David Bruno, o produtor natural de Vila Nova de Gaia, mais conhecido por dB, é também um atento colecionador de samples que reconhece potencial para novos beats em tudo quanto ouve. No seu percurso musical, salientam-se os trabalhos em nome próprio e Conjunto Corona.

A propósito da sua participação no MIL, o Gerador foi falar com ele com aguçada curiosidade acerca da sua participação na conversa integrada no Programa Pro do festival, intitulada “Why Content Creation Matters”. Nesta conversa, falar-se-á das redes sociais e plataformas multimédia que se multiplicam, incentivando os conteúdos user-generated, e da forma como, hoje, os conteúdos audiovisuais ganham um lugar de destaque na estratégia de comunicação dos artistas e na forma como contactam frequentemente com o seu público. A dB juntar-se-ão Luís Fernandes, produtor executivo do Canal180, Ana Sampaio Barros, cofundadora do BETTER, Christophe Abric, criador de La Blogothèque e dos Take-Away Shows, e Katarina Becic, diretora de social channels da Ableton, na conversa que terá lugar no dia 29 de março, pelas 11h30, no Palacete dos Marqueses do Pombal.

Mas a participação de dB neste festival não fica por aqui. No dia 29 de março, pelas 23h30, no Estúdio Time Out, Conjunto Corona sobem a palco com o seu conhecido rock psicadélico. O Conjunto junta duas personagens do hip hop nacional, dB e Logos, num misto de cultura, tradição, gentileza, amor e respeito pelo próximo, e a vivência harmoniosa com a natureza. No fundo, descrevem-se como sendo o que cada um quiser ver neles.

Sem se colar a um género musical em particular, viaja pelo hip hop, mas não inibe um carinho especial pela música popular portuguesa, ou seja, pela música romântica. O que mais gosta de fazer é ouvir vários sons, de onde consiga tirar samples, que posteriormente lhe permitam construir um novo instrumental. Mas quem pensa que este é um processo facilitado, desengane-se. A maior parte das coisas que ouve não são utilizadas e, revela que, em discos como O Último Tango em Mafamude, chega a ter de ouvir cerca de 500 músicas para conseguir arranjar uma que lhe sirva para fazer um sample. Afinal, a que é que nos estamos a referir quando falamos em conteúdos user-generated? Como é que a democratização do acesso à música e à sua produção vem influenciar o processo criativo dos artistas? Que estratégias se podem usar para contactar com o público de uma forma criativa? Foram essas algumas das perguntas que guiaram esta conversa.

Gerador (G.) – Quando se fala de conteúdos user-generated, do que se está a falar ao certo?

David Bruno (dB.) – Conteúdos user-generated? É uma palavra um pouco fancy (risos). Quando penso em conteúdos, penso em gerar um conjunto de imagens, vídeos, sons que te identifiquem em termos de banda, que te identifiquem de forma inequívoca, que façam a diferença e que acrescentem alguma coisa à tua música. Isto no contexto musical, que é o que faço.

G. – De que formas achas que as redes sociais e plataformas multimédia vieram afetar a criação musical? Ou seja, que novas exigências surgem com a sua existência?

dB. – Só tenho a agradecer a essas plataformas, porque, se calhar, há alguns anos era preciso contratar uma agência grande e pagar um balúrdio para poder chegar ao público. Hoje, uma pessoa em casa consegue lá chegar. Imagino que isso para as empresas grandes, para os profissionais, possa representar um grande choque em relação ao que eles faziam, porque, de facto, também há muita coisa sem qualidade a chegar facilmente ao público. No entanto, para quem, como eu ou como o Corona, pequenas editoras ou artistas independentes, que se calhar até têm valor no que fazem e o que fazem é válido, conseguem, de uma forma muito mais simples, saltando uma série de intermediários e de passos, chegar a um grande público e ao sucesso de uma forma muito simples. Portanto, as plataformas digitais, para mim, vieram saltar aqui uma série de passos e intermediários e facilitar com que uma pessoa em casa possa chegar ao público. Acho que é quase como os cães rafeiros e os cães com pedigree (risos). Os cães com pedigree, à partida, já sabes que têm aquelas características, mas em termos genéticos, se calhar, há uma série de rafeiros que são bem mais resistentes, interessantes e introduzem mais diversidade. É isso que acho que o social media veio fazer pela música: introduzir mais diversidade com mais facilidade.

G. – Então achas que a facilidade com que hoje uma pessoa consegue montar um estúdio em casa e partilhar as suas músicas é algo mais positivo do que negativo?

dB. – Acho que sim, porque mesmo que surjam dez artistas, em que nove sejam horríveis e um seja bom, regra geral, ficamos todos a ganhar.

G. – De que forma achas que a produção de conteúdos deve ser utilizada na estratégia de comunicação dos artistas?

dB. – As redes sociais têm outra coisa que é a presença mais facilitada. Estás constantemente em contacto com o público. E há outra questão, é interativo. Não é uma mera campanha em que sai, as pessoas veem, acharam espetacular e, OK, ficámos por aqui. Com o Instagram, as stories, os posts e comentários, tudo isso muda. Lá está, há um lado bom e um lado mau. O lado mau é que, às vezes, podem surgir uma série de surpresas nos comentários que uma pessoa não espera e que, às vezes, magoam um bocadinho. Mas pelo seu lado positivo, é incrível. Acho que nenhum artista hoje pode deixar de aproveitar o facto de poder estar em contacto constante com a sua base de fãs e interagir com eles. Essa é uma das vantagens que os social media traz às bandas.

G. – Quando estás a produzir conteúdos já estás a pensar nessas questões como parte do teu processo criativo, ou é algo que surge depois?

dB. – Acho que toda a gente está a pensar nisso, até nas próprias músicas. Quando estamos a falar em música, hoje temos de entrar aqui numa questão um pouco polémica. Tu podes misturar e expor a tua música com uma potência enorme e sabes que vai estar no YouTube e em quatro ou cinco televisões, porque o YouTube agora fez uma guerra um pouco alta. Já temos que fazer música a pensar nas plataformas. Onde é que as vais pôr? Se calhar uma pessoa mete uma música no carro mais alta, outra no YouTube mais baixa, outra vai para o Spotify. É preciso ter isso em consideração. Para além da música, a imagem também tem de ser pensada. Antigamente quando fazias um álbum, pensavas num poster muito bonito. Hoje pensas em mais coisas. Imagina com o Corona, faço o formato físico do último álbum (Santa Rita Lyfestyle), que foi a raspadinha “SUPER Pé-de-Meia & Chinelo”. Depois, tenho de ter uma capa para pôr no Spotify, logo tenho de desenvolver outro artwork em formato quadrado. Também tenho uma série de stories espetaculares. Vou precisar de desenvolver mais uma série de artwork à volta daquele conceito com imagens ao alto. Por isso, claro que hoje é preciso desenvolver o trabalho a pensar nas redes sociais, porque quer se queira quer não, vai ser aí que ele vai ser divulgado em massa, na primeira vez. Os concertos são espetaculares para apoiar e existirão sempre, mas as pessoas quando lançam o álbum estão nas redes sociais. Se lançar o álbum e ignorar as redes sociais, à partida, está condenado.

Raspadinha “SUPER Pé-de-Meia & Chinelo”, suporte em que foi editado o 4º álbum do Conjunto Corona, Santa Rita Lifestyle

G. – Então este contacto que os músicos têm com o público é tão ou mais importante do que criar a sua marca? É uma coisa que tem de ser feita em conjunto, cada vez mais?

dB. – Acho que é o que ajuda a criar a marca. Por exemplo, quando nós lançámos o álbum fizemos uma coisa que era uma imagem de Deus crucificado e outra a ser adorado. No adorado tinhas prints reais de comentários de pessoas a elogiarem-nos. No crucificado tinhas prints reais de pessoas a atacarem-nos. Ora, isto é um nível de interatividade, como deves imaginar, que incentiva as pessoas a interagirem contigo nas redes sociais. As pessoas sabem que se comentarem, os músicos respondem e partilham. Nem num concerto consegues ter esse nível de interatividade. Podes responder a duas ou três pessoas, mas não consegues responder pessoalmente. Essa pessoa, que gosta dessa banda, faz um comentário e a banda responde-lhe. Isso é uma coisa que nunca vais conseguir, na realidade, em concertos. Mas em social media sim, e isso ajuda a criar a marca de uma banda a uma velocidade que acho que até hoje nunca se conseguiu criar.

G. – O que é importante para ti incluir na música e vídeos que fazes?

dB. – Eu sigo uma linha, os outros artistas seguirão a sua. O que é importante para mim incluir na minha música e vídeos é elementos suburbanos portugueses. Aquilo que, se calhar, há uns anos seria completamente ignorado e que, em termos de ser visto como objeto artístico, era impensável. Como aconteceu na bomba de gasolina em Rio Tinto, com carros de tuning, por amor de Deus! Uma pessoa em Gaia que veste uns calções curtos e colado ao carro na rua, a minha linha segue sempre isso. É o kitsch, mas não é inventado por mim. É um kitsch que simplesmente é a representação desses aspetos culturais podres portugueses.

G. – Então é essa dimensão da cultura portuguesa, a suburbana, que tentas levar sempre para as tuas criações e que te acaba por inspirar?

dB. – É isso que me inspira e me leva a ser mais criativo. Comecei a criar música a um ritmo mais rápido a partir do momento em que me comecei a inspirar nas coisas que me rodeiam. Em Gaia, vou ao café, ao snack bar, ao restaurante, à bomba de gasolina e vejo coisas que estão a acontecer. Acho que não existe nada melhor do que estares constantemente rodeado das coisas que te inspiram para criares a tua obra. Se eu criar uma obra inspirada em astrologia, tenho de todos os dias, chegar à noite, e olhar para o céu ou para o telescópio. Se criar uma obra inspirada em Rio Tinto, em Gaia e ligada ao suburbano, passo a andar por aqui.

Conjunto Corona, que vai estar em concerto no festival MIL no dia 29 de março

G. – Tens dois projetos: Conjunto Corona e David Bruno. O que é que cada um deles te acrescenta?

dB. – Os dois bebem do mesmo, esse kitsch suburbano português à moda do Porto. Mas Conjunto Corona é o kitsch gangster (risos). David Bruno é uma faceta que nunca consigo explorar no Conjunto Corona, que é o kitsch romântico-gentil (risos). É uma coisa que poderia ser facilmente escutada e apreciada pelos reformados dos Caminhos de Ferro em Rio Tinto. Corona é dedicado ao pessoal mais jovem. Portanto, os dois bebem do mesmo sítio, mas estão destinados a subpúblicos diferentes e têm contextos diferentes. O que me acrescentam é deixar-me expressar, de uma forma artística, o espectro total da foleirada que me rodeia.

G. – Ainda há pouco falavas da escolha da bomba de gasolina para um concerto, mostrando que apostas numa estratégia de comunicação criativa. Como é que pensas e estruturas esta estratégia?

dB. – Sou inspirado por coisas que vejo todos os dias. Na bomba de gasolina, por exemplo, imaginei e comecei a criar o álbum à volta disso. Há sempre uma narrativa. O ambiente é o mesmo e a narrativa são pequenas coisas que eu vejo. David Bruno é o poeta romântico, por isso o último disco é O Último Tango em Mafamude. Nasce sempre com um conceito. Primeiro desenvolvo a música e, à medida que a vou desenvolvendo e escutando, começo a criar na minha cabeça um filme. Depois, prossigo com esse filme que crio na cabeça, enquanto ouço a música para construir toda a parte gráfica, a capa e o vídeo. Uma espécie de curta-metragem que seja o mais aproximada possível do filme que tenho na minha cabeça. É isso que tento transmitir.

O Último Tango em Mafamude

G. – A escolha destes espaços fora do comum é uma forma que encontras de tirar as pessoas das redes sociais e promover os encontros que antes aconteciam naturalmente?

dB. – Tenho sempre tentado fazer isso. Pelo menos nos concertos de apresentação. No Cimo de Vila Velvet Cantina, fiz a apresentação numa casa de alterne, no Porto. N’O Último Tango em Mafamude, fiz o concerto de apresentação num daqueles shoppings que estão no rés do chão dos prédios, uma espécie de galeria com muitas lojas. Havia um, que era o Vila Gaia, fui lá e vi as lojas todas fechadas. A única coisa que ainda havia aí era cabeleireiros e cafés. Aluguei um megaescritório, que era dum empreiteiro, e transformei aquilo numa sala de concertos. Fui comprar não sei quantos metros quadrados de alcatifa, daquela que havia nos apartamentos dos anos 90 e alcatifei o chão do escritório. Montei ali um espaço para as pessoas. Mais uma vez, tentei recriar um filme da minha cabeça do que era o ambiente daquele álbum e tenho feito sempre isso. Gosto quando as pessoas chegam a estes concertos de apresentação e ficam claramente desconfortáveis com aquele ambiente e ficam a pensar onde é que se foram meter. Gosto quando as pessoas vão a esses concertos e depois vão ouvir as músicas nas plataformas, mas têm um pequeno gosto pela realidade palpável do que eles estão a ver ali.

G. – Achas que já encontraste o balanço entre, como dizias há pouco, as pessoas que fazem comentários nas redes sociais que são mais negativos e os seguidores que vos apoiam e se juntam a vocês nesses espaços físicos? Já percebeste qual é a melhor forma de te relacionares com os seguidores?

dB. – Vamos ser realistas. Quer o Conjunto Corona como o David Bruno são projetos pequenos. Ainda não chegaram àquele patamar de promoção em que começam a chegar a pessoas que realmente não queriam ouvir aquilo, mas aquilo é-lhes apresentado porque teve um hype enorme e eles têm de ouvir. No caso do Conan Osíris, ele foi ao Festival da Canção e teve de expor a sua música a pessoas que não o queriam ouvir, mas está ali e teve uma grande exposição. Ora, tanto o Conjunto Corona como o David Bruno não têm essa exposição, e os dois têm uma coisa que é ter um público, mais ou menos pequeno, mas muito fiel. Então, quando há alguém que vai fazer algum ataque, os outros consomem-no imediatamente. Mas não são muitos ataques, porque não tem dimensão suficiente para isso. Agora, realmente quando as pessoas atacam, acho que a melhor estratégia é dar-lhes razão. É dizer, “peço imensa desculpa por a minha música ser uma merda. Para a próxima vou tentar fazer melhor.” (risos) O assunto morre imediatamente. Acho que a pior coisa que se pode fazer é mandar bocas e contra-atacar. Ontem, estava a lembrar-me disto quando vi o discurso do Barack Obama quando humilhou o Donald Trump. O Trump andava a fazer insinuações em como o Obama não tinha nascido nos Estados Unidos. O Barack Obama, num discurso numa cerimónia qualquer, disse que, após ter ficado esclarecido onde é que ele nasceu, o Donald Trump podia voltar às suas verdadeiras preocupações. Humilhou-o, humilhou-o, humilhou-o. Acho que isso fez nascer um vilão. Por isso, acho que a pior coisa que se pode fazer às pessoas que vêm com esses ataques gratuitos é realmente responder-lhes e dar-lhes atenção.

G. – Virando, agora, as atenções para o festival em que estás prestes a participar, qual é a característica do MIL que mais te cativa?

dB. – A característica do MIL que mais me cativa é a quantidade de pessoas e áreas diferentes, mas todas ligadas à música, à arte e à criação de conteúdos, que se juntam num sítio só. É incrível imaginar, durante concerto, a quantidade de pessoas diferentes que estão ali a assistir num mesmo espaço. E a quantidade de ligações que se podem estabelecer ali. São pessoas que, de outra maneira, nunca falariam na sua vida e que, se calhar têm tudo a ver uns com os outros.

G. – Vais ter uma dupla participação neste festival, com a conversa sobre “Why Content Creation Matters” e o concerto do Conjunto Corona. Que significado tem para ti estares presente nas duas vertentes no MIL, ou seja, na convenção (Programa Pro) e no festival com concertos?

dB. – Sinto que convidarem a banda Conjunto Corona é um reconhecimento à qualidade da sua música. Convidarem-me para falar é um reconhecimento à qualidade dos conteúdos do Conjunto Corona. Portanto, sinto-me duplamente lisonjeado.

Por agora a conversa acaba, mas continuará no MIL, que está aí à espreita. O festival e convenção dedicado a pôr a música portuguesa na rota dos eventos internacionais, ocupa diversas salas de espetáculo e clubes noturnos do Cais do Sodré entre os dias 27 e 29 de março. Este festival foca-se na produção musical lusófona, que chega aos quatro cantos do mundo, dando a conhecer mais de 70 artistas vindos de todo o globo.

Os Sócios Gerador que comprem o festival ticket do MIL têm acesso a experiências especiais: acesso livre à convenção do MIL, um bilhete duplo para o espetáculo de abertura e a oferta de um totebag e de uma t-shirt do MIL. Descobre mais aqui.
Entrevista de Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro do MIL

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