O encontro para a última Ignição de 2018 estava marcado. Às 17h30, “perto da fonte azul” do metro do Cais do Sodré, os participantes teriam que levantar a sua senha para garantir a entrada. Em meia hora, o espaço de preâmbulo foi-se enchendo de grupos maiores e mais pequenos, visitantes mais e menos assíduos.

Marta estreava-se na Ignição. A convite do amigo Rodrigo, que acompanha os eventos do Gerador com frequência, decidiu sair de casa a um sábado à tarde desafiada pelo efeito surpresa. Mesmo sem saber o que esperar das performances surpresa, sabiam que queriam levar para casa novas perspectivas.

Noutra ponta estavam Ineta e Vilmante, duas amigas lituanas a viver em Lisboa há três anos, que conversavam até à hora do começo. Não falam português, nem conheciam o Gerador, mas tropeçaram no evento do Facebook e sentiram que valia a pena arriscar. “Achamos que nos vão levar para uma sala escura onde vai haver uma instalação com luzes”, conta Ineta.

As honras da casa foram dadas por Pedro Saavedra, diretor artístico do Gerador, que encaminhou o grupo para o primeiro ponto de paragem, algures em cima das linhas do metro. Num silêncio que ia sendo interrompido pelo barulho do suburbano, surge Alice. “Vem comigo” e “Podes confiar em mim” foram algumas das frases que segredou ao ouvido de quem estava na linha da frente.

Alice interage com os participantes através de um baralho de cartas

Os participantes confiaram e seguiram Alice para o seu País das Maravilhas cosmopolita. O jogo começava ali e era a personagem criada e interpretada por Júlia Valente quem ditava as regras. Duas filas foram formadas e um baralho de cartas com mensagens, que viriam a ler lidas em voz alta, foi distribuído. A vergonha ou falta de à vontade foi-se perdendo. Já todos confiavam em Alice e seguiram-na por entre corredores para o destino final, nas catacumbas do Metro do Cais do Sodré.

A dar as boas-vindas estava um grupo de jovens com um ar cool, que permaneceu imóvel. Podiam ser os amigos de Alice no seu País das Maravilhas do século XXI, podiam ser figurantes, podiam ser muita coisa. Só mais tarde se viria a descobrir quem realmente eram.

Numa corrida, Alice desafiou os que ali estavam para um jogo de xadrez. Como uma criança que desafia um adulto para um jogo descomprometido, foi reagindo sem filtros e em constante desafio. No jogo final — o Macaquinho do Chinês ­— Alice e o grupo já brincavam quase como num recreio, desafiando os limites das duas partes. Seguiram-na uma vez mais, agora já sem medo do desconhecido.

O “grupo de jovens com um ar cool” assume o controlo. Eram “As Crianças Loucas”, as raparigas e os rapazes lisboetas que subiram o rio e “tomaram de assalto a cidade monstruosa”. Com o estaminé montado para cantar elogios e loucuras à capital, foram saltando de metáfora em metáfora e questionando como será a cidade do futuro. Será que gentrificação rima com emancipação? Então e com paixão?

As sombras projetadas nas paredes dançavam com as canções que iam interpretando, ora a solo, ora em grupo. A fragilidade que surge da instabilidade esteve em constante confronto com a força reivindicativa da juventude. “Perigosa é a tarefa de lutar”, disseram As Crianças Loucas.

O espetáculo de teatro musical chegou ao fim e com ele ficou marcado também o término da última edição de Ignição deste ano. Seguiu-se uma conversa com os artistas, com a moderação de Pedro Saavedra, onde se despiram as personagens e se conversou em nome próprio. Júlia Valente, João Cachola e Catarina Rabaça abriram o processo criativo e desvendaram os segredos da fusão que Saavedra criou.

Sendo esta a última Ignição Gerador de 2018, Pedro Saavedra faz um balanço positivo. Enquanto o espaço era arrumado pela equipa da organização (e por quem quisesse dar uma mãozinha), explicou que é precisamente disso que vive a Ignição: do espaço. “Antes de haver espaço não há ideia”, conta. Acredita que este evento contribui para a democratização da cultura uma vez que põe os artistas em pé de igualdade, sem haver distinções entre alta e baixa cultura. O melhor, para si, acaba por ser a relação que se cria entre artistas e visitantes e, mais importante ainda, a criação de novos públicos.

Pedro Saavedra acha que “a Ignição, sobretudo, democratiza o acesso do público a novos gostos”. Não esconde o entusiasmo com que já está a pensar na próxima edição e não tem dúvidas de que é isso que vai motivando o Gerador a continuar com esta performance cultural: sentir que não falta entusiasmo para continuar a levar a cultura aos espaços mais inesperados, obrigando programadores, artistas e públicos a saírem da sua zona de conforto.

Na Ignição Gerador (quase) tudo é possível.  Este “formato afetivo”, como Saavedra o descreve, já tem apoiantes fiéis mas está sempre à procura  de surpreender, de arriscar, de levar a cultura portuguesa a todos e em todo o lado.

Texto  e fotografias de Carolina Franco
A Ignição Gerador é uma iniciativa do Gerador

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