À porta “de um cinema em Lisboa que já não existe”, dois amigos conversaram, um dia, sobre a hipótese de criar uma revista que poderia colmatar uma falha no mundo editorial. Esses amigos eram Elsa Garcia e Miguel Matos que, juntamente com Paulo Sousa, fundariam, pouco depois, a Umbigo, uma revista que começou por se focar “no corpo enquanto expressão artística” e que com o tempo foi alargando os temas que abordava, sempre dentro da arte e da cultura. Não foi preciso muito tempo para se tornar uma revista de referência no panorama editorial nacional, bem como no circuito artístico português.

Em 2020, a Umbigo completa 18 anos de existência e celebra-os com uma edição especial que reúne uma série de artistas, curadores e diretores de museus portugueses e internacionais, com o apoio do Fundo de Emergência da Câmara de Lisboa. Celebra 18 anos de edições em papel, de uma transição cimentada para o online, da criação do UmbigoLab, uma rede social para artistas, e do recente processo de internacionalização, que a tem feito viajar um pouco por todo o mundo, dando a conhecer artistas portugueses e trazendo para Portugal artistas internacionais. São 18 anos de resiliência e de constante reinvenção, que não deram espaço para que se cruzassem os braços, e uma vida preenchida pelo contributo de pessoas que foram chegando e ficando, e de outras que estiveram só de passagem. 

As celebrações fizeram-se no MAAT no começo de outubro, mas a revista continua pelas bancas durante os próximos três meses. Nas semanas pós-lançamento, combinámos uma chamada telefónica com Elsa Garcia para conversar sobre a viagem que tem sido liderar a Umbigo nos últimos 18 anos. “Nós temos uma grande pequena equipa. Grande, porque é grandiosa em termos de competências e na forma como se dedica ao projeto, mas pequena porque somos poucos a trabalhar diariamente no projeto. Eu e o António Néu dirigimos, o José Rui Pardal Pina é assessor editorial, a Carolina Trigueiros escreve e também faz a comunicação e parcerias, a Carolina Machado está na revista e é a pessoa que tem trabalhado mais na Umbigo Lab, o João Magalhães que faz as nossas redes sociais, o Tiago Ferreira é o editor de moda, a Jossline Black-Barnett trabalha o internacional, e depois temos uma série de colaboradores no online”, disse Elsa Garcia quando o gravador ainda estava ligado, mas a entrevista não estava formalmente a decorrer. 

Entre os nomes que surgem a assinar os textos do site estão Francisco Correia, Joana Duarte, Fabricia Valente, Bárbara Valentina, Rui Gueifão, Ana Martins, Constança Babo, Carla Carbone, Rodrigo Fonseca, e Diogo Graça. É também com eles que se celebra. 

Da conversa à porta “de um cinema em Lisboa que já não existe” à revista que também é uma plataforma de apoio e divulgação à arte, em Portugal e no Mundo, a história fez-se atribulada, mas a vontade é (sempre) continuar. “Ainda há muito por fazer”, garante Elsa. 

Gerador (G.)- A Umbigo, que é hoje uma referência (ou a publicação de referência) no circuito da arte contemporânea em Portugal, nasceu há 18 anos. Como é que recorda este nascimento?
Elsa Garcia (E.G.) - É curioso, porque apesar de já terem passado 18 anos desde o início, ainda o tenho bastante presente. Tudo começou quando eu e o Miguel Matos, fundador da Umbigo juntamente comigo e com o Paulo Sousa, falávamos à porta de um cinema em Lisboa, que hoje em dia já nem existe, é um centro comercial, sobre a escassez de publicações em Portugal dedicadas à arte e cultura, e pensámos em fazer uma revista. Claro que não tínhamos qualquer meio para o fazer, mas entretanto deparámo-nos com um anúncio no jornal Público do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, que já não existe mas que na altura era tutelado pelo Ministério da Cultura, e esse apoio era justamente para a criação de novas revistas. Falámos com o Paulo Sousa para fazer a parte gráfica da revista e se juntar a nós neste projeto, concorremos e ganhámos. Nunca pensámos que fosse possível [risos], mas, de facto, conseguimos.
Nós éramos muito ingénuos, acabámos por fazer mal o orçamento e gastámos o dinheiro todo; o que correspondia a 20% do orçamento da revista num ano, gastámos no primeiro número, com o papel, a impressão e etc, e pensámos: “pelo menos conseguimos fazer um número” [risos]. Mas o primeiro número vendeu bastante bem e, com essas vendas, conseguimos pagar a impressão do número dois, e insistimos até hoje. A revista começou por ser trimestral, e sempre se tem mantido, e até hoje sempre conseguimos imprimi-la — às vezes com mais dificuldade, mas sempre temos conseguido.

(G.) - A Umbigo teve dores de crescimento? Onde é que se ganha resiliência para não desistir de estar no panorama editorial independente, passando também por algumas crises?
E.G. - O nosso caminho não foi nada fácil… no início não era tão complicado, tanto eu como o Miguel escrevíamos para outros sítios e a Umbigo não era minimamente rentável, não ganhávamos dinheiro com a revista, fazíamo-la por puro prazer. Entretanto, foi-se tornando cada vez mais exigente, a nível de tempo, e tivemos de começar a dedicar-nos mais. Quando começámos a viver da revista, tornou-se muito complicado, porque uma publicação desta origem depende única e exclusivamente de publicidade ou de alguns apoios também, e houve tempos mesmo muito complicados. Muitas vezes fechávamos os olhos e ganhávamos uma força interior, vinda de não sei onde, mas sempre conseguimos fazer.

Em 2016 já estávamos muito desesperados, estava a ser muito mais complicado do que em outras épocas, e começámos a pensar mesmo em desistir, até que numa reunião com uma consultora, foi-nos sugerido fazer uma candidatura ao Portugal 2020. Nós dissemos: “OK, vamos tentar”, ela fez-nos a candidatura com um foco na internacionalização, e ganhámos. Aí começou todo um novo fôlego, todo um novo ritmo. Foi um projeto um bocado complicado de executar, mas que nos devolveu alguma vida. Esse apoio correspondia a 40%, para internacionalização, e a revista começou a crescer bastante, porque o facto de se ter tornado bilíngue fez com que ganhássemos também outros públicos e ganhássemos toda uma nova dinâmica. Depois houve outra grande mudança, em 2018, quando decidimos deixar a edição bilíngue e passar a ter duas edições, uma em português e uma em inglês, para o mercado internacional, porque sentimos que esse mercado não gosta de projetos bilíngue — não querem pagar o mesmo para ter apenas metade dos conteúdos, daí termos decidido também dar este passo. A revista foi aumentando de páginas e começou a ter duas edições.

G. - E já sentem retorno desse investimento da internacionalização? Como talvez, já desde 2013, ao terem investido no online vos tenha trazido novos leitores.
E.G. - Começámos a atingir um mercado internacional, não só de portugueses a viverem lá fora, começámos a receber convites para cobrir exposições noutros países, passamos a ter uma nova dinâmica de viagens para feiras de arte e bienais. Passamos a ter presença nos reading rooms das feiras, e tudo isto nos fez chegar a um público que não tínhamos. 

G. - O leitor que imaginavam no começo corresponde ao leitor que imaginam ou têm agora?
E.G. - Não sei… [risos] porque nós continuamos a ter leitores de há 18 anos, mas temos muitos novos leitores que são pessoas muito jovens, que não conheciam a revista e não faziam ideia que a Umbigo já tinha 18 anos. 

A capa desta edição comemorativa é da autoria de Julião Sarmento, acima na apresentação da edição

G. - No vosso projeto acabam por juntar pessoas de diferentes gerações. Juntam os já consagrados aos que estão a surgir, os nomes que assinam textos e curadorias há anos às novas vozes. Em que sentido é que uma publicação editorial também pode contribuir para diversificar o foco — tanto nos artistas que expõe e divulga, como numa questão mais territorial, de ir além-Lisboa?
E. G.- Para nós, sempre foi muito importante dar espaço aos jovens artistas e aos jovens críticos, foi algo que fizemos desde o início da Umbigo, porque são pessoas que muitas vezes não têm espaço para se expressar — quer plasticamente, quer a nível da escrita. E a Umbigo acaba por ser muito isso que está a dizer, de facto. É uma fusão de pessoas muito jovens com pessoas já muito consagradas, e é essa mistura que nos faz sentido.

G. - Havia, desde o começo, essa vontade de preencher uma lacuna, que me parece que foi evoluindo  ao longo do seu crescimento - nomeadamente com a criação do Umbigo Lab. Com o tempo, e com as relações criadas com os artistas, perceberam que podiam ter um papel além de divulgar a arte contemporânea pela vossa revista?
E.G. - A ideia do Umbigo Lab surgiu com o António Néu, que é o diretor de arte da Umbigo e, juntamente comigo, é o diretor da revista, e que existe graças ao apoio da Fundação Millennium BCP. A ideia primária do Umbigo Lab é, não só apoiar artistas, mas também curadores e agentes do meio. Ter um espaço onde vários artistas podem estar reunidos, mas com uma curadoria que não funcione como noutras plataformas como o Facebook ou o Instagram, em que está tudo muito misturado. A ideia era criar um espaço em que as pessoas pudessem ver o trabalho de vários artistas, com uma curadoria. O Umbigo Lab funciona por convite; é um convite dirigido a partir de nós e alguns consultores que temos na rede, para que não seja uma cacofonia visual. Funciona também como um motor de pesquisa para colecionadores ou para curadores que estão a preparar uma exposição, mesmo para os próprios artistas verem o trabalho dos seus pares. A ideia foi mesmo criar um laboratório de experiências e que funcionasse como um espaço em que se pode procurar artistas não só portugueses, como internacionais. 

G. - A Elsa fala nessa cacofonia visual e, de facto, cada vez temos mais estímulos, nas redes sociais e não só. Sentiram a necessidade de ir adaptando a revista, para que caminhasse com as mudanças que se iam passando no Mundo?
E.G. - Eu costumo dizer que já são muitas Umbigo(s). O que começou por ser a nossa ideia base, que era a criação de uma revista que falasse do corpo enquanto expressão artística, e falávamos de artistas que usavam o corpo, por vezes de uma forma extrema, para os seus projetos e o seu trabalho, e muito ligada também à contra-cultura. Esse tema esgotou-se, já não me lembro exatamente por quantos anos o tivémos, e sentimos a necessidade de ir mudando. Depois, começou também a ser uma revista muito ligada a entrevistas, para dar a conhecer as pessoas que estão por trás da arte e da cultura — não só artistas, como galeristas, curadores. A seguir, mudámos novamente… e essas mudanças foram sendo acompanhadas pelos vários designers que tivemos, até chegarmos à mudança mais recente, que foi quando ganhámos o projeto para a internacionalização. Passa a ser uma revista com outras características: diminuiu de tamanho, tornámo-la mais pequena na linha do que se fazia internacionalmente, o design passou a ser feito pelo António Néu, e agora temos as tais duas edições.

A apresentação deste número especial da Umbigo foi feita no MAAT, em Lisboa

G. - A Umbigo acabou por se tornar quase um lugar agregador no ecossistema artístico. Que histórias é que a Elsa recorda e não quer esquecer, destes encontros ao longo de 18 anos?
E.G. - Assim de repente não me lembro, mas tenho tido situações muito felizes. Mas há uma questão muito importante: a revista nunca tem muitos apoios, e tanto os artistas como os curadores e algumas entidades, precisam muito do apoio por parte das revistas — precisam de crítica e de mostrar o seu trabalho — e, de facto, há quase uma inexistência de publicações. Para nós, é muito importante, mesmo, ter esse papel de publicar os textos de jovens críticos, bem como o trabalho de jovens artistas, e sentir que as entidades que promovem e fazem exposições têm, também, algo escrito sobre o trabalho que estão a desenvolver. 

G. - Ao mesmo tempo, acabam por criar uma espécie de arquivo. A Elsa sente que a Umbigo é o projeto da sua vida? Que possíveis caminhos pensa para esta maior-idade, ainda há muito por fazer?
E.G. - Eu costumo dizer que a Umbigo é a minha filha adolescente, e eu nunca pensei que teria uma revista por 18 anos [risos]. Mas há bastante por fazer. Nós estávamos a cimentar um percurso internacional, que agora está um bocadinho parado por causa da pandemia, uma vez que o nosso circuito nos últimos dois anos se fazia em feiras de arte e bienais — não só para divulgar artistas portugueses lá fora, mas também para trazer conteúdo interessante para Portugal, como entrevistas a curadores e artistas internacionais, para que os leitores portugueses tivessem acesso a essa informação. Neste momento, a situação está um bocadinho estagnada… há pouco tempo tivemos um convite para ir a uma feira de arte em Itália, a Artissima, que acabamos por não ir por razões óbvias, e portanto essa parte não tem andado. Mas assim que tudo voltar à normalidade, esse é o nosso projeto: continuar a atividade internacional, projetar a revista cada vez mais a nível internacional, e aumentar páginas, o que não é muito fácil em termos de custos. 

G. - Esta edição de 18 anos também acaba por ser uma forma de celebração?
E.G. - É uma edição muito especial, na qual estivemos a trabalhar durante um ano, e em que temos um dossier que são 18 anos, 18 autores e 18 projetos feitos por 38 artistas. Decidimos convidar várias pessoas a escrever — curadores, diretores de museus nacionais e internacionais — e lançar aos artistas o desafio de trabalharem em duplas. Convidamos artistas para trabalharem em dupla com o mote de escolherem um ano para refletir e fazer o projeto, entre 2002 e 2019, então cada artista escolheu uma data ou um tema desse ano e desenvolveu um projeto artístico. A nova fase, que já está a ser feita, é a edição de uma caixa colecionável com esses 18 projetos artísticos, que tem fotografia, gravura e serigrafia, que está a ser desenvolvida entre a Umbigo, a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e a Art Works, que está a fazer a caixa para o projeto.

G. - Ser um espaço de criação e incentivo para os artistas também é, em parte, um fator importante numa publicação que se dedique à arte e à cultura?
E.G. - Sem dúvida. Esta revista de aniversário tem 21 projetos artísticos: os 18 de que falei, e mais três que temos em cada edição. Um é o Art Projects, que são cinco páginas que dão lugar, por norma, à capa da revista; o Diálogos, que consiste em colocar em diálogo um artista de arte contemporânea com um Museu que não está dirigido à arte contemporânea, e a partir daí fazer um projeto (nesta edição é a Carolina Serrano com o Museu de Arqueologia), que tem a curadoria do José Pardal Pina; e depois temos o projeto Desenho, que tem o apoio da Fundação Carmona e Costa. Dar esse passo é muito importante para nós.

Podes encontrar esta edição comemorativa da Umbigo, aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias de @Francisco Santos, da cortesia do MAAT

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