O festival está de regresso de 3 a 11 de outubro e, pela primeira vez, a organização leva a competição nacional a outros locais do país, com sessões em Porto, Faro e Lisboa, que contarão, tal como em Vila do Conde, com a presença dos realizadores. A concurso estão 17 curtas-metragens, entre animação, ficção e documentários.

Sandro Aguilar, Cláudia Varejão, Carlos Conceição, Pedro Peralta, Patrick Mendes, João Rosas, Filipa César, Alexandra Ramires, Natália Azevedo Andrade, Denise Fernandes, Diogo Salgado, Luís Costa, Igor Dimitri, Nuno Baltazar, Catarina Romano, Inês Nunes e Eduardo Brito são os realizadores, entre emergentes e consagrados, selecionados para esta 28.ª edição do Curtas Vila do Conde.

As sessões dividem-se ente o Teatro Municipal de Vila do Conde, o Cinema Trindade, no Porto, o Cinema Ideal, em Lisboa, e o Auditório do Instituto Português do Desporto e Juventude, em Faro. Consulta aqui toda a programação da competição nacional.

Enquanto o festival não arranca e o filmes não chegam ao grande ecrã, podes descobrir um pouco mais das 17 obras nacionais a concurso este ano.

“Noite Turva” de Diogo Salgado

Dois rapazes correm num bosque numa espécie de jogo “do apanha”, quando um deles se esconde. Para se vingar, o outro resolve ir embora e esconder a bicicleta do primeiro – o meio que lhe permitiria regressar a casa. A partir desta premissa constrói-se um labirinto sensorial, de silêncios interrompidos por ruídos noturnos, de escuridão invadida pela luz da lua, em que os elementos naturais parecem ganhar primazia e a primeira imagem do filme ameaça tornar-se premonitória.

“Lascas” de Natália Azevedo Andrade

Uma misteriosa casa junto ao mar, onde a presença da água e dos elementos marítimos tem uma forte carga simbólica, esconde inúmeros segredos. É neste cenário que a realizadora situa este drama familiar, em que três crianças, descuradas por uma mãe com um comportamento estranho e um certo alheamento da realidade circundante, encontram refúgio na sua própria imaginação.

“Catavento” de João Rosas

Nicolau é um rapaz que, terminados os exames do secundário, parece andar à deriva num oceano de escolhas, enquanto tenta perceber o que quer fazer a seguir. A todo este impasse não ajuda que Nicolau seja um romântico sem remédio, além de melómano e curioso, perdido num labirinto emocional: apaixona-se por cada rapariga que encontra, e pelas possibilidades que imagina para o seu futuro.

“O Ofício da Ilusão” de Cláudia Varejão

Madame Bovary, a heroína de Flaubert apropriada por Agustina Bessa-Luís, é o mote para uma reflexão sobre a identidade de género e valores sociais, exercício de desmontagem do papel tradicional da mulher na sociedade patriarcal dominante, questionando a moral conservadora que impõe uma norma social repressiva.

“Elo” de Alexandra Ramires

O encontro entre um homem com uma cabeça pequena num corpo grande e uma mulher com uma cabeça grande num corpo pequeno ajuda-os a vencer os medos e a aceitar os seus “defeitos” como sensibilidades singulares. “Elo” é uma viagem melancólica e poética sobre o medo e a descoberta, que conta com a parceria criativa de Regina Guimarães no argumento.

“Um Fio de Bada Escarlate” de Carlos Conceição

Candide é um frio e sedutor serial killer, que se apaixona por uma rapariga que acaba de se suicidar. Escrito e realizado por Carlos Conceição, este filme insere-se no universo narrativo e imagético criado pelo cineasta, onde sobressaem o fetichismo e o sadismo simbólicos – com diversas referências literárias, iconográficas e cinemáticas –, as ambiências lúgubres e o tom subversivo e surrealista.

“Noite Perpétua” de Pedro Peralta

Baseado numa história verídica, o realizador reconstitui os últimos momentos da vida de uma professora espanhola, refugiada com a família na sua localidade de Castuera, próximo de Badajoz, em 1939. O marido é republicano e encontrava-se em fuga. Dois guardas falangistas batem à porta e o destino trágico desta visita noturna parece evidente. Restam a noite e o silêncio, interrompidos pelo ladrar dos cães, ao longe.

“Úrsula” de Eduardo Brito

Sobre as paisagens sombrias e áridas de uma cidade algures no Círculo Polar Ártico, ouvimos o relato de um homem que sonhou ser uma mulher, um devaneio onírico que permite-lhe estar em dois lugares opostos ao mesmo tempo. É uma metáfora, e um elogio também, sobre a aceitação do que parece ilógico, em substituição da procura de sentido, que encontra conforto na escuridão e na inquietação que agita o sono, como espaço para elevar o subconsciente.

“Sonho de um Verão” de Inês Nunes

Numa casa com sinais de mudança, duas mulheres tentam um diálogo feito de ausências, tentam decifrar o passado e o futuro. Enigmático, entre uma ilusão e um sonho acordado, o tempo aqui parece suspenso, embalado por silêncios e sombras.

“Armour” de Sandro Aguilar

“Armour” é um filme-experiência que procura explorar a potência da paisagem e da forma como ela nos fala do mundo. Um tempo suspenso, quase anónimo, em que paisagens citadinas e marítimas são apresentadas na sua evidência quase ingénua. No entanto, ao colocar pequenas legendas no ecrã, Sandro Aguilar acrescenta um domínio da história, através de pormenores mínimos que remetem para aquilo que não está na imagem.

“Seja como for” de Catarina Romano

Uma mulher está fechada em casa há muito tempo, desempregada, fechada do lado de fora das possibilidades do seu tempo, fechada em si. Nesta animação soturna, de composições melancólicas que se encadeiam de forma melódica, o tempo parece suspender-se nos detalhes.

“Salto” de Nuno Baltazar

Numa loja de conveniência, Alexandre folheia uma revista para adultos, mas é apenas uma forma de distrair o empregado enquanto os seus amigos roubam alguns doces para repartirem mais tarde. É um pequeno delito sem grandes consequências, próprio até da idade, mas que indicia desde logo que Alexandre anda por sua conta e risco. Mais tarde, quando chega a casa, a mãe não lhe abre a porta e esse desamparo parece confirmar-se. Sem rumo, nem local seguro onde passar a noite, acaba por ir ter com o pai, que trabalha como segurança num bar de alterne, e esse encontro irá desencadear uma série de eventos que os aproximará, ao mesmo tempo que sublinha as semelhanças entre pai e filho na forma como se adaptam e habitam as margens da sociedade.

“O Nosso Reino” de Luís Costa

Num reino maravilhoso, onde o Diabo supostamente não existe, uma criança vagueia por uma aldeia granítica. Quando chega a casa só encontra a morte e o silêncio dos adultos, apenas atenuados pelo calor e pela voz do fogo. Sente-se só, mas só chora quando vagueia sozinho. As ambiências sonoras e visuais são fundamentais para criar o mundo telúrico, fantasmagórico e misterioso, desenvolvido a partir da obra homónima do escritor Valter Hugo Mãe, criando uma atmosfera tensa que, gradualmente, se vai serenando.

“A Terra do não retorno” de Patrick Mendes

Algures num tempo indefinido, Patrick Mendes oferece-nos um ritual de iniciação numa comunidade nos confins da terra. Cruzando referências do cinema português , “A Terra do não retorno” procura, através deste ritual, construir um universo de distopia, mas onde a comunidade parece prevalecer sobre o indivíduo.

“Nha Mila” de Denise Fernandes

Numa casa de banho do aeroporto de Lisboa, Maria Salomé encontra Águeda. São as duas cabo-verdianas, a primeira em escala para a ilha de Santiago e a segunda é responsável pela limpeza daquele espaço. Maria Salomé não se lembra, mas conhecem-se desde crianças, quando viviam na Assomada e quando ela era tratada por Mila. Não se sabe de onde vem Mila, apenas que nunca conheceu Lisboa e que está de regresso a Cabo Verde, catorze anos depois de emigrar, para reencontrar um irmão doente. A escala é o pretexto para um encontro onde o crioulo é comum, num bairro da periferia lisboeta, com mais duas mulheres, Celina e Sheila.

“Salsa” de Igor Dimitri

Um salão de cabeleireiros de Buenos Aires é o ponto de encontro e microcosmo de uma comunidade de emigrantes originários da República Dominicana. A música e a dança são o elo de união de pessoas de todas as idades e origens que aí afluem, e os sons que se ouvem no interior e no exterior do salão são reflexo desse melting pot cultural.

“Crioulo Quântico: O Algoritmo do Algodão” de Filipa César

Através dos teares e dos “gestos fetichistas” de tecelãs e tecelões órfãos de Amílcar Cabral e de Titina Silá, heróis nacionais mortos durante a luta pela independência guineense, esta obra propõe uma reflexão sobre formas de exploração, da colonização portuguesa dos últimos séculos até ao novo paradigma do capitalismo global.

O Gerador é parceiro do Curtas Vila do Conde
Texto por Flávia Brito
Fotografia da cortesia da organização (da curta “Seja como for”)

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Filmes em competição nacional no Curtas Vila do Conde 2020