“As diversas atividades culturais também podem acontecer da 2.ª Circular para cá”: é do ponto de vista geográfico de Carnide que Paulo Quaresma se refere à centralização da cultura que, por vezes, se acentua no centro de Lisboa. A freguesia lisboeta é, desde há uns anos para cá, um exemplo de que a cultura e a arte podem ganhar novos centros. A periferia, a que estão aparentemente remetidos, tem-se tornado num lugar de atração, de sinergia e de contacto entre artistas.

Grande parte desta realidade deve-se à associação Boutique da Cultura, da qual Paulo é presidente. Constituída em 2013, a associação tem desenvolvido vários projetos que surgem “no sentido de combater a centralidade de tudo aquilo que é atividade cultural, que tende a acontecer no centro da cidade”, sintetiza. Por outro lado, estes mesmos processos acontecem apenas pela existência de uma efetiva democracia participativa na localidade. “A existência destes espaços só foi possível porque foi votada em orçamento participativo, isto é, só foi possível concretizar porque as pessoas se mobilizaram”, acrescenta.

Atualmente, a associação Boutique da Cultura é responsável pela Incubadora das Artes de Carnide, situada no mesmo local onde existe uma livraria solidária e uma Casa das Artes, esta última centrada no desenvolvimento de projetos ligados às artes performativas. Além disso e a partir da última quinta-feira, a associação é também responsável pela Oficina LOCAL, em parceria com a Depois, e a Azimute Radical.

Uma oficina de todos e para todos
No local onde antes funcionava a livraria solidária de Carnide (atualmente inserida no espaço da incubadora), existe agora a Oficina LOCAL, um espaço aberto à comunidade, que cada pessoa pode utilizar de forma livre e espontânea. “Trata-se de um projeto financiado no âmbito do programa BIP-ZIP da Câmara Municipal de Lisboa”, explica Raquel Albino, presidente da associação Depois, – parceira deste projeto –, que se debruça sobre a temática da “consciencialização ambiental e da gestão do desperdício, criando um fim digno e útil para materiais que já serviram o seu objetivo primário”.

Nesta oficina, recentemente inaugurada, as pessoas – não apenas os residentes de Carnide –, podem utilizar as diversas ferramentas existentes para dar nova vida a diversos objetos. “Pode ser uma cadeira que queiras restaurar”, aclara Raquel enquanto nos apresenta o espaço, localizado no número 3 da Rua General Henriques de Carvalho, que estará aberto de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h. Por outro lado, o espaço tem programado para os próximos meses, diversas formações e workshops.

O nome da oficina, LOCAL, corresponde a cinco letras, com diferentes significados. “L” de loja, “O” de oficina, “C” de capacitar, “A” de autonomia e “L” de Luz. “A ideia é criar uma ‘oficina’, utilizada no âmbito da reutilização de materiais, do consumo sustentável e da reciclagem; ‘autonomia’, porque o projeto prevê formação para pessoas portadoras de deficiência ou mulheres com mais de 50 anos que estejam desempregadas, para que possam adquirir alguma formação e construir a sua própria marca e os seus próprios produtos; ‘capacitar’, porque de duas em duas semanas serão aqui desenvolvidos workshops sobre diversas temáticas; e ‘luz’, que remete para o local de Carnide e para a construção de instrumentos utilitários como candeeiros a partir da reciclagem”, explica Paulo Quaresma.

A oficina LOCAL foi inaugurada no passado dia 20 de fevereiro © Boutique da Cultura

A oficina é um exemplo de comunitarismo que pretende trazer novas dinâmicas para o centro de Carnide. Depois de um workshop sobre caligrafia criativa, realizado no passado sábado, haverá um segundo, agendado para o dia 7 de março, incidindo sobre a reutilização de telões publicitários para novos fins, como a criação de malas e carteiras. No dia 21 de março, segue-se mais um workshop, no qual se irão construir casas de pássaros a partir de restos de madeira. “O objetivo destas iniciativas prende-se com o desperdício de materiais e a reutilização dos mesmos em diversos fins, para além de podermos envolver a comunidade”, sustenta Raquel. Os workshops terão um máximo de oito participantes e um custo simbólico de dois euros.

A par disso, a oficina irá promover para já duas formações gratuitas (para um máximo de seis pessoas), preferencialmente destinadas a mulheres desempregadas com mais de 50 anos, “porque detetamos que é um público que existe nesta zona e com necessidade de ser colmatado”, sublinha Raquel. Uma destas formações, a decorrer nas terças-feiras, a partir de março e até junho, centra-se na criação de candeeiros; a segunda, às quintas-feiras, centra-se no trabalho com missangas japonesas, conhecidas como Miyuki.

Olhando para o trabalho desta associação, a oficina aparece como uma extensão natural do trabalho que têm vindo a desenvolver. “Parte de vários elementos. Em primeiro lugar, o de voltar a dar uso a um espaço central na freguesia, anteriormente utilizado pela Santa Casa da Misericórdia. Por outro, a vontade de criar um espaço que pode ser um ponto de encontro das pessoas em que se estas têm algo a reparar em casa, aqui reside o pretexto certo com esta oficina para o fazer”, sumariza o presidente da Boutique da Cultura.

Uma montra para as diversas pulsões artísticas
Depois de conhecermos o Oficina LOCAL, descemos rapidamente para Avenida do Colégio Militar, onde se localiza a Incubadora de Artes de Carnide, centro nevrálgico do trabalho da Boutique da Cultura. Aí existe, para lá da incubadora, uma loja, a livraria solidária e a Casa das Artes de Carnide. “Neste espaço, queremos fazer jus àquilo que é o nome e a génese da Boutique da Cultura: uma montra de vários projetos. Sempre visualizei este espaço como agregador das várias vertentes artísticas”, conta ao Gerador, João Borges Oliveira, membro da associação e um dos coordenadores do espaço.

Montada como um puzzle, “tal como um lego (como refere João)”, a incubadora conta atualmente com 14 residentes, distribuídos entre oficinas e escritórios. De acordo com o responsável, os projetos que aqui entram submetem-se a um critério de seleção, que começa numa candidatura, sendo que, posteriormente, se privilegiam “projetos de trabalhos manuais, onde exista já algum caráter profissional”.

É nesta incubadora que encontramos atualmente projetos tão díspares como o de Sofia Sustelo, que trabalha em cerâmica e barro com o intuito de criar peças utilitárias, através da marca Homes in Colour; Conceição Pires, da marca Light Factory, que recria o conceito primário de fotografia, utilizando uma técnica de exposição fotossensível em peças de roupa; ou Sérgio Condeço, que trabalha em ilustração e design de têxteis.

Os residentes da incubadora podem depois colocar os seus produtos na loja existente no espaço

Paulo Quaresma realça, no entanto, que a incubadora não se regula por objectivos comerciais. “Nós somos uma associação sem fins lucrativos e mantemos esta tónica. Os lugares de coworking custam 90 euros por mês, e os espaços de oficina 125 euros. Isto permite-nos ter um olhar perante aqueles que vêm ter connosco, porque entendemos as dificuldades que possam estar do outro lado”, advoga.

Nesta linha, a incubadora acaba por surgir como resposta às necessidades de diversos artistas que aqui encontram uma forma de poderem desenvolver o seu trabalho, normalmente em fases mais embrionárias. Além disso, estes mesmos residentes podem depois pôr o seu produto na loja do espaço, de forma a “testarem a recetividade dos mesmos junto do público”, acrescenta João.

Um espaço narrado a várias vozes
Num espaço amplo, onde de alguma forma reside o possível futuro para as chamadas arts & crafts – ora não fosse este mais um exemplo da tendência notória de crescimento de espaços de coworking –, encontramos um local onde a “cultura surge como forma de incentivar a participação cívica”.

É este mote que levou Paulo Quaresma e João Borges Oliveira a criar a Boutique da Cultura, que tem vindo multiplicar as suas frentes de ação. Para além da incubadora e da loja, é na livraria solidária que encontramos a primeira pulsão cultural desta associação. “Nós dizemos que a livraria solidária, quando começou, era um exemplo muito claro de persistência de quem vive de alguma forma na periferia”, realçam.

São vários os projetos ligados à ilustração que residem atualmente na incubadora

Com preços bastante acessíveis, onde podemos vislumbrar estantes cheias de livros de José Saramago, Fernando Pessoa ou Eça de Queiroz, esta livraria é mais um exemplo concreto da atividade da associação que tem motivado a atenção da comunidade envolvente.Para a recolha dos livros, foram ainda mais longe, criando uma rede de recolha a partir das farmácias existentes naquela zona da cidade. “A livraria é um projeto todo ele gerido por voluntários. Vive disso, dessa vertente do comunitário que é um dos pilares da associação”, sublinha, realçando o facto de assim poderem “contribuir para uma maior democratização no acesso ao livro”.

Num outra porta entramos para um auditório com 86 lugares, onde o teatro, a performance mas também as leituras encenadas e as conversas têm contribuído para uma maior sinergia da Boutique com a freguesia onde se situam. Nos últimos meses de 2019, contabilizaram quatro mil espectadores, superando a expectativa que, à partida, podiam ter. “Estes números provam a necessidade deste tipo de equipamento e prova a sua integração”, declara Paulo.

A cultura feita pela comunidade
Num tempo marcado pela efemeridade de certas iniciativas e por um tom marcadamente individualista, o trabalho desenvolvido por certas associações, mais ou menos centradas na sua área ou localidade, assume a tónica de missão ao serviço da comunidade. No caso da Boutique da Cultura, esse mote ganha outros contornos uma vez que esta apenas existe pela vontade dessa mesma comunidade.

A Incubadora das Artes de Carnide surge de uma proposta vencedora do Orçamento Participativo (OP) 2015/16 – cabendo a sua gestão à  Boutique de Cultura –, sendo por essa via, uma clara materialização da escolha da comunidade, proveniente da sua participação cívica e, neste caso, também cultural.“Este projeto tem a energia que tem graças ao sítio onde está inserido, sendo que sem esta comunidade não existira”, refere João Borges de Oliveira.

Em jeito de balanço, o trabalho desenvolvido pela associação é visto de forma positiva pelos seus responsáveis, tendo vindo a ser consolidado pelas suas diversas frentes, sem que seja estanque, dependendo sempre da vontade daqueles que ali entram, que ali trabalham e que ali investem. A capacidade de descentralizar e de reimaginar a própria ideia de centro – cultural ou cívico – deu frutos e criou novas dinâmicas, marcadas por uma pulsão artística que se faz sentir em qualquer um destes projetos que ali se materializa.

“Pretendíamos criar algo para comunidade e temos de cá estar para que todas possam usufruir deste projeto”, sublinha João, realçando que mais do que apenas Carnide, hoje, trabalham cada vez para a cidade e para aqueles que ali queiram passar, residentes ou não. Afinal, Carnide também pode ser um centro “que vale a pena as pessoas ficarem a conhecer”, termina.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Diana Mendes

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