Na semana em que se comemoram 45 anos da Revolução de Abril, o Gerador reúne em Oeiras, três atores portugueses para uma conversa sobre Liberdade. Susana Arrais, uma das oradoras do painel, é, hoje em dia, uma cara conhecida da ficção nacional. A atriz começou pelo teatro, passou para a televisão mas não descorou na formação e na importância de “sermos interventivos em sociedade”, precisamente pela liberdade que nos foi dada em democracia.

Com 15 anos começou a fazer teatro, num grupo amador ligado ao Liceu de Oeiras, onde passou a sua adolescência. Nessa época, já no ensino secundário, estudava artes plásticas e tinha como objetivo seguir essa área de formação no ensino superior. No entanto, o bichinho da representação começou a ganhar terreno faço àquilo “que seria a escolha mais normal, de ir para Belas-Artes, por exemplo”, conta.

“A certa altura, o teatro começou a ter um impacto mais pessoal na minha vida, tão forte que não consegui deixar de o fazer”, explica, realçando que, ainda assim, achava na altura que se trabalhasse na área do espetáculo estaria ligada, muito provavelmente, à cenografia ou à direção de figurinos.

Desafiada por um amigo, acaba por fazer as provas para a Escola Superior de Teatro. “Quando comecei a subir rua no Bairro Alto (onde estava o Conservatório Nacional), fiquei empolgada com aquele mundo tipo Fame. Lembro-me de pensar «tenho que tentar isto!»”.Com opção de escolha em duas áreas – uma de formação de ator e outra de realização plástica do espetáculo – Susana teve um daqueles momentos de decisão rápida mas suficientemente assertiva: “escolhi a de teatro e fiquei”.

A partir daí esteve três anos a fazer a formação de ator, que antes era bacharelato, e depois uma formação chamada CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) que, para quem tinha a formação de ator, conferia a licenciatura.

É também nessa época que tem a sua primeira experiência em televisão. Estávamos em 1997 e foi para uma série da RTP chamada “Riscos”. A par desse momento, Susana Arrais destaca também um casting para a série “Espírito da Lei”, em que seria escolhida para o papel de protagonista.

“Nessa altura achava que a televisão era uma coisa muito complicada e que não tinha muito quever comigo, no entanto era uma dimensão da profissão que tinha escolhido que ainda não tinha testado”, sublinha.

Tal como o teatro, o “bichinho da televisão” ficou e a partir daí tornou-se, gradualmente, num rosto conhecido da ficção nacional, tendo passado por inúmeras novelas de sucesso como os Morangos com Açúcar, Ilha dos Amores, Deixa que Te Leve, Meu amor e Mulheres.

No teatro, que não deixou de lado, Susana Arrais tem investido na vertente do teatro infantil, “que tem o público mais exigente de todos”, sustenta. Presente está também a vertente da educação, que a levou a fazer mestrado em Educação Artística e a dar aulas a jovens atores.

Ao questionar-se sobre o que significa ter uma carreira no mundo da representação, Susana Arrais advoga sobretudo que, nos dias que correm é preciso “estar sempre em aprendizagem, caso contrário estagnamos”.

Por outro lado, e olhando para o panorama audiovisual, Susana Arrais está bastante consciente das mudanças, adjacentes ao advento das novas plataformas digitais. “A televisão tal como a conhecemos está a mudar e vai ser muito diferente em pouco tempo, por isso temos de nos reinventar, criar outras coisas. Há novas plataformas, coisas novas a acontecer e temos de estar disponíveis para vivermos nesse mundo”.

A televisão é um meio privilegiado para se chegar a mais gente, mas, acima de tudo, as escolhas profissionais que faz, tem de fazer sentido e partir de uma motivação com liberdade.“Estou naquela fase da vida em que vejo muita gente a reinventar-se, com um outro questionamento do mundo. Vejo colegas da minha geração com uma grande força e liberdade. Adoro a energia dos mais jovens, que querem provar o que valem. Chegas a esta fase e há uma certa liberdade que se ganha”.

Ainda no plano da formação, para a atriz, falta mudar o sistema de ensino, no qual o campo artístico não seja negligenciado ou esquecido. “Esse tipo de formação devia estar muito mais integrada no sistema educativo e devia ser algo natural”.

“Para se ser ator não há um percurso, há muitos caminhos possíveis. Eu valorizo muito a formação, mas independentemente disso, faz me muito confusão que o sistema esteja feito para que as crianças sejam todas iguais e para que cheguem todas aos mesmos patamares, na mesma altura da vida. Isso é horrível. Uma pessoa que seja mais artística talvez não chegue ao mesmo nível na matemática, mas ao contrário isso também acontece”, acrescenta.

Pensando no conceito de liberdade, a atriz considera que não basta anotar estes e outros problemas numa lista para depois recitar. “Imagino que se vivermos num regime de opressão essas condicionantes serão decisivas. Nós não vivemos nesses contextos e por isso temos liberdade efetiva para o nosso impulso artístico. Desta forma, todos nós atores, temos a responsabilidade da ajudar a formar públicos e assim, tirar partido da liberdade que antes não tínhamos”, salienta.

Susana Arrais vai integrar a conversa “Três Atores Falam sobre Liberdade” esta quinta-feira, dia 25 de abril, às 16h00 na Galeria Verney, em Oeiras. Junta-se a Almeno Gonçalves e Pedro Górgia para uma conversa em que se pretende explorar o papel da liberdade no dia a dia de cada um de nós e, mais concretamente, no universo da representação. Sabe mais sobre esta conversa, aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de João Silveira Ramos

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