O espetáculo acontece entre os dias 27 a 29 de novembro, no LUX Frágil. A ideia de salvação interior e singular refletida na obsessão contemporânea pelos movimentos, são as máximas que se fazem ouvir na estreia absoluta da Plataforma285.

Integrado no 18.º festival Temps d’Images, as consequências reais do capitalismo ouvem-se e vêem-se pela voz e corpo de Cecília Henriques, Cláudia Jardim e João Duarte Costa. A eles juntam-se ainda um bailarino e um sonoplasta que propõem uma falsa experiência social.

Raimundo Cosme, diretor artístico e um dos fundadores do coletivo, conta-nos que “este espetáculo, pega especificamente numa temática que é a ideia de salvação, ou seja, a sua procura incessante. O Steiner, no “No Castelo do Barba Azul” foi uma das inspirações. Ele fala da grande tragédia que foi a humanidade ter perdido a crença em Deus. Claro que é judeu e profundamente crente mas, foi neste sentido que se criou um up gigantesco interior. Passou a ser necessário procurarmos em todos os sítios esta nova salvação.”

Da respiração boca-a-boca ao Yoga do olho, o espetáculo procura explorar a relação da absorção das técnicas com o capitalismo, de forma a perceber o que leva à lógica de comercialização, “a criação da necessidade; do vender que tu não estás bem e precisas de alguma coisa que te cure; depois encontrar a cura que é homogénea, serve para toda a gente – como qualquer coisa capitalista; a facilidade de importar o modelo de salvação que vem do Oriente, que implicam o rigor e a constância numa prática. Ou seja, anos e anos de exploração em que estamos a tentar vender e a facilitar.”, explica Raimundo.

Partindo do mindfulness às experiências de “conhece-te a ti próprio”, a Plataforma285 faz perguntas, não para as resolver, mas para as explorar, “isto ramificou outras questões que partem desde a religião ao sofrimento, à vergonha e que se materializam. Umas vezes textualmente, mas a maioria das vezes em termos de sensação”, completa o diretor artístico.

Com uma cenografia que subentende a ideia de ritual, religiosidade e sofrimento, os figurinos instrumentalizam a vergonha através de um conjunto de referências que podem serem homogeneizadas. Desde o aperaltar de um fato de empresário de Wall Street a uma demonstração com objetos “funny” e “cool” que podem ser replicados pelo mundo inteiro”, destroem qualquer possibilidade de se levarem a sério.

Desconcertante, o espetáculo coloca de lado a construção sonora humana até que alguém entre em cena.

O “Eu” e o “único” são os “louvores” que se gritam. Raimundo conta-nos que talvez se trate da “necessidade de pensar, hoje, no “eu” isolado em simultâneo com uma educação. Em primeiro lugar num sentido lato, em termos de escola, mas também na promoção do humano que tendo uma ideia de “és único mas constróis-te através do outro”, mas quando dás por ti, já não és. Hoje, é possível continuarmos com esta ideia do “único”? Do ponto de vista do ADN e da Ciência sim, único e irreplicável. Mas do ponto de vista do que mais humano existe em nós, não somos todos produtos um dos outros e produto deste mundo?”, realça.

O núcleo do coletivo é composto por Raimundo Cosme, Cecília Henriques, Beatriz Vasconcelos e Raquel Bravo

A Plataforma285 é um coletivo multidisciplinar, fundado em 2011, com o intuito de criar espetáculos de teatro. Trabalhando em regime de colaboração criativa, a companhia desenvolveu 15 criações. O seu trabalho distingue-se pelo desenvolvimento de uma dramaturgia original, assente na procura da não teatralidade e de novas linguagens criativas, construindo realidades habitadas por atores (não por personagens). Trabalha com uma rede alargada de colaboradores e artistas associados.

Com um processo de “abstracionismo”, o coletivo parte de ideias concretas, e faz com que todos os olhares e leituras se construam além do evidente.
Quase a fazer os dez anos de existência, contam com uma comemoração no CCB, que será um remake do primeiro espetáculo da Plataforma 285.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Bruno José Silva (coletivo) e Joanna Correia

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