O discreto edifício de pedra não deixa antever a riqueza do seu interior. Por trás das portadas de madeira pintada, dentro do imóvel que ocupa toda a esquina sem saída, trabalha uma equipa apaixonada pelo produto-bandeira de Freixo de Espada à Cinta, e que se divide entre a divulgação e a preservação contínua deste labor.

A tradição da seda artesanal foi trazida para esta vila por judeus, no final do século XV, e manteve-se durante largos anos como uma atividade característica do concelho. O ofício chegou a ser, entre os séculos XVIII e XIX um importante motor económico da região do Douro Superior, e estava "largamente disseminada pelos 12 concelhos do distrito de Bragança", conforme explica Paulo Castanho. “Houve depois várias vicissitudes que levaram a que a seda fosse extinta e o único concelho onde se aguentou foi em Freixo [de Espada à Cinta]”, diz o diretor do Museu da Seda e do Território, local albergado no tal edifício de pedra.

De acordo com a autarquia, o espaço, inaugurado em 2015, resultou da conversão de dois museus. Atualmente contém “todo o acervo etnográfico, arqueológico e geológico” do antigo Museu do Território e da Memória, “a que se lhe junta um espólio recente, associado à seda”. Esta honra deve-se ao facto de ser “o único dispositivo da Península [Ibérica] onde é feita seda de modo 100 por cento artesanal”, segundo Paulo Castanho.

Esta importância singular justifica-se, pois os dois principais polos de produção de seda, que foram, em tempos remotos, Bragança e Chacim (em Macedo de Cavaleiros) acabaram por ir perdendo a sua importância, à medida que a dedicação a esta atividade se foi esfumando. “A seda foi continuando, evidentemente, um pouco por todo o distrito, embora apenas em algumas mechas, mas o único concelho onde a seda foi sempre laborada – ainda que com alguma circunstância – foi Freixo”, sublinha o responsável.

É por estes motivos que, de forma a honrar a tradição secular, todas as etapas necessárias à obtenção do tecido são concretizadas neste espaço, que se tornou uma espécie de emblema da própria tradição.

O processo começa – como quase todos – com a matéria-prima. Para conseguir obter os preciosos casulos de toque seco e aveludado, há que dar as condições ideais àqueles que o produzem, ou seja, os bichos-da-seda.

Numa sala repleta de lagartixas palpitantes jaz um banquete de folhas de amoreira, o único alimento destes animais. Amontoadas no topo das folhas roídas, dispostas em tabuleiros compridos, as pequenas lagartas têm à sua disposição um autêntico festim, que serve de combustível a um crescimento que se quer desenfreado. “Só crescendo muito os bichos podem dar boa seda”, diz Liliana Esteves, responsável pela criação dos preciosos animais.

Chegando a comer 70 por cento do seu peso, estas lagartas listradas demoram 45 dias a atingir a maioridade, altura em que iniciam a construção do seu casulo. Aninhando-se em si próprios, estes bichinhos deixam um rasto de fio translúcido, “uma espécie de baba”, onde se enrolam até serem casulo. Se o processo continuasse, era aqui que se transformavam em borboletas, mas apenas algumas têm essa sorte.

“Todos os anos, para assegurar a continuidade da produção, há uma pequena parcela de bichos-da-seda que cumprem o ciclo, de forma que os pequenos ovinhos possam de novo ser postos no ano seguinte”, explica Liliana. O ciclo de metamorfose é, no entanto, interrompido na maioria dos animais, com recurso a um choque térmico, que serve para pôr termo à vida da borboleta dentro do casulo, antes ainda desta o perfurar. “É um ciclo que se repete anualmente e que vamos dando continuidade para que a produção não se esgote”, diz a responsável.

É destes casulos que é feita a seda. Deles se extrai um filamento translúcido, que é enrolado e torcido para produzir fios de seda. O processo de extração consiste em mergulhar os casulos numa caldeira de cobre com água a uma temperatura de 90 graus, que vai permitir desenrolar o filamento.

É isto que faz diariamente Susana Martins, a artesã a quem cabe assegurar que este “caldo de casulos” é devidamente aproveitado. Supervisionando a caldeira, vai pegando nos fios quase invisíveis, que são puxados e contorcidos com recurso à manivela de uma máquina de madeira denominada sarilho. Daí, o fio é dobado na dobadoura, engrossado no rodeleiro, torcido no fuso, colocado de novo na caldeira (desta feita com água a ferver e sabão natural, para branquear a seda) e, finalmente, trabalhado no tear, onde é convertido em tecido. “Para poder produzir cerca de um quilo de seda, são necessários cinco de casulos”, diz Susana Martins.

É, depois, no tear, que os fios são entrelaçados em padrões idealizados numa folha de papel, através de esquemas “semelhantes a ponto de cruz”.

Este trabalho moroso é feito por etapas, distribuídas a cada uma das dez artesãs que todos os dias realizam o processo. O ofício é realizado de forma diária e contínua, num espaço contíguo ao Museu da Seda, e é assegurado através de cursos de formação profissional especializados, que a autarquia promove em parceria com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Nos rudimentares mecanismos de madeira e fio, vão ganhando vida diversos produtos como carteiras, malas, lenços, gravatas, colchas ou atoalhados cujos preços podem superar os 10 mil euros. Há produtos que estão disponíveis na própria loja do museu, outros, mais complexos, que são feitos por encomenda. Além disso, há ainda a possibilidade de adquirir peças através da loja online, YourSilk, criada recentemente pela autarquia para dinamizar o produto.

A qualidade da seda de Freixo de Espada à Cinta é reconhecida internacionalmente, tendo até sido alvo da atenção da China, histórico produtor deste tipo de tecido e que, durante muitos séculos, guardou o segredo da sericultura. O próprio presidente chinês, Xi Jinping, chegou a fazer referência à seda de Freixo, num artigo de opinião, publicado em Portugal durante uma visita ao nosso país, em 2018. O espaço museológico foi até visitado pelo People’s Daily, órgão de comunicação social chinês, que dedicou uma reportagem à vila manuelina.

Apesar da valorização de que goza o produto, não existe ainda uma certificação formal da prática artesanal deste concelho do Nordeste Transmontano. Paulo Castanho conta que a admiração pela seda é, apesar disso, constante e acontece sempre que o concelho participa em certames de grande dimensão, como a Feira Internacional de Turismo (FITUR). “Alguns países ali representados, nomeadamente da Ásia, faziam sempre questão de ir ao nosso stand precisamente porque a forma como nós trabalhamos ainda a seda aqui é absolutamente rara”, afirma.

“Eu sei que não é a mesma coisa, mas esta certificação informal, ou este reconhecimento, vigora”, diz o responsável do Museu da Seda e do Território. A possibilidade de certificar o processo "não é, de todo, excluída, mas, até ao momento não [está planeada]”, pois “acaba por ser um acrescento formal àquilo que já existe, de certa forma”. Para Paulo Castanho, o reconhecimento seria importante, mas não essencial para distinguir a seda que aqui é feita de eventuais imitações. “Para fazer a seda como se faz em Freixo, é preciso conhecimento e arte e essa existe só aqui, desde há muitos, muitos anos”, assegura.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografias de Pedro Barroco

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