Já se contam os dias para aquela que é a 18ªedição do IndieLisboa, um dos festivais mais relevantes na divulgação do que melhor se tem produzido no panorama do cinema nacional e internacional. Viajamos, através do online, até Lisboa, a uma sala forrada pela madeira e os tons avermelhados que tanto nos transportavam a dezoito anos de história. Foi a partir dessa mesma sala que estivemos à conversa com Carlos Ramos, um dos diretores do festival e programador do IndieMusic. O cinema português e a sua projeção fizeram-se ouvir.

Partindo de uma retrospetiva dos anos anteriores e passando pela importância no que toca à liberdade, diversidade e exposição dos demais trabalhos no festival, o IndieLisboa assume-se um contributo essencial no lançamento de novos realizadores portugueses que, não só tenta colmatar problemáticas como a distribuição de filmes em Portugal como também reunir um leque plural que dê visão e voz a pensamentos sociais, humanos e igualitários.

A par de todos os aspetos anteriores, Carlos – que chegou à direção do IndieLisboa em 2015 – falou connosco sobre a programação deste ano, as transformações no cinema, a importância das gerações na construção de linguagens cinematográficas e ainda a formação de públicos.

Depois de um ano atípico e numa era onde o pós-cinema pode, ou não, ocupar um grande destaque, a seleção da 18ªedição realça a preocupação dos programadores: transformar o festival num local seguro, físico e que nos recorde que o futuro e o passado podem andar de mãos dadas para construir o cinema no presente.

Gerador (G.) – Neste 2021 creio que é legítimo dizermos que o IndieLisboa atinge, agora, a sua “idade adulta”, nesta que é a 18ªedição. Depois de um ano tão atípico como o que a Cultura viveu, qual é o balanço que fazes do festival até então?

Carlos Ramos (C. R.) – Este ano é a 18ª edição este ano, no entanto, não traduz exatamente os dezoito anos porque, no início, no mesmo ano, aconteceram duas edições. Eu sou um dos diretores desde 2015 ou 2016, já nem sei bem, mas isto para dizer que não estou na fundação do festival. No entanto, sou um dos programadores mais antigos, desde 2006. Foi uma evolução muito interessante porque teve uma ascensão muito rápida.
O festival começou em 2004, numa altura em que outros festivais também começaram, alguns até já existiam, mas foi uma altura em que o cinema, tal como agora, se chamava ou considerava independente e, daí, o início do festival como um festival independente, ainda que tenhamos deixado cair a nomenclatura, porque, ao longo dos anos, as palavras já deixaram de ter algum significado.

Nós somos um festival generalista que mostra todos os anos aqueles que consideramos ser os melhores filmes dentro de um certo tipo de cinema, isto é, dentro da identidade do IndieLisboa. As pessoas já nos conhecem bem e sabem o que esperar no tipo de filmes que vão ver. No início, obviamente, como era algo novo havia essa marca independente. Em três anos, passou a ser o festival com mais público a nível nacional e, a partir daí, manteve-se até agora, até 18ª, ou melhor 17ªedição, como um festival com o maior número de público em sala, sendo que é muito acarinhado pelo público e isso continua a manifestar-se.

Verificamos que houve um crescimento muito grande até 2010. Foi um ano de pico a nível geral, aliás, para todos os festivais, tendo que ver com toda a conjuntura económica, social, etc... A que seguiu uma crise a nível mundial e a nível nacional. Finalmente, nós conseguimos estancar essas perdas e iniciar novamente uma curva de crescimento, desde há três ou quatro edições. E, isso, tem-se vindo a manifestar com o aumento do público que vem ao festival.

Os últimos dois anos são anos completamente atípicos para todos, portanto, não servem de medida, no que diz respeito à evolução do festival. O ano passado correu muito bem, tendo em conta as preocupações que existiam, desde a limitação das salas a 50%, entre outras questões. Se nós fizermos uma transposição, que nunca é obviamente clara, da limitação a 50% das salas, iríamos, certamente, ter números maiores do que em 2019, ou seja, isso representa que o festival continua vivo e a crescer e, há sobretudo, uma preocupação, principalmente nos últimos anos, de uma renovação de público: o festival cresce e, com esse crescimento, nos últimos dezoito anos, cresce também o público fiel ao festival. Todo este público fiel tem, nesta altura, mais dezoito anos do que tinha na altura e, houve aqui uma preocupação em chegar a novos públicos usando novas ferramentas digitais e criando diferentes estratégias de comunicação para chegar a este público mais jovem. Creio que isso se tem refletido.

Os últimos números apresentam-nos uma faixa etária principal do festival entre os 21 e os 30 anos, resultante dos inquéritos que fazemos anualmente. Portanto, isso é sinónimo de uma renovação de público do festival, também muito alavancada por uma secção muito importante para nós que é o IndieJunior, integrante e fulcral no desenvolvimento da literacia cinematográfica. É importante mostrar aos jovens e crianças coisas que eles não têm o hábito de ver ou não têm a possibilidade de ver em outros locais e, este trabalho de formação de públicos, reflete-se, agora, nessa faixa etária tão jovem que frequenta o festival.

Sentimos que o Indie é um festival que faz parte do imaginário das pessoas, muito de Lisboa, porque o festival acontece em Lisboa e a maior parte do público é ainda de cá e das cidades à volta, mas é um evento coletivo que está na memória e na cabeça das pessoas em cada ano. Acho que estamos solidificados como um dos maiores festivais nacionais e com uma pegada mundial, europeia principalmente, muito importante, colocando o IndieLisboa como um festival relevante no panorama europeu e, isso, foi sem dúvida conseguido nestes dezoito anos. Apesar de existir esta coisa de chegar à idade adulta, comparando com uma pessoa, acaba por ser algo mais simbólica do que outra coisa e, isso, reflete-se um pouco na programação este ano, ou seja, não há uma atividade de comemoração de dezoito anos, até porque é um ano bastante complicado, assim como foi o ano passado, portanto, o nosso objetivo foi fazer uma edição física do festival. Essa foi a principal prioridade.

G. – Falavas da alteração da nomenclatura do festival em relação à sua especificidade como cinema independente. Tornando-se assim, mais generalista e atendendo à importância da Liberdade que o festival abarca, o que será o cinema independente senão esta “janela aberta”, livre?

C. R. – Concordo completamente com isso. A palavra “independente” que ‘caiu’ há cerca de dois ou três anos, não no nome do festival, mas nos objetivos, na missão e no manifesto para um cinema de liberdade. Livre de amarras, de preconceitos. A questão aqui é mesmo os filmes que nós mostramos que acabam por ter uma grande liberdade autoral para se realizarem e construírem. E essa liberdade advém também de não estarmos restritos a nenhuma forma ou formato. Nós somos um festival de longas e curtas-metragens, que considera ambas de grande importância e ainda um festival de diferentes géneros, sejam eles, animação, experimental, documentário ou ficção. Todos estes géneros estão dentro da programação do festival, nas várias secções. Portanto, isto é uma questão fundamental para nós, não haver nenhum formato de género e de duração do filme. E é essa liberdade que eu creio que acabou por prevalecer. É essencialmente uma liberdade autoral que se mostra parte de um registo, obviamente, subjetivo de qualidade, porque as pessoas acabam por se identificar com o tipo de filmes que nós passamos no festival, mas, há efetivamente essa liberdade nos filmes que mostramos e que começa logo a partir de uma perspetiva de programação do comité de seleção, através duma abordagem muito livre, em aceitar que qualquer género ou qualquer tipo de filme pode fazer parte do festival. Claro que há muita coisa que fica de fora porque é inevitável. Nós temos 11 dias de festival e temos um conjunto de sessões que não podemos ultrapassar. Mas sim, concordo em absoluto que o IndieLisboa tem essa liberdade na programação e nos filmes que mostra.

G. – Acreditas que depois da realidade com que nos deparámos no ano de 2020, o Cinema e o festival acabaram por se mostrar ainda mais relevantes aos olhos do público que vos acompanha?

C. R. – Sim. Acho que é um pouco transversal a todas as áreas culturais. O Cinema é uma delas. Em anos de crise, quer seja económica ou, neste caso, pandémica as áreas que sofrem logo mais são as áreas culturais, mas também são as áreas que as pessoas mais recorrem no seu dia-a-dia e na forma de satisfazer as suas necessidades de lazer, culturais, etc. Assistiu-se muito a isso no período da pandemia. O Cinema e outras áreas, como a Música, séries, Literatura foram as formas que acompanharam muitas das pessoas no seu confinamento. Tudo isso revelou a sua importância. Apesar de toda a gente saber que é muito importante, mas acho que a pandemia e esta necessidade de confinamento, de isolamento social, mostrou e trouxe ao de cima a importância destas áreas a nível individual, de usufruto e fruição cultural. Passou a ser ainda mais importante, uma vez que estamos a viver em contexto de algum tipo de isolamento social e isso reforçou o papel destas áreas culturais.

Em relação ao festival, a nível de pandemia reforçou, sim, no sentido em que as pessoas estão muito ávidas de frequentar por não o poderem fazer. Às vezes, só damos valor às coisas quando não as podemos ter. Há essa avidez por frequentar um espetáculo, uma sala de cinema, atividades culturais. E os festivais de cinema têm uma particularidade onde acabam por beneficiar um bocadinho. Ao contrário de festivais de música que tem sempre muitas pessoas juntas em determinado espaço, nos festivais de cinema, como o núcleo do festival são as sessões de cinema em sala e são sessões em que uma pessoa já está sentada, individualmente, dentro de uma sala de cinema, a partir do momento em que as salas reabriram novamente, acabaram por proporcionar uma experiência muito parecida, ainda que diferente no sentido das restrições, mas ir ver um filme a uma sala de cinema continuou a ser possível, o que já não acontecia com outro tipo de atividades culturais.

G. – Tendo em conta que construíram uma edição voltada para o físico, como é que foi pensada a edição deste ano?

C. R. – Nós apanhámos duas fases de transição. Em 2020, por exemplo, a programação estava quase toda feita. Não foi pensada do ponto de vista da pandemia, isto porque quando a mesma chegou, por assim dizer, a Portugal, no final de fevereiro e início de março, já tínhamos a programação fechada. Só depois disso é que percebemos que o festival não se podia realizar naquela altura, mas a programação manteve-se. Não a alteramos dado o que aconteceu.

Este ano acabou para se suceder um caminho parecido. O ano passado estávamos, por volta desta altura, a pensar que o festival se realizaria novamente no final de abril e início de maio, ou seja, nas datas originais. Mais uma vez, todo o calendário do festival é feito com base nas datas que o mesmo acontece. Fizemos toda a programação até o final de fevereiro e início de março e, vimo-nos novamente confrontados com a possibilidade de um novo lockdown e um novo confinamento. O que nós vamos mostrar agora é uma programação que já estava definida também desde o mês de fevereiro e março. Portanto, a esse nível trabalhamos como se fosse um ano normal no que toca aos filmes. Obviamente, que acontecem contaminações a nível da produção dos mesmos, ou seja, nós vemos a nível nacional e mundial filmes que refletem esta atualidade da pandemia, aliás, temos alguns nas nossas secções que refletem isso mesmo, mas isso é normal, qualquer atualidade social, económica, entre outras, estará presente. O cinema trabalha a vida, assim como o que se passa no mundo. Há filmes que representam esse contexto, mas também há outras que nada têm que ver.  

G. – Ainda sobre a programação, quais são os filmes que destacas nesta edição?

 C. R. – Nós temos 276 filmes no festival. Vou apenas destacar um ou dois filmes por cada secção para que não se torne em algo exaustivo. Coisas importantes para quem ainda não conhece muito bem o festival: nós temos várias secções competitivas e outras que não o são. Cada uma destas secções acaba por ser um espelho entre longas-metragens e curtas-metragens. Os filmes concorrem separadamente, mas em cada secção há uma competição dos dois formatos e o contexto ou o critério de seleção é o mesmo para ambos.

A Competição Internacional é uma competição em que só mostramos primeiras, segundas ou terceiras obras dos realizadores. É uma secção para novos realizadores de cinema. É muito interessante perceber que há também um acompanhamento dos realizadores ao longo dos anos, porque é normal um realizador começar pelo formato de curta-metragem e, depois, passar para o formato de longa-metragem, mas estes dezoito anos de festival permitem que o IndieLisboa faça esse acompanhamento. A título de exemplo temos o Manque La Banca, um realizador argentino que tem um filme na competição internacional chamado Esqui, um documentário ficcionado sobre Bariloche que é a Meca do Esqui, na Patagónia. E o realizador teve até há bem pouco tempo com o T.R.A.P (filme) na competição de curtas-metragens.

O mesmo acontece com o Radu Jude que não está na Competição Internacional, mas está na secção Silvestre. O realizador já ganhou a Competição Internacional de Curtas e Competição Internacional de Longas. Mas em relação à Competição Internacional, estamos a falar aqui de realizadores que para cinéfilos são reconhecidos, mas para um público em geral não, sendo que são novos nomes no cinema que irão, nos próximos anos, ganhar a sua notoriedade.

Nous, é um filme ensaio que visualmente explora os gestos humanos.

Eu destacaria, por exemplo, um filme da Alice Diop chamado Nous, em português, Nós, é um documentário que nos fala sobre os subúrbios de Paris. É um filme ensaio que visualmente explora os gestos humanos. A Alice vai ter com as pessoas que vivem nos subúrbios e perceber de que forma se constroem, em Paris, e as suas aspirações. É um filme que questiona muito a nação francesa, assombrada por divisões e fraturas. Revela ainda que há um espaço para gestos que unem os seres humanos, independentemente do que os separa.

Outro destaque, é o filme de Julien Faraut, chamado Les Sorcières de l’Orient. Este é um filme sobre uma equipa de voleibol japonesa que ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 64, mas esta equipa feminina ficou conhecida como “As bruxas de Oriente”. Elas (jogadoras) ganharam a medalha de ouro, tornaram-se ícones no Japão e a nível mundial também, tiveram o recorde de mais de 250 vitórias consecutivas em jogos que disputaram. Chegou a ser criada uma série de animé e mangá destas personagens e o Julien Faraut, juntando tudo isto, vai ter com elas, agora, com cerca 70 anos, junta com as imagens de arquivo e as próprias séries e é um olhar muito divertido e muito pop. Isto também para mostrar que o IndieLisboa, sendo generalista, tem espaço para tudo. Isto nas longas-metragens.

Quanto às curtas-metragens é maior o número de filmes. Há um espaço de libertação e de experimentação com muita liberdade. É um formato que bebe disso. Há aqui coisas que vão desde o experimental, apenas estéticas, sonoras, visuais a ficções narrativas tradicionais; passam por documentários... estou a recordar-me do filme do Suneil Sanzgiri, Letter From Your Far-Off Country, que é um documentário sobre o pai do realizador e também uma carta ao líder do Partido Comunista de Caxemira e ainda o filme da Laura Carreira, em competição nacional, que é uma ficção narrativa tradicional. A artista filmou no Reino Unido e há uma perspetiva muito social no filme dela que fala sobre uma mulher que está no supermercado, mas que não tem dinheiro para fazer as compras. Há, sem dúvida, uma crítica social muito vincada no trabalho dela. Outro exemplo é o Ella i jo, um documentário muito abstrato sobre pintura.

Portanto, há espaço para estas coisas. Se as pessoas quiserem mesmo ir ao festival fazer descobertas, além das longas-metragens, as curtas são um espaço para isso acontecer também.

Granary Squares, de Gonçalo Lamas

Depois temos uma secção chamada de Competição Nacional dedicada, obviamente, a filmes portugueses. Apesar de haver filmes portugueses espalhados nas várias secções, esta competição de longas e curtas-metragens centrou o maior destaque nos filmes portugueses. Nas longas temos, este ano, quatro filmes, um deles em estreia mundial, o Granary Squares, de Gonçalo Lamas, é um filme nascido em contexto de pandemia, de confinamento. É um filme onde a janela do quarto, onde o realizador está confinado, serve de câmara de vigilância para o exterior e é um filme que teve que trabalha isso numa praça em Londres, mas temos também um documentário híbrido ficcionado nessa zona nobre, chamado No Taxi do Jack, sobre o Joaquim Calçada, de Alhandra, que viveu nos Estados Unidos e trabalhou como taxista, agora em Portugal. O filme acaba por ser um comentário sobre Joaquim, mas ficcionando as partes em que ele esteve nos Estados Unidos. Temos ainda um filme mais experimental do Fern Silva, que é o Rock Bottom Riser, que esteve em vários festivais internacionais e ainda uma longa chamada Simon chama, da Marta Sousa Ribeiro, que acaba por acompanhar um jovem ao longo de vários anos, ou seja, ela filmou em várias alturas da vida deste jovem, onde traça o perfil psicológico e de vida deste adolescente que vive numa família desagregada, em que os pais estão divorciados.

Depois na competição nacional de curtas há muitos regressos e muitas estreias de pessoas que estão a fazer os seus primeiros filmes. Temos por exemplo a Catarina Ruivo com o filme Boa Noite; o regresso do Tomás Paula Marques e da Helena Estrela, com o Transportation Procedures for Lovers. Sobre coisas novas, recordo-me agora do Diogo Lima, com Os últimos dias de Manuel Raposo, que é um dos filmes mais divertidos do festival. É um mockumentary de um personagem TV fictício. Ou, por exemplo, a Gabriela Nemésio Nobre que é alguém que nós desconhecíamos por completo, com o filme Garças. Esta é também a coisa boa de fazer a programação do festival, descobrir estes nomes.

Na Secção Novíssimos, estamos a falar, principalmente, em filmes de escola ou autodidatas, em que reconhecemos enorme potencial dos filmes que fizeram. É também uma secção competição competitiva só de curtas metragens, este ano.

Depois temos uma secção onde já estão aqueles realizadores mais conhecidos - a Silvestre - como é o caso do realizador romeno que falei anteriormente, o Radu Jude, que tem um filme que ganhou um Urso de Ouro em Berlim e que também vamos mostrar, chamado Bad Luck Banging or Loony Porn também feito em contexto de pandemia, ou mesmo John Gianvito com o Her Socialist Smile, um documentário sobre Hellen Keller, ativista e sufragista americana e, tal como nas curtas também estamos a falar de autores que já têm algum trabalho na curta metragem ou já fizeram longas-metragens.

Bad Luck Banging or Loony Porn de Radu Jude é feito em contexto de pandemia.

Há também aqui este espaço dedicado a um mix entre alguns autores novos, mas também para autores que já têm um trabalho grande na área de experimentação e que já são bastante conhecidos.

Uma secção muito querida do festival é o Indie Music. Este ano temos cerca de lista dos 12 filmes em competição e há também um equilíbrio entre filmes de bandas ou artistas mais conhecidas e espaço para descoberta. Isso é sempre importante. É importante referir que no IndieLisboa, cerca de 90% dos filmes que apresentamos não poderão infelizmente ser vistos de outra maneira que não um festival, porque eles não vão ter distribuição comercial. O caso do Indie Music eu destacaria o filme The Sparks Brothers, que esteve em Cannes há bem pouco tempo. Fala de uma banda composta por dois irmãos, uma dupla da pop, que influenciou muito as bandas que hoje em dia estão a fazer música e que têm um lado muito de humor e ironia. Eu acho que é uma descoberta incrível para quem nunca ouviu falar dos The Sparks. Acho que é obrigatório ir ver por exemplo um filme. Sobre música portuguesa, destacaria o filme sobre o João Pedro Almendra, uma das figuras icónicas do Punk nacional, do Bairro de Alvalade. É mais um filme do mesmo realizador que, há dois anos, nos trouxe um filme sobre o João Ribas.

"No caso do Indie Music eu destacaria o filme The Sparks Brothers, que esteve em Cannes há bem pouco tempo." - Carlos Ramos

Depois temos a Boca do Inferno, uma secção dedicada que rasgam fronteiras, mais ousadas ou mais malucas, série B ou série Z e encontram aqui o espaço de programação nesta secção em que destaco o filme chamado Spree, que é com por aí que é como o ator do The Stranger Things, o Joe Keery, que retrata alguém que está obcecado com a ideia de estar sempre a filmar e a documentar para existires na vida real a partir de um conjunto de situações entre a comédia e o horror que vão acontecendo. Outro filme de título original Ecologia del delito, apresenta uma versão especial dentro da Boca do Inferno porque marca os cinquenta anos do filme de Mario Bava que retrata uma história sobre uma condensa rica que é morta a meio da noite e, a partir daí é o objeto de desejo de várias pessoas, dos filhos, ilegítimos e as mortes começam a aparecer em catadupa, mas é um dos clássicos do filme de terror.

Em relação ao IndieJunior, não há componentes nas escolas, mas há a familiar. Destacaria duas coisas importantes que são as sessões do cinema ao ar livre, com dois filmes para toda a família e uma das grandes novidades deste IndieLisboa que é o Cinema de Colo. São sessões de cinema muito curtas de 20 minutos, como acontecia no São Jorge, dedicadas a um público que não tem muita oferta cultural, que são aos bebés entre os e os 18 meses. Está a ser construída uma cenografia especial para o espaço, pela ESMAE do Porto, para as crianças poderem circularem, estarem e serem estimuladas a nível sonoro e visual. O objetivo dessas sessões é, essencialmente, o estímulo, visual, sonoro e imagético.

Sarah Maldoror, uma cineasta, ativista, poeta que trabalhou diretamente com várias pessoas que pertenceram às frentes de libertação no tempo anticolonial.

Por último, mas não menos importante, a Retrospectiva no festival que é uma homenagem que fazemos a realizadores que gostamos e que têm um trabalho pouco conhecido em Portugal. Trabalhamos aqui a história do Cinema também e, este ano, é sobre a Sarah Maldoror, uma cineasta, ativista, poeta que trabalhou diretamente com várias pessoas que pertenceram às frentes de libertação no tempo anticolonial. Tem uma ligação forte ao imaginário português porque ela lutou e filmou Sambizanga, um filme que denunciava o colonialismo português e foi essencialmente uma ativista dos direitos humanos e que defendeu sempre a liberdade dos países africanos perante as colónias europeias. Nós vamos mostrar uma retrospetiva quase integral, com muitos trabalhos que nunca foram vistos em contexto mundial, aliás, coisas que foram descobertas há muito pouco tempo em arquivos e está a ser organizada juntamente com a Cinemateca e com a filha da Sarah, chamada Annusca de Andrade. A Sarah foi a primeira mulher a fazer uma longa-metragem em África e., para nós, é muito importante mostrar o seu cinema e o seu ativismo no contexto social que estamos a viver. Isso vai originar também algumas conversas, nomeadamente, uma mesa redonda sobre o cinema da Sarah Maldoror e também uma conversa sobre as questões de identidade, direitos humanos, negritude sempre como a participação da filha e de outros convidados.

Sambizanga, é um filme que denuncia o colonialismo português.

Quanto ao Foco, além da Retrospectiva há um Foco e, nesta edição, recaí sobre o realizador colombiano Camilo Restrepo. É um cineasta muito engajado politicamente com as questões que voltadas para a guerra da Colômbia, do narcotráfico e de dar voz às minorias e aos grupos mais desfavorecidos. Com uma forte componente estética e visual, o realizador estará cá para apresentar este Foco.

Temos muitas outras secções, desde as Sessões Especiais, o Director’s Cut, as LisbonTalks e filmes que recomendo a não perderem e que poderia continuar a enumerar.

G. – Há pouco falavas sobre as dificuldades na distribuição dos filmes em Portugal. O IndieLisboa tem também esse propósito, tentar colmatar estas grandes falhas?

C. R. – Sim, do ponto de vista de festivais semelhantes ao IndieLisboa, nó não exigimos estreia mundial, mas temos um critério de estreia nacional, portanto, estes filmes vão ser vistos pela primeira vez no festival e, logo aí, essa visibilidade que o festival pode dar a estes a nível de circulação mundial, nacional, é evidente. No ano passado, por exemplo, alguns filmes que passaram e que normalmente não iriam ser distribuídos acabaram por ser comprados por algumas distribuidoras portuguesas.      

Tem existido esse trabalho mesmo pelas pessoas que nós convidamos para serem juradas do festival. Há esse objetivo de poder potenciar os filmes que mostramos. O nosso trabalho é bastante grande do ponto de vista dos filmes portugueses. É também uma das missões do festival, a visibilidade e a possibilidade de internacionalização dos filmes portugueses. E aí fazemos muito mais do que só mostrar os filmes no festival. Há todo um conjunto de eventos de indústria em que nós convidamos vários programadores internacionais, distribuidores, etc, para verem os portugueses nas competições, mas também filmes que nunca foram estreados ou mostrados, cópias de trabalho com o objetivo de serem programados e poderem ser distribuídos.
 Estamos a falar, no último ano por exemplo, mais de 100 programadores e distribuidores internacionais que possibilitam ver estes filmes em primeira mão. Há uma visão muito mais focada na distribuição e diferenciação do cinema português e tentar mostrar esses filmes ao máximo de pessoas do que as várias secções que nós temos.

G. – Tenho que te fazer aquela questão quase obrigatória: como é que olhas para o atual panorama do cinema português?

C. R. – O cinema português é fundamental no festival. Obviamente, nos últimos dois anos, há uma quebra de produção do cinema português. Acho que isso é visível mesmo na quantidade de filmes que recebemos anualmente para selecionar. Houve uma quebra este ano em relação a anos anteriores que aconteceu por várias razões, desde financeiras, restrições de acesso aos locais, de filmagem, de medidas de contenção, medidas de controlo da pandemia e isso nota-se e ainda se vai verificar durante alguns anos. Sim, o setor do cinema foi bastante afetado. Não falamos apenas dos realizadores, mas muito dos técnicos que trabalham para o audiovisual e que trabalham nos filmes. Estamos a falar de alguém que ficou sem trabalho em áreas que são super precárias. Quem trabalha na área de cinema, normalmente, faz trabalhos freelance e depararam-se, agor, com a paragem dos projetos onde estavam envolvidos.

Na realidade, eu acho que não há nenhuma perspetiva fatalista do cinema português. Acho que já houve outros anos difíceis e o cinema teve sempre a força e determinação para ultrapassar essas coisas e, creio, que isso irá acontecer novamente. Há uma resiliência concreta do cinema português que se vai manter. E nós, que trabalhamos com diversos atores do espetro de produção nacional notamos essa resiliência e força.

G. – Pensar na formação das novas gerações é também pensar no contributo futuro das linguagens cinematográficas? Acreditas que iniciativas como o IndieJunior podem, de facto, desenvolver estes interesses e, por sua vez, resgatar conteúdos, memórias e questões essenciais do Cinema?

C. R. – Sim, acho que sim. Há pouco falava de exemplos concretos de pessoas que começaram a vir ou IndieJunior com cinco anos de idade e que, neste momento, estão com dezassete e dezoito anos e entraram na Escola Superior de Teatro e Cinema, exatamente por terem acompanhado a origem desse percurso a partir do projeto. A formação de público funciona a vários níveis. Entre eles o, nível de criar uma das ferramentas de literacia, porque o trabalho com escolas não é só ir ver filmes. Há todo um acompanhamento com escolas de criar e gerar ferramentas para falarem sobre os filmes, começarem a construir um espírito crítico e é quase um caderno de ações que acho que os adultos depois fazem com cada filme que viram, no ponto de vista educativo. Por exemplo, nós temos um outro projeto que se chama "Eu programo um festival de Cinema", em que trabalhamos com algumas escolas a nível nacional. Eles têm um conjunto de filmes para ver e são eles que fazem a seleção e constroem a sessão para ser mostrada no IndieJunior. Dois dos programas que vamos apresentar foram construídos por eles. O que nós pretendemos é que comecem a criar princípios de análise e que desenvolvam este nível de partilha e discussão de temas que estão a ser mostrados nos filmes. Esta questão geracional é importante para nós. Obviamente que um festival se não fizer um trabalho com as novas gerações é um festival de que vai acabar por morrer.

G. – Em jeito de conclusão, creio que podemos recordar o convite a todo o público para que não percam o festival…

C. R. – Sim! Recordar que temos 11 dias de festival e os nossos bilhetes já se encontram disponíveis. Queria ainda relembrar que a todos aqueles que se possam sentir bloqueados ou sem saber ao certo o que ver ou por onde começar, temos disponível uma linha de apoio através do Whatsapp e que podem contactar. Do outro lado estará uma equipa de programadores que já viram todos os filmes e podem ajudar numa seleção, de acordo com os gostos de cada um ou uma.

A abertura do festival terá lugar no 21 de agosto com o documentário Summer of Soul, realizado pelo baterista dos Roots, Ahmir 'Questlove' Thompson, que resgata do esquecimento uma série de concertos que tiveram lugar em Nova Iorque em 1969, um autêntico “Woodstock negro” perdido na história com actuações de Nina Simone, Stevie Wonder, Sly and the Family Stone ou Mahalia Jackson. Será a única exibição em sala do filme.

O IndieLisboa acontecerá nos cinemas Ideal e São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Culturgest.

Texto por Patrícia Silva
still do filme "The Sparks Brothers"

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.