Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Espera Eterna

Um conto da autoria de Cláudia Oliveira, aluna do curso da Academia Gerador “Desarrumar a escrita: oficina prática”. Este conto foi selecionado para publicação nos canais digitais do Gerador pelo formador do curso, Samuel F. Pimenta.

Texto de Gerador

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Demorava mais a chegar a casa do que o normal. O meu coração já se inquietava quando o relógio me contou que eram dez menos vinte. Está um breu lá fora, e ver além dos quatro passos após a porta de madeira corroída, pelos longos anos e alguns ratos, é praticamente impossível. Sei sempre que quem lá vem é ele, pelo barulho ensurdecedor do trator. Desde a compra que o odeio. Ao trator, não a ele. A ele amo-o, tanto que me dói o peito quando penso por onde andará a estas horas. Comecei a fazer o jantar mal o sol se despediu, mas até agora aguardo, para não comer sozinha. Jantar sozinhos é para os que não se amam o suficiente para esperar, ou para os infortunados que não têm a sorte de amar.

Todas as noites que abre a porta e estou encostada à velha pequena bancada da cozinha, vem pé ante pé, pensando que não o ouço, abraçar-me a anca e beijar-me o pescoço. Cheira à terra que se lhe secou nas mãos e no rosto, misturada no seu cheiro natural, já amargo pelo dia passado. Oh, como eu detesto aquele cheiro! Mas hoje… Hoje não parece ter pressa em chegar e eu dava tudo para ter esse ritual rapidamente.

Abro a porta uma vez mais, espreito, tentando ver alguma coisa além do que a pouca luz das velas alumia lá fora. Acho que o ouvi muito distante, mas nunca mais chega.

Pego a manta preta, que até agora estava pousava num dos dois bancos encostados ao lume, embrulho-me e vou. Tenho de ir procurá-lo, esta espera está a comer-me a carne por dentro.

Conheço estes caminhos, mais do que me conheço a mim. Há trinta anos que os faço a pé, todos os dias, para tratar dos cultivos e dos animais, ou ir até à aldeia ver as minhas irmãs. Esta noite fá-lo um pouco mais difícil, pelo frio e a chuva de novembro.

Ouço o maldito trator a trabalhar, contudo, não o vejo no caminho de terra, transformado agora em lama e pedras soltas. As luzes apontam para onde não deviam. Está tudo fora de ordem. Está tudo de pernas para o ar. O sangue gela-me nas veias, por baixo da pele fina. Adormeci a olhar para a madeira a arder. São ainda horas de começar a fazer o comer. Têm de ser horas de começar a fazer o comer. Tenho de ter adormecido.

– Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Estou a dormir. Estou a dormir. – Ouço-me em voz alta, abafada pelo som da máquina.

Está tudo tão distante. Fora do lugar. Aquele maldito trator está fora do lugar!

As minhas pernas reagem, aproximo-me. Devagar. A correr. Ajoelho-me e vejo. Vejo-o.

Há um braço visível. Reconheço o blusão verde desbotado pelo sol, embrulhado em lama e chuva.

– CHICO!!!!! –  por favor… murmuro – CHICO!!!!!

A água tira-me a visão. Está tudo embrulhado com a chuva. Eu, ele, o maldito trator. Está tudo embrulhado na lama. Lá em baixo. Ele está lá em baixo, em cima das silvas, da vinha.

Corro até à aldeia. Depressa. Tenho de correr depressa, mesmo quando as pernas me falham.

Alguém me diz que é impossível mexerem nele.

- Temos de esperar até de manhã. – Não percebo o que querem dizer, ele está ali, têm de o tirar agora. – A chuva… A lama…

Deixo de ouvir. Vão deixá-lo assim. Deixo de ouvir. Dizem que morreu. Deixo de ouvir.

Os sinos ouvem-se tocar. O único som de que me dou conta. Está tudo abafado. As pessoas vêm até mim, umas choram, outras abraçam-me. Falam tanto. Sei-o porque vejo a boca mexer-lhes. Não sei o que dizem, pouco me importa. As minhas filhas trataram de tudo. Escolheram-lhe a roupa, a caixa e a hora. Esta hora. A do fim escolheu outro qualquer, sem piedade de nós.

Comprei muito antes, o pedaço de terra para onde o mandam agora. Escolhi-o, paguei-o, desejei não o ver tão cedo. Fizeram o buraco à medida certa, para lentamente, dois rapazes enfiados em galochas, pegarem nas quatro tábulas envernizadas de um tom escuro – com o meu marido lá dentro –, e aconchegarem-nas o melhor possível entre a terra fria.

Aquele será o seu espaço, até me juntar a ele, estará ali fechado, sozinho. Terá medo? Terá frio? Quererá luz para companhia? Peço ao ser sem coração que o levou, que me leve também, brevemente. Até que a morte nos separe, quando vamos ver, não é assim tão fácil de aceitar. Não tem a leviandade de quando o pronunciamos pela primeira vez e ainda temos o futuro todo pela frente. Isso é para os casamentos dos odiosos, para os que sentem alívio em avançar sozinhos. Não é para nós. 

Só me resta agora viver em memórias, agarrar-me a elas como quem se agarra à esperança. Lembrar-se-á de mim quando me vir? Espero não demorar muito para não lhe dar tempo de me esquecer.

Há flores a serem lançadas, todas elas erradas. As suas favoritas são margaridas, mas não sei porquê, só lhe oferecem crisântemos e rosas.

O sol vai aparecendo, esconde-se por trás das nuvens, para não nos desrespeitar com toda a sua euforia, mas aqui está também, para se despedir. Para nos secar a chuva da tragédia.

A primeira terra é lançada. Deixo de ver. Ouço as pás cavarem fundo no monte criado, que agora é entregue ao sítio original. A última manta, a que o aconchegará até eu chegar.

As histórias de amor não morrem se só um partir, está tudo ainda aqui, sinto tudo ainda aqui. 

O vazio toma o seu lugar, puxa o banco ao lume, senta-se, instala-se como quem sabe que vai ficar, durante tanto tempo, que deixarei de o contar. 

O meu novo amante. 

Por ele nunca esperarei para jantar.


Texto da autoria de Cláudia Oliveira. Ilustração de Frederico Pompeu.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

1 Maio 2026

Está a chegar o Cultivar, o novo simpósio dedicado à gastronomia e cultura alimentar

1 Maio 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

27 Abril 2026

Menos candidatos, mais desistências: problemas estruturais persistem no ensino superior

24 Abril 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

20 Abril 2026

Bons Sons regressa em agosto com a resistência como mote

17 Abril 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

13 Abril 2026

Capicua: “A maternidade é o reduto onde o feminismo ainda não chegou”

10 Abril 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

8 Abril 2026

Paul da Goucha, em Alpiarça, recebe uma das maiores iniciativas mundiais de ciência cidadã

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Camila Romão sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0