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“Hamster Clown”: uma alegoria ao mundo em que vivemos e nos esquecemos de viver

O encenador Ricardo Neves-Neves e o performer e clown Rui Paixão juntaram-se para trazer a…

Texto de Patrícia Nogueira

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O encenador Ricardo Neves-Neves e o performer e clown Rui Paixão juntaram-se para trazer a palco uma peça sem texto. "Hamster Clown" estreou no Teatro São Luiz, onde estará em cena até 4 de julho, e seguirá em digressão para Loulé, Ovar, Odivelas, Braga e Ílhavo.

A história é menos simples do que parece. "Hamster Clown" não é só uma peça de teatro sem texto, nem uma peça que tem apenas um ator em palco, é uma alegoria ao mundo em que vivemos e nos esquecemos de viver. Fala sobre o estereótipo da mulher americana (perfeita) dos anos 50, de um hamster que corre na sua roda e apenas existe para ser visto, e de um planeta que pode existir. É uma peça sobre, amor, carnificina, aparências, felicidade e morte, ou renascimento, ao som de K-Pop, que nos leva numa viagem pela ironia, risos, indignação e espanto. Quem vê Rui Paixão pintado de roxo, num contraste com as luvas amarelas e vestes dos anos 50, numa metamorfose constante entre rato, homem, mulher, e um alien, vê também traços de Juno Birch, drag queen americana e a maior inspiração para a personagem à qual o ator dá vida. O cenário, inspirado num jardim barroco transforma-se na casa, no supermercado e no planeta distante da mulher-rato que, afinal, vive numa gaiola.

Em entrevista ao Gerador, Ricardo Neves-Neves e Rui Paixão contam que a peça nasceu no verão de 2020, quando o encenador convidou o performer para a criação, em conjunto, de um teatro sem texto, onde Rui não partilharia o palco com mais ninguém, para além das estátuas que adornam o jardim, ou gaiola, onde vive (que nos transporta para um universo retro-futurista, em tons de verde-jardim). O trabalho de Rui, "a criação dos pequenos monstros, a expressão corporal, e o clown", fizeram o match com a personagem que Ricardo havia idealizado. Meses de troca de ideias e partilhas artísticas, levaram os dois a perceber que o caminho seria "entre o movimento e a parte plástica, entre a luz e uma certa estilização do movimento do Bob Wilson, do universo fantasioso, entre o colorido e o terror que o espetáculo também tem". Rui Paixão explica que o desafio foi entender como fazer uma escrita para palco sem partir de um texto, "ali o processo foi inverso, tivemos de determinar como íamos construir um processo criativo que nos ia levar a um resultado final. Por exemplo, começámos a trabalhar pelos opostos. Começou pela minha vontade de interpretar uma personagem feminina, ouvi muito Lady Gaga, e às tantas a pop-art também começa a chegar, e começou tudo a alinhar-se".

Rui Paixão, o primeiro artista português a chegar ao Cirque du Soleil, foi desafiado e desafiou-se a interpretar, pela primeira vez, o papel de uma mulher. "Eu gosto desses lugares, de me desafiar a coisas que nunca fiz, e fazer de mulher é inspirador, uma possibilidade que nunca vou ter com o meu corpo. Sempre fui muito grotesco nas coisas que faço, e trazer o lado mais feminino, mais água, traz-me, enquanto performance, uma consciência maior. Quando o Ricardo me conheceu todo o meu movimento e a minha característica era com uma intenção para a explosão não pensada, e aqui tenho de pensar no universo feminino, tenho de tentar mastigá-lo e perceber onde posso ir. E depois nada é confortável, a começar pelos saltos altos".

Outro dos temas abordados pelos artistas, e que saltam à vista de quem vê a peça, é a associação ao mundo drag, nomeadamente a Juno Birch e Ru Paul, onde Ricardo e Rui foram buscar inspirações, " entrámos na cultura, e tudo o que vem boicotar esta cultura, não queremos de forma alguma questionar porque não estamos nesse lugar, no entanto há essa provocação, porque a Juno dizia que, um hétero e qualquer pessoa pode fazer de drag queen, e eu pensei, porque é que um palhaço não pode fazer? Sou um ator, palhaço que, por acaso, estou a fazer uma personagem feminina.", conclui Rui.

O espetáculo começa quando o ator decide escapar da gaiola. Questionados sobre o porquê da escolha de um rato, a dupla explicou ter sido o primeiro animal a ser pensado, fazendo alusão a várias situações do nosso dia a dia: o hamster não é um bicho de companhia nem de "trabalho", mas sim um animal para ser visto, quase como o humano, sendo ainda uma ligação do espectador que está a ver o ator. Ao mesmo tempo é um animal "que tem meiguice, não é feroz ou selvagem". Agregado ao hamster e a toda a cena, Ricardo e Rui falam da palavra liberdade, ou falta dela - "no início falávamos de liberdade, em que sair da gaiola é sinónimo de um encontro com a felicidade, mas também sair da gaiola traz amarguras, como acaba por acontecer, numa ida ao supermercado, por exemplo."

Entre polvos gigantes, enxames de abelhas, corujas assustadoras e aspiradores endiabrados. Entre o riso e o terror, entre o nonsense e o sentido da vida, entre o teatro, a dança e a performance, "Hamster Clown" fala, acima de tudo, de sonhos e de pesadelos, de confinamentos e de libertações. E pouco interessa se somos homens ou ratos – ali acabamos todos esfolados. No entanto, e apesar de todos os sítios para onde a peça nos transporta, Ricardo Neves-Neves e Rui Paixão não se quiserem comprometer sobre o que queriam falar, "queríamos que fosse um diálogo entre o publico, não queríamos que fosse à ocidental, o publico tem de estar acordado para ver isto, para traduzir as imagens que está a ver, em alguma coisa", acrescentam.

A peça estará em cena no Teatro São Luiz até ao dia 4 de julho e passará pelo Cineteatro Louletano, de 16 a 18 de julho, por Ovar, Odivelas, Braga e Ílhavo.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias de Estelle Valente

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