Ao longo das últimas décadas, o número de editoras de música independentes tem aumentado em Portugal, conferindo ares de uma criação artística que se mostra mais livre e que tenta fugir às lógicas puramente comerciais do mercado. O espaço que criaram tem dado azo à expansão de um universo difícil de definir – pela quantidade de géneros musicais que apresenta – mas que por outro lado nos tem dado a conhecer artistas que de outra forma não chegariam aos nossos ouvidos.

A premissa de que num país como Portugal, o mercado existente é pequeno e por isso mais facilmente dominado por duas ou três labels (multinacionais), não está errada. Não obstante, há que ter em conta o papel decisivo de certas editoras no aparecimento de novos artistas, ajudando a consolidar géneros que nem sempre merecem o devido destaque.

É o caso do hip hop, da música eletrónica ou até mesmo do jazz que nos últimos anos têm ganho destaque à conta do trabalho de várias editoras, mas também à boleia do esforço de vários artistas autoeditados. Numa entrevista ao Gerador, que será publicada na íntegra esta quarta-feira, Nuno Saraiva, presidente da Associação Profissional de Músicos Artistas e Editoras Independentes em Portugal (AMAEI), debruça um olhar sobre este panorama, onde se começam a elencar desde logo vários problemas. 

“Estamos a operar num sector da música onde os criativos que de facto são o motor da nova criação musical produzem mais de 80% das obras e recebem menos de 5% dos direitos. Onde é que já vimos isto? A música precisa de um 25 de Abril”, sustenta.

É perante este e outros desafios que trabalha a AMAEI, associação criada em 2012 com o objetivo de “defender, unir, organizar e promover o sector da música independente, tanto em Portugal como no estrangeiro”. Num contexto onde estas editoras têm vindo gradualmente a aumentar o seu market share, Nuno Saraiva defende que o trabalho desenvolvido pela associação é por isso “fundamental para aumentar as distribuições dos direitos conexos”, atribuídos aos artistas cuja interpretação ou execução de uma obra artística fica registada numa gravação de áudio ou de vídeo, e que no caso português são pagos pela Audiogest.

Por outro lado, a AMAEI serve ainda para partilhar conhecimentos e capacitar o sector, através de workshops, webinars, conferências como o Westway LAB e o Digital Music Days, trabalhando igualmente em estratégias de internacionalização de artistas portugueses através, por exemplo, da WHY Portugal, um plataforma de exportação para a música portuguesa, que nasceu a partir do grupo de trabalho de associação.

Um mercado de desafios e oportunidades
De acordo com dados de 2018 da World Independent Network, as editoras independentes apresentam um crescimento anual de 11,3%, um valor que supera os 10,2% das editoras majors, em termos globais. Os mesmos dados indicam ainda que no caso português, “80% dos artistas renovam o contrato com as suas editoras independentes”.

A explicação para este fenómeno deve-se sobretudo ao reforço do digital e ao aumento da utilização de plataformas de streaming, que vieram revolucionar a forma como se editam e se promovem novos artistas. Aspetos que na óptica de Darksunn (Bruno Dias), membro fundador da Monster Jinx, editora e coletivo nascido no Porto, tem ajudado vários artistas a encontrarem um caminho mais fácil para a edição.

“Tem a ver com a liberalização dos próprios artistas, que acabam por entender que podem editar música no panorama atual sem necessitar de uma major label para promoção ou divulgação, ou seja, os artistas entenderam que os canais pelos quais podem editar e distribuir a sua música não necessitam de ser controlados por gatekeepers”, realça.

Por outro lado, este aumento da edição independente está também relacionada com uma maior facilidade de acessos a meios que possibilitam o registo e a gravação musical. Para João Pedro Fonseca, da ZABRA, label dedicada à música eletrónica e experimental, o “forte crescimento do mercado da edição independente é uma consequência da massificação da produção musical”, em que os “softwares de música aliados aos controladores midi abrem uma porta infinita à criatividade”.

As editoras independentes como garantia de maior liberdade
A par da dimensão digital, que tem revolucionado o mercado musical, um dos aspetos que ajuda a consolidar o papel destas editoras é a garantia de uma liberdade artística e de uma estética “alternativa” que faz com que muitos artistas procurem entrar nos seus catálogos. Trata-se, de acordo com os responsáveis pela Capital Decay, editora que arrancou em 2019 com os seus primeiros lançamentos, de uma “espécie de ecossistema no qual muitos artistas que começam por lançar a sua música de forma independente acabam por orbitar diferentes patamares sem que o seu ethos se altere de forma significativa”.

Estas linhas de identificação funcionam como agregadoras de “tribos” musicais que se juntam e que, em última instância, moldam a imagem que se cria de certas editoras. Sobre este aspecto, os responsáveis pela Discos de Platão, que lançaram trabalhos de Dada Garbeck e Unsafe Space Garden, sublinham que as edições não estão apenas subordinadas a uma estética ou a um formato em específico, mas ao valor de verdade que certo projeto musical possa emanar.

“Procuramos que um dado projeto emane um valor de verdade que nos seja percetível. Se nós possuímos algum direito de presumir o que a verdade seja, provavelmente não, mas trabalhamos sempre um lado que subjaz a edição, que nos permite, pelo menos, encontrar pontos em comum com aquela tal coisa indescritível mas minimamente articulável presente em certos artistas”, realçam.

Os desafios de futuro que a pandemia veio acentuar
Num mercado em permanente mutação, a pandemia veio acentuar alguns dos desafios que já estavam bem presentes neste mercado cada vez mais global. Graças às transformações que se têm assistido nos modos de consumo e face ao aperfeiçoamento de estratégias relativas à promoção da música nas plataformas digitais, grande parte das editoras tem vindo, ao longo dos últimos anos, a recuperar da crise de vendas dos suportes físicos. 

Não obstante, mesmo com um aumento de receitas, que advém de um maior consumo de música no online, a ausência de concertos ao vivo poderá fazer com que muitos músicos e editoras percam a capacidade de investimento em novos trabalhos. Num tempo de incerteza, Nuno Saraiva reforça por isso a necessidade destas editoras conhecerem melhor os seus direitos e trabalharem novas formas de promoção para os seus artistas

“O panorama é complexo, pois existem muitos serviços de distribuição digital hoje em dia, alguns pouco fidedignos. É importante partilhar as boas práticas na cadeia de distribuição digital, de forma a chegar às plataformas sem intermediários desnecessários. Nunca, mas nunca, se deve pagar à cabeça para distribuir música digital”, realça. A par disso, o responsável sublinha ainda a importância dos direitos conexos, que “bem distribuídos aos produtores fonográficos independentes, podem valorizar exponencialmente o setor independente”.

Num mesmo sentido, são estas condições que, resolvidas internamente, poderão permitir alinhavar estratégias na internacionalização de artistas portugueses. Para isso, defende, é preciso maior união e um conhecimento transversal do papel do panorama independente na música: “quanto mais unidos formos e quanto mais defendermos os nossos direitos e o peso da música independente, melhor, porque somos nós que investimos na criação da nova música”, finaliza.

Ao longo desta semana, falamos-te um pouco mais sobre editoras de música independente, tendo como ponto de partida a reportagem “No universo das editoras independentes, a resistência faz-se pela edição”, publicada na Revista Gerador 32. Sabe mais sobre a Semana Temática das editoras de música independentes, aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

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