Texto por Belisa Branças e Pedro Nunes, depois de verem "Tudo em Avignon e eu aqui", de Bruno dos Reis. “Hipertextos” coloca artistas a dialogarem entre si, em formato de uma imaginada correspondência por escrito, a partir de um espetáculo que tenham presenciado durante os Festivais Gil Vicente.
Belisa: Enquanto conduzia até casa, tentava lembrar-me para onde ia. Sabia que conduzia, isso era certo, menos era o destino. Fiz as viagens dos últimos dias com recurso a copiloto. Os cowboys e snake cumpriam o ato de ir com recurso a dramaturgo e guião. Melhor seja dizer, com recurso a dramaturgo ou guião. É difícil perceber o que veio primeiro: ovo ou galinha. Embora com copiloto à minha direita, conduzi autonomamente. E cheguei, todas as noites, sempre quase de olhos fechados, a casa. As estradas são já conhecidas do carro e mesmo sem manusear o volante, os próximos quilómetros são antecipados. Essa adivinhação dos quilómetros mais adiante levou a vários despistes e a dois acidentes concretizados. Não foi o fim. De todas as vezes, o carro seguiu, com pelo menos uma porta amassada, mas seguiu.
Voltei a lembrar-me da fotografia. Aquele papelito queimado pelo Sol. Voltei a lembrar-me daquele queixo. Conheço bem aquele queixo. Fui eu quem o inventou. Acreditas que fui eu quem o inventou? Não te mentiria propositadamente aqui. Se o digo com convicção, é porque acredito que seja a verdade. Há um queixo que fui eu quem inventou e talvez tenha mesmo sido aquele do papelito queimado pelo Sol. No final, pouco importa que seja verdade e que aquele seja o queixo que eu inventei. Um queixo existe e isso basta. Embora nos queiramos convencer de que importa distinguir este queixo dos que já existiram e dos que ainda estão por existir, um queixo é um queixo, e pouco interessa se é um só queixo que se repete, que se multiplica continuamente, ou se é um novo acabadinho de fazer, desde que cumpra com a expetativa de ser queixo. Não vejo nesta concretização uma conclusão triste, pelo contrário, agrada-me saber que os queixos são a constante na passagem do tempo da qual fazemos parte tão temporariamente.
Pedro: O futuro é um animal que se afasta lentamente. Penso nas lebres, nas raposas, penso nos ouriços e em todos os outros animais que a minha mãe via na estrada e que a mim me escapavam sem excepção. Olha! Onde? Pedro, olha! E nunca via. Aqueles, ao contrário do futuro, afastavam-se rapidamente.
Quando penso em faróis noctívagos a iluminar o asfalto, penso em ti, Belisa, que chegaste ontem à minha vida, a bordo de um carro que desconheço, mas ao qual agradeço por te trazer até aqui. A Belisa — fica a saber quem não a conhece — é uma pessoa que se aproxima lentamente. E que conduz lindamente, diga-se de passagem. É engraçada esta expressão. Prometo que se algum dia disser algo de paragem serás a primeira a saber.
As promessas são uma forma de interrompermos o tempo. De pedirmos ao futuro que abrande a sua marcha. E uma promessa é apenas uma mentira até que se preencha com verdade. A promessa é um desejo de Schrödinger. Bom, ando aqui às voltas com paralogismos e tu se calhar só queres chegar a casa. Também ninguém nos mandou ficar para copos depois do espectáculo. Mas regressando ao futuro (nunca vi [os animais à beira da estrada ou] o filme): projectar sucessivamente o amanhã é um exercício viciante, por norma forçado pela paisagem acidentada de um quotidiano inóspito.
Isso conduz (como tu, Belisa) a que qualquer geração diga que — mais do que todas as outras que vieram antes e todas as que virão depois —, na sua juventude, se sentiu compelida a correr atrás de um prejuízo invisível. E também não é difícil ouvir uma geração dizer que a sua juventude foi de alguma maneira dura e exigente, consequência das circunstâncias socio-económico-histórico-culturalo-religioso-gastronómico-petrolífico-inflacionário-gentrifico-ambientalo-geográfico-astrológico-artistico-empírico-antidemocrático-olímpico-filosófico-mágico-trágico-cósmico-ansíolitico-políticas em que cresceu. Mas porra, a nossa... E digo isto sem saber a tua idade. Embora tenhas um queixo bem anos 90, isso é certo.
Belisa: Pedro, perdoa-me, mas fiquei lá atrás. Fiquei a compor lebres, raposas e ouriços. Que estradas foram essas que percorrias com a tua mãe?
Perdoas-me ainda se te disser que a primeira mentira foi-te contada por ela?
Acredito que os via a todos. Talvez até visse uma pistola apontada para si - e para ti - no carro que a ultrapassava lentamente numa qualquer autoestrada. Acredito que pudesse até ouvir o som da pistola a disparar “BANG”. Por isso acelerava e dizia-te, finalmente, que não viste porque olhaste tarde demais. Já lá vão, ficaram lá atrás. Foste rápida, mãe. Nesta estrada não se anda devagar.
Depois de perder a minha, comecei a conduzir com mais pressa, queria que os anos passassem. Nisso dou-te toda a razão, pensar no futuro tornara-se uma obsessão. Mas já não o faço. Gostava de dizer-te que dominei o monstro, mas não é verdade, e não te quero mentir, outra vez.
Continuo a conduzir, embora o deteste fazer, sobretudo à noite (porque embora me vejas noturna, sou do dia) que nada quer comigo, nem de mim. A primeira mentira que te contei foi essa: serpenteei a noite, como uma amiga antiga, a quem não preciso de falar para entender. E curioso é que te vi dessa forma também. Talvez me digas que não és serpente nem noite. E, ainda assim, vimo-nos nesse espelho refletidos, um ao outro, réplicas da noite a brincar com as sombras da lua.
Da lua, só lhe gosto da luz.
E tu?
Dizes-me do que gostas sem olhar para a página, numa procura pela resposta que poderei querer ouvir? Não há nada que quero que me digas, para além da resposta que me possas querer dar. Prometo.
Pedro: O B Fachada (cada um com o Chalino Sánchez que merece) a certo ponto, numa certa canção, diz:
Gastámos a flor da vontade
a preparar um come back
Aqui ele estava a falar do PREC e de um tempo que parece ter existido apenas para ser mobilizado como memória — mas olha lá bem para nós: passamos os primeiros dez ou vinte anos da vida adulta a prometer um futuro qualquer e, quando damos por nós a dar por ela, o futuro chega atrasado; aliás, vendo bem, nem era aquele que era suposto ter chegado. Talvez mais do que um animal, o futuro deva ser parte do material circulante da CP. Desculpa, já é tarde e não tenho humor para mais. E desculpa a referência a transportes públicos, tendo em conta que escrevemos no/do/para o carro, mas não tenho carta. Conclusão: sim, a infância é o lugar onde uma pessoa comum vai e diz:
ah
o que é que disto eu vou aproveitar
para mentir
Seja para trás ou para a frente, porque a fruta do passado escolhe-se a dedo, com mãos de mãe em supermercado e prometer, como já estabelecemos, é mentir até prova em contrário.
Belisa: Prometo outra vez.
Pedro: Quero responder-te, a sério que sim, mas não consigo. A liberdade oferecida assim, sem transação ou despojo, por vezes assusta. Vou ligar o rádio, pode ser? A ver se ocupo este silêncio. Nunca aprendi a responder a elogios, sabias? Não que me tenhas elogiado, estava só a partilhar. É okay partilhar neste carro? No fundo, acho que nunca aprendi a lidar com a generosidade dos outros. És mais de Antena 2 ou M80? Espero um dia conhecer-te sem volante. És de Gaia, portanto imagino uma Nova Era. Gostava de um dia chegar a ti sem medos ou poesia. De momento, é-me impossível.
Belisa: Obrigas-me a responder. E sabias que isso aconteceria. Sobre a rádio calo-me. Diverte-me que tentes adivinhar e que a rádio se torne agora a única opção possível. Até aqui não tivemos problema em conversar. Reparo que é o caso e, apesar disso, julgo que devíamos deixar o silêncio vencer. Dizem-me ser má portuguesa. Também sou má Gaiense. Se voltar a ser possível, volta a partilhar. Eu prometo não elogiar.
Pedro: A Nina arranca o seu monólogo d’A Gaivota com os homens, os leões, as águias e as perdizes. Animais que nunca vi à beira da estrada. O monólogo de abertura do Tudo em Avignon e eu aqui é sobre queixos (cada um com o Tchekhov que merece). Em ambos os casos, o que está em jogo é a im∙possibilidade da ficção. O futuro é a maior das ficções e, honestamente, parece-me impossível acreditar que isto só está tudo a piorar para depois vir a melhorar. Mas e quê? Dizer o quê? A alternativa qual é? Largarmos tudo, irmos para as montanhas e dizermos:
Que boa ideia, virmos para as montanhas.
É isso? Esperar que tudo passe? Tutto passa o caralho. Passar só passa o tempo. Chega desta conversa. Pára o carro, Belisa. Deixa-me sair. Não estou a ser dramático, calma. É claro que não vou saltar do carro em andamento, não estou doido, deixa-me numa estação de serviço ou assim, por favor. Sei lá como é que vou para casa, isso pouco importa agora. Até lá pode ser que consiga olhar para dentro com mais ternura ou encontrar um animal a zarpar em direcção à berma da noite.
Vou a pé. Está tudo bem. Prometo.
Belisa: Vejo-te assim e sei que devo perguntar-te se estás bem. Estás bem. Repara que disse devo. Sei que reparaste. Não me leves a mal, tenho até inclinação para o drama. Ora, se assim não fosse, não estaríamos aqui. Peço que não me leves a mal porque interrompi a cena e tínhamos combinado mentir para esconder a verdade, trabalhando melhor, até à última noite.
Sabes que vou dizer que te levo a casa, que vou insistir em fazê-lo, porque assim deve ser.
Não te vou dar alternativa.
Vou insistir muito.
Até perceberes que nunca tiveste escolha e que a decisão já estava tomada.
Manda quem está ao volante.
E embora odeie conduzir, tocou-me a mim este privilégio de ter carta e carro.
Às vezes digo que trocava o privilégio para voltar ao tempo em que não tinha carro.
Mas aqui estamos.
Tu e eu na berma da estrada e eu digo-te que temos de encontrar formas de continuar, nem que seja preciso comer a nossa própria cauda.
Também não sei fazê-lo, mas há-de ser inato.
De que outra forma seria possível todas o fazerem, sem antes terem visto quem o fizesse diante delas.
Há-de ser inato (re)encontrar o caminho.
E a destruição para o fazer, uma inevitabilidade.
Pedro: Fizeste-me pensar na morte inevitável do Jacinto ou das minhas avós, como se fôssemos nós que nos afastamos deles e que lhes mordemos a cauda. Penso no teatro, que sem a minha avó deixará de ser promessa e que sem fantasmas deixará de ser teatro. Penso se um espectro abraça ou consola ou responde, sequer. Penso que só preciso que elas me escutem e que se assim for começo a acreditar em fantasmas. Penso que está escuro e que mereces ir descansar. Penso que se calhar exagerei e que se me aceitares de volta gostava de entrar no carro. Penso que não tens culpa de eu não saber conduzir, nem saber conduzir-me. Penso que faz sentido pedir-te desculpa. Penso que nos fez bem esta viagem. Penso na usucapião que faço das palavras com que escrevo o meu deslace. E penso:
pouco surpreendente
desenlace
nada disto ser sobre mim.