Fernando Alvim junta-se a Pedro Luzindro e a Rúben Branco no próximo dia 20 de abril, na Galeria Verney em Oeiras, para a conversa informal “3 Comediantes falam de Liberdade”, em que o objetivo é descobrir o papel da liberdade na vida de todos nós, especialmente no mundo da comédia.

Deu os primeiros passos na já extinta Rádio Prisma, aos 17 estava na Rádio Press, passando para a Rádio Nova Era até ser convidado para a Rádio Comercial, e hoje encontrámo-lo na Antena 3. Para além da rádio, foi também um dos pioneiros do Curto-Circuito, ainda antes de haver Sic Radical. Apesar dos seus 44 anos, gere uma quantidade impensável de projetos: desde o mais conhecido programa de rádio Prova Oral, que hoje vemos em formato televisivo semanal na RTP1, a entrega de prémios dos Monstros do Ano, o Festival Termómetro, Torneio de Golfe para Nabos, a editora Cego, Surdo e Mudo, até ao programa É a vida Alvim no Canal Q, passando por tantos outros que têm vindo a construir o percurso profissional.

O Gerador quis saber mais sobre a mente do homem dos dezoito mil oitocentos e vinte e quatro ofícios, e ficámos a saber que a obstinação nos leva longe se soubermos ser obstinados, que as ideias boas são sempre concretizáveis e deixou-nos a questão se a defesa será o melhor ataque ou o ataque a melhor defesa.

Gerador (G.) – Alvim, o Obstinado: há uns tempos, afirmaste que o teu pai te chamava obstinado de uma certa maneira pejorativa, mas que quiseste transformar isso em algo positivo. Hoje, é possível verificar que a maior parte dos teus projetos sobreviveram a mais de quatro edições. Qual é a sensação ao ver que é realmente possível contribuir para a cultura de maneira alternativa e de forma duradoura?

Fernando Alvim (F. A.) – Que a obstinação, quando bem aplicada, pode resultar. Aliás, há uma ideia generalizada que, à partida, a obstinação poderá ser sempre uma coisa boa. Mas nem sempre é assim, a obstinação pode não deixar ver, pode só ver em frente, pode não analisar. Por isso creio que é preciso escolher bem as nossas obstinações. Acho que não me tenho dado mal com as minhas.

G. – Falando mais especificamente dos Monstros do Ano, que já conta com onze edições, consideras-te um adepto ferrenho de cultura popular portuguesa?

F. A. – Sabes, não sei se os Monstros serão exportáveis. Ainda no outro dia pensava nisso e questionava-me: será que os outros países têm um Bruxo de Fafe? O Barbas? O Dias Loureiro? O Pedro Arroja? A resposta é não. Não têm.

G. – O Síndrome Alvimé quando alguém não consegue fazer e pensar menos de cem coisas por dia. No teu mundo tão cheio de criatividade, qual é o critério que separa as ideias concretizáveis das ideias que ficam pelo caminho?

F. A. – Não gosto de ideias não concretizáveis. Uma ideia boa é quando a fazemos. Perco pouco tempo à volta de uma ideia, se souber que não a irei concretizar. Mas há algumas que ficam pelo caminho, não por não serem concretizáveis, mas por manifesta falta de tempo.

G. – Há alguma que te arrependas de não ter lutado até ao fim?

F. A. – Algumas. Há um jogo de futebol que quero fazer de dimensão mundial. Tenho esta ideia há anos. De uma vez por todas, perceber se é a defesa o melhor ataque ou o ataque a melhor defesa. É uma questão muitas vezes debatida no meio futebolístico. E muito fraturante também. Assim, de um lado estariam os 10 melhores defesas do mundo. E, por outro lado, os 10 melhores atacantes do mundo. Com transmissão em direto. Com apostas. Com a resposta definitiva a esta questão.

G. – Portugal é um país especial, onde há uma linha muito ténue que, por vezes, faz com que caiamos no ridículo. Depois de tantos anos envolvido no meio, há algum projeto que te faça arrepender do teu envolvimento?

F. A. – Devo já ter feito algumas coisas ridículas seguramente, não me estou a lembrar de uma especificamente, mas não fiz tudo certo na vida, não. E também é verdade, é que não tenho assim tanto medo do ridículo, acho que faz parte do processo de aprendizagem. A idade adulta ensina-nos a menorizá-lo, a evitar de preferência.

G. – Como é que ponderas a tua participação em certos projetos?

F. A. – Com bastante inconsciência.

G. – Sendo um dos comunicadores mais influentes e antigos em Portugal, com projetos que se estendem a todas as áreas, qual é o público mais exigente? O mais difícil de captar e agradar?

F. A. – Os do contra. Os pessimistas. O que julgam que estão a mudar o mundo por estarem em frente ao computador a odiar tudo. Os que não saem de casa, porque não há nada de interesse, porque não há nada que valha a pena. São sempre esses os mais difíceis, mas até esses não deixo de querer conquistar.

G. – Na comédia, sentes que no humor português há espaço para uma nova abordagem que seja mais corretamente política que politicamente correta?

F. A. – Acho que temos tomates na mercearia e no humor. Não queria nada que vissem esta expressão como vulgar, mas logo agora que comemoramos 45 anos de 25 de Abril, parece-me que se não tivermos tomates, nunca iremos a lado nenhum. É isso que eu penso, que tem de haver tomates. E que o bom humor – do qual temos ótimos magníficos executantes – os têm. No sítio onde eles devem estar.

G. – Para além do público, és, sem dúvida, um obstinado da cultura. Sempre que há uma mutação mediática no entretimento em Portugal, o nome Alvim está associado. E vendo-te como um criador, como é que o Alvim todo criador, recriava Portugal e a cultura portuguesa à sua maneira? 

F. A. – Tenho uma inata tendência para tornar os conteúdos culturais mais informais. Acho que é uma boa forma de os levar a outras pessoas que, de um outro modo, os veriam como algo enfadonho e pouco atrativo. No fundo, é como dar peixe a comer a uma criança, temos de lhes dar em formato de douradinhos, comer a sopa dizendo “olha o aviãozinho”. Às vezes, vejo alguns eventos culturais, que, em vez de facilitarem e de piscarem o olho a outros públicos, fazem exatamente o contrário. É como aquelas pessoas, que vão para a televisão e falam linguagem técnica para que ninguém as entenda. Tenho esse sonho de tornar mais fácil a cultura para todos. É claro que sei que será muito difícil conseguir, mas ao menos tentei.

Entrevista por Rita Matias dos Santos
Fotografia de Nuno Gervásio
O Gerador está a dar uma mãozinha ao Município de Oeiras neste projeto.

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