Recomenda-se a leitura da primeira parte, publicada a 15 de Setembro de 2020.

Vou-me focar na religião Católica, porque, para além de ser a que vivi, é a que está na base da construção da mentalidade da sociedade portuguesa.

Segundo Capítulo: Mulheres na Bíblia

Não deve parecer novidade que há muito poucas mulheres referidas na Bíblia. Tendo ela sido escrita apenas por homens, e tendo em conta o contexto histórico, social e político da época, conseguimos compreender que assim seja. No entanto, a situação piora quando, das poucas mulheres referidas, várias são as que não têm nome próprio: são identificadas por uma característica sua, como a Samaritana, a Cananeia, ou a Mulher Adúltera. Embora haja este desprezo (tipicamente machista) por parte de quem escreveu os textos, Jesus, segundo os seus comportamentos descritos na Bíblia, era feminista. Ensinou, inclusive, homens sobre igualdade de género, como se pode ver no episódio da Mulher Adúltera. 

No leque limitado das mulheres detentoras de presença na narrativa da Bíblia, o primeiro lugar vai para Maria, Mãe de Jesus.

A Virgem Maria

Maria, mãe de Jesus, engravidou pelo Espírito Santo, sendo ela virgem. O pormenor de Maria ter engravidado virgem não deveria ser tido considerado sinal de pureza sexual, mas apenas como algo que aumenta o milagre: ela engravidou sendo virgem. Além disso, Maria era a escolha indicada, pois era boa pessoa, devota, não tinha emprego, era solteira, jovem, e tinha interesse em participar, pois deu o seu consentimento. Tinha o currículo perfeito para ser mãe do Filho de Deus. O que merecia ser guardado desta história é o consentimento. 

Tanto enfoque se deu à questão da virgindade, que Maria ficou conhecida como Virgem Maria. Se é para acrescentar algo ao nome, eu prefiro Maria com Consentimento.

A Igreja tradicional, ao realçar da Bíblia em larga escala somente a Virgem Maria, está a criar um grave problema para a igualdade: a falta de representatividade de mulheres. A representação única da mulher perfeita, sem pecado, passa a ser a representação de uma mulher virgem. Não há outra grande referência. Quanto a homens, temos todos os Profetas e Apóstolos com vidas e nome próprio. 

Falta de representatividade de mulheres

Será que a falta de representatividade de mulheres na Bíblia alimentou a falta de presença das mulheres com cargos de poder na Igreja? Há mulheres párocas? A partir do momento em que não há mulheres “padres”, não há bispas, nem Papas. (As próprias nomenclaturas foram criadas de forma limitadora quanto ao género). Por consequência, não temos, de momento, mulheres em cargos com poder de decisão na Igreja.

Porém, tem havido (pequenas) tentativas de desconstrução da ideia de pureza sagrada, mesmo por parte da Igreja, mas da Igreja-mãe. Por exemplo, o Papa Francisco disse que “o prazer sexual é divino” (com as suas limitações). Ademais, têm surgido várias pessoas de dentro da igreja a aceitar abertamente a comunidade LGBTQ+. No entanto, só considero que a desconstrução é total neste assunto, quando, tanto homens, como mulheres, puderem ser párocas, com a liberdade para terem relacionamentos e/ou casar, independentemente da sua orientação sexual. 

Não obstante, se há esse princípio de vontade de mudar a Igreja e adaptá-la ao mundo, porque continuamos a ver comportamentos associados à igreja extremamente preconceituosos e limitados? O conservadorismo português está intrinsecamente ligado com as ideias católicas retrógradas. Além disso, interessa a muitos pequenos poderes religiosos — pessoas detentoras de poder de decisão em paróquias —, que a Igreja continue como está, para não abalar a sua estabilidade patriarcal, para ninguém “meter o bedelho” na gestão dos “senhores da Igreja”. 

Terceiro capítulo: Adeus, Igreja

Como comecei por explicar na primeira parte, deixei de frequentar a Igreja, porque não me sentia representada, e assim continuo.

Depois de muito reflectir, apercebi-me de que há dois grandes problemas associados à Igreja: o conservadorismo português (um problema não só nacional); e o receio que a Igreja-Mãe tem em “impor” mudança nas paróquias (embora as mudanças que propõem sejam muito limitadoras quanto à liberdade sexual não monogâmica). A meu ver, por um lado, há muito receio de perder fiéis pela revolta face às mudanças (porque contraria o conservadorismo); e, por outro, parece que a Igreja dos pequenos poderes, a das paróquias, fecha os olhos a todas as notícias religiosas de inclusão e quebra de preconceito.

Dado isto, quando as Igrejas por este mundo fora permitirem mulheres párocas, para além de homens, de todas as orientações sexuais; quebrarem a regra do celibato para todas as orientações sexuais, quer seja em forma de casamento ou fora dele; pagarem impostos; e tiverem um guia geral em condições sobre desconstrução da Bíblia para homilias, talvez eu me sinta representada. Até lá, escrevo mais um capítulo.

Quarto capítulo: O lado positivo da Igreja, vá

Para muitas pessoas, a Igreja funciona como um amparo, tanto para momentos de fragilidade emocional, como para colmatar dificuldades socio-económicas. Basta fazer uma pequena pesquisa sobre associações de apoio social para o perceber. No entanto, reforço que devemos prezar pela Solidariedade, em detrimento da caridade.

Para além do lado mais prático da vida, o conservadorismo ligado à Igreja, mesmo que não pareça à primeira vista, tem uma consequência super sensual: a Vingança Kinky.

A repressão sexual resultou em duas consequências maiores: vidas sexuais reprimidas (com mil problemas para o clero e para os crentes), e a vingança kinky. Esta última trata-se da metamorfose do “pecado do sexo” num conceito kinky e poderoso de liberdade sexual. Assim, do pecado sexual nasce a bendita luxúria kinky, que impulsiona essas libidos pelo mundo fora. Havendo honestidade e consentimento, a sua presença é sempre positiva.

Conclusão

Com muito ainda por dizer, termino com o mais importante: uma Feminista não deixa de o ser só por acreditar em Deus ou por ser cristã, mesmo que seja praticante. O que é essencial é que a escolha de acreditar, ou continuar a acreditar, seja consciente e sem coerção. Feminismo é liberdade, igualdade de tratamento, e aceitação da diferença. Desta forma, Feminismo e Religião podem ser compatíveis.

O problema não é a Bíblia. O problema não é a Fé. O problema é a Igreja conservadora.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
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