O dia 20 de setembro prometia dar as boas-vindas aos novos alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) com uma manhã de aulas bem diferente, onde haveria espaço para tratar temáticas como o jazz, a sexualidade, a música, as redes sociais, a fotografia ou até a cozinha com nomes conhecidos da praça pública. Mas este dia de aulas especiais não ficava reservado aos caloiros da Nova, uma vez que qualquer pessoa se podia juntar para aprender mais neste ambiente universitário. Voltei a vestir a pele de estudante universitária ansiosa pelo seu ingresso no Ensino Superior e pus-me a caminho da NOVA FCSH.

Como qualquer caloira expectante pelo seu primeiro dia de aulas, onde iria conhecer os espaços da FCSH e os novos colegas, cheguei meia hora mais cedo do que a hora de entrada estipulada pelo horário de aulas. Ao entrar na Faculdade vi uma série de jovens trajados que estavam a levar os caloiros para um dia de praxe. Muitos foram os novos alunos que se juntaram, mas alguns optaram por ficar pela Faculdade para participar no “Faz-te à Nova”, esta iniciativa de integração com direito a momentos culturais alternativos à praxe, que a FCSH propôs em associação com a plataforma exarp.

Sendo a vida de estudante marcada pela necessidade de tomar decisões constantemente, o “Faz-te à Nova” não foi exceção. Ao longo da manhã existiam três módulos de aulas, sendo que em cada um deles havia duas opções de escolha letiva. O que fazer quando todas as hipóteses parecem aliciantes? Talvez o mesmo que, antes de ingressarmos no Ensino Superior, fazemos com a escolha de um curso em detrimento de outros. Optei por falar com todos os professores e escolher assistir às aulas que, de alguma forma, me deixaram mais curiosa.

Módulo das 10h: “Instagram é Vida”, com José Lourenço ou “Cozinhar para totós”, com Ana Melo e Sousa

Antes das 10h encontrei a chefe de cozinha Ana Melo e Sousa num banco de madeira junto à Esplanada onde iria decorrer a aula “Cozinhar para totós”. Ela partilhou comigo que era possível fazer refeições baratas e saudáveis. “A base de uma alimentação saudável são legumes e fruta e esses são ingredientes baratos, por isso é muito fácil conjugar”, disse-me. Revelou ainda que nesta aula iria ensinar duas receitas muito fáceis, baratas e rápidas: o gaspacho e um esparguete com tomate, manjericão e parmesão. Na época de exames, em que não há muito tempo para passar na cozinha, aconselhou recorrer às saladas. “É uma coisa rápida e fria, portanto não é preciso estar com grandes cozinhados. Uma salada vai sempre bem”.

Ana Melo e Sousa em “Cozinhar para totós”

Para a primeira aula do dia optei por assistir ao “Instagram é Vida”. Ainda antes de subir para a aula, cruzei-me com o José Lourenço aproveitando para lhe fazer algumas perguntas. Começou por me dizer que o truque para ter uma página de Instagram bem sucedida como a sua era ser genuíno, trabalhar afincadamente e não cair na rotina. É importante explorar novas técnicas e tentar inovar e renovar constantemente, “não é pegar numa receita, mas sim desenvolvê-la”. Partilhou que, neste momento, o Instagram é vida, porque só está a viver das redes sociais. Apontou ainda que uma página de Instagram pode ser um bom complemento para um aluno que estude numa área em que a imagem seja fundamental, “o instagram é um complemento porque pode catapultar ou ajudar a que a conta de Instagram desse aluno o possa favorecer”. Para alunos de outras áreas, refere que pode ser interessante explorar outras páginas de Instagram que revelem outros caminhos.

Perto das 10h chego à Biblioteca para assistir à primeira aula do dia. O José começa a aula por dizer que vai falar um pouco do seu percurso para que o pudéssemos conhecer melhor e, depois, dar algumas dicas. Ouve-se o toque da entrada. “Ah! São 10h, é altura de começar a aula, não é?”, brinca José provocando o riso dos alunos.

José começou pela pintura, com o seu curso em Belas Artes, vivendo durante muito tempo apenas disso. Há cerca de um ano decidiu parar com a pintura, virando-se mais para as composições que exibe no seu Instagram. Diz que “acima de tudo foi acreditar em mim”, que o permitiu fazer essa aposta. Na sua conta começou por expor a suas pinturas, mas apagou-as passado uns meses. Mais tarde, começou a ganhar o vício de tirar fotografias a composições, depois vieram as brincadeiras com escalas que permitiam perceber as dimensões reais das pinturas.

José Lourenço em “Instagram é Vida”

Eis que chega ao slide que exibe a fotografia que diz ser a responsável pelo seu número de seguidores. Relata que estava com pouco wi-fi e quando clicava para ver imagens no Instagram aparecia a imagem da roda a girar. Decidiu tirar um print e publicá-lo no seu mural. “Na altura nunca ninguém tinha feito aquilo. Ninguém tinha exposto a sinalética das redes”. Seguiu-se uma foto em que mostrava os likes que a publicação ia recebendo. De seguida, decidiu tornar um símbolo digital na realidade, investindo nesta brincadeira até ao dia em que recebeu um email do Instagram para lhe fazer uma entrevista a ser publicada no próprio perfil da rede social. Esse foi o dia em que tudo mudou e em que, de 1200 seguidores passou a ter mais de 50 mil – “o meu telemóvel ardia”. Hoje, é o Instagramer português que saiu mais vezes na página do Instagram e aposta em brincadeiras com simbologias das redes sociais e na animação em stop-motion para marcas e redes. A aula continuou até que o José partilhasse tudo o que os alunos quisessem saber, mas quem quisesse assistir a uma aula do próximo módulo teria de sair brevemente da Biblioteca.

Módulo das 11h: “Diz que o jazz também é cool”, com Júlio Resende ou “B-A-Bá da Sexualidade”, com Marta Crawford

Antes da aula das 11h começar encontrei a terapeuta sexual e familiar Marta Crawford no átrio da torre B. Contou-me que para esta breve aula tinha pensado falar acerca da questão do prazer e da responsabilidade. “Ou seja, o sexo é para ter prazer, coisa que nem sempre acontece, mas tem de haver sempre a questão da responsabilidade. Quando falo em termos de responsabilidade tem a ver com usarmos preservativo, porque basta uma vez para se apanhar uma doença sexualmente transmissível e para se poder ficar grávida. Portanto, tem de haver em todas essas situações a responsabilidade de usar o preservativo e isso não é uma verdade. Um estudo recente, que foi feito este ano, diz que cerca de 60% dos jovens não usam preservativo na primeira relação, o que é assustador. Porque a primeira relação, muitas vezes, também está associada a ter tomado alguma substância psicoativa, nomeadamente o álcool”.

Falou também da questão da pressão social relacionada com a sexualidade em que “muitas vezes avançamos para a intimidade por pressão do nosso parceiro/a, porque socialmente já era suposto, porque já tenho x idade e os meus amigos já se iniciaram sexualmente, porque tem de ser naquele dia, com todos os envolvimentos de pressão que isso traz. Mesmo que seja numa relação, por vezes há um que tem mais vontade, outro que tem menos e há sempre essa pressão. És homem, por isso tens de estar sempre pronto e disponível, tens de ter ereção. Muitas vezes, as pessoas avançam para uma intimidade que não é desejada, mas que é supostamente desejado socialmente que aconteça daquela forma. As pessoas estão mais a responder a um determinado padrão social, do que à sua verdade interior e liberdade”.

Aproveitando que estamos no mês da saúde sexual, a Marta falou também dos direitos sexuais, uma vez que o mote que a Organização Mundial de Saúde Sexual e a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica comemoram este ano é a “Saúde Sexual e direitos sexuais são fundamentais para o bem-estar”. Nesse sentido, deixa a mensagem de que “é muito importante que os jovens saibam o que é comunicar a intimidade. Não é saber contar anedotas porcas e fazer conversas de chacha sobre a sexualidade, ou a sexualidade dos outros. É conseguirem perceber o que querem, quais são os limites que querem para ser o enquadramento da sua vida, o que representa para eles o sexo e a sexualidade, a intimidade. A mensagem é: aprendam a ser felizes sexualmente. E essa aprendizagem não é medida por quantas quecas dás. É saber sentir a coisa de forma interessante, com prazer e com conhecimento de quais são as necessidades da outra pessoa que ali está”.

Marta Crawford em “B-A-Bá da Sexualidade”

Ao toque das 11h sigo para o Auditório 2 para assistir à aula “Diz que o jazz também é cool”, com o pianista e compositor Júlio Resende. Antes da aula o Júlio diz-me que o jazz sempre foi mais conhecido por ser “hot”. “Está ligado à noite e ao facto desta ser mais quente que o dia, pelo menos dentro dos bares”. Revela ainda que estudava muito ao som de jazz quando era estudante, “é um bom género musical para estudar”. Quanto à arte de saber improvisar, tão característica do jazz, o Júlio diz que o improviso pode trazer muitos benefícios para toda a gente, mas quanto aos estudantes “é melhor primeiro estudarem as coisas e depois logo improvisam a seguir”.

A chave do piano chega dando o mote de início à aula. Começa por dizer que já foi aluno da FCSH e por refletir sobre a improvisação. “A essência do jazz quase sempre foi a improvisação, que é o que estou a fazer agora”, diz Júlio provocando o riso pelo auditório. Explica que vai começar por tocar qualquer coisa improvisada e que depois vai fazer um jogo dinâmico ao qual se costuma chamar conversa. Senta-se ao piano e começa por tocar duas notas que desencadeiam uma careta na sua expressão. Parece que aquele não é o caminho. Mas depressa encontra a melodia que é possível acompanhar através do reflexo das suas mãos na cauda do piano preto. De uma melodia serena passa a um ritmo intenso de notas que se seguem em reboliço, quando uma senhora entra e faz barulho ao pousar as canetas no quadro branco. “Irritou-se”, ouço uma aluna dizer atrás de mim.

Júlio Resende em “Diz que o jazz também é cool”

Após a improvisação é altura de se afastar do piano e explicar o que se passou. “Vamos pensar que as sílabas são sons e agora cada um escreve aquilo que quer. O mais interessante é tratar a improvisação como uma conversa”. Desta forma, destaca o papel da audição do que nos rodeia como um elemento fundamental nesta arte. “Aquela menina que entrou, na verdade, levou-me para outro lugar e isso faz parte da música, assim como a vossa atenção”.

Apresentando-se, de seguida, como um jazz man e um fado man, usa um vídeo de um concerto dos Alexander Search para explicar os dois grandes momentos da improvisação. Primeiro, diz que é preciso encontrar um motivo que nos seja agradável e tentar desenvolvê-lo harmónica (acordes) e melodicamente. Numa segunda fase é preciso trabalhar sobre essa secção criada. É então que o seu trabalho recomeça ao piano, com uma improvisação sob o tema A Day of Sun. Quando acaba de tocar esclarece ainda que a “espontaneidade tem a ver com o estar atento ao outro, ao que está a acontecer e não tem a ver com puro egoísmo”. A aula termina com espaço para os alunos tirarem dúvidas e verem satisfeitas algumas curiosidades.

Módulo das 12h: “Tirar fotografias com a Alma”, com Estelle Valente ou “Como fazer uma Música”, com Noiserv

Uma das hipóteses para o terceiro e último módulo deste dia de aulas era dedicada à fotografia. Para a fotógrafa Estelle Valente, tirar fotografias com Alma tem a ver com tirar fotografias que espelhem aquilo que ela é. “Por exemplo, eu fotografo muito a preto e branco e com muitas sombras, brinco com as sombras. Se calhar isso acontece, porque eu tenho esse lado muito escuro. Temos todos, mas eu tenho particularmente, e também a melancolia. Gosto muito disso nas fotografias, sou muito melancólica. Por isso, nos retratos, por exemplo, eu gosto que as pessoas tenham um ar de paz. Não gosto de pessoas a rir nos meus retratos. Acho que fotografias com alma é isso. Tu conseguires, o que não é fácil, que a fotografia seja tudo o que tu és, que esteja tudo ali”.

Estelle Valente em “Tirar fotografias com Alma”

Durante a sua aula, Estelle revela que o que achou mais importante transmitir aos seus alunos era que “a técnica não é tudo. Aliás, não é nada. É importante, mas não é fundamental. O mais importante somos nós, o nosso olhar e a forma como olhamos o mundo. Nesta aula particularmente é importante passar a mensagem, que está ligada ao meu percurso, que é que nós podemos ter várias vidas. Não temos de ter só um emprego na vida, não temos de fazer aquilo que as outras pessoas querem de nós. Eu tirei um curso de economia em França, dei aulas na faculdade de economia em França, e, de facto, apercebi-me que não era isso que eu queria fazer na vida. Por isso, mudei a minha vida pelo menos três vezes. Mudei de profissão. A fotografia nasceu como uma paixão e foi um sonho. Sou autodidata, não tenho nenhum curso de fotografia. Acho que era isso que eu queria transmitir. Acima de tudo é fazer aquilo que nós gostamos”.

Para concluir esta minha conversa com a professora em horas de expediente, a Estelle revela-me um truque que utiliza. Como tenta fugir da realidade como fotógrafa, quando está a fotografar um concerto, por exemplo, costuma fazê-lo indo buscar um copo, de água ou de vinho, e pô-lo um bocadinho à frente da sua lente, dando o efeito de nuvem à frente da pessoa. “Esse é um dos truques que eu uso para tirar o tipo de fotografias que eu gosto. Tem a ver com a minha alma, que é fugir da realidade ao máximo. Não gosto daquilo que é óbvio. Mas isso sou eu. Isso é um dos truques a não usar, só eu é que uso”, diz Estelle em tom de brincadeira.

Antes desta última aula começar encontrei o Noiserv (David Santos) no átrio do Bloco B1, pelo que aproveitei para falar um pouco com ele sobre esta coisa de fazer músicas. Começa por me dizer que acha que todos conseguimos fazer músicas, o importante é começar. Embora já tenha feito músicas com sons de uma fotocopiadora e um micro-ondas, defende que é importante conjugar instrumentos com essas coisas. “Porque se forem só instrumentos que não têm uma nota definida, de repente pode ser uma confusão de barulhos que, ao não serem musicais, parece que não é uma música. Acho que o que fica bem é conjugares precisamente isso tudo. Não têm de ser só instrumentos musicais, mas também se não os tiveres às vezes parece que a música fica um bocado mais inconsequente”. Em relação a um truque que aconselhe para alguém que gostava de começar a escrever uma música, mas que não sabe como, o David aconselha começar pelo piano ou um teclado por ser o instrumento mais completo, na sua opinião. “Um teclado que tu compres tem 100 ou 200 sons diferentes que te permitem explorar vários tipos de tons. A música, pelo menos para mim, vive muito de experimentares e de veres o que te dá aquilo que experimentaste para avançares para o passo seguinte”.

Quando o relógio marca as 12h, o Jardim de Inverno do Bloco B1 está cheio de alunos que querem aprender a fazer uma música com o Noiserv, ou admiradores que estão curiosos por descobrir o processo deste músico. Em vez de apenas falar sobre o seu processo de criação musical, David faz-se acompanhar de um teclado e uma loop station para ir escrevendo uma música em tempo real à medida que nos explica as fases do processo.

Noiserv em “Como fazer uma Música”

Defende que o primeiro passo, ainda antes de querer saber como se faz uma música, é pensar no porquê de a querer fazer. Para ele a razão é simples – “a música permite chegar a um conforto emocional que mais nada me dava e em que não precisava de mais ninguém. Quando fazes música sozinho é menos tranquilo, mas mais interessante, porque o resultado és tu próprio”. Dê-se, então, início à música. Primeiro começou por escolher os acordes, depois a melodia, de seguida uma segunda melodia e por ai adiante. Quando a música começa a ficar cheia de sons diz que um truque que costuma utilizar é ir tirando os sons que foi pondo, um a um.

Já no fim da sua música mostra agrado pelo resultado final, dizendo que até ficou engraçada. “Quando fazes música e gostas mesmo, ela vai-te enchendo. Quando chegas ao fim do dia e descobres um som que te dá qualquer coisa acho que é das melhores coisas que podes conseguir”.

O fim de uma manhã diferente de aulas com Vaarwell

A descoberta de novos sons é dada, de seguida, pelos Vaarwell num concerto que encerrou esta manhã diferente do “Faz-te à Nova” e que ocupou o átrio do Bloco B1. Depois da sua estreia em 2015 com “Love and Forgiveness”, a banda composta por Margarida Falcão, Ricardo Nagy e Luís Monteiro lançou o álbum “Homebound 456” em 2017 e um novo single, “Stay”, em Março deste ano.

Concerto dos Vaarwell

Durante o concerto os alunos foram-se sentando nas escadas ou ficaram em pé em torno de Vaarwell e até alguns alunos trajados se juntaram à festa. Embalados pelo som de músicas como “I Never Leave, I Never Go”, “Floater”, “Love and Forgiveness” ou “YOU”, os alunos da FCSH entraram num novo ano letivo com uma energia diferente marcada por uma lufada de ar fresco dada por professores surpreendentes de várias áreas do saber.

Texto de Andreia Monteiro
Fotos de NOVA FCSH
O Gerador é parceiro da exarp

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