O silêncio. O olhar. Um cenário que pensa "milimetricamente" o real com quatro atores em palco. Inserido num ciclo dedicado a Caryl Churchill, "Distante", também conhecido como "Faz away" é o texto que integra a criação de Teresa Coutinho. A peça de teatro que chega ao D. Maria II dia 20 de maio e prolonga-se até dia 6 de junho resulta de uma liberdade de interpretação subtil por entre "rasgos de humor surrealista e visionarismo".

O Retrato. Esta é uma das palavras que Teresa enuncia. A pela retrata uma sociedade consumida pelo medo. É entre a fronteira entre a verdade e a mentira que esta realidade se mostra capaz. Dividida em três momentos, a abordagem do sistema e a necessidade de o questionar em prol dos direitos numa realidade distópica é um dos focos da peça.

Distante, Fotografia de Filipe Ferreira

A consciência. A presença do digital mostra-se relevante para que a peça se alimente, assim com os diferentes sons que fazem ouvir. É neste composto que se constroem pistas (quase que necessárias) para que o espetador possa aferir que grau de consciência é o das personagens.

A influência visual é um longo caminho a percorrer: desde as cores dos fatos, a iluminação, a frequência de fruição e de respiração ofegante que se representa no corpo dos atores (como reflexo do seu medo e controlo) levam o espetador a questionar a veracidade de cada personagem. Teresa diz-nos que é "um texto que resiste". É nesta harmonia entre o texto e visual, até mesmo representado a partir do digital, que o "controlo do Outro pelo Medo" e a "ingerência do Poder naquilo que são as liberdades individuais de cada um" se mostram em jeito de reflexão. É também nesta reflexão que o olhar se mostra relevante para o desenvolvimento da peça. A atriz e encenadora acrescenta que "não é por acaso que as personagens não se olha diretamente, em alguns momentos; também não é por acaso que quando os atores estão fora, olham para o público. Isto é uma tentativa de criar um espaço entre o público w o que diz. É pedir para ter uma opinião. Aqui há uma tentativa de o colocar num determinado lugar. Ser visto a ver. Era um pouco isso que me interessava."

Distante, Fotografia de Filipe Ferreira

Partindo de uma liberdade de interpretação que o texto oferece, "Distante" pretende explorar as fronteiras ténues dos binómios bem e mal, certo e errado, verdadeiro ou falso, "as relações de poder, manipulação e desconforto são também reflexo da imobilidade." Tal como Teresa nos transmite esta é também uma oportunidade de pensar uma liberdade que o tempo levou.


Texto de Patrícia Silva
Fotografia da cortesia do Teatro D. Maria II

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