Ao longo dos séculos, desde a Idade Média, as hortas têm desempenhado um papel relevante na cidade de Lisboa, sobretudo no que toca à subsistência das populações. É isso que nos conta a exposição Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI, patente no Palácio Pimenta, junto ao Campo Grande, que passa em revista um período de cerca de 800 anos, onde a história da capital e do país se confunde com a evolução desta cultura em torno da arte do cultivo.

Nem sempre a cidade foi povoada de bairros populosos dominados pela construção. Há apenas um século eram ainda visíveis grandes porções de terrenos cultivados em locais cuja paisagem é hoje feita de betão. Não obstante, é certo que Lisboa sempre teve uma ligação natural com as hortas, que se foram tomando mais periféricas em relação ao centro da cidade, ainda que existam exceções.

A exposição comissariada pela antropóloga Daniela Araújo, em colaboração com a diretora do Museu de Lisboa, Joana Sousa Monteiro e o historiador Mário Nascimento, apresenta seis núcleos, dispostos de forma quase cronológica. Inicia-se pela Idade Média, num período que se estende até ao século XVIII, o que permite, desde logo, a compreensão de como é que a cidade foi sendo organizada territorialmente. Aqui é de salientar que as primeiras grandes hortas existentes pertenciam aos conventos que ocupavam, à época, o centro da capital portuguesa.

© Nuno Correia (CML)

É desse primeiro momento que saltamos para o século XIX e princípios do século XX, período em que as hortas foram ganhando o cunho de “espaço terapêutico”. Falamos de uma época de marcada influência inglesa, em que as hortas se tornam espaço de convívio e de lazer das famílias e de uma boa parte da alta sociedade, aspeto que coincide com o aparecimentos dos primeiros cursos sobre horticultura no país e da proliferação dos almanaques e lunários, alguns deles ainda hoje existentes como o Borda D’Água.

Já em pleno século XX, chega-se a um dos principais núcleos da exposição, onde se apresenta a evolução das hortas até aos dias de hoje, tendo em conta períodos onde estas foram perdendo e novamente ganhando destaque na vida dos lisboetas. Dividido em três partes – “Apropriar da cidade”, “Disciplinar a cidade” e “Cultivar a cidade” –, este núcleo demonstra-nos como o espaço verde também foi perdendo lugar na cidade e de como as hortas têm vindo a ganhar novamente força ao longos das últimas décadas.

“Houve uma fase em que os espaços verdes reduziram muito, mas é algo que está a ser retomado, não só em quantidade, mas creio que também com mais planeamento, com mais inteligência e num sentido mais global, de interligação entre os vários pontos dos próprios recursos”, salienta uma das responsáveis, Joana Sousa Monteiro.

Num ano em que Lisboa é Capital Verde Europeia 2020, a exposição Hortas de Lisboa, ao encaixar-se quase naturalmente no mote de uma cidade que ser exemplo das boas práticas ambientas, termina com três núcleos mais interativos, onde os visitantes podem conhecer projetos recentes que aliam as hortas à sustentabilidade, ter uma dimensão sensorial do que representa uma horta em plena capital, com todos os sons que isso pode comportar, e conhecer ainda testemunhos daqueles que hoje continuam esta prática que já faz parte da experiência da própria cidade.

De acordo com a comissária da exposição, pretende-se editar, no próximo ano, um catálogo que seja uma publicação a fundo sobre o tema, até pela constatação de que existe “uma história por fazer das hortas de Lisboa”. A exposição Hortas de Lisboa abre ao público esta sexta-feira, dia 23 de outubro, podendo ser visitada até 19 de setembro de 2021, de terça a domingo, das 10h às 18h.

© José Frade (EGEAC)
Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Alberto Carlos Lima / Arquivo Municipal de Lisboa

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