Pensar em investigação do design português significa, inevitavelmente, pensar em José Bártolo. Com uma capacidade ímpar de olhar para o design, coordenou a Colecção Design Português, uma série de 8 volumes que põe em perspetiva a história do design português de 1900 até à atualidade, e assinou uma série de textos críticos na área. Formado em Filosofia e Ciências da Comunicação, juntou-se em 2006 à ESAD Matosinhos, onde se mantém nos dias de hoje.

Foi na esad — idea, o espaço da ESAD dedicado à investigação, que José Bártolo recebeu o Gerador para uma conversa sobre a Porto Design Biennale, a primeira bienal de design no Porto cuja curadoria ficou à sua responsabilidade. Subordinada ao tema Post Millenium Tension, a bienal decorre entre 19 de setembro e 8 de dezembro entre o Porto e Matosinhos.

Gerador (G.) — Começo por lhe perguntar, não só enquanto curador da Porto Design Biennale, mas também enquanto investigador com uma visão ampla no que toca ao design, por que é que faz sentido ter uma bienal de design no Porto neste momento. Era uma vontade antiga?
José Bártolo (J.B.) — É um projeto que começou a ser construído sensivelmente há dois anos e surge na sequência de um trabalho que vinha sendo feito essencialmente entre a esad — idea, o centro de investigação da ESAD Matosinhos, a Câmara Municipal de Matosinhos, mas também a Câmara Municipal do Porto. Nós tínhamos já uma série de equipamentos para os quais fazíamos programação em design, nomeadamente a Casa do Design de Matosinhos, a Incubadora de Design do Mercado de Matosinhos, um conjunto de atividades também com a Câmara do Porto. E entendemos que, do ponto de vista de uma estratégia pública para o design, existiam em ambos os municípios, do ponto de vista de uma certa massa crítica que estava consolidada com o envolvimento de vários curadores, vários designers e uma série de parceiros (que também são importantes para alavancar tudo isto).

Do ponto de vista estrutural, de equipamentos de que a cidade estava dotada, existiam condições para que esse trabalho tivesse um evento que de algum modo reforçasse uma mensagem de aposta no design, elevasse a ambição, mas também se constituísse como uma boa oportunidade de envolvimento muito maior entre designers, pessoas que escrevem sobre design, pessoas que fazem crítica ou investigação, com uma articulação forte também com alguns setores dos quais o design não se pode dissociar — a academia e a indústria.

O timing em que começámos a idealizar a Porto Design Biennale foi marcado também por alguns aspetos paralelos, mas que foram levados em consideração, como o fim da experimentadesign — que surgiu em 1999 e era a única bienal de design em Portugal —, que reforçou ainda mais a ausência não só de um evento de design feito no nosso país, mas com uma projeção internacional, como uma espécie de orfandade do design em termos de apoio público. O Centro Português de Design tinha sido extinto já há algum tempo; não existe uma estratégia de política pública para o design, do ponto de vista do poder central.

Nós sentimos que havia quase uma contradição entre uma velocidade muito lenta ou um estado de coisas paradas nesta perspetiva de haver uma aposta forte no design em termos de políticas centrais e depois a qualidade dos nossos designers, a energia que demonstram e a resiliência que tiveram, até neste período de crise em que foram capazes de desenvolver com muita autonomia projetos tão interessantes.

Portanto, pesado isto tudo, sentimos que este era o momento em que fazia sentido essa aposta que surge sustentada numa série de coisas suficientemente consolidadas para termos a certeza de conseguir fazer uma primeira edição com qualidade e com a certeza de que terá continuidade.

G. — No fundo veio responder a uma série de lacunas que vinham a sentir…
J.B. — Essas lacunas não são a única causa para se desenvolver um projeto. Foram ponderadas, mas sobretudo sentimos que existiam meios, recursos, energias, para se fazer o projeto e creio que tê-lo-íamos feito mesmo que em Portugal existissem mais bienais de design, mais eventos a acontecer. Não existindo, no fundo sentimo-nos mais responsabilizados, e esta responsabilização passa por fazer um evento que tenha esta dimensão nacional e internacional, e que seja um evento bastante inclusivo — em que, no final, os designers se reconheçam e identifiquem.

G. — Nesta primeira edição trazem o debate questões relacionadas com o novo milénio. Sente que com a globalização e até as redes sociais o design tem perdido a capacidade de lidar com problemas locais?
J.B. — Eu creio que não. Há aqueles exemplos que quando essa questão surge são muitas vezes sugeridos, como todas as movimentações de cidadãos que estão na origem da chamada Primavera Árabe e em que a mobilização em torno de uma causa é largamente feita através das redes sociais e depois há uma passagem desse espaço globalizado e digital para o espaço público, para a rua, para um espaço físico. Creio que, de um modo geral, o design do atual milénio foi-se adaptando a trabalhar com ferramentas digitais, marcadamente globalizadas, procurando perceber como é que elas podem ajudar a uma intervenção local mais eficaz. E pensando nos designers millenials, eles revelam uma capacidade muito grande de trabalhar com a esfera local e global, como se não existisse verdadeiramente uma fronteira entre pensar-se global e agir-se local ou vice-versa.

G. — E acha que os millenials têm conseguido responder às tensões do novo milénio?
J.B. — A pergunta é difícil porque é de grande abrangência, mas eu diria que sim, mesmo que a forma como eles têm sabido dar resposta nem sempre seja a mais justa para eles. Nós temos inúmeros casos de designers que se formam e que começam a trabalhar já neste milénio e são muito bem-sucedidos, mas esse sucesso pode tê-los obrigado a emigrar, como é o caso do Bráulio Amado, que tem um percurso muito bem-sucedido mas a partir de Nova Iorque. Noutros casos, levou-os a ter de pensar projetos que se afastam um bocadinho mais daquilo que é a sua formação em design.

Parece-me que de um modo geral, os millenials que se formaram em design estão mais bem preparados para responder a desafios emergentes do que a geração anterior. Essa preparação dá-lhes uma versatilidade muito grande e, por vezes, é injusto que não existam as condições ideais para que essa preparação possa ser canalizada e não possam desenvolver projetos de qualidade em Portugal.

G. — A profissionalização do design, que tem sido muito promovida na última década, não tem comprometido a sua dimensão mais social em prol de uma dimensão comercial?
J.B. — Claramente sim, mas hoje, talvez de uma forma mais vincada do que em décadas anteriores. Praticamente em qualquer período temporal em que estejamos a analisar a nível do design, assistimos a uma prevalência de uma orientação mais comercial, de uma prática profissional definida pela encomenda (e uma encomenda mais mainstream), mas encontramos sempre exceções a esse registo. Há sempre projetos orientados por ideais e causa sociais, culturais e políticas. Nos anos 90, há esta ideia do citizen designer que se torna progressivamente mais forte. Há uma maior consciencialização dos designers relativamente à importância de que a sua prática profissional não seja contraditória com aquilo que são os seus valores enquanto cidadão. Eu penso que a geração dos millenials e a prática do design desta última década sublinham isso: há uma maior preocupação em conseguir-se fazer enquanto designer para a concretização de valores, causas e objetivos. Mas embora nós não consigamos fazer nunca uma análise a uma cor, como se as coisas fossem brancas ou pretas — há muitas nuances —, parece-me que vivemos num tempo em que há uma mobilização para isso.

G. — O José fala numa leitura dos nossos tempos e lembro-me que Design and Democracy é outro ponto importante para esta edição da Bienal. Mais do que nunca é pertinente trazer essa área do design para cima da mesa e debater?
J.B. — Acho que faria sentido em qualquer altura, ainda que no momento presente haja um sentido reforçado, por três razões: primeiro porque o momento presente é aquele que imediatamente nos toca e para o qual devemos estar mais mobilizados, também porque é sempre a partir do presente que conseguimos pensar o que queremos de um futuro próximo e projetá-lo; por outro lado, porque pôr este tema em debate hoje sublinha a oportunidade de repensar a própria noção de democracia participativa — e dentro desta ideia de democracia participativa o desafio é cada um de nós, a partir de uma certa mediação de alguns projetos de design podem dar, questionarmo-nos como é que podemos ser mais ativos nesta construção democrática. E claro, porque como sempre tivemos, mas novamente no momento presente temos regimes em que a democracia é muito pouco saudável e com consequências que não são exclusivamente nacionais. Tal como falávamos antes, prende-se com uma organização planetária que é cada vez mais globalizada também no sentido daquilo que acontece numa determinada zona geográfica ter um impacto planetário. Pensando na atualidade, nós não conseguimos separar aquilo que é a política da governação Bolsonaro, a catástrofe que está a acontecer na Amazónia e os efeitos que a desflorestação tem. Nesse sentido devemos também ser participantes, reivindicativos, propositivos, em relação a essas democracias pouco saudáveis.

Aquilo que acontece na Síria ou no Brasil ou em Portugal diz respeito a todos nós que somos conscientes do mundo em que vivemos — parece-me que esta é uma ideia que devemos ter cada vez mais presente.

G. — No caso da Bienal também convocam a sociedade civil. Esta é uma forma de sensibilizar pessoas que não são designers ou simplesmente não têm uma ideia do papel do design?
J.B. — Sim! Nós procurámos desenhar um programa para esta edição de modo que com alguma clareza se percebessem propostas de ligação que estamos a fazer entre o design e outras áreas — a ligação entre o design e a política é uma delas. Procurámos também de uma forma muito direta promover uma aproximação entre o design e a academia, através do projeto com as escolas, e do design com a indústria, através de uma série de propostas mas nomeadamente da exposição Portugal Industrial. E estamos a apostar numa educação de públicos através de serviços educativos, trabalhando com diferentes faixas etárias, mas também numa formação também a protagonistas da cultura e do design. Para nós é muito importante o nosso Young Curators Lab, que consiste em workshops destinados a jovens curadores de design, porque queremos que a Bienal também ajude à formação. Acreditamos que alguns dos jovens que se inscreveram nestes workshops vão colaborar connosco em edições futuras. Portanto, ajudar a formar públicos, de um modo geral, mas também agentes especializados.

G. — E quais são os resultados práticos que se espera de uma bienal, além da sua continuidade?
J.B. — Há um impacto de consolidação que desejamos. Uma bienal com esta dimensão só pode ser feita com um envolvimento muito alargado de promotores, de parceiros em várias áreas, de curadores, de designers, claro, e faz-se para o público. Queremos que a consolidação da Porto Design Bienal seja feita também através de um feedback crítico: interessa-nos que os vários média divulguem, mas também que existam olhares sobre a bienal que nos permitam repensar algumas propostas e melhorar o próprio desenho programático. No fundo, é isso.

 

A Porto Design Biennale dá-se a conhecer no dia 19 de setembro com a inauguração das exposições Frontiere – Expressões do Design Contemporâneo, na Casa do Design de Matosinhos às 15h00, e Millenials – Design do Novo Milénio, às 18h00 na Galeria Municipal do Porto, esta última com curadoria do José Bártolo. Sabe mais sobre a Porto Design Biennale, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Inês D’Orey
A Porto Design Biennale é parceira do Gerador

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