A Momento — Artistas Independentes prepara-se, agora, para apresentar o espetáculo “Como Perder um País”. Este é o segundo espetáculo do ciclo “Democracia e os filhos dos anos 90.” Depois de “Democracy Has Been Detected”, focado na influência da tecnologia de inteligência artificial na democracia, este projeto centra-se na potencialidade da manipulação, poder, e discurso populista.

A peça vai estar disponível em cinco localidades portuguesas. Porto, Viana do Castelo, Famalicão, Felgueiras, e no Funchal. As primeiras datas vão já ocorrer entre os dias 26 a 28 de fevereiro, na Casa de Artes de Famalicão.

Em entrevista ao Gerador, Diogo Freitas, diretor artístico da Momento — Artistas Independentes, refletiu acerca do novo espetáculo, dos desafios da chegada da pandemia, do panorama do teatro, e sobre as ambições futuras da casa Momento.

Gerador (G.) – O espetáculo de “Como Perder um País” surge no seguimento do projeto “Democracia e os filhos dos anos 90” da Momento — Artistas Independentes. Gostava que me contasses como surgiu a ideia deste ciclo de espetáculos?

Diogo Freitas (D.F) – Fizemos alguns espetáculos, mas em 2018 comecei a criar mais em relação com a questão política em Portugal. Comecei a perceber certas deficiências à minha volta. Comecei a estudar a política em Portugal, como o Partido Socialista, por exemplo, entrou cá. E comecei a tentar perceber que uma faixa etária de nós, muito grande, ou seja, os filhos dos anos 90, que não tiveram de lutar pela democracia, que valor é que esta geração lhe dava? Ao meu ver, nenhuma. Para tu perceberes, nós começámos a trabalhar em 2019 neste projeto. Nós chegamos a fazer um inquérito a esta faixa etária e as pessoas que não se interessavam pela vida política eram quase 90%. À volta de 50% a 60% não tinham mesmo interesse, outras disseram que não tinham disponibilidade de informação… O que é impossível, atualmente… Então, comecei a pensar se fizesse um espetáculo em que pudesse alertar o caminho para que isto está a ir, sendo que gostava que toda a produção fosse dos anos 90, porque queria perceber como esta geração pensa um espetáculo sobre a democracia.

Em 2019, construímos uma residência em Guimarães, com a equipa artística, onde lemos a Constituição, vimos a questão dos partidos, essas coisas todas. Depois disto, eu e o Filipe Gouveia percebemos que um espetáculo não chegava. Então, começámos a desenhar este ciclo de três, porque a democracia tanto é real como abstrata. Esta coisa do que é a democracia, e como falamos da democracia, é muito, ainda, aquela coisa de falar num manifesto, ou de um palco e falar para um público. Mas nós não queríamos nada disso. Nós queríamos a democracia aplicada. O público perceber que se está a falar de democracia quase no final, e que ela está presente em todas as ações do quotidiano. Então, começámos a desenhar este ciclo de três, que não têm de ter ligação, em que em 2019 nós começamos a ensaiar, e em 2020 estreámos o espetáculo “Democracy has been detected” que teve o pólo entre os anos 90 e a democracia, mas teve muito a questão da tecnologia. Até porque, hoje em dia, é quase impossível falarmos de democracia sem falarmos de tecnologia. É quase como se uma estivesse a avançar, e a democracia não está a acompanhar o avanço da tecnologia. Nós criámos este projeto, em que propomos um partido de inteligência artificial, um robô, ser um líder da nação. E que implicações tem isso para a sociedade.

Depois, este segundo “Como Perder um País”, que estamos em criação, começámos em 2020, e vamos estrear este ano na Casa das Artes. O projeto foca-se muito na questão da manipulação, como é que nós somos manipulados constantemente, com discursos, com publicidades ao Facebook, já que somos constantemente manipulados. Ou seja, até que ponto nós temos consciência de que isso está a acontecer.

Este projeto foi apoiado pelo Espaço do Tempo, a bolsa para artistas emergentes, mas ainda é um projeto que não está terminado.

Agora, em 2022, vamos ter o último ciclo que será em Guimarães, que se chamará “Tratado da Constituição Universal”, que é a proposta de um tratado, e vai ser uma coisa louca, porque o público vai estar em vários espaços.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) – “Como Perder um País” fala da história de uma nação devastada por uma guerra civil, uma duvidosa declaração de paz que propõe suspender a democracia por seis meses é assinada, levando dois líderes. Quais as principais questões que pretendes levantar com esta peça?

(D.F) – “O Como Perder um País” tem várias vertentes. Imagina, nós vemos um país em ruínas, ou seja, um país que foi destroçado por um presidente corrupto. Entretanto, esta nação apresenta uma solução que é temporária em que temos seis meses para as eleições. E, durante esses seis meses, vamos ter dois líderes oponentes, para liderar esse mesmo país até às eleições. E vamos seguir as opções deles em tempo real, ou seja, nós vamos ter uma personagem que os põe à prova e perceber que, em certos contextos, aquela personagem x toma aquela decisão, e aquela personagem y toma outra decisão. E é isso que o povo quer ver — um político em ação e não um político em diálogo, é essa a nossa proposta.

As pessoas, antes de lutar, vão ter a oportunidade de os ver em ação. E é essa a diferença do que se passa no dia a dia, e ontem, por exemplo, estava a ver as eleições e só pensava que cada vez faz mais sentido o final deste nosso espetáculo. Até porque, na altura, as pessoas veem, sabem o que aquilo é, mas ainda assim estão cansadas, com tanta informação na cabeça, que não conseguem perceber o que é ou não real, até que estamos a disputar aquele 2º lugar para a presidência… de um fascista ridículo… E estamos neste estado em Portugal, em que transpus para o teatro, ou seja, o estado de ficção, mas penso que isto não é tão ficção assim, isto é surreal. A partir daquele discurso do fascista do espetáculo, o público vai escolhê-lo porque é aquela coisa quando falas com alguém e perguntas porque votas no André Ventura? E elas dizem — ‘ah, porque ele diz umas verdades…’ As pessoas veem a forma mais do que o conteúdo. E nós estamos a passar uma crise de valores em que as pessoas estão mais focadas na forma do que no conteúdo. 0 espetáculo também critica essa coisa da forma, do dispositivo, para além de se sobrepor ao conteúdo. Para tu perceberes, há uma cena, já a acontecer, em que está um político a discursar, a dizer que fez asneira, mas está a sorrir ao mesmo tempo, e a dizer que está tudo bem… As pessoas só olham para a forma  e por isso é que tivemos resultados como o de ontem. No sentido da desinformação, do desinvestimento no interior…

(G.) – O espetáculo vai estar disponível em vários pontos do país, como Famalicão, Porto, Viana do Castelo, Felgueiras. Face às novas medidas do Governo, para o combate da pandemia da covid-19, e à suspensão dos eventos culturais presenciais, de que forma procuraram readaptar o evento?

(D.F) – Nós vamos estrear dia 26 de fevereiro, até porque o estado de emergência só está presente até dia 15. Portanto, nós já temos um plano A, um plano B, e um plano C… E há esta coisa em que vários espetáculos estão a passar para streaming, porque a dada altura as casas de teatro estão com pouco agendamento em 2020, e agora estão a reagendar 2021. Vai ser uma confusão, artisticamente.

Nós, para já, não estamos a seguir o plano. Nós estamos a ensaiar, temos feito a testagem à equipa regularmente, máscara e essas coisas todas. O primeiro plano é estrear como estávamos, ou seja, em cena com o público, porque nós notámos que, mal reabriram as portas do teatro, o público, efetivamente, percebeu a necessidade do teatro. Então, para já, não queremos falar em plataformas streaming, porque, na minha opinião, e na opinião da estrutura, esta coisa destabiliza o que é o teatro. Agora, sei que muitos colegas meus vão fazer isso, mas nós, para já, vamos manter mais o nosso plano. O que me preocupa mais é fevereiro, porque é logo depois de 15 dias do estado de emergência, mas depois quando voltarmos vai ser em novembro. Portanto, espero que já esteja mais regulado… Claro que vamos ter aquelas limitações do público, mas já vamos estar abertos.

(G.) – E no geral? Desde a chegada da pandemia, de que forma readaptaram os espetáculos na companhia do teatro a Momento?

(D.F) – Eu pensei antecipadamente, nomeadamente, neste projeto… Comecei a desenhá-lo em residências artísticas, aliás, nós já temos mais projetos em residências, porque temos a equipa mais focada nos projetos. Mas pensei que, com isto da pandemia, tudo ia ficar péssimo, mas se estivermos em residências, se estivermos lá fechados, podemos estar mais à vontade. As pessoas iam fazendo testagens para percebermos como estavam as coisas. E foi isso. Nós fizemos uma residência no Teatro Didascália. Antes, fizemos uma residência no Circulano, no Porto. Tínhamos a residência, íamos e vínhamos a casa, estávamos de máscara, essas coisas todas. No Teatro Didascália, toda a equipa fez testes e estávamos lá a residir. Estávamos mais à vontade, sem máscaras, parecia que a pandemia não existia… Parecia que o mundo lá fora não existia.

Agora estamos a trabalhar com máscaras e separados. E, como em todas as equipas, houve uma situação de um caso positivo, do isolamento profilático, da paragem de ensaios. Estamos constantemente nesta luta diária.

(G.) – “A Momento — Artistas independentes” foi fundada por ti e pelo Daniel Silva, em 2017, em Vila Nova de Famalicão. Na altura, por que razão te foi prioritário a criação deste espaço?

(D.F) – Eu tinha muita coisa dentro de mim. Sentia que via e que tinha de fazer. Senti mesmo esta coisa de uma possível linguagem, uma comunicação com o público, que não via nos outros espetáculos, porque posso trazer uma coisa nova. E também porque queria encenar projetos, queria fazer criações novas, do zero, queria escrever textos do zero, queria sentir que os projetos eram nossos. E este ciclo também é muito disto. Todos os textos são escritos por nós e pelos autores, é falado, é discutido, demora anos a escrever-se. Eu queria criar os meus espetáculos, queria ter a minha equipa.

(G.) – Por curiosidade, porquê o nome a “Momento — Artistas Independentes”?

(D.F) – Nós tínhamos um professor de dança, e existia um exercício que se chamava momento, que é quando o ator está só, em cena, com o público. Então, vem daí, porque a base era essa — um corpo a relacionar-se com o público. Agora, artistas independentes é porque nós imaginamos este campo muito por artistas que se juntavam e criavam diálogo, discurso com alguém.

(G.) – Sentes que o teatro, ao longo dos anos, tem vindo a ser mais valorizado em Portugal?

(D.F) – Não! Acho que nós não podemos falar de cultura sem falarmos de educação, porque as pessoas não chegam a um x de anos e começam a ir ao teatro. E também não podes obrigar as pessoas… As pessoas têm de perceber individualmente o porquê de aquilo fazer diferença na vida deles, ou seja, têm de perceber o que aquilo traz e acrescenta individualmente.

Isto tem mesmo de começar nos pequenos. Neste momento, se eu trabalho na cultura, ou se um colega meu tem filhos, claro que esses filhos são privilegiados… Os pais têm uma sensibilidade maior em levar os filhos para que eles percebam o que aquilo traz de diferente. Agora, eu que vim de uma família comum, em que irmos a uma peça de teatro, a um concerto, vem de um hábito criado na escola.

Por exemplo, eu estou aqui porque existia uma disciplina na escola que era teatro. E foi essa disciplina que me fez estar cá hoje. É para tu perceberes o impacto que tem a educação cultural nas escolas. E acho que ainda é muito deficiente a educação cultural nas escolas. Para tu perceberes, eu também dou aulas em colégios e, para eles, o teatro começa desde pequenos. Claro que é outro patamar financeiro, e tenho noção disto. Mas a verdade é que eles se relacionam desde logo com o teatro e isso vai ter consequências para a vida futura deles. Nos filhos deles, nos outros. Isto é quase como um processo de bola de neve.

Tem de se rever estes planos nas escolas!

(G.) – Que projetos gostavas, ainda, de alcançar na “Momento — Artistas Independentes”? E a nível pessoal?

(D.F) – Eu queria mesmo que a Momento fosse uma casa de criação, ou seja, a minha ideia é ser mais do que um espaço de programação de nós próprios, que não é nada disso que me interessa. Interessa-me, sim, ter um espaço em que possa estar, o tempo que eu queira, a criar, em que possa receber colegas em residências artísticas e dizer-lhe que têm x condições. Esta coisa das residências artísticas é muito importante a nível de projetos, e nota-se que as decisões são muito mais pensadas. Então, a minha ideia era quase essa de criar uma corrente ali também, no nosso espaço, em que a criação fosse a base. Para tu veres, neste momento, estamos a criar este projeto, estamos em digressão, vamos ter um projeto que vamos desenvolver em Famalicão que é o “Há Cultura”, que é um projeto da União Europeia para trazer a cultura a vários territórios.  Estamos com quatro espetáculos. E, neste momento, estamo-nos a dividir — ensaiamos nesta, depois naquela, depois na outra. Então, um sítio em que pudéssemos assentar, receber colegas, novos projetos era isso que gostava que a Momento alcançasse.

Pessoalmente, não sei. Eu sou muito novo como artista, mas queria muito apostar nesta questão da criação, da encenação, e talvez quem sabe estar a dirigir um espaço público em que a criação fosse a base.

(G.) – Para terminarmos a nossa conversa, há algum aspeto que gostasses ainda de destacar da Momento?

(D.F) – Que a Momento, enquanto direção artística, é minha. Temos uma produtora regular, a Inês. O Filipe Gouveia é o artista residente, dramaturgo residente. Temos o Pedro Abreu, que é o responsável pela luz. E o Paulo Pires, que é o responsável pelo som. Esta é a equipa núcleo.

Mas a Momento é feita dos artistas que passam por lá… Daí estes independentes. Não é uma companhia, porque esta coisa é como se fosse uma estrutura em que as pessoas vão e vêm.

Texto de Isabel Marques
Fotografia da disponível via facebook Diogo Freitas