A poucos dias do arranque da 16.ª edição do IndieLisboa, fomos espreitar os bastidores do festival que assume, hoje em dia, um papel fulcral na divulgação do que melhor se tem produzido no panorama do cinema independente. Por outro lado, sendo um festival português, com projeção internacional, o IndieLisboa tem funcionado também como rampa de lançamento para os novos realizadores portugueses, que encontram no circuito dos festivais, uma alternativa às lacunas do sistema de distribuição cinematográfica em Portugal.

O Gerador esteve à conversa com Nuno Sena, um dos programadores do IndieLisboa, sobre a história deste festival, que está a dois anos de atingir a “idade adulta” e cuja longevidade ajudou a provar que era possível fazer um festival com estes moldes em Portugal.

A par desse aspeto, ao longo desta entrevista fez-se um balanço dos 16 anos de IndieLisboa – que ajudou a fundar juntamente com Rui Pereira e Miguel Valverde -, falou-se da programação deste ano, mas também das grandes transformações no cinema, quer ao nível das novas linguagens cinematográficas, quer ao nível da construção de públicos. Numa era de pós-cinema ou não, a verdade é que a seleção deste ano realça uma preocupação dos programadores: que os filmes programados tenham um pé no passado e outro no futuro e que, acima de tudo, nos apresentem um “olhar renovado” face àquilo que nos rodeia.

Gerador (G.) – O IndieLisboa chegou à sua 16.ª edição. Perto de atingir a maioridade, qual o balanço que fazes do festival até hoje?
Nuno Sena (N. S.) – Como alguém que está ligado ao festival desde a sua fundação, o balanço é, obviamente, muito positivo. Falamos de um projeto que nasceu da iniciativa de três amigos que tinham vontade de trabalhar juntos na área do cinema, sendo que, quando começámos, o panorama de festivais em Portugal era muito diferente. Em 2003, quando a ideia apareceu, havia raríssimos festivais no país e os que existiam eram quase todos fora de Lisboa. Tinha existido durante muitos anos os Encontros Internacionais de Cinema Documental na Malaposta, havia em Lisboa dois festivais especializados, com algum sucesso, que eram o Queer e a Monstra, mas faltava um festival de cinema generalista que ligasse o contexto português a um contexto internacional com perfil generalista, isto é, sem fazer distinção entre curtas e longas, entre ficção e documentário. O Indie nasce com essa ideia e intenção, ou seja, de ser um projeto ligado ao cinema independente, capaz de cobrir todas as áreas e territóriosdeste campo, com autores que não fossem tão visíveis na distribuição comercial. O Indie apareceu sob esta ideia de que havia muitos cineastas que não estavam a ser vistos em Portugal e que era necessário recuperar esse atraso, através de uma mostra que fizesse a ponte com uma atualidade cada vez mais fervilhante e múltipla do cinema mundial e que não estava presente em Portugal, contendo também uma forte componente destinada ao cinema português.

G. – De 2004 até hoje, o festival foi deixando a sua marca e legado. Se tivesses que fazer uma sinopse desta aventura, qual seria?
N. S. – Eu diria que começa por ser um ideia arriscada, uma vez que as tentativas semelhantes no passado tinham resultado em projetos de curta duração. A longevidade do Indie mostra-nos um balanço de crescimento, de que era um evento temerário, mas que encontrou condições para se consolidar. Acho que, nesse sentido, o Indie serviu de inspiração para que outros projetos sentissem que havia espaço para existirem e, desde então, Lisboa transformou-se radicalmente em relação ao panorama de festivais de cinema. A verdade é que, em 2004, o Indie começa no Cinema São Jorge, à época uma sala moribunda, e, em 2019, essa sala acolhe cerca de 12 festivais por ano, entre outras mostras, algumas delas muito relevantes. Acho que, neste momento, Portugal tem excelentes festivais de cinema, alguns temáticos, outros ligados à curta-metragem ou virados para cinematografias mais periféricas. Conseguiu criar-se em Portugal um polo de programação cinematográfica que nos coloca no mapa da exibição alternativa. Isso não existia em 2004 e acho que é interessante que, passados 16 anos, não só o Indie está maior e mais forte, mas muitos outros eventos também ganharam essa força e capacidade. Neste aspeto, acho que houve uma vaga de fundo, que teve que ver com mutações na área da distribuição cinematográfica e digamos que houve transferência de público órfão de iniciativas de exibição independente que encontraram nos festivais um porto de abrigo para continuarem a ver esse cinema que procuravam e que por várias razões já não chegavam às salas portuguesas.

G. – O IndieLisboa nessa perspetiva funcionou como ignição, concordas?
N. S. – Nós esperamos que sim. Que tenha servido de inspiração e de exemplo de que era possível fazer coisas interessantes nesta área, através de projetos de pequena dimensão que podiam ganhar escala e impacto.

G. – O Indie tem assumido uma postura independente e que dá grande visibilidade ao que melhor se faz no cinema contemporâneo. Notas, hoje em dia, uma maior abertura por parte público, para este tipo de linguagens cinematográficas?
N. S. – Se nos detivermos apenas num critério quantitativo, e se compararmos os números da primeira edição com a de 2018, estamos a falar de um crescimento na ordem dos 300%. Ou seja, esse público foi crescendo, sendo que houve anos de quebra e outros de retoma. Lembro-mede que a primeira edição teve 12 mil, a segunda teve 17 mil, portanto, houve uma tendência de alargamento de público. Claramente, acho que há, hoje em dia, muito mais espaço para as propostas do Indie do que havia em 2004. Também existe muito mais oferta. Se calhar, em 2004, as oportunidades para ver este tipo de cinema eram mais raras e, em 2019, elas multiplicam-se ao longo do ano. Acho que há festivais que, não sendo obviamente coincidentes com o Indie, tocam-se de alguma maneira. Quando se fala de festivais como o DocLisboa é evidente que o Indie tendo, desde a primeira edição, uma percentagem de filmes documentais muito forte, atrai, nessa componente, o mesmo público. Assim como o público que quer ver curtas no Indie também o deve fazer no Córtex ou no Curtas de Vila Conde. No fundo, há um crescimento destes públicos sustentado, porque também, ao longo destes anos, pelo menos o Indie apostou imenso na formação de públicos, não só criando relações diretas com escolas e universidades, mas também com o público em geral, com secções como o IndieJúnior e que foi o berço de muitos espectadores que hoje têm 18, 19, 20 anos e que hoje são espectadores assíduos do IndieLisboa. É um efeito de continuidade interessante e é curioso que haja realizadores presentes este ano no Indie, que algures no passado foram espectadores do IndieJúnior e que nos dizem, aliás, que essa foi uma das razões para o nascimento da vocação. Sem dúvida, que há um efeito sustentado, de alargamento de públicos que hoje estão mais disponíveis e curiosos.

G. – Existem hoje também mais festivais que, em linhas semelhantes, procuram dar voz aos novos autores. Os festivais de cinema devem estar preocupados com essa abertura aos novos autores?
N. S. – Sim, temos de fazer uma triagem entre autores que surgem a trabalhar em cinema e terem em conta que estes podem ser recursos interessantes no futuro. O Indie tem sempre a preocupação de quando programa cinema português, fazê-lo para o espectador português, mas também para uma possível plateia internacional, sejam jornalistas, críticos ou distribuidores, que vêm à procura da nova produção nacional e que possa ter uma relevância fora de um contexto estritamente local. Nesse sentido, o Indie tem sido uma rampa de lançamento de novos autores portugueses. Esta edição do Indie tem, a título de exemplo, 50 filmes portugueses no total. Nem todos terão esse percurso internacional à sua espera, mas nós tentamos que tenham. Vamos lançados e apresentá-los de forma que possam ser vistos nas condições ideais, quer por parte do publico português, quer por parte de um público especializado que vem ao festival também devido ao cinema português.

G. – Faz parte, digamos, do vosso modus operandi.
N. S. – Sim, sobretudo desde há três anos em que se criou a agência Portugal Film, que funciona dentro da Associação IndieLisboa, mas que tem como objetivo primordial a promoção internacional de cinema português. A agência funciona ao longo do ano e, durante o festival IndieLisboa, organiza uma iniciativa de caráter mais reservado, para um público especializado que vem ver filmes portugueses, alguns deles ainda inacabados. Filmes que não estão na programação oficial, mas que estão na expectativa de encontrar o interesse de programadores estrangeiros.

“O Indie tem sempre a preocupação de quando programa cinema português, fazê-lo para o espectador português, mas também para uma possível plateia internacional”

G. – Tendo em conta esse aspeto da distribuição, concordas com a visão de que o Indie ajuda hoje a colmatar as falhas na distribuição de filmes em Portugal? Preocupa-te que isso se torne, cada vez mais, uma evidência?
N. S. – Isso não é de todo desejável. O Indie não pode ser a solução para os problemas de distribuição do cinema português em Portugal. Pode ser um reforço de visibilidade em termos internacionais, mas como podes imaginar estes cinquenta filmes portugueses que vamos exibir este ano, dificilmente têm espaço nas salas de cinema comercial em Portugal. Poderão ter percursos diferentes, entre um circuito de cinema alternativo ou de cineclubes – que, apesar de tudo, ainda funciona em Portugal –, mas o festival acontece ao longo de 12 dias. Quando acabam esses filmes, têm de garantir que têm a possibilidade de serem vistos novamente. Nessa batalha, o trabalho do Indie não é suficiente. Sentimos muito desse feedback, por parte dos realizadores, de que não há espaço para estrearem nas salas mais comerciais, por várias razões. Porque o circuito é pequeno, está na mão de poucos programadores e porque esses não têm capacidade para investirem a sério no cinema português. São vários bloqueios que nem todos têm a capacidade de furar. Além destes aspetos, é também inquietante o número de espectadores do cinema português em sala ao longo dos últimos anos. É como se existisse, hoje em dia, duas velocidades: a dos filmes portugueses nos festivais, que é de grande intensidade e a dos filmes portugueses no circuito comercial, que é fraca. Este desfasamento não é fácil de explicar nem de resolver. Além disso, muitos dos filmes que estreiam têm um tempo de exibição bastante condicionado, sem ter tempo para um efeito de passa-a-palavra. Assim sendo, muitas vezes um filme português está condenado logo na primeira semana de exibição, o que limita o seu alcance. É um bloqueio que só se resolve, muito provavelmente, com uma intervenção pública na área da distribuição, com mais apoios e com a capacidade de o Estado em conseguir que essa promoção interesse ao exibidores.

G. –  Ao longo da sua história, o festival foi também ganhando uma postura mais internacional. Em que medida é que essa estratégia alterou o percurso do IndieLisboa?
N. S. – Mais do que alterar, essa estratégia ajudou a consolidar o festival, que nasceu com essa ambição de ser, desde o início, encarado como um evento português de projeção internacional. De se constituir num evento em que Portugal poderia ter acesso a um conjunto de obras de atores, da primeira linha do cinema mundial, independentemente do seu estatuto. Isto é, um jovem realizador filipino pode ser tão relevante no Indie quanto um veterano francês. Este ano, temos, aliás, um bom exemplo, olhando para as retrospetivas que estamos a programar. Temos, por um lado, a Anna Karina, um dos nomes grandes do cinema francês e da Nouvelle Vague e, por outro, uma retrospetiva de homenagem ao jovem cinema brasileiro, em que um dos critérios de seleção foi o de não se escolher nenhum autor que já estivesse a filmar em 2004. Mais do que uma perspetiva, falamos de uma prospetiva de autores que vão estar presentes ao longo dos próximos anos e na frente de uma certa linha do cinema brasileiro ligada ao novo cinema brasileiro do Glauber Rocha e do Júlio Bressane. Estamos a falar de filmes que foram escolhidos não só porque são provocatórios em termos cinematográficos, mas que também tentam apresentar questões perante um determinado momento histórico do Brasil. Para dar um contexto, falamos de um cinema pós-impeachment, visto que, em 2019, passam 25 anos sobre a retomada do cinema brasileiro na sequência do impeachment anterior de 1992, em que o Collor de Melo foi afastado, ele que tinha sido responsável pela eliminação quase total do cinema brasileiro. O seu afastamento permitiu a retomada. Acreditamos que, depois disso, o cinema brasileiro atingiu em 2018 um ponto ímpar dos últimos 25 anos. Agora existe de novo o medo que desapareça.

G. – Face a essa tendência de que falas no cinema brasileiro, acreditas que existe hoje uma tendência do cinema agregado a uma preocupação com o que está a acontecer no panorama político e social?
N. S. – No caso do cinema brasileiro, o mais interessante é que existe uma profunda consciência do momento histórico. Quando analiso o panorama, é sempre no cinema brasileiro que vejo essa ligação muito forte entre realidade e arte. A grande proposta foi sempre a de pôr o cinema brasileiro a olhar para o Brasil. Não para um Brasil mitificado, mas o Brasil das classes excluídas, dos marginais, da luta por questões de trabalho, direitos de minorias, note-se, por exemplo, o regresso da questão indígena. No fundo, falamos de um cinema que reage de forma muito direta àquilo que está a acontecer. Obviamente que qualquer cinematografia tem esta capacidade e os filmes podem refletir sobre o que são as sociedades. Falou-se muito há uns anos do cinema romeno ou do cinema iraniano, mas no cinema brasileiro é muito interessante ver, por exemplo, que há filmes como o Divino Amor (Gabriel Mascaro, 2019) e que se passa no futuro, mas que também fala sobre o Brasil agora, com questões ligadas ao regresso de um certo conservadorismo moral e a uma apologia a certos valores tradicionais; o filme é sobre isso, mas não diretamente. Diria que desde o Glauber Rocha, todo o cinema brasileiro é muito politizado, direta ou indiretamente.

G. – Estamos num ponto de ebulição e de rutura com uma certa tradição cinematográfica para dar lugar ao aparecimento das novas gerações de autores?
N. S. – A idade dos autores não é o mais importante. Fala-se em reforma, mas em princípio um realizador nunca se reforma. É o chamado espírito à Manoel de Oliveira. As gerações do cinema cruzam-se, e o mais interessante é que esse cruzamento permite que um realizador de 20 anos seja profundamente influenciado por um de 80. O espírito do Indie é esse. Este cruzamento geracional implica olharmos para os filmes naquilo que eles representam no diálogo com uma certa tradição, mas sobretudo com o momento presente e na capacidade de fazer algo novo. Não se fala, obviamente, de inventar a roda, mas de procurar em cada novo filme trazer qualquer coisa de original a esta tradição. Fazer outra vez, mas trazer algo que vem do próprio universo idiossincrático de cada criador. Como se cada criação encerrasse uma recriação. Acho que os grandes autores do cinema contemporâneo devem ter um pé no futuro e outro no passado.

G. – Como é que foi pensada a programação deste ano?
N. S. – Bom, é um trabalho de uma equipa grande de programadores, na qual me incluo, composta por 14 pessoas. Estas pessoas têm, no fundo, um trabalho de decantação. Isto é, estamos a fazer uma prospeção daquilo que nos vai chegando e vamos também à procura de novos filmes. A nossa responsabilidade maior é não deixar de fora aquilo que é importante e tentar não mostrar coisas que sejam, eventualmente, menos conseguidas. O espaço do Indie não é infinito. Por isso temos a responsabilidade de escolher bem, o que significa que temos de acreditar que os filmes escolhidos são potenciais renovadores do nosso olhar e da nossa relação com o cinema. E que este olhar partilhado com outras pessoas seja também validado. Preocupa-nos que os filmes que partilhamos possam encontrar o seu público. Fazemos este festival porque acreditamos que estes filmes são válidos e merecedores do olhar de muita gente. Temos deter a capacidade de criar interesse no espectador. É claro que um festival tem as condições ideais para criar este interesse, porque é produzido e organizado segundo uma estratégia intensa de comunicação.

Nuno Sena é, juntamente com Rui Pereira e Miguel Valverde, um dos fundadores do IndieLisboa

G. – O que destacarias da seleção deste ano?
N. S. – Começando pelo cinema português, acho que temos uma boa seleção e que reflete um ano forte para a produção portuguesa. Há filmes de autores que já têm um percurso reconhecido, como é o caso da Margarida Gil e do Júlio Alves, assim como de novos autores. Na componente do cinema português, existem apostas muito fortes, em especial na curta-metragem, que no Indie sempre foi um espaço de maior amplitude demográfica e onde se cruzam diversas gerações. Além disso, continua a ser um formato privilegiado de entrada no cinema e, portanto, os novos autores, no caso das curtas, estão amplamente representados, assim como na secção novíssimos, que desde há 4 anos tenta dar espaço a autores, muitos deles ainda estudantes de cinema. A secção de novíssimos tem sido interessante como viveiro de talentos, com realizadores que estão a dar os primeiros passos e que ganham uma visibilidade acrescida. A secção é encarada com uma missão maior, até porque o filme vencedor passa a estar representado pela Portugal Film. No ano passado, dois dos filmes apresentados, vindos um contexto escolar, foram apresentados no Festival de Cannes e no Festival de Berlin. Há aqui qualquer coisa que mudou. Era impensável há 10 anos haver filmes de escola a competir em festivais de Classe A, e isso já está a acontecer.

Temos ainda a secção Silvestre, também competitiva, mas em que esse aspeto é menos importante. Falamos de uma secção com um grande cruzamento de cineastas e onde são apresentados, simultaneamente, filmes que são ‘primeiras obras’ e filmes de autores com percurso feito, como o Mike Leigh.

Há uma lógica muito orgânica dentro do festival. No fundo, cada secção não fecha demasiado aquilo que mostra, sendo que existem filmes que podem estar em mais do que uma. Gostamos muito dessa lógica integrada, e todas as secções partilham destes valores. Ou seja, um filme não está na secção do IndieMusic por ser só sobre música. Está porque, para além do seu interesse temático, pode trazer, eventualmente, uma proposta interessante, em termos de linguagem cinematográfica. No IndieJúnior sempre defendemos, a título de exemplo, que nunca iríamos programar nada apenas porque era para crianças e jovens e que os adultos não tivessem interesse em ver. Acima de tudo, não programo nada que eu próprio não quisesse ver. Além disso, temos de perceber que o cinema de autor depende muito dos festivais até porque a importância de muitos destes realizadores não se mede pelo número de espectadores que fazem no seu próprio país, mas sim por todo um contexto internacional. Daí que o cinema independente, através dos festivais, seja hoje em dia um fenómeno globalizado. Os autores portugueses beneficiam disso. O Pedro Costa é um cineasta conhecido em todo o mundo, não apenas pela distribuição comercial, mas sobretudo pelo papel dos festivais que foram fazendo um acompanhamento do seu trabalho. Se retirasses os festivais da equação como circuito paralelo, metades destas carreiras, muito possivelmente não tinham existido.

G. – Falaste do IndieMusic. Essa secção tem sido uma aposta importante da vossa parte?
N. S. – Nessa secção, creio que houve algum pioneirismo da nossa parte. A verdade é não havia, pelo menos na maior parte dos festivais, uma apresentação mais embrulhada desses filmes. O que aconteceu é que, a partir dos anos 2000, começaram a aparecer festivais temáticos que deram espaço a documentários sobre questões relacionadas com música, mas foi um fenómeno que nos surpreendeu. Em 2004, é verdade que já havia alguma produção, mas que era baixa em relação ao que existe hoje. Este ano, temos selecionados cerca de 17 filmes, mas provenientes de um conjunto de 80 ou 90 filmes. Quando começámos, em 2004, não havia sequer 10 filmes sobre temas musicais para vermos. A secção surgiu mais tarde e, no fundo, correspondeu a este fenómeno. Num festival como Indie, ou davas espaço a este tipo de linguagem dentro de outras secções ou teria de se criar um espaço autónomo. Tem corrido muito bem e até promovemos a ligação da secção à programação do Indie By Night, que consiste num conjunto de concertos e festas que acontecem ao longo dos 12 dias do festival.

G. – Quando falaste do IndieJúnior, realçaste a componente da formação de públicos. Além disso, é uma secção que hoje tem extensões noutras cidades. O balanço dessa experiência é positiva?
N. S. – O IndieJúnior tem as condições ideais para essa exportação. É quase um festival dentro do festival. Acresce o facto de ser uma secção trabalhada de forma autónoma em termos de comunicação e que acontece ao longo do ano. O mais interessante é que IndieJúnior autonomizou-se e foi por isso que, há dois anos, criámos no Porto o IndieJúnior Allianz que não é igual ao IndieJúnior Lisboa e que vai mais longe em termos etários (vai dos 3 aos 18) e com iniciativas próprias. Muitas das coisas que fizemos no IndieJúnior Porto estamos agora a repetir em Lisboa, e, por isso, o festival no Porto tem funcionado como pretexto para experimentarmos novas coisas.

G. – A questão das extensões já foi equacionada para outras secções do festival?
N. S. – Sim, mas eu diria que há um limite e que, por agora, nós queremos apostar no crescimento da nossa matriz em Lisboa. Ou seja, o festival em Lisboa ainda não esgotou o seu potencial de público. Estamos muito contentes com os 37 mil espectadores do ano passado, mas sabe-nos sempre a pouco. Era importante que o IndieLisboa tivesse pelo menos 50 mil espectadores para se consolidar. Os festivais de cinema em Portugal, independentemente de serem iniciativas meritórias, são quase sempre frágeis. É evidente que 16 anos dá-nos alguma estabilidade em termos de experiência e equipa, mas continuamos a falar de estruturas que em termos de financiamento estão sempre muito dependentes de apoios.

G. – Mantêm uma forte ligação com a Allianz. Essa questão do mecenato privado é também sentida por vocês enquanto organização?
N. S. – Sim, diria que a Allianz é talvez o exemplo mais feliz entre essa cultura de mecenato e um evento cultural. Nós tínhamos tido outros, mas a importância deste patrocinador está também a sua longevidade. A Allianz está connosco pela 5.ª edição seguida e no Porto (IndieJúnior) está há três edições. Ou seja, não só se manteve como reforçou o seu apoio. Aquilo que temos retirado daí é um trabalho de total liberdade. Apresentamos propostas que visam reforçar o apoio da Allianz, eles consideram, mas nunca, em momento algum, interferem com as nossas escolhas. Isso tem sido importante. Há um respeito pelas áreas e acho que o resultado tem sido interessante também para eles. Falta muito essa cultura de mecenato em Portugal e, quando olho para os valores de apoio, isto é, para áreas como o cinema, o teatro e a dança,acho sempre que são muito baixas em relação a outros campos da cultura.

G. – Todos os anos, fazem-vos a mesma pergunta, mas cá vai: como é olham para o atual panorama do cinema português?
N. S. – Já fui mais pessimista. Estava a pensar nisso há pouco tempo, tendo em conta o ano de 2004, quando o Indie começou. Tínhamos um conjunto de filmes portugueses, bastante válidos, e onde premíamos a primeira longa-metragem do Sérgio Tréfaut e a primeira longa do Miguel Gomes.

G. – Portanto, dois autores que depois conseguiram trilhar o seu caminho.
N. S. – Exatamente! Penso: «em 2004 acertámos, espero que, em 2019, também estejamos a acertar.» Mas sobretudo o que mudou foi que, em 2004, a programação do Indie foi feita com muito poucas opções. Construímos uma secção portuguesa muito digna, mas efetivamente o retrato do cinema português estava bem dado no Indie desse ano. O retrato do cinema português em 2019 já não cabe no Indie. Há um efeito de crescimento do núcleo português, nomeadamente naquilo que é o núcleo duro da produção mas, neste momento, a multiplicidade de autores, em termos geracionais é muito maior. Ou seja, a estufa do cinema português é, atualmente, muito mais aberta, muito mais arejada e é impressionante a quantidade de novos autores que aparecem todos os dias.

“A estufa do cinema português é, atualmente, muito mais aberta, muito mais arejada e é impressionante a quantidade de novos autores que aparecem”

G. – Estamos perante toda uma geração de rostos renovados?
N. S. – Completamente. No caso da seleção deste ano, estamos a falar de cerca de 50 autores portugueses, obviamente de diferentes escalas, mas quando olho para 2004, essa transformação para o panorama atual só pode ser encarada como positiva. E isso também é verdade para as produtoras, como O Som e a Fúria ou a Terra Treme que apareceram nos últimos anos. Estamos perante uma paisagem muito mais diversificada e aberta.

G. – Há uma nova geração de cinéfilos. Como olhas para esta tendência?
N. S. – Sim, é também um panorama que mudou bastante. E é interessante como o nosso próprio comité de seleção espelha um pouco essa tendência, seja pelas idades, seja pelas áreas de formação. Entre o mais jovem e o mais velho programador, estamos a falar de mais de 30 anos de diferença. Portanto, é obvio que, quando nos sentamos à mesma mesa a discutir os filmes, eles vão ter referências diferentes. Mas esse diálogo tem sido fundamental para a construção do Indie. Ter em conta a atenção dos mais jovens programadores às novas imagens suplanta as escolhas dos mais veteranos. Por defeito, por feitio ou por formação, a verdade é que os mais jovens estão muito atentos a estes autores e, sobretudo, à importância, dentro dos seus filmes, das novas imagens, nomeadamente à criação das mesmas para contextos de instalações artísticas ou da própria incorporação da imagem do computador numa estética cinematográfica. Este ano temos, por exemplo, um filme em competição que era impensável há 15 ou 16 anos, porque é construído essencialmente com imagens da Internet. Mas é interessante ver que está tão bem relacionado com o contexto que vivemos de aceleração, de tratamento de imagens e de consumo audiovisual.

G. – Se tivesses que definir essa imagem do que é hoje o cinema, dirias que está um pouco nessa linha do chamado pós-cinema?
N.S. – Não gosto muito do conceito. Acho que o cinema é um contínuo e dentro dele cabem muitas declinações. Essa conceção de pós-cinema tem, para mim, um dado interessante que é efetivamente a profusão de imagens que já não vêm diretamente de uma tradição ficcional ou documental. Isso parece-me evidente. Há hoje tantas imagens produzidas que não vêm de um contexto cinematográfico e que são incorporadas pela máquina ‘cinema’. Agora, o pensamento cinematográfico não deixa depois de as reformular. A mudança de contexto dessas imagens, da Web para uma sala de cinema, permite que elas adquiram um peso e uma estrutura que eu continuo a associar a uma tradição de cinema. Estes autores de que estamos a falar são bons exemplos disso, porque sendo muito novos fugiram a uma formatação cinéfila. Há hoje muitos autores que não viram filmes em sala e, por isso, o valor das imagens é diferente daquele que é tido no cinema convencional. É interessante ver esta mutação, mas mais do que lhe chamar pós-cinema, continuo a achar que é o princípio de um trabalho de olhar para imagem e de lhe atribuir um novo sentido, o que ultrapassa uma lógica mais efémera ou imediatista.

Entrevista de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Andreia Mayer

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