“Deixe-me ir / preciso andar / vou por aí a procurar” 
in “Preciso me Encontrar” (1976), Cartola 

Em junho de 2019, quando ainda não se imaginava que uma pandemia iria reconfigurar a vida a todos os níveis, o Governo dava a conhecer a estratégia de um novo plano que uniria dois ministérios, o da educação e o da cultura: o Plano Nacional das Artes (PNA). Além dos ministros da educação e da cultura, Tiago Brandão Rodrigues e Graça Fonseca, ouviu-se Paulo Pires do Vale, o comissário que, desde então, tem dado a cara pelo PNA, junto a Sara Barriga Brighenti, a subcomissária. “Indisciplinar a escola” era a premissa, tendo a cultura e as artes como aliadas. Entre algumas das propostas promissoras, encontrava-se a presença de um artista residente nas escolas que se juntassem ao PNA e uma “inundação” das artes nas diversas disciplinas do ensino regular. E até março de 2020, altura em que já várias escolas se tinham decidido juntar, as expectativas de como tudo poderia acontecer eram diferentes; tudo precisou de ser repensado quando as aulas passaram, repentinamente, a ser em casa. 

Numa altura em que ainda era permitido fazer viagens pelo país e reunir dezenas ou centenas de pessoas em auditórios, os comissários do PNA deslocaram-se para dar a conhecer o programa que tão dedicadamente haviam preparado, para escutar as necessidades das escolas e, claro, para procurar parceiros. Quando chegaram a Faro, encontraram uma plateia diversa e interessada, composta por docentes e agentes culturais locais, na qual estava Ana Bela da Conceição, professora de Português e Francês na Escola Secundária Pinheiro e Rosa. 

“Eu estava muito sensibilizada para esta temática do trabalho e da educação artística nas escolas e havia uma transformação sistémica que tinha vontade que acontecesse. Ouvi a notícia na televisão, em junho, quando foi lançado o plano, averiguei um pouco e depois fiquei muito entusiasmada, fui falar com a escola e sugeri que entrasse para o Plano Nacional das Artes — e foi logo abraçado com muito carinho pelo diretor [Francisco Soares], que é uma pessoa que quer ver inovação na escola”, partilhou Ana Bela numa entrevista feita por videochamada, ao Gerador, em meados de novembro de 2020.  O que Ana Bela não sabia era que o Plano Nacional das Artes já ia, de forma indireta, à sua procura. 

Sara Barriga Brighenti, a subcomissária, já tinha referências de Ana Bela, que havia participado no projeto da Gulbenkian, 10x10. Como estavam a criar uma rede de contactos, que ainda não existia, muniram-se de algumas referências dadas por outros projetos que juntavam a educação às artes, como é o caso do 10x10, porque sabiam que certamente os professores que anteriormente tinham trabalhado dentro destas áreas, poderiam estar interessados a fazê-lo de novo e numa outra dimensão. Ana Bela estava. “Nós não podíamos ter o Plano [Nacional das Artes] no Algarve sem ter a Ana Bela. De alguma maneira, tudo conspirava para que isso viesse mesmo a acontecer”, conta entre risos a subcomissária.

Os primeiros passos passaram por formar uma equipa, coordenada por Ana Bela, à qual se juntaram mais duas professoras — uma da E.B. 2/3 de Estoi, e outra da E.B. 2/3 de Faro —, cada uma com duas horas letivas que se destinariam a implementar o projeto. Começaram a procurar um tema global ao qual dedicariam o seu programa do Plano Nacional das Artes no Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, chegaram até ao Núcleo Museológico das Ruínas de Milreu, que se tornou central no mesmo, e começaram a contactar associações para “constituir o Conselho Consultivo”. “Faro tem muitas associações – não na dimensão de Lisboa, mas tem muita coisa a acontecer. Sempre foi uma cidade com muito burburinho cultural, e eu tinha de decidir quem queria convidar, e pensei em convidar as mais pequeninas, mas que sabia que tinham trabalho na área da educação. Instituições culturais com um lado de pedagogia”, conta Ana Bela, que na altura era a Coordenadora do Projeto de Escola. Entre essas associações estava a AMARELARTE, de onde naturalmente surgiu Nicole Lissy, a artista residente neste projeto.  

Neste momento, Ana Bela da Conceição é Coordenadora Regional do Algarve e Alentejo litoral, e Inês Ferin, uma das duas professoras que integrou o grupo inicial da implementação do PNA na Pinheiro e Rosa, é a Coordenadora do Projeto de Escola. Ao longo dos últimos meses, o Gerador foi conversando com diferentes intervenientes do PNA neste agrupamento de escolas em Faro para conhecer a mudança que já se faz sentir. Ir às aulas passou a ser “mais fixe”, e quem o diz são os alunos. 

Na primeira fotografia, a Escola Secundária Pinheiro e Rosa / Na segunda, E.B.2/3 Poeta Emiliano da Costa, em Estoi

Furar a rigidez dos planos curriculares

“A Nicole apareceu assim do nada, e veio dar mais criatividade às nossas aulas; veio dar mais prática. Se calhar, há pessoas que acabam o [ensino] secundário e não sabem o que vão fazer da vida, não sabem o que lhes espera no futuro. E eu acho que, com estas atividades, começámos a perceber que até somos capazes de organizar um evento, ou até de expressar algum sentimento através da arte, numa área que faça sentido para cada pessoa”. São as palavras de Filipa, de 17 anos, estudante do Curso Profissional de Técnico de Juventude. À medida que vai falando, junto a Nicole Lissy, a artista residente, e Renan, um colega do Curso Profissional de Técnico do Desporto, Filipa não esconde o entusiasmo que tem pelas mudanças que o PNA trouxe à escola. “Está muito mais fixe, dá vontade de vir para as aulas”. 

Nicole Lissy nasceu e cresceu na Áustria, mas mudou-se para Portugal no ano de 2006. Formou-se no ensino do Inglês e das Artes Visuais, e sempre teve uma visão da educação aberta, multidisciplinar, agregadora. Desde que começou a pensar enquanto professora, juntar a educação e as artes tem sido “um objetivo de vida” e desde que criou a AMARELARTE, em 2012, tem-no posto em prática. “Para mim, sempre fez sentido, mas quando cá cheguei vi que há muito pouco espaço para criatividade na educação formal, em Portugal. Isto começou a aborrecer-me nos primeiros anos, e comecei a sentir que tinha de fazer algo para, pelo menos, haver o à vontade para aprender e utilizar estas ferramentas.” O Plano Nacional das Artes foi a desculpa perfeita para o fazer a partir de dentro.  

A falta de receptividade que Nicole menciona prende-se, sobretudo, com uma questão que não é de agora: a rigidez dos planos curriculares do ensino regular, que vivem em função de momentos de avaliação global no final do ano — provas de aferição e exames nacionais — e que geram inflexibilidade pela pressão feita aos professores para que cumpram os planos, e aos alunos para que saibam toda a matéria. “Não podem fugir muito do tema”, diz Filipa sem hesitação. “Há uma sobrevalorização de avaliações formais, uma carga dos alunos e dos professores”, aponta Ana Bela, que acredita que para isso se alterar seria necessário “uma mudança sistémica, estrutural”. 

No Projeto de Escola da Pinheiro e Rosa, a coordenadora é a prova viva de que não se tem necessariamente de ser um aluno de artes para se interessar por artes, e que o plano curricular pode e deve ser desafiado — não necessariamente no conteúdo, mas na forma. Inês Férin é professora de Educação Física, mas “esta ligação, entre o desporto e a arte, faz todo o sentido”. “Para mim, é uma ligação muito imediata, porque nas minhas aulas – dou aulas há uns 23 anos – a arte está na expressão corporal, na dança, nos desenhos no final das aulas... toda a dinâmica que não é, mas que também pode ser, do conteúdo da disciplina em si”, conta numa das diversas conversas que teve com o Gerador, no final de dezembro de 2020. Ao longo da sua formação no desporto, Inês descobriu “a arte e as diferentes formas artísticas”, que veio a aplicar na sua pedagogia. “Sempre percebi, senti e sei que a arte é importantíssima para tudo. Nas escolas então, é fundamental.”

A ida do PNA para o Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa foi uma união de vontades e sonhos de diferentes professores que queriam mais para a escola, e que querem mais para a educação, mas tem sido surpreendentemente estimulante para os alunos. Com o trabalho contínuo de Inês Férin, e do restante Conselho Consultivo, mas também com a presença de Nicole no espaço escolar, tem-se aberto espaço para que os jovens possam ser quem querem ser e manifestar o que lhes vai na alma — sem que exista um descrédito porque “são adolescentes”. Querem ser ouvidos, e estão a ser ouvidos. 

Exposiçao do artista José Evangelista (na primeira fotografia), em Estoi

“Eu acho que a Nicole veio mudar um pouco o ambiente da escola”, diz Filipa. “Lembro-me de um dia ter chegado à escola e ver uma senhora a rabiscar as paredes. Se fossemos nós a rabiscar as paredes, a fazer o nosso desenho, a expressar-nos dessa forma, íamos parar à direção [risos]. Mas a Nicole chegou aqui e decidiu fazer arte numa parede, decidiu fazer arte num pilar. E a presença dela, deu-nos mais motivação para ir à escola. Um aluno acorda de manhã e pensa ‘eish vou dar matéria; toca a acumular matéria aqui para a cabeça’. Dá mais motivação saber que vamos ter algo diferente, que vai haver uma educação diferente. Não quer dizer que tenhamos de nos desviar da matéria, mas acho que torna um bocadinho mais ativo e motivante.”

Nicole, que sorri por detrás da máscara enquanto ouve Filipa a falar, aproveita a deixa de “pintar as paredes” para explicar a sua missão na escola: “o objetivo de eu pintar nas paredes, sempre com autorização da direção, claro, é mostrar que é possível; temos de saber os caminhos, e um dia alguém tem ideia de fazer algo na escola e pode fazer exatamente igual. Há alguns passos a ultrapassar, mas é possível. O meu objetivo é que, quando eu sair da escola, os alunos possam fazer o mesmo que fiz por cá quando lhes apetecer, ou quando tiverem vontade de transformar algo.”

Arte para “erguer a cabeça” e acreditar que se pode ser — e pensar — mais 

Renan, de 17 anos, partilha que se mudou há pouco tempo para a Escola Secundária Pinheiro e Rosa e que, por isso, não tem a capacidade de Filipa para avaliar a existência de um “antes e depois do PNA”. Quando entrou, as mudanças já estavam em curso, mas sabe, no entanto, que antes de para lá ir estudar lhe tinham dito que “não havia artes” na escola, e que normalmente “quando uma pessoa está a fazer um curso de ciências, ela meio que se prende àquilo porque e escola não dá liberdade para ela fazer algo mais”. E tanto Renan como Filipa esperam o mesmo da escola: mais liberdade. 

Filipa vai mais longe, dizendo que ir além do estipulado para cada área, usando ferramentas artísticas, “é uma maneira de a gente comunicar connosco próprios, até para nos trazer leveza”. “Acho que faz falta, sim, a toda a gente, até para expressarem os seus sentimentos. Por exemplo, os graffiters exprimem os seus sentimentos nas paredes; há aqueles que chegam e fazem só uma assinatura, mas há outros que exprimem mesmo o que vai dentro deles. E o tema da arte, independentemente do curso, faz muita falta. É uma maneira de também erguermos a nossa cabeça. Para algumas pessoas pode ser um alívio e uma forma de comunicarmos com nós mesmos.”

Desde que o PNA está no Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, já foram concretizadas algumas atividades, de maior e menor escala, com diferentes turmas de diferentes graus de escolaridade. No caso da turma de Renan, que além de ser estudante de Desporto é rapper e beatmaker, Inês Férin propôs que se criasse um rap a partir da matéria da disciplina que leciona. No caso de Filipa, Nicole propôs à sua turma que pensasse “o significado de juventude”, partindo de um projeto da AMARELARTE que tem como meio de trabalho a gaveta. “A ideia da gaveta era pensar como nós, os jovens, somos, como lidamos com as coisas, como temos os nossos obstáculos também. Então, a nossa ideia para o lado de fora da gaveta foi termos um arco-íris, e por dentro preto e branco. O que é que isso quer dizer ? Que, por vezes, um jovem quer mostrar a todos que está bem, que está feliz, que tudo corre bem na vida, mas, se calhar, por dentro há algo que não está bem, pode haver uma parte dentro de nós a pedir ajuda, que, se calhar, não consegue alcançar um objetivo ou superar alguma dor”, partilha Filipa. 

Projeto itinerante "Gavetas", comum a todas as escolas do agrupamento com mentoria de Nicole Lissy

Dentro das gavetas, incluíram diferentes objetos e imagens que remetiam para subtemas da juventude: “um maço de tabaco, uma pistola, um telemóvel, e também uma rapariga despida”, porque “com a nossa idade começamos a descobrir a sexualidade, a sentir desejos de ter relações com o nosso parceiro ou parceira, e nós metemos [a figura da rapariga] no meio porque por um lado é bom ter relações, mas por outro há muitos jovens que sofrem de abusos sexuais e é uma coisa que deve ser falada. Porque há muitas crianças que sofrem disso e não conseguem dizer, não são capazes de falar com alguém por ameaça do abusador” — são as palavras de Filipa.

Na viagem que a gaveta começou a fazer pelas diferentes escolas do agrupamento — já que é um projeto itinerante — começaram os desafios de pensar as questões associadas às problemáticas da juventude. O corpo que outrora estava nu, seguiu para uma E.B. 2/3 “com recortes a tapar as partes íntimas da rapariga”, mas “como as crianças são muito curiosas, decidiram ver o que estava por detrás dos recortes”, partilha Filipa. E os professores “acharam que era de mais, que era uma gaveta muito forte”. Foi também a partir dessa situação que a turma que havia feito a gaveta decidiu propor uma visita à E.B. ⅔ para explicar, na primeira pessoa, o projeto. “Alguns dos adultos acham que nós é que estamos mal, que nós é que temos de mudar; que nós é que temos de ser como os adultos querem. Então retiraram a gaveta da exposição, e eu não acho isso correto, porque um jovem tem de dizer o que sente”, diz a estudante, defendendo a todo o momento a “liberdade de expressão”. 

Em cada escola do agrupamento, há um espaço que passou a ser o habitat de Nicole. É por lá que está no período letivo que lhe é destinado, e que pode ser um corredor (no caso da secundária) ou a própria sala de aula. “Tem sido mesmo uma inundação, é muita coisa a acontecer ao mesmo tempo”, conta ao Gerador. No período de confinamento anterior, houve turmas em que foi possível continuar o trabalho que, na altura, tinha sido iniciado há pouco tempo; desde que está neste Projecto de Escola, Nicole não parou de encontrar soluções. Para si, o mais importante era que soubessem que lá estava, sempre disponível. 

Dessa disponibilidade e abertura de todos os intervenientes do PNA na Escola, começaram a surgir manifestações espontâneas por parte de alunos, que não estavam planeadas: “percebemos que um aluno que desenhava muito bem, porque estava nas aulas sempre a desenhar [risos], e outra miúda que escreve coisas que são assustadoras, da vida dela até, muito sentidas, muito sofridas, e eu pu-los em contacto, porque eles se mostraram abertos a isso, e ele está a fazer uma ilustração dos seus textos”, conta Inês Férin. “Está a surgir esta abertura, talvez por saberem que está alguém ali para isso. Há também uns miúdos que vão reabrir a rádio. Já foram à Rádio RUA, à Rádio Universitária do Algarve, perceber. Portanto, estão a surgir coisas além do que já tínhamos estipulado, e é isto que é maravilhoso.” 

Projeto na Escola Secundária Pinheiro e Rosa

A escola como “um sítio especial para se estar, que me ouve e que faz sentido para mim”

Inês Férin acaba por ser a grande ponte entre todos os elementos do PNA — até os que não estão ligados de forma direta. Gere a relação do plano com “o clube de teatro, o clube de arqueologia, a Biblioteca, o Plano Nacional de Cinema”. Fá-lo em quatro horas do seu período letivo, que são extra às 24 de aulas que dá por semana. “[A gestão] não é uma coisa muito linear e dá algum trabalho, porque nem todos os professores estão abertos a isso, mas sinto que é um processo. Ainda assim, estas ligações pretendem que isto não seja um somatório de tudo o que já estávamos a fazer. Eu sinto que este plano tem de ter uma voz própria, com a sua presença, a sua auscultação e a sua ação.” 

Além de projetos em que os alunos têm efetivamente de “pôr mãos à obra” e concretizar uma ideia em conjunto ou individualmente, há iniciativas que pretendem apenas proporcionar momentos de fruição. São exemplo disso a Poesia para Levar no Bolso, que consiste em “poemas estendidos, mesmo como se fossem umas calças ou uma t-shirt, e que os alunos podem levar para casa, no seu bolso”; a Música para o Almoço, em que a playlist é feita “por músicas que eles normalmente não ouvem — géneros como o jazz, por exemplo — para acompanhar a refeição”; e uma ideia, ainda por concretizar, de colocar televisores espalhados pela escola com peças de dança e teatro. “É como se a tal inundação cultural da escola passasse por ela existir, e há questões que se podem colocar porque ela está ali; há coisas que podem provocar algo. Porque grande parte dos miúdos nunca foi, ou foi uma ou duas vezes, ao teatro e ao museu na vida inteira. Isto é preocupante.”

Inês Férin reuniu as atividades e questionamentos feitos, até agora, num vídeo

A coordenadora do Projeto de Escola pensa a escola como “um sítio especial para se estar, que me ouve e que faz sentido para mim” — sendo que a primeira pessoa é utilizada na figura do aluno. “A escola pode ser tão pouco entusiasmante, mas pode ser tão entusiasmante também. É essa a percepção que eu tenho: a escola pode ser tão mais do que aquilo que é. E é essa sensação que me fez querer experimentar sempre coisas diferentes com os miúdos.” 

Sendo a escola “o agente principal da transformação”, a par da família, é importante que se criem dinâmicas para que não seja apenas um lugar onde se vai por obrigação. É também no espaço da escola que se geram relações, que muito acontece em silêncio, que se formam formas de estar e de ver a vida. Nem sempre é fácil estar aberto à mudança mas, para Ana Bela, existe uma explicação para que isso aconteça: “não nos podemos esquecer de que os professores portugueses têm uma faixa etária bastante envelhecida, e vêm de uma estrutura muito rígida”. “Já foram alunos dessa forma, já tiraram o curso dessa forma, e foram professores durante muitos anos nesse formato. Portanto, é mais difícil, com esta massa humana, trabalhar mudanças estruturais. É mais complexo. E penso que é o grande desafio da educação em Portugal nos próximos anos: quebrar as barreiras das disciplinas”, continua.

Nas paredes da escola, encontram-se poemas e perguntas

Para ir introduzindo a mudança, aos poucos, a escola criou um Passaporte Cultural, que será colado na Caderneta do Aluno e que “vai fazer parte das referências do percurso escolar do aluno”, conta Inês Férin, que o está a preparar. “Há uma necessidade de querer que isto aconteça porque faz parte do percurso escolar do aluno, para o professor ver que, como há as metas de aprendizagem nas diferentes disciplinas, aqui há uma meta cultural. Esta é uma preocupação de cumprir também estas metas. É mais uma motivação para os próprios professores criarem momentos de assistir e produzir objetos artísticos.” 

A caminhada que tem sido feita de mãos dadas com o Plano Nacional das Artes, no Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, vai dando frutos e tem ainda muito por fazer, que já se encontra planeado — ainda que os atuais dados da covid-19 e o novo confinamento obrigatório tenham trazido incerteza. Arte à Janela, por exemplo, será uma atividade para “dar voz aos alunos e aos seus talentos”, integrada no evento Menina Estás à Janela, dinamizado pelo Curso Profissional de Técnico de Eventos, da Escola Secundária Pinheiro e Rosa, que tem a parceria de algumas entidades como a Câmara Municipal e associações locais. Estão ainda a ser pensados “uma marcha-protesto”, para reivindicar “a falta de acesso à cultura que as crianças das escolas do agrupamento que ficam no meio rural têm” e “a falta de apoio da Câmara em termos de transportes”, e um evento de balanço do PNA, a acontecer nas Ruínas Romanas de Milreu. 

No seu percurso como Coordenadora Regional, Ana Bela destaca um ponto muito positivo: “nas instituições por onde passo, já toda a gente, ou quase toda  a gente, ouviu falar do PNA – o que eu acho que é extraordinário, porque só tem um ano de vida”. Este reconhecimento vai dando a certeza de que vale a pena, mesmo quando parece mais difícil implementar formas alternativas de aprendizagem. 

“Eu acho que quebrarmos estas barreiras permite que se compreenda que o conhecimento se interliga na totalidade. O fundamental é perceber que o conhecimento é o mais importante, e o conhecimento dá-se nas interligações que se fazem entre as várias áreas do saber. E isso facilita, até, as sinapses cerebrais que os alunos vão desenvolvendo, vão construindo e criando. Temos um mundo extremamente centrado no individualismo, no modo de vida egóico, e o facto de baralharmos, na verdade, é criar uma fusão. Para que haja uma perspetiva muito mais globalizante do todo”, conclui Ana Bela da Conceição. 

 E é no sentido de dar a ver o Mundo como um todo que a arte nas escolas, através do Plano Nacional das Artes, mas não só, se torna a resposta para a pergunta que há muito se quer ver respondida: “como tornar a escola um lugar mais apelativo, em que todos se sentem bem?” No Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, o segredo é continuar.   

Texto de Carolina Franco
Fotografias de reportagem da cortesia de Inês Férin / na capa, fotografia via Unsplash

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