilizado para chegar de Lisboa até Mafra, e vice-versa. Um deles é precisamente a viagem, através do Rio Tejo e do Rio Trancão. O Trancão era navegável. Portanto, iam até Santo Antão do Tojal, onde vamos estar a seguir e daí seguiam pelas estradas reais. E outro dos percursos é, precisamente, o uso das estradas reais que, na altura, até foram melhoradas. Muitas delas foram alargadas, precisamente, para permitir que carros de bois – muitos deles, dois carros de bois aparelhados – pudessem levar os materiais que eram necessários para a construção do Palácio e do Convento”, elucida Florbela Estevão.

“Há locais onde há uma ligação direta, porque o Saramago menciona, precisamente, na sua narrativa, ou acontecimentos, ou os próprios sítios, as pessoas, etc. Outros, como é o caso do Trancão, não há uma ligação tão direta, embora, no livro, venha mencionado todo este fluxo de embarcações”, acrescenta. “Os sinos todos que estão basílica passaram por aqui. As estátuas italianas também passaram por aqui. E também o fluxo de pessoas”.

Em Loures, é indispensável a paragem em Santo António do Tojal, onde emerge o Palácio dos Arcebispos, residência do Primeiro Patriarca de Lisboa e local de estadia do Rei e da Corte aquando das deslocações para Mafra. Também aqui se realizaram as cerimónias da bênção dos sinos destinados à Basílica de Mafra e daqui partiu Baltasar conduzindo uma junta de bois com materiais para a Real Obra, bem como as estátuas italianas desembarcadas no cais.

Já em Mafra, a Real Obra é evocada em dois percursos, utilizados pelo Rei quando a visitava. O primeiro segue o caminho que ligava o Alto da Vela à Vila Velha, percorrendo as estradas reais que foram utilizadas no transporte dos tijolos, estátuas, sinos, trabalhadores e mestres. O segundo, utilizando a antiga Estrada Real Sintra-Cheleiros-Mafra, por onde passou grande parte do calcário e mármore para a construção do convento, que envolveu cerca de 45 mil operários e sete mil soldados.

Ao longo deste percurso, os visitantes são convidado a percorrer as linhas geográficas do romance. Foto de Diana Mendes

“A grande opção [de José Saramago] é, justamente, elogiar quem faz, quem constrói, porque o rei faz a promessa, mas quem cumpre é o povo, em que condições for”, comenta Fernanda Santos, responsável pelo serviço educativo do Palácio Nacional de Mafra. “Cá está a obra feita.”

Seguindo a narrativa da obra, a Rota do Memorial do Convento, que é, simultaneamente, uma homenagem a José Saramago, cruza as rotas das estátuas, dos sinos e dos tijolos de Lisboa para o Convento de Mafra e acompanha os personagens criados pelo autor, a par das figuras históricas, nos seus percursos por estradas, caminhos e lugares, convidando os visitantes a conhecer ou revisitar a arquitetura, o território e a paisagem dos municípios de Lisboa, Loures e Mafra. Mas é muito mais do que a visita e fruição de lugares especiais. Há uma série de iniciativas culturais que vão, ao longo do ano, dinamizando a oferta deste itinerário e que vão desde a música, ao teatro, à literatura e à história. Comunidades de leitores, espetáculos de teatro ou um ciclo de música barroca são apenas alguns exemplos.

Texto por Flávia Brito
Fotografias de Diana Mendes
O Gerador é parceiro da Rota do Memorial do Convento

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