Depois de reabrir as suas portas, a Central Gerador apresentou iniciativas e remodelações de espaços que abraçam a sustentabilidade e revelam-se essenciais à comunidade. A esplanada, que conta agora com um ecojardim não foi exceção.

Partindo das mãos e dos olhares da associação Mergulho Urbano, composta pelxs mais diversos artistas, entre eles, Ivone Fernandes-Jesus, Michele Barbuscia, Euge Nia e Massimiliano Sarta, o ecojardim percorre aquele que seria parte de um local utilizado para estacionar carros e difunde-se na esplanada da Central. Construído naquela que os artistas denominavam de “autoestrada” pela presença assídua dos automóveis, a intervenção da associação passa pelas mais diversas temáticas e campos como a sustentabilidade, a arte e a cultura.

O Gerador esteve à conversa com Ivone Fernandes-Jesus e Michele Barbuscia. Passando pelo processo de criação do jardim, os desafios, as preocupações, a importância das intervenções da associação e a consciencialização sustentável chegamos a uma esplanada, num dia de sol, onde o contacto com o criar e estar é a regra base.

Gerador (G.) – Partindo deste primeiro contacto, como é que surge a relação entre a Associação Mergulho e o Gerador?

Ivone Fernandes-Jesus (I. F.-J.) – Na verdade, começa porque eu trabalhei na Central Gerador, antes da central ser Verde. Trabalhei lá há cerca de dois anos, quando abriu, e como estávamos a criar a Mergulho em simultâneo, eu trouxe sempre estas questões para cima da mesa. Achava que nós devíamos de ser mais verdes, fazer a reciclagem... Eu stressava imenso porque, inicialmente, não se fazia reciclagem, lá. Comecei a tentar implementar estas coisas e, depois, achávamos que a esplanada estava muito pouco aproveitada e foi então que começamos a pensar num projeto para lá. Começamos com o Mergulho. Estávamos a fazer uma outra intervenção no Arroz Estúdios e começamos a pensar: “seria incrível fazer aqui um jardim verde”. Na verdade, nós queríamos fazer todo o pátio, mas como sabes não é fácil. E como o outro lado, já tem aquele Glicínio lindo, tentámos trazer um bocadinho disso para cá (pátio). Fizemos a apresentação ao Tiago Sigorelho (Central Gerador), e ele gostou muito. Pôs-nos em contacto com a Junta para avançarmos com o projeto. Fazendo um apanhado geral, na verdade surgiu porque eu estava na Central. Depois, o Gerador também começou por ter estas preocupações e nós dissemos logo que achávamos que poderíamos ser parceiros e fazer alguma coisa. Entretanto, meteu-se a pandemia e, isso, levou a que demorasse bastante tempo a começar. Nós já tínhamos apresentado antes, aliás, nós íamos começar e eu ainda trabalhava lá.

Michele Barbuscia (M. B.) – Sim, nós íamos começar por volta de fevereiro ou março. Já tínhamos tudo combinado com todas as entidades responsáveis. Tínhamos o nosso caminho traçado. Naquela semana. Já estava combinado tudo mesmo com tudo. Traçou um caminho claro.

G. – É também interessante partirmos dessa evolução. Já existiam preocupações em abraçar estas questões, ou seja, fazer da Central Gerador um local mais sustentável...

M. B. – Sim, esta preocupação era geral. Ao falarmos com o Tiago e ao apresentar-lhe o projeto deu para perceber que era uma preocupação dele, já há muito tempo, de reaproveitar um bocadinho esse espaço, do pátio, do Largo das Conchas, que começou por se encher de carros, sendo usado como um estacionamento. Esta era uma preocupação do presidente da Junta também. É engraçado de ver como estava tudo certo. Estavam todos de acordo. Foi muito simples. Não tivemos de convencer propriamente alguém, ou seja, não significa que não tenham surgido algumas dificuldades ou que não as tenhamos sentido, mas o caminho estava, de facto, aberto. Estavam todos prontos a receber esta proposta.

G. – Ainda sobre a evolução, acreditam que já existe esta preocupação, não só por parte da Central Gerador, mas também por quem a frequenta e procura?

I. F.-J. – Eu acho que há uma abertura no geral, ou seja, a comunidade, o mundo inteiro começa finalmente a abrir os olhos para certas preocupações. Para nós, é muito interessante assistir a isto porque o Mergulho juntou-se numa fase em que não haviam intervenções; não havia esta preocupação; mesmo na comunicação social não se falava tanto sobre isto. Então sentíamo-nos um bocadinho os rebeldes que querem fazer uma coisa que já era feita noutros países, como é o exemplo de Itália e Berlim. Nós fomos buscar muito dessas capitais que já tinham uma questão verde. Quando Lisboa foi considerada Capital Verde Europeia, nós ficamos muito entusiasmados e tentamos perceber como é que podíamos fazer parte. Como somos uma associação muito pequenina não tínhamos os contactos nem trabalho suficiente para conseguir chegar lá, mas era uma grande oportunidade que, na verdade, não prescindiu de ter tanta coisa a acontecer por causa da pandemia, isto é, fomos Capital Verde durante a pandemia. Eu tenho a certeza de que se não tivesse sido assim, Lisboa ainda tinha feito um boom muito maior nestas questões, mas sim, é uma preocupação da comunidade e, finalmente, cada vez, mais de todas as pessoas. Em casa começa-se a fazer todas estas coisas que Lisboa nunca fez. Lisboa é uma cidade muito suja, muito despreocupada e tem que ver, pelo menos eu acho que sim, com o facto de como não somos um país rico, há sempre outras preocupações à frente e temos esta mentalidade de pobres que é um bocadinho, “se tu tens dinheiro, tu queres comprar coisas novas, então mandas tudo fora e optas por escolher IKEA porque é mais fixe”. Então, eu acho que finalmente começam as novas intervenções, os novos pensamentos começam a surgir e as pessoas começam a valorizar mais a recuperação, a reciclagem, o não estar sempre a comprar, a economia circular que, na verdade, é o futuro. Eu acho que toda a gente tem de caminhar nesse sentido para que o planeta sobreviva e, sim, está a acontecer e, o Gerador, como tem muita voz no setor é muito importante estar a fazer isto para chamar a atenção sobre tal.

G. – Atendendo a esta reflexão de espaço urbano e partindo das palavras da Ivone - que nos explicava esta realidade que acabou por ser afetada pela pandemia, ou seja, o facto de não existirem tantas intervenções, em Lisboa, que poderiam ter acontecido e não se sucederam - acreditam que podemos avizinhar, numa futuro próximo, uma evolução cada vez maior, não só no espaço urbano, mas também nos espaços culturais?

I. F.-J. – Sim. o nosso trabalho parte de Ambiente e Arte. Nós protegemos desta necessidade de encontrar maneiras de que a Arte e o Ambientalismo se fundam não numa ótica de Ativismo, ou seja, não numa ótica de fazer arte ativista, mas mais numa ótica de como é que a arte pode ter uma influência nesta mudança que aí vem. Alguns de nós somos artistas. Eu sou artista, o Mika [Michele] é engenheiro; temos arquitetos... A equipa muito multifacetada de maneira a criarmos esta ligação. Por isso é que as nossas intervenções, por agora, foram sempre em espaços culturais. Nós temos muita a ideia do espaço urbano e das pequenas intervenções, dos pequenos jardins, que é um bocadinho mais difícil porque nós queremos fazer tudo com autorização para não corrermos o risco de que o destruam. E isso leva sempre um bocadinho mais tempo. A questão dos teatros sustentáveis é uma coisa que, por exemplo, a mim sempre me chamou muita atenção e que é muito difícil porque implica uma questão tecnológica muito grande e isso implica um investimento a nível económico maior. Isto, para mim, implica começarem a ver investigações e trabalho de um campo superior. O Mergulho ia adorar, por exemplo, intervir no D. Maria II (Teatro) e transformá-lo num edifício completamente sustentável. Isso é um projeto de sonho, mas é um projeto que implica imensos financiamentos, parcerias com instituições mesmo para a energia. É inacreditável porque um teatro gasta imensa energia (os holofotes, o sistema técnico...), no geral, os eventos culturais.

I. F.-J. – Eu estou a fazer um mestrado em Gestão Cultural e estou a direcionar a minha tese por aí, para perceber como é que os eventos podem ser mais sustentáveis, não só a esses níveis das soluções naturais, porque essas já sabemos – os copos reutilizados e essas coisas – que, na verdade, não vão reduzir assim tanto o impacto, pois tens impactos maiores em outras coisas. Eu acho que é importante todos nós estarmos a fazer pequenas coisas, mas que as políticas têm que mudar neste sentido. O investimento tem de ser direcionado para este sentido, de maneira a que exista mesmo alterações maiores, principalmente a estes níveis institucionais de grandes edifícios, grandes teatros. Aí implica a questão de muito dinheiro ou de parcerias incríveis que nem todos temos. Ainda não existe esta ligação, mas acho que o caminho está aberto. Creio que as novas políticas europeias vão todas nesse sentido. É uma preocupação mundial. É positivo o caminho pela frente.

Em relação às cidades mais verdes, Lisboa tem, finalmente, apostado nisso. Está a ficar uma cidade verdadeiramente mais verde. Há mais urbanismo verde, parques e hortas. Há vários projetos também que ainda não estão a ser implementados, mas nós sabemos que existem várias coisas planeadas que vão acontecer no futuro, por isso, vemos mesmo que é um momento de mudança e, isso, é ótimo, a todos os níveis.

G. – Consideram que esta preocupação é também visível não só nos grandes centros, mas também nas pequenas cidades?

I. F.-J. – Sim, deve ser também por aí, ou seja, esta coisa de todas as cidades trabalharem isto individualmente. Lisboa, por exemplo, tem de funcionar mais como pequenas cidades também. Nós vemos pelas freguesias.

M. B. – Sim, as freguesias têm autonomia nas políticas.

I. F.-J. – Certo, mas existe a diretriz da câmara municipal que tem sempre de aprovar tudo, mas acho que este trabalho dentro das freguesias, assim como dentro das pequenas cidades, é a maneira mais certa de fazer, ao invés de estarmos, todos, a tentar fazer tudo na mesma freguesia. Dividir o território e ter o pessoal a trabalhar o mesmo, até porque é mais fácil trabalhar num território mais pequeno, em que consegues chegar a mais gente e consegues ir mesmo aos pontos com a comunidade perceber os seus problemas e tentar resolvê-los de maneira a levar para uma consciência mais verde e não dar apenas leis para toda a gente, em que a maioria não compreende.

G. – Numa vertente mais técnica, como descrevem esta intervenção? Além da organização e do aproveitamento do espaço, que recursos é que vocês acharam que seriam importantes utilizar?

I. F.-J – A nível de materiais, cerca de 90 % dos materiais foram todos reutilizados. Nós não compramos nenhuma madeira. Um dos nossos parceiros neste projeto estava a mudar de local e cedeu-nos imensa coisa que tinha no sítio antigo que ia só para o lixo porque iam para um sítio diferente, mais pequeno. Decidimos entrar em contacto com eles e disseram-nos: “Olha, nós temos imensa madeira venham buscar tudo o que quiserem.” Todo o jardim do Lumiar foi feito com a aquela madeira. Até os parafusos nós reutilizamos. Compramos apenas tinta, lixas e tudo o que foi necessário para tratarmos.

Em relação à primeira ideia, nós trabalhamos muito com o lixo , ou seja, ir às lixeiras e trazer tudo o que nós achamos que é possível e, por essa razão, as intervenções ficam ‘menos limpinhas’. A Central, esta ficou toda ‘limpinha’, porque nós tínhamos toda aquela madeira igual. Normalmente, é um bocadinho mais esquizofrénico porque temos janelas e portas. Talvez mais criativo. Quando acabamos aquele ficamos com a sensação que aquilo parecia um estúdio de arquitetura (risos), mas como tínhamos essa madeira ficamos por aí também.

Nós pedimos várias vezes autorização para ir à lixeira do Lumiar e não conseguimos. Não foi fácil. O contacto com a junta foi um bocadinho difícil, o que nos limitou muito a nível dos materiais. Coisas que nós não queríamos comprar à partida, como as calhas, por exemplo, isto porque, agora estamos a fazer a parte do reservatório de água para utilizarmos a água da chuva e estamos a ter várias dificuldades com isto, porque como não tivemos acesso aos materiais que nós tínhamos a certeza de que conseguiríamos tirar das lixeiras e reutilizar, estamos a investir nisso porque achamos importante fazer na mesma e como não vamos comprar as coisas em grandes superfícies, temos sempre de estar à procura de coisas reutilizadas e tentar ver o que é que se pode aproveitar.

Algumas tintas também que iam ser deitadas fora que eram impermeáveis; a terra, nós tiramos parte da terra de um local ao lado da Central que está cheio de terra, ou seja, retiramos parte dessa terra que era entulho e estivemos a tratar esse entulho. Filtramos e retiramos todo o lixo. Inserimos ainda composto caseiro e ainda o estrume, dos cavalos, doado pela GNR.

Em relação às plantas, muitas foram doadas, parte delas, eram da avó Teresa, que é uma avó de uma amiga nossa que morreu e os familiares decidiram chamar o Mergulho porque queriam desfazer-se de todas as coisas da casa, nomeadamente, as plantas. A partir delas também pretendemos partir do conceito de planta feia, isto é, pegamos em plantas que já estão a morrer ou que já ninguém quer e tentámos salvá-las.

M. B. – Sim, nós temos uma parceria com um viveiro, em que eles guardam-nos as plantas que não são muito bonitas ou que têm a mais da produção. A nossa ideia no futuro, assim que nos for possível ter um espaço para fazer isto, é ter sempre esta parte de viveiro, de recuperação, de tudo.

I. F.-J. – A outros níveis mais técnicos, aquela ideia de ilha que nós quisemos aportar muito a questão de estar em comunidade, ou seja, estás centrado e tens outra pessoa ao teu lado. Fizemos em direção ao palco para que as pessoas pudessem estar lá, no meio do jardim, a ver as atividades que aconteciam na Central. Pretendíamos criar ali uma espécie de Oásis, ou melhor, um pulmãozinho verde, em que as pessoas fossem ver as atividades artísticas que a Central fizesse e ligar isto com a nossa filosofia de espaços verdes, onde acontecem atividades artísticas e as pessoas possam comunicar com a Arte e estar ali, no verde, ser tudo reciclado e perceberem que se pode fazer desta maneira. Fizemos também o estacionamento de bicicletas. A ideia era promover e incentivar o uso das mesmas.

M. B. – Até porque o jardim foi feito fechando uma zona que era utilizada, em parte, como um estacionamento de carros. A nossa ideia e do presidente também era incentivar uma mudança de rumo, de costumes, quer dos trabalhadores, quer da comunidade das associações e da junta. Portanto, quisemos também criar uma zona interativa com bancos, onde as pessoas possam estar, viver, criar.

I. F.-J. – Exato, nós nunca fazemos intervenções de beleza, paisagem. É sempre para estar, para viver isso. Por isso é que temos muito os bancos de vasos. A ideia é que a comunidade interaja, esteja lá e toca nas coisas e não veja como uma coisa bonitinha que se vê de fora. Daí termos colocado também as ervas aromáticas de fácil acesso.

G. – Consideram que foi uma experiência positiva e que, apesar de algum entrave que possa ter surgido, houve sempre uma recetividade de ambas as partes?

I. F.-J. – Sim, sem dúvida. Toda a gente gostava do projeto e queria que acontecesse. Nós queríamos coisas que depois não aconteceram, mas ficamos muito satisfeitos com o resultado final e temos também algumas propostas a fazer ao Bica (Central) e para o Tiago (Central) para alguns eventos Mergulho, isto porque, nós temos também esta parte da cultura que ainda está pouco desenvolvida, o que é normal, porque quando crias um projeto com tantas componentes como a nossa são muitas coisas que ficam por fazer, mas nós consideramos que temos uma ligação com o Gerador que, no futuro, queremos desenvolver e fazer outras coisas.

G. – Qual é o próximo passo que podemos esperar do Mergulho, agora?

I. F.-J. – Nós, agora, estamos a focarmos em encontrar uma sede, para que nos seja possível ter uma base de segurança para fazer intervenções fora e fazer uma série de trabalhos dentro, porque temos muita vontade de trabalhar com uma comunidade específica, ou seja, trabalhar um bocadinho o território. Parar num sítio e fazer ali um trabalho mais intenso com aquela comunidade. Nós temos também uma necessidade de sentir, ver e avaliar também este processo de mudança. É importante percebermos se o nosso trabalho tem realmente impacto ou não. Não nos interessa fazer só imagens bonitas. Queremos realmente ter um impacto na sociedade. Por isso, estamos a concentrar-nos um bocadinho nisso. Acho que precisamos disso: fazer um trabalho com um território mais específico; desenvolver todas estas questões da economia circular; perceber qual é o papel da Arte nesta mudança. Nós temos muitos artistas na associação e muita gente que adora o projeto e que quer estar envolvida e, por isso, temos de começar a trazer todas estas disciplinas para dentro e não ficarmos só na intervenção física.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia da Central
Gerador

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