Há já cerca de um ano e meio que Catarina Calças promove o conhecimento de pessoas para pessoas. O conceito pode parecer estranho dito assim, mas concentrando-se na individualidade dos seres humanos, Catarina pretende promover a consciencialização acerca da igualdade de género. Fá-lo de maneira subtil e interessante, mostrando que todos temos algo de especial.

Mudou-se de Faro, onde nasceu, para Lisboa, ingressando no curso de Linguística, mas, pouco tempo depois, arrependeu-se de não ter seguido a sua paixão de infância, a fotografia. Hoje trabalha em Marketing Digital, diz-se proativa e fascinada por pessoas e foi com o objetivo de conhecê-las e numa tentativa de perceber o que as faz diferentes e ao mesmo tempo coexistirem neste mundo, “procurar humanos sem género”, que criou o projeto Sororidade, em que entrevista pessoas e captura o que têm de único.

Foi num final de tarde no relvado do Cais do Sodré que o Gerador se encontrou com a bem-disposta Catarina e tentámos desvendar este seu projeto.

Rebeca pela lente de ©Catarina Calças para o projeto Sororidade

Gerador (G.) – Como surgiu este gosto pela fotografia?

Catarina Calças (C. C.) – Lembro-me de que era muito nova, muito miúda, e de olhar para revistas e programas de TV. Na altura, até havia o [programa televisivo] Fotografia Total e fascinava-me como é que era possível tu capturares um fragmento e mantê-lo para a eternidade. Isso fascinava-me imenso até que comecei a usar máquinas fotográficas antigas dos meus pais, tudo analógico. A maior parte do meu trabalho passa por aí, é fotografia analógica. E cresci um bocado pelo percurso: ia fotografando amigos, festas, ganhando algum dinheiro com isso. Entretanto, cheguei à parte em que ‘preciso de um curso universitário que me dê dinheiro’, não sei porque fui para linguística e deixei um bocado a fotografia de lado. Até que me apercebi de que, se calhar, havia cometido um erro e devia ter seguido aquilo que amava, sem ter pensado muito no futuro, porque tu nunca sabes. E mais recentemente voltei a apaixonar-me por fotografia. Passou um bocado por aí, por esse lado de gostar tanto de pessoas e gostar de as captar, seja com uma imagem, frases ou uma opinião, que tu possas nunca ter pensado e olhas para uma pessoa e não sei, ficas ‘não te conhecia e agora que me disseste isso sinto que te conheço mais um pouco’, passou um bocado por aí.

G. – Como é que surgiu o projeto Sororidade?

C. C. – O projeto Sororidade surgiu há cerca de um ano e meio numa fase mais complicada da minha vida, em que não me sentia forte enquanto mulher, não gostava de mim, não gostava do meu corpo, então parte da minha aceitação foi perceber que não interessa, sabes? Comecei a olhar para as pessoas à minha volta e que me ajudaram muito a passar por este processo, e grande parte dessas pessoas eram mulheres, e eu pensei que cada uma delas tinha uma coisa para me dar, que eu levei e levo até hoje na minha cabeça, que me ajudam a ultrapassar estes medos que tenho comigo mesma e tudo mais. Foi, se calhar, até um projeto egoísta, mas sinto que, apesar de tudo, há pessoas que podem aprender com isto. E o projeto Sororidade passou por celebrar essas mulheres, para dar espaço a mim mesma para conhecer mais mulheres e, entretanto, o projeto tem navegado um bocado entre perguntar a estas mulheres quão difícil é ser mulher, porque é, ou não é, dependendo das respostas, e é isso que é interessante, teres um leque de respostas completamente diferente. Entre começar a olhar para as pessoas como humanos e não as enfiar numa caixa de géneros. Por isso é que o projeto não se vai focar só em mulheres, da mesma forma que tenho planeado uma entrevista a uma mulher transexual, o primeiro homem vai sair possivelmente este mês. Portanto, passam todos um bocado por cobrir humanos.

G. – Como é que são escolhidos os entrevistados?

C. C. – Isso é uma das coisas que tem vindo a alterar ao longo do tempo. Inicialmente, foram as mulheres que me ensinaram alguma coisa e que eu olhava e sentia-me inspirada, visto que me ensinavam sempre alguma coisa diferente. Comecei com as pessoas que me eram próximas, até que comecei a conhecer mais gente, que é uma das partes boas do projeto, conhecer mais pessoas e literalmente perceber que, por mais que tu aches que és banal, tens sempre uma coisa a adicionar, tens sempre alguma coisa para dizer. É literalmente: eu conheço uma pessoa, temos um tópico interessante e, OK, vamos falar sobre isso, põe isso na mesa, ‘o que é que tu queres dizer com isso?’ Passa também por projetos que me entusiasmam. A próxima entrevista é ao Ângelo Fernandes, o criador da Quebrar o Silêncio, que é uma fundação que ajuda homens que passam por casos de abuso sexual, que é muito o tabu do homem [que] não pode mostrar fragilidade e então quando são expostos a este tipo de problemas, dado que até a taxa de suicídio dos homens é superior à das mulheres por isso mesmo. Então, passa por aí: por conhecer pessoas, o que elas têm para mostrar e mostrar isso ao mundo.

G. – Em que medida é que tu vês a igualdade de género no meio cultural português?

C.C. – Não sei, gosto de acreditar que somos todos iguais e que pelo menos no meio cultural tu não olhas ao género, tu olhas à obra, ao produto final e acho que isso ajuda. Não sei, acho que não sinto que no meio cultural, aliás grande parte das artistas que eu sigo ou pessoas que culturalmente me motivam são maioritariamente mulheres, se calhar é por isso mesmo, porque foi pela onda que eu fui, mas acredito que, pelo menos, no nível cultural seja talvez o campo onde sentes menos que haja essa barreira de género, acredito nisso.

Beatriz pela lente de ©Catarina Calças para o projeto Sororidade

G. – Para além de mostrar pessoas a pessoas, qual é o teu objetivo com o projeto?

C.C. – A primeira é realmente isso. Não estou a dizer que o género deve ser abolido, o género é praticamente uma construção social que se cria, acho que é um bocadinho desconstruir isso, é desconstruir comportamentos associados a algo tão banal para mim como é o género. Posso ser mulher e não tenho que ser mãe, por exemplo. O que é que posso ser mais do que isso? Tu podes ser homem e não precisas de gostar de futebol. Estas pequenas coisas. E depois entra também numa vertente masculina, até posso usar a palavra feminismo, que não tenho medo – já tive medo –, acredito honestamente que este projeto que eu acho e/ou considero feminista serve para olharmos para as pessoas dessa forma: percebermos que um homem é frágil e que uma mulher é forte. Que existe as duas coisas dos dois lados. A ideia que quero transmitir é essa, que as pessoas conheçam pessoas, seres humanos e o facto de ter chamado Sororidade, que é uma base do feminismo que diz que as mulheres têm de se apoiar e serem irmãs em vez de se derrubarem umas às outras. Sororidade para mim não é só soro nem fraternitas, é humanidade.

G. – Qual é a abordagem que adotas para entrevistares e explorares a individualidade dos entrevistados?

C. C. – Por cada entrevista que faço tenho um processo. Geralmente, e isso diz no website, eu peço a cada pessoa que me envie um texto biográfico, e às vezes é complicado, como disse ao início, as pessoas têm dificuldade em responder quem são, porque há pessoas que se concentram naquilo que são, ou na forma como são, na sua personalidade, há pessoas que se centram naquilo que fazem, então por aí já é interessante veres qual é a resposta que a pessoa vai dar. Então peço um texto biográfico, no qual diz quem é ou o que faz, ou o que gosta, e eu pego quase em keywords, para debater isto, porque tu disseste-me o que fazias, mas não me explicaste o que tu és. E explorar a individualidade de uma pessoa é bué importante porque depois, se entrevistar um artista tenho um aspeto mais visual e procuro trabalhar mais visualmente nesse aspeto, porque comunicam melhor através de imagens e de arte, sem ser necessariamente a falar. É recolher o testemunho de cada um e perceber no que essa pessoa se focou e é aí que me vou concentrar.

G. – Pretendes ter apenas homens a falar do género masculino na sociedade ou também queres homens a falar do género feminino?

C. C. – Não tenho até agora nenhum homem a quem tenha entrevistado e a quem tenha feito a pergunta, mas é uma coisa que eu gostaria de levantar, quase como um estudo social, que seria perguntar a um homem quão difícil ele acha ser mulher. Isso é uma coisa que tenho interesse em fazer. O Ângelo, o primeiro homem entrevistado, fala sobre as masculinidades no que toca ao tabu de um homem não sofrer e então ele fala muito também de não querer associar, e é isso que eu não quero associar, não dar uma ênfase como se o género masculino fosse fraco – não é! Sempre teve uma posição de poder, não é isso que quero mostrar. Quero mostrar que não tem de haver essa separação. Mas sim, era um percurso que gostaria, pôr um homem numa perspetiva feminina e perguntar quão difícil ele acha ser mulher.

G. – Pretendes também pegar em temáticas não binárias?

C. C. – Eu gostava. Aliás, gostava porque eu acredito que não posso concentrar-me em géneros como se só houvesse masculino e feminino, claro que quero. Mas preciso de me sentir confortável para chegar a essa área, até porque sinto que seja difícil chegar a essas pessoas. Sou mulher e identifico-me como isso, mas não sei como é que outra pessoa se possa identificar, então quero ganhar essa sensibilidade até estar pronta para lá chegar. Mas claro que sim, é um próximo passo que quero dar ao Sororidade.

 

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de André Duarte Carmo

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