Vinte cinco de abril é a data que assinala a inauguração do Centro de Artes e Criatividade (CAC) de Torres Vedras. A temática de honra é o Carnaval, que além de uma festividade, comemora as tradições de uma das cidades mais conhecidas do país devido a tal. No entanto, não se trata apenas de comemorar tradições num dia de Liberdade. É o momento de ir às raízes de um ditado que já não viverá de "seis dias" mas de anos de história e distinção. Abrem-se as portas de um local que abraça a criatividade, a investigação artística e a valorização cultural e social da cidade.

Localizado na Encosta de São Vicente, a norte do rio Sizandro, mais precisamente num edifício que ficara marcado na história como Matadouro Municipal de Torres Vedras, o CAC envolve-se numa praça que dialoga com uma escarpa, resultante da antiga utilização do espaço como pedreira de saibro. Depois de uma localização geográfica, chega-se a ao desmistificar de um "Inverno escuro" que passa a ser uma "Primavera fértil".

"Os lugares também se constroem socialmente", diz-nos Rui Brás, antropólogo e futuro diretor executivo do CAC. Partindo de uma base histórica que colocava fim à vida - Matadouro -, cem anos depois, o centro (re)edifica-se no ponto de partida da criatividade e do desenvolvimento contínuo das artes. É também desta reflexão que se alimenta os espaços. "Todos eles têm uma construção social. Não são espaços sem uma memória. É isso que os cria enquanto cidade. Durante longos anos foi marcado pela morte, pelo abate, mas isto é uma base poética de olhar para a questão", continua.

Há uma base económica e social por entre esta "poesia". Voltando no tempo é possível perceber que a zona social em que o Matadouro existia era empobrecida "temos de nos lembrar que esta era um zona operária e, aqui, do rio Sizandro para Norte, foi onde os operários encontraram os seus espaços de vivência. Por essa mesma razão o Matadouro foi incluído numa antiga saibreira, uma zona de exploração de minério sem grande relevância agrícola. O Matadouro era uma pequena unidade de abate que depois foi municipalizada por volta dos anos trinta e esteve em funcionamento até cerca dos anos oitenta ", explica Rui.

Foi depois de chegar a "idealização poética" do espaço que se pensou em recorrer ao Matadouro para construir um museu etnográfico, construindo-se a ideia de criar um museu do Carnaval, por volta de 1996. No entanto, o processo não vingou. É em 2005 que esta ideia de criar um espaço de celebração da vida - o Carnaval - a partir do que teria sido o Matadouro, chegou até às mãos de Rui, "Saímos de um Inverno sombrio para uma Primavera que celebra a vida. Uma comemoração da fertilidade."

É nesta reflexão do espaço e do tempo que Ana Umbelino, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras, acrescenta que o CAC é um edifício âncora e agrega um conjunto de outra infraestruturas complementares. Além de um espaço dedicado à realização de residências de investigação artística, permite ainda a implantação de uma incubadora para a inovação social, "todo este ecossistema surge para dar corpo a uma intenção do Município em regenerar uma zona da cidade que apresentava alguns indícios e sintomas de desqualificação do espaço público. Reunia um conjunto de indicadores socioeconómicos desfavoráveis, demonstrando uma zona da cidade mais deprimida e, por isso, considerámos que seria fundamental criar uma ligação entre duas zonas da cidades que estão separadas por uma barreira natural, um rio. A cidade de Torres Vedras tem vindo a expandir-se para Sul, no sentido de Lisboa. Esta zona Norte, foi sempre uma zona mais desqualificada, onde se fixavam pessoas com menos recursos financeiros e com a força de circunstância dos terrenos serem mais baratos e, por isso, a construção tinha custos controlado".

Sobre o conceito de "criação através de um património" investir na zona Norte da cidade não só permite favorecer a coesão social e territorial criando uma ligação como caminho de encontro, como se assemelha à significação do Carnaval, " está associada a ideia de renovação, tal como este equipamento e, desta forma, pretendemos precisamente criar esse efeito: criar uma renovação em toda a zona adjacente ao CAC", afirma a vereadora.

Um centro dedicado à comunidade?

O Centro de Artes e Criatividade, desde o seu primeiro momento, foi pensado para favorecer a participação dos cidadãos e aproximá-los de equipamentos de uso coletivo, garantindo a acessibilidade aos mesmos. Afirmando-se como um espaço para a realização de residências de investigação artística que fomenta a implantação de uma incubadora para a inovação social, dominado de pólo social e cultural " irá ancorar um conjunto de organizações que, direta ou indiretamente, estão associadas Ao Carnaval e ainda outros projetos de intervenção social e comunitária que pretendem, precisamente, convocar as comunidades", parte da definição que Ana atribui ao CAC.

Sala que integrará a exposição permanente no CAC

Encarando a comunidade como um valor neste projeto, a ideia de se tentarem desenvolver processos colaborativos que envolvam a mesma na criação, fazendo-o com verdade, é uma das máximas do CAC. Desta forma, o foco recaí sobre desencadear um conjunto de processos comunitários que contribuam para aumentar a proximidade entre as pessoas, o sentimento de pertença ao mesmo lugar, reforçar a coesão social, a abordagem cultural, social e histórica do Carnaval que é a base de "expressão e relevância dos cidadãos" de Torres Vedras.

A garantia, preservação e valorização do património cultural e imaterial que é o Carnaval foi também um dos fatores iniciais que a Câmara Municipal de Torres Vedras teve em conta "é fundamental pugnar pela preservação deste legado, contar a sua história e as histórias das pessoas que o protagonizam, mas na nossa perspetiva o Carnaval tem um potencial que não se esgota na sua musealização e, por isso, consideramos que seria muito interessante criarmos um equipamento que respondesse a esse legítimo desígnio que, naturalmente, nós também abraçamos, de preservar, conservar, estudar e valorizar o Carnaval enquanto património coletivo", afirma a Ana.

Atendendo à importância das novas gerações e ao conhecimento das histórias e narrativas relacionadas com a cidade e com o Carnaval, a vertente educativa é também explorada pelo CAC. O equipamento já tem uma parceria com o Instituto Politécnico de Leiria e, de momento, encontra-se a trabalhar em relações com a ESAD, das Caldas da Rainha, integrada no mesmo instituto. Desta forma, poderá ser um "propulsor" de todas as dinâmicas que cruzam o conhecimento, a nível educativo e artístico.

Acreditando que este equipamento irá modificar a paisagem artística e cultural de Torres Vedras, a vereadora da Cultura explica que é também um novo começo para a região "consideramos que o equipamento vai alavancar uma série de dinâmicas criativas que, para nós, são muito relevantes. Desde logo poderá impulsionar uma relação mais forte entre os diferentes agentes culturais que intervêm em Torres Vedras. Poderá adquirir um capital criativo e intelectual, ou seja, ser um pólo de atração de artistas, criadores e investigadores que, desejavelmente, trabalharão com os restantes agentes culturais, organizações culturais e criativas ligadas ao ensino".

CAC, o que reserva...

Dedicado às caraterísticas da festa, desde o material à performance do Carnaval, o CAC desenvolve um campo infinito de olhares multidisciplinares que surgem em torno do conceito. É também a partir dessa leitura que a programação do centro assenta em exposições temporárias e permanentes; reservas locais, isto é, de espaços em que a "obra" se estimula a partir da comunidade para o centro e vice-versa; locais de investigação, voltados para o olhar académico; um espaço dedicado à comunicação, palestras e outras atividades que se possa realizar em auditório; espaços oficinais abertos diretamente para a praça - um local totalmente público, não estando fechada para fruição em qualquer altura do dia e ano.

A exposição permanente estará voltada em duas frentes: universal, nacional e estrutural.

Uma das exposições que inaugura o centro parte das mãos da comunidade juntamente com Luísa Jacinto. O projeto artístico dividiu-se em duas vertentes: a visita da artista aos espaços onde as associações e os grupos preparam a sua participação no Carnaval e a realização de uma série de workshops, orientados pela mesma, com as associações e os grupos, dos quais resultaram as próprias peças ou as estruturas físicas da mesma.

Por entre o percorrer de dois pisos é possível explorar as diferentes culturas que celebram o Carnaval em três continentes (Carnaval Europeu; Carnaval Africano e Carnaval Americano - norte, centro e sul), num olhar universal com uma base de estudo de 34 carnavais que constituiu uma atlas e integra a exposição permanente.

O festejo de cem anos do Carnaval de Torres Vedras foi o mote para que as vozes dos que acompanharam todo o processo desde a sua fase mais primitiva se ouvisse. Integrando também a exposição, a base da evolução tecnológica, assim como do Carnaval "mais português de Portugal" complementará a exposição.

Numa terceira fase, será também apresentada uma análise estruturalista do Carnaval, atendendo ao que são os festejos da Primavera e aos festejos de Inverno numa forma de contemplação.

No caso das exposições temporárias "todas as possibilidades se colocam". Rui explica-nos que o CAC propôs-se a receber uma personalidade (curador, comissário, etc.) e convidá-lo de forma livre a apresentar uma proposta sobre o tema. A eleita para abertura do CAC assenta na importância do Cartoon, "Carnaval Desenhado", cuja curadoria pertence a Nelson Dona, diretor do festival de Banda Desenhada da Amadora. O curador convidou seis artistas, três de Torres Vedras - Hélder Silva, Fernando Serezedas e o Bruno Melo - e três nacionais - Cristina Sampaio, Nuno Saraiva e António.

Em "Primavera" vivem as artes que se alimentam em conjunto com o Carnaval

Das dimensões plásticas, cenográficas e performativas vive o Carnaval de Torres Vedras. Com o objetivo de "munir os cidadãos de ferramentas que lhes permitam desenvolver a sua criatividade e a sua capacidade de criação", o CAC pretende expressar e dar corpo a essa intenção. Ana Umbelino completa este objetivo afirmando que " o que nós queremos é, no fundo, proporcionar os meios, recursos e as condições para que as organizações ligadas ao Carnaval possam valorizá-lo como incremento da sua criatividade. Queremos também criar oportunidades para os cidadãos desenvolverem a mesma assim como os artistas e criadores".

É através da dimensão de celebração coletiva, de festa, prazer de viver e de estar com os outros, que o celebrar a vida é o momento expressivo do Carnaval e, como tal, o centro pretende também dar expressão a essas dimensões "que subjazem ao Carnaval e que o mesmo o celebra. Daí que o espaço irá desenvolver uma programação que se pretende que seja participada, ou seja, que este seja verdadeiramente um centro da promoção da criatividade e da inovação", completa a vereadora.

E porque a sustentabilidade faz também parte deste "ar primaveril", o centro pretende incrementar o desenvolvimento da inovação social na capacidade de se criarem produtos e serviços que sejam relevantes e significativos para as comunidades e, dessa forma, encontrarem caminhos e outras formas de subsistência que lhes garanta um bem-estar e que estejam em harmonia com os princípios da sustentabilidade, "daí que a própria cafetaria do CAC seja já expressão destas ideias, no fundo na valorização do que são os produtos locais, mas sempre nesta perspetiva de cruzamento", explicam o diretor e a vereadora.

A Cafetaria é envolvida por um espaço exterior que convida à fruição por parte dos visitantes e conta com a carta, da autoria do chef Nuno Queiroz Ribeiro, com base na dieta mediterrânica, privilegiando produtos de origem natural, não processados, assim como a cozinha com baixo teor de sal, sem açúcares refinados nem gorduras trans.

Presente no Programa Encosta – Regeneração Urbana e Social da Encosta de São Vicente, que consiste num conjunto de intervenções estruturantes que incidem sobre espaço público, equipamentos, habitação e mobilidade, o projeto de José Simões Neves e da sua equipa permitiram dar corpo ao CAC "da melhor forma", como reforça o antropólogo.

Pelas palavras dos representantes do CAC é altura de "festejar" em comunidade esta "boanova" que se avizinha para inauguração. Quanto ao que faz do Carnaval "nosso" em dia de liberdade? A Democracia. Tal como Ana finaliza "achamos que o Carnaval é uma evidência porque é uma festa democrática, onde participam pessoas e, historicamente sempre foi assim, com diferentes classes sociais." Em comunidade.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia da cortesia da Câmara Municipal de Torres Vedras

O Gerador é parceiro da Câmara Municipal de Torres Vedras.

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