No ano de 2012, Guimarães foi eleita Capital Europeia da Cultura. Desse advento surgiram iniciativas, restauros, filmes e um contágio que sobrevive até aos dias de hoje. Guimarães é hoje, mais do que nunca, um município onde a cultura não tem um papel secundário. Ao longo do período em que deteve este título, a cidade convidou os locais a olhar para dentro, mas também artistas internacionais a pensar a localidade — como aconteceu com Centro Histórico, um conjunto de 4 curtas-metragens realizadas por quatro realizadores: Manoel de Oliveira (PT),  Pedro Costa, o espanhol Victor Erice e o finlandês Aki Kaurismäki.

Quando Guimarães foi eleita Capital Europeia da Cultura, trazia na bagagem um olhar de proximidade da experiência do Porto, que em 2001 havia passado pela mesma experiência, e de Lisboa, cuja experiência remonta ao ano de 1994. Este ano, em declarações à Lusa, Teresa Lago, ex-presidente da sociedade Porto 2001, disse que “a Capital da Cultura é um pretexto para a cidade, para tentar trazer algo de novo à sua rotina”. “No Porto, até a reabilitação urbana, apesar dos incómodos, tornou a cidade mais apelativa e preparada para ser usufruída. Aquelas ruas recuperadas junto aos Clérigos, onde mais tarde se veio a instalar a 'movida', mudaram completamente o espaço da cidade”, sustentou.

Em 2020, Rijeka, na Croácia, e Galway, na Irlanda, são as capitais. Em Portugal, com os olhos postos em 2027, são dez as cidades que, até agora, apresentaram publicamente a sua candidatura ou, em alguns casos, a vontade de concorrer a Capital Europeia da Cultura 2027, uma vez que Portugal e a Letónia foram os países escolhidos. Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Leiria, Oeiras e Viana do Castelo estão a preparar as suas candidaturas tendo em vista uma oportunidade de ter esse “pretexto” para se (re)pensar e (re)estruturar no que à cultura diz respeito.

Jorge Barreto Xavier, comissário da candidatura de Oeiras, disse ao Gerador, numa entrevista publicada na Revista Gerador 32, que “esta vontade de muitos municípios quererem concorrer a este título é algo de extraordinário”, mencionando que “é um fator positivo da alteração que ocorreu na sequência da escolha de Guimarães, em 2012, porque até esse ano as escolhas das cidades portuguesas implicavam uma indicação do Governo Nacional à Comissão Europeia, que depois avaliava a candidatura” - sendo que, “no caso atual, o Governo tem um papel”, mas é “um júri internacional que tem a decisão sobre a escolha”. 

Ainda que estas dez cidades já tenham manifestado a sua intenção, as candidaturas mantêm-se abertas até ao dia 23 de novembro de 2021 e, até lá, outros municípios poderão surgir. De acordo com um site criado pelo Governo (ECOC - European Capital of Culture 2027) para informar relativamente ao assunto, a verba disponível é de 25 milhões de euros, e a cidade vencedora será anunciada apenas em 2023. 

Afinal, o que é a Capital Europeia da Cultura? 

A iniciativa da Capital Europeia da Cultura surge pelas mãos da Comissão Europeia no ano de 1985 com o objetivo de “dinamizar as cidades como centros de vida cultural, social e económica”, conforme se lê no site ECOC 2027.

“A Capital Europeia da Cultura não só reforça a diversidade da cultura europeia e o sentimento de pertença a um espaço cultural comum, como também potencia o desenvolvimento das cidades. A iniciativa evoluiu de festival artístico das principais cidades da Europa para um ambicioso projeto que mobiliza a cultura como elemento transformador e regenerador das esferas económica e social das zonas urbanas, sendo uma oportunidade de reforço da cooperação local e da projeção nacional e internacional”, lê-se no mesmo site.

Desta forma, seguindo alterações que foram sendo feitas ao modelo inicial, duas ou três cidades, pertencentes a países europeus diferentes, ganham o título de Capitais Europeias da Cultura por um ano. A antecedência com que o processo é feito — seis anos antes para o convite formal, e cinco anos para a atribuição — deve-se ao facto de ser possível cumprir os objetivos primordiais da iniciativa. É uma preparação feita com tempo, onde as mudanças vão surgindo na caminhada feita até ao “ano-título”.

Neste momento, de acordo com o site da Europa Criativa, já foram anunciadas as capitais até 2024:

  • 2021 - Timișoara (Roménia), Elefsina (Grécia) e Novi Sad (Sérvia, país candidato);
  • 2022 – Kaunas (Lituânia) e Esch-sur-Alzette (Luxemburgo);
  • 2023 – Veszprém (Hungria);
  • 2024 - Tartu (Esténia), Bodø (Noruega, país EFTA/EEA) e Bad Ischl (Áustria).

As candidaturas para 2025 e 2026 também estão, naturalmente, em andamento. Para 2025, a cidade alemã de Chemnitz foi selecionada em outubro deste ano, e estão ainda em pré-seleção as cidades de Ljubljana, Nova Gorica, Piran e Ptuj, na Eslovénia, sendo que a seleção final será feita entre os dias 16 e 18 de dezembro de 2020, já na próxima semana.  No que ao ano de 2026 diz respeito, a Finlândia e a Eslováquia são os países escolhidos, estando neste último três cidades em pré-seleção: Oulu, Savonlinna e Tampere.
Enquanto os processos até 2026 vão avançando, também as cidades portuguesas vão mostrando as suas vontades e indicando por que devem ser escolhidas. Segue-se um ponto de situação das candidaturas. 

Aveiro

A candidatura de Aveiro foi anunciada no dia 15 de junho de 2019, em São Jacinto, e encontra-se neste momento numa fase mais ou menos avançada. Em novembro deste ano, no dia 18, o ex-comissário europeu Carlos Moedas foi indicado como presidente da Comissão de Honra da Candidatura cujo lema é “E isto muda tudo”, na apresentação oficial da candidatura. 

De acordo com o site da Câmara Municipal de Aveiro, a “Candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura em 2027, assenta em quatro pilares fundamentais, que também integram a imagem da marca ‘Aveiro 2027’: Cultura, Natureza, Tech & Soul”. “Apostamos na valorização daquilo que já somos, nomeadamente através da condição ambiental e tecnológica única, e para qualificarmos a nossa rede de agentes culturais, a nossa programação cultural, ao mesmo tempo que levarmos Aveiro à Europa e trazermos a Europa a Aveiro, numa lógica de Cidade, Município e Região”.

Nos últimos tempos, Aveiro tem-se mostrado próximo da Letónia, o país que em 2027 dividirá o título de Capital Europeia da Cultura, nomeadamente através de vídeos que vão sendo lançados através da página oficial da candidatura,  no Facebook. 

Além de Carlos Moedas, os restantes órgãos da candidatura foram também anunciados. No Conselho Estratégico encontram-se José Ribau Esteves, Presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Paulo Jorge Ferreira, Reitor na Universidade de Aveiro, Salvador Malheiro, Vice-Presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro,  e 

Fernando Paiva de Castro, Presidente da Direção da Câmara de Comércio de Indústria do Distrito de Aveiro. Na Comissão Executiva reunem-se José Pina, Assessor Cultural, Programador e Diretor do Teatro Aveirense, Sónia Almeida, chefe de Divisão de Cultura e Turismo da Câmara Municipal de Aveiro, André Costa, chefe de Divisão de Desenvolvimento Económico e Empreendedorismo da Câmara Municipal de Aveiro, Carlos Martins, perito Internacional nas áreas da Economia Criativa, Turismo e Planeamento Cultural, Diretor Executivo de “Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura”, Filipe Teles, Pró-Reitor da Universidade de Aveiro, Rosa Conceição Tomás, assessora para a Cultura e Educação da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro e, finalmente, Elisabete Rita, vice Presidente Executiva da AIDA CCI – Câmara de Comércio e Indústria do Distrito de Aveiro.

Relembre-se que em março de 2019 Aveiro se candidatou ao projeto STEAM CITY, tendo sido a única cidade portuguesa a fazê-lo, e que contou com parceiros como a Altice Labs, o Instituto de Telecomunicações (IT) , a Universidade de Aveiro, a INOVARIA - Rede de Inovação em Aveiro e o Centro de Estudos em Desenvolvimento Sustentável (CEDES), e já na altura Carlos Moedas tornou vocal a sua admiração pela cidade e o seu constante investimento na área da tecnologia.

As notícias de Aveiro 2027 podem ser acompanhadas, aqui.

Braga

Fotografia de Ivanperezz

A cidade de Braga oficializou, no passado dia 27 de novembro, a vontade de se candidatar a Capital Europeia da Cultura, numa cerimónia que contou com a presença de Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga, Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, Alberto Núñez Feijóo, presidente do Governo Regional da Galiza, e Cristina Farinha, membro do Júri Internacional Seleção e Monitorização Capital Europeia da Cultura.

Na cerimónia que decorreu no Altice Forum Braga, Rui Moreira disse que espera que “Braga seja escolhida, porque merece”. “É uma cidade absolutamente extraordinária: consegue aliar uma componente histórica com uma forte identidade, e por isso não corre também o risco de ser estrangeirada”. No mesmo discurso, citado pelo jornal Porto., o presidente da Câmara Municipal do Porto ressalvou ainda que no processo de candidatura e obtenção do título de Capital Europeia da Cultura, “o cidadão ganha autoestima”, “se deixar de ser apenas espectador”. “Passa a ser o curador das suas ideias, a ser ele próprio o ator de transformação da sua cidade.”

Além de oficializar a sua candidatura no Altice Forum Braga, com intervenções por parte dos diversos convidados, foi também apresentada a instalação artística “Concerto para 2027 plantas”, da artista sonora Cláudia Martinho, sobre a qual podes saber mais, aqui. A instalação da artista sonora, arquiteta e investigadora da Universidade do Minho, pretendeu evocar, simbolicamente, a presença dos habitantes bracarenses. 

Braga, que já lançou um site dedicado à sua candidatura, deu também a conhecer um vídeo que reúne os diferentes elementos culturais da cidade. A cultura, a inclusão, as associações, a educação, os artistas, a inovação, a tecnologia, a sustentabilidade, a espiritualidade, as pessoas, o silêncio” são alguns dos pontos que exaltam.

Coimbra

“A Câmara Municipal de Coimbra considera que, pelas suas características históricas, patrimoniais, culturais e sociais, a nossa cidade, classificada por cerca de cinco anos enquanto Património Mundial pela UNESCO, possui as melhores condições para a apresentação da candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027”, disse Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, no começo do seu discurso no dia 5 de junho de 2018, no Convento de São Francisco, na sessão em que apresentou publicamente o compromisso de erguer uma candidatura.  

De 2018 até então, Coimbra tem trabalhado no sentido de melhor conhecer os seus públicos, nomeadamente através de um estudo levado a cabo pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. Os resultados do estudo coordenado por Paulo Peixoto foram apresentados no passado dia 16 de novembro, e pretendiam centrar-se em três eixos principais: “diagnosticar  hábitos e práticas culturais da população (a residentes no município com mais de 18 anos); avaliar a perceção sobre a oferta cultural da cidade e município; sondar o conhecimento e expectativa em relação à candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027”. 

O estudo parte de um inquérito feito à população entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020, tendo uma amostra total de 980 pessoas. De acordo com o site em que alguns resultados do estudo foram publicados, Coimbra Explore, foi utilizada “uma estratégia de amostragem multietápica, tomando como base de sondagem o universo das famílias residentes no município. A unidade de amostragem foi assim o agregado (família residente clássica) e a unidade de inquirição, o indivíduo”. Referem ainda que a “estratificação da amostra pelas freguesias” (total de 18 freguesias), “zonas e ruas foi calculada com base na informação dos Censos de 2011 relativa ao número de famílias clássicas residentes à data no município”.

A candidatura tem promovido ativamente a participação dos conimbricenses, e não só, tendo lançado um concurso público para encontrar uma pessoa responsável pela imagem de Coimbra 2027, que fechou no dia 27 de outubro. O prémio será o valor monetário de 10.000 e a garantia de acompanhar a candidatura até ao fim, no que toca à imagem da mesma. 

No grupo de trabalho da candidatura, liderado pelo mágico Luís de Matos, encontram-se ainda o médico e presidente do PSD de Coimbra, Nuno Freitas, o deputado municipal da CDU e um dos anteriores diretores do Conservatório de Coimbra, Manuel Rocha, o professor catedrático da Universidade de Coimbra (UC), Luís Filipe Menezes, um dos anteriores diretores regionais da Cultura do Centro e professor catedrático da Universidade de Coimbra, António Pedro Pita, e por uma das anteriores vice-reitoras da UC e professora catedrática Cristina Robalo Cordeiro. No site da Câmara Municipal de Coimbra estende-se o convite a quem se quiser juntar a este grupo de trabalhos.

Também no site da Câmara Municipal estão reunidas algumas das atividades desenvolvidas até agora, como a presença no seminário Shaping a European Capital of Culture”, em outubro de 2018, na cidade de Wroclaw (Polónia), encontros com diversas instituições e associações locais, o evento Noite de Ideias e sessões públicas — que podem ser consultados na íntegra, aqui.

Évora

“Anda acreditando” é o lema da candidatura de Évora, apresentada no passado dia 31 de outubro pelo presidente da câmara do município, Carlos Pinto de Sá, e Paula Garcia, a comissária e ex-diretora do Teatro Viriato, em Viseu. 

“Desde logo, apontamos que queríamos que este projeto não fosse apenas um projeto da cidade, e a razão é óbvia: o Alentejo tem uma identidade cultural forte. Quando há uns tempos, numa altura em que estava na moda falar-se de regiões, questionaram Umberto Eco se valia a pena pensar nas regiões, Umberto Eco deu exatamente o exemplo do Alentejo como uma região que tinha uma identidade cultural forte e uma capacidade de preservação dessa sua identidade. Évora dá algo à identidade do Alentejo, como o Alentejo recebe algo da sua identidade, nomeadamente ser património da humanidade nas condições em que esta cidade se move”, disse o presidente da Câmara Municipal de Évora na apresentação. 

A candidatura, cuja imagem estará a cargo do atelier R2, já está em curso. Segundo o autarca, estão “a terminar a requalificação do Palácio D. Manuel, a avançar com a requalificação do Teatro Garcia Resende” e a avançar, “depois de décadas de destruição”, “com o edifício do centro da cidade que vai funcionar como multiusos, que é um salão central”. “Nós queremos que estes edifícios possam, naturalmente, ter eventos culturais, mas possam também ter outros eventos e suportar outro tipo de atividades que são ditas de cultura popular e que podem ir até às margens da cultura.”

Na apresentação da candidatura, Paula Garcia destacou a “ herança cultural que permanece muito viva e que continua no interesse não só de quem cá vive, mas também de quem visita”, que “vem de uma tradição oral, de um saber fazer, do construir através do exercício e do pensamento artístico”. Ao mesmo tempo, acredita, “o território apresenta condições muito interessantes para a criação artística contemporânea”. “Esta relação de um lugar mais contemporâneo e não perder o eixo da cultura mais tradicional, para esta candidatura, seria impossível passar ao lado e não olhar para ela com todo o respeito e toda a dignidade que ela obviamente merece.”

Para esta candidatura, Carlos Pinto de Sá deixou clara a vontade de criar uma união de distrito. “Queremos que a candidatura se reconheça em Évora, em Beja, em Portalegre, e que cada uma destas áreas do Alentejo possa dar o seu contributo, preparando uma candidatura da região apesar de, pelo regulamento, ser uma candidatura de cidade. Queremos que não seja apenas cultura; queremos que a cultura possa atrair outros territórios.”  

Faro

Em outubro de 2019 deu-se início ao “processo de caracterização e diagnóstico do setor cultural e criativo” da candidatura de Faro, que se seguiu do “início da fase de estruturação e análise da informação”, em abril de 2020. Esta noção temporal do processo de candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura 2027 encontra-se mapeada no site Faro  2027, criado com o propósito de dar conta dos diversos acontecimentos. 

Neste esquema temporal apresentado por Faro 2027, janeiro de 2021 é a altura destinada à apresentação do Plano Estratégico para a Cultura de Faro. Mas ainda que a apresentação do Plano Estratégico ainda não tenha sido feita, há uma série de projetos a decorrer neste momento: estão, entre eles, o Mar D’Estórias, Mar Motto, O Papel da Arte em Tempo de Crise, Cápsula e Europe At Home.  

Há cerca de um ano, no dia 25 de novembro de 2019, o Teatro das Figuras, em Faro, recebeu a Sessão Oficial de esclarecimento de acordos de colaboração locais e regionais da candidatura que a resumiram, em três palavras, como sendo “regional, concertada e inclusiva”. Foram assinados, nesse dia, acordos de colaboração entre o Município de Faro e a Universidade do Algarve, a Região de Turismo do Algarve e a Comunidade Intermunicipal do Algarve, bem como Cartas de Colaboração com a Direcção Regional IPDJ Algarve, Direcção Regional de Cultura do Algarve e CCDR. 

No mesmo dia, Carlos Martins, ex-director executivo de Guimarães Capital Europa da Cultura 2012, destacou o trabalho do executivo da Autarquia pela “coragem de se comprometerem com um projeto que não é para um mandato, sendo que 2027 não está no horizonte imediato de nenhum dos atuais agentes políticos”. 

Faro criou ainda, mais recentemente, um grupo de trabalho de profissionais de marketing e comunicação da região do Algarve, a que chamou de “Rockstars”. Na primeira reunião foi “debatida a pegada digital de Faro do Algarve, bem como questões identitárias da região, com o objetivo de criar um léxico visual para a candidatura”, lê-se no site Faro 2027. 

Funchal

Fotografia de Diogo Delso

“A única cidade portuguesa candidata a Capital Europeia da Cultura que é capital de uma ilha numa região ultraperiférica. A cidade mais a sul da Europa que quer IR MAIS ALÉM!” — assim se descreve o Funchal na página de Facebook que tem dado a conhecer os detalhes da sua candidatura. Foi no dia 24 de outubro que, através das redes sociais, a cidade do Funchal, na Madeira, deu a conhecer a sua participação na corrida para Capital Europeia da Cultura 2027. 

Para traçar o perfil dos seus públicos, à semelhança do que aconteceu em Coimbra, o Funchal lançou um inquérito em parceria com o Gerador, que esteve online durante um mês.
“Embora a contemporaneidade e a tradição possam ser encaradas como conceitos antagónicos, a candidatura irá apresentar a nossa abordagem da tradição, não como algo estático e meramente expositivo, mas com uma dinâmica própria que pode ser mesclada com a contemporaneidade. Por exemplo, no último concerto no âmbito do Dia da Cidade, tivemos oportunidade de realizar um concerto inédito com uma revisitação do cancioneiro tradicional madeirense com arranjos jazzísticos. Acreditamos que são estas simbioses, em que as raízes se entranham na contemporaneidade sem perder força, que poderão contribuir para a valorização e divulgação das tradições populares”, disse em entrevista ao Gerador o presidente da câmara do Funchal, Miguel Silva Gouveia. “Eduardo Lourenço já defendia esta ideia quando referiu, no livro Contra a Europa-Museu, que “a cultura não se resume aos adquiridos patrimoniais que o passado nos legou e de que no presente se intenta tirar proveito (…) O ritmo da cultura é o ritmo da história: uma história que se faz e transforma”, continua.

O autarca defende que “o título e o programa cultural que corresponde à Capital Europeia da Cultura poderão valorizar ainda mais o território e diversificar a oferta turística [sendo a Região Autónoma da Madeira presença assídua no Europe´s Leading Island Destination], envolvendo não apenas a natureza e o clima, mas também a cultura, as suas gentes e as tradições”. “Além disso, esta estratégia de promoção de turismo cultural é fundamental para a política de coesão económica e social local e para contribuir para um almejado diálogo intercultural.”

Ao mesmo tempo, a candidatura pretende envolver os artistas locais. Para a marcar está, neste momento, patente a exposição “Blue Lights”, do artista madeirense radicado no Porto Silvestre Pestana, no Teatro Municipal Baltazar Dias. “Esta candidatura só faz sentido se os artistas locais também estiverem envolvidos. Para além da programação artística definida pelo conselho estratégico haverá espaço de programação e financiamento para as candidaturas de artistas locais através de uma Open Call, como aconteceu nas Capitais Europeias da Cultura anteriores”, garante o presidente.

Dentro das iniciativas que pode divulgar, Miguel Silva Gouveia conta que a programação da câmara municipal “já está alinhavada até novembro de 2021”, e incluirá exposições, lançamentos de livros, instalações, projetos de mediação de públicos, encomendas artísticas, concertos e espetáculos.

E se, à partida, a capital de uma ilha numa região ultraperiférica pode não ser a opção mais óbvia para uma Capital Europeia da Cultura, o presidente da câmara deixa claro que pretendem “refletir sobre como um território-ilha, fisicamente isolado do continente europeu, pode contribuir para a dimensão e coesão cultural”, fazendo da sua condição o seu trunfo. “Queremos potencializar a nossa herança cultural, marcada por significativos cruzamentos seculares, e trabalhar com as comunidades de uma forma inclusiva, valorizando as nossas características excepcionais para a investigação e inovação na área da biodiversidade e dos ecossistemas.”

Está também neste momento a decorrer a requalificação do novo Centro Cultural do Funchal, no antigo Matadouro da cidade, que será um importante polo da candidatura, e foi aprovada, este mês, a criação de seis bolsas anuais de criação artística em regime de Open Call. “Isto significa que o investimento na cultura não tem desacelerado, antes pelo contrário, temos assumido a cultura como um bem essencial, mesmo em tempos de crise.”

Podes acompanhar a candidatura do Funchal, aqui

Guarda

À semelhança de outras cidades candidatas, Guarda tem um site dedicado à sua candidatura, através do qual dá a conhecer o que vai fazendo e publicitando a sua candidatura. É lá, também, que se encontra o manifesto de candidatura, que apresenta Guarda 2027 como “um projeto regional, participado por 17 Municípios, que pretende desenvolver a Beira Interior a partir da sua dimensão cultural”.

Teresa Patrício Gouveia é a presidente da Comissão de Honra, Pedro Gadanho o diretor executivo, e Urbano Sidoncha o Presidente do Conselho Estratégico. Cada um dos três responsáveis assina um texto que pode ser lido na íntegra no site Guarda 2027, e que expõe as principais motivações desta candidatura. 

Além destes três membros, a Guarda juntou diversos programadores para pensar a sua estratégia. Entre eles estão Andreia Garcia, da Rede de Projetos de Regeneração Urbana, Carla Morgado, responsável pelo Associativismo, Catarina Raposo, dos Projetos Culturais e Ecológicos, Jorge Maximino, de Literatura, Pensamento e Edição, José Rui Martins, responsável pelo Teatro e Artes Performativas, Lara Seixo Rodrigues, pela Arte Urbana, Osvaldo Ferreira, nos Projetos de Música Intercomunitários, Thierry Santos, de Educação e Juventude, Tiago Sami Pereira, de Inovação Comunitária e Expressões Populares, e, por fim, Victor Afonso, na área da Música Contemporânea. 

Além dos nomes acima referidos, foram reunidos Mandatários da Juventude, para garantir que esta é uma candidatura que chega às diferentes gerações. Inês Lopes Gonçalves de Aguiar da Beira, 15 anos, e António Rodrigues, da Guarda, 17 anos, foram os selecionados.

Com o objetivo de ouvir a população, a comissão de Guarda 2027 organizou um ciclo de conversas que decorreu desde o final de outubro até ontem, 10 de dezembro, tendo a primeira sido dedicada ao tema “Empreendedorismo e novas tecnologias da cultura”, e a última sobre a “atividade cultural e artística como motor do desenvolvimento no Interior”. 

Até ao dia 21 de setembro deste ano, também a Guarda lançou uma chamada aberta a “cidadãos do Mundo entre os 18 e os 110 anos”, nos quais os convidava a enviar um registo visual que transmitisse “surpresa e/ou beleza e/ou significado e/ou emoção”. 

Podes estar a par das iniciativas de Guarda através do Jornal publicado no site Guarda 2027, aqui

Leiria

Fotografia de Vitor Oliveira

“No dia 22 de fevereiro de 2019 foi assinado no Museu de Leiria um manifesto por todos os municípios que integram a REDE CULTURA 2027. Esse manifesto assume a vontade de 26 vilas e cidades se constituírem numa Rede que promova a partilha de criações e recursos artísticos e culturais no território que abrangem”, lê-se no site da REDE CULTURA. 

Esta rede, cujo manifesto pode ser lido aqui, dá o mote para a candidatura de Leiria a Capital Europeia 2027 e apresenta números concretos do que pretende fazer e dos intervenientes que a constituem: 1972 eventos, 26 municípios envolvidos, 670 embaixadores, 1426 agentes culturais.

Em entrevista ao Gerador, João Serra, comissário da Rede Cultura, partilhou que a vontade de constituir uma rede surge “com o propósito de trazer a cultura para o centro das políticas públicas territoriais, apoiar a mobilidade dos criadores e reforçar as estruturas de criação existentes na região”. “Essa rede tem um modelo institucional, de governação e de financiamento próprio. É uma ‘régie-cooperativa’, financiada pelos municípios aderentes com base nos indicadores demográficos. Trata-se de um projeto absolutamente inédito entre nós. Pela escala já atingida e pela massa crítica envolvida: 26 concelhos, instituições de ensino superior, organizações da sociedade civil e religiosa, empresariais, organizações de produção e mediação cultural, atores culturais”, continua. 

A Rede, como conta o comissário, organizou um “congresso em contínuo”, que decorreu entre maio e outubro, sob o nome “O Futuro da nossa Cidade”, e que “constituiu diversas equipas de curadores, aprovou as bases do seu programa de trabalho, que inclui, mas não se esgota na apresentação de uma candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027”. “Trata-se de um programa cultural que se radica em valores locais, em linguagens e normas específicas. É no local que forjamos os termos próprios de discussão, reconhecimento e mapeamento das atividades criativas”.

Os eventos promovidos pela Rede Cultura, que vão de concertos a exposições, podem ser consultados na íntegra, aqui.

Oeiras 

Fotografia de Vitor Oliveira

Também a candidatura de Oeiras ainda não foi formalmente apresentada. Sabe-se, desde já, que Jorge Barreto Xavier será o comissário. O convite surge “na sequência de ter sido convidado para ir para a Câmara no ano passado, para assumir o Gabinete de Educação, Desenvolvimento Social e Cultura”, como conta ao Gerador na entrevista publicada na Revista Gerador 32

“Esta candidatura é uma motivação. É uma forma de desencadear um processo que vai para lá da candidatura. Creio que não há muitos municípios no país que estejam preparados para assumir esta decisão política de que, independentemente de sermos a Capital Europeia da Cultura, vamos fazer as coisas que planeámos”, diz ainda Jorge Barreto Xavier.

Janeiro de 2020 marcou a confirmação da candidatura, por parte do presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais. “Nunca me passou pela cabeça que Oeiras fosse candidata a Capital Europeia da Cultura, mas a verdade é que temos tudo para uma candidatura muito forte e é muito importante Oeiras ganhar esta candidatura. Eu vou dar todo o gás à equipa, sendo que vamos ganhar sempre, seja qual for o resultado, porque vamos trabalhar muito”, afirmou Isaltino Morais no encerramento de uma conferência preparatória da candidatura, citado pela Lusa.

Relembre-se que no passado mês de junho o município de Oeiras organizou, em parceria com o Gerador, o evento Oeiras Ignição Gerador, que contou com diversas masterclasses, conversas, concertos e peças de teatro. O evento contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, de Jorge Barreto Xavier, e ainda da Ministra da Cultura, Graça Fonseca. 

O evento decorreu um mês depois de Oeiras manifestar publicamente a sua candidatura. Nesta apresentação, foi também tornada vocal a vontade de, com esta candidatura, promover a “reabilitação de património cultural, criação de novos centros culturais nas artes visuais e performativas, instalação de núcleos de indústrias criativas, desenvolvimento de unidades museológicas, promoção de projetos nas áreas da literatura, do cinema e audiovisual, criação de programas de articulação entre educação, ciência e cultura, de projetos de promoção da paisagem costeira e do sistema de parques, jardins, circuitos cicláveis e pedonais, promoção de uma estratégia de turismo sustentável e de interações no domínio das novas tecnologias”.

Viana do Castelo

Fotografia de Vic Torvic

José Maria Costa, presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, anunciou no dia em que foi publicado formalmente, em Diário da República (DR), a 23 de novembro, um convite para a apresentação de candidaturas, que Viana está a preparar uma “candidatura forte”. 

“Estamos a preparar uma candidatura forte de Viana do Castelo alicerçada na sua forte identidade cultural, muito assente na etnografia, no traje e na cultura popular, mas também muito apoiada na sua cultura marítima costeira”, disse à agência Lusa, nesse dia.“Estamos apenas a aguardar o convite de apresentação. Mal tenhamos acesso ao regulamento e a toda a documentação, iniciamos o dossier de candidatura”, referiu ainda.

Até agora, o pouco que se sabe da candidatura de Viana do Castelo foi mencionado pelo autarca nas declarações prestadas à Lusa, após ter sido contactado pela mesma. Disse ainda que estão “apenas a aguardar o convite de apresentação” e que mal tenham “acesso ao regulamento e a toda a documentação”, iniciam “o dossier de candidatura”.

Segundo o presidente da câmara, Viana do Castelo “tem vindo a participar em reuniões com o Ministério da Cultura nas quais marcaram presença outras cidades que também manifestaram intenção de se candidatar a Capital Europeia da Cultura em 2027”. 

Juntar a candidatura a outras cidades da região norte é “uma possibilidade que está em cima da mesa e que faz todo o sentido”, disse ainda o autarca. “Havendo a intenção de alguns municípios na região Norte de se candidatarem, poderá surgir um projecto de partilha e de cooperação que valorize os recursos e dê mais força à própria candidatura.”

Sete anos a preparar a futura capital e a criar conexões 

Entre as dez cidades candidatas, há muito que se pode oferecer, mas também receber. Para Jorge Barreto Xavier, o facto de existirem tantas candidaturas é  “um sinal da vitalidade do municipalismo português e da importância acrescida que nos últimos anos a área da cultura tem ganho nos municípios.”

Tão cedo não se saberá qual a cidade vencedora, mas fica a certeza de que, no trabalho feito nesta caminhada, a cultura será pensada nos municípios. 

Podes seguir o processo das candidaturas através do portal do ECOC 2027, aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografia de @Helder Folgado // Exposição Blue Light, de Silvestre Pestana, patente no Funchal

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