O novo espetáculo dirigido por Olga Roriz, Insónia (dia 21 de maio pela primeira vez em cena no Teatro Municipal de Bragança antes de seguir em digressão nacional), transporta-nos para aquelas que são as identidades e estórias dxs bailarinxs que completam o elenco. A reunião em palco do erotismo, juventude e velhice levaram a uma criação artística intimista. Elxs são a raiz, os fragmentos e a intensidade que alimentam a reivindicação de corpos; corpos esses que se constroem com imagens, memórias e interpretações que são tão suas como da dança.

Havia um estúdio iluminado onde a energia se mostrava contagiosa. Localização exata: Companhia de Dança Olga Roriz. Vivia-se uma liberdade momentânea da expressão dos corpos. Xs bailarinxs aqueciam. Os passos que iam fazendo adaptavam-se às músicas que passavam e tudo tinham que ver com o espetáculo. Nesse exato momento ouvia-se I love you baby de Gloria Gaynor – o espetáculo que resulta de uma coprodução com o Centro Cultural de Belém, o Município de Aveiro/Teatro Aveirense e o Município de Viana do Castelo conta com a banda sonora escolhida pela artista e por João Rapozo. Mais do que um momento intimista, marcava-se o início daquele que seria o ensaio de uma peça desconcertante onde palavras como reciprocidade, descoberta, reflexão, erotismo e juventude se alinham.

A inspiração foi A Casa das Belas Adormecidas, um romance de Yasunary Kawabata. Olga Roriz encontrou-se mais do que uma vez com este texto. A sua primeira leitura aconteceu nos anos 90, no entanto, não era o momento. Voltou a “pegar nele” para outros dois espetáculos, mas acabou por adotar outras visões nas peças. É então que Olga nos diz que “este é um romance que inspira várias coisas”. Passando por vários momentos da sua vida, mais do que um espetáculo sobre o erotismo – inspirado na viagem de um velho ao mundo das suas insónias com jovens mulheres nuas, intocadas e intocáveis, dormem profundamente sob o efeito de poderosos narcóticos deixando, sem o saber, que o seu corpo seja contemplado por homens idosos em busca de uma pobre consolação para a perda de juventude –, é também uma viagem à infância, às relações sociais e emotivas.

Lançada a ideia e o ponto de partida, o processo criativo do espetáculo torna-se uma partilha plural de todxs aquelxs que o compõem. É também disso que bebe a mais recente criação de Olga “neste caso foi explorado também do ponto de vista erótico, e essas ideias foram traduzidas a cada um dos bailarinos. Depois disso, eles começam a trabalhar sob cada uma dessas ideias; a ideia volta novamente a mim em matéria; eu começo a traduzir as ideias deles; é então que chegamos ao resultado final. O que chega ao público não é a primeira ideia porque, inevitavelmente, se torna muito distante do inicial. É o resultado de um processo de trabalho e de uma relação com as estórias dos bailarinos”, explica a coreógrafa e criadora da peça.

Fotografia de Alípio Padilha

O contacto com aquele que seria o palco do estúdio começa. Os bailarinos distribuem-se. Com a presença de novos corpos – bailarinos de cinco nacionalidades: portuguesa, italiana, irlandesa, polaca e cubana – o elenco é composto por Catarina Câmara, Connor Scott, Emanuel Santos, Marta Lobato Faria, Melissa Cosseta, Natalia Lis e Yonel Serrano. É a partir da sua alma, “quase como uma biografia de cada um”, que as diferentes narrativas se constroem. O seu ADN. A relação biológica e emocional com os pais e a sua influência é algo determinante em cada uma das estórias que se vêm e ouvem. É a partir destas diferentes realidades que se envolvem na performance harmonizando uma paisagem desoladora da morte; uma beleza estonteante, onde o corpo se torna um lugar de reivindicação, desde a sua energia à fragilidade.

“De quem vem o masculino e de quem vem o feminino?”, é também um campo que este espetáculo explora. Olga acredita que é um momento de desconstrução no que toca ao género, “os bailarinos, tirando uma bailarina que tem outros texto vai partilhar connosco quais as caraterísticas que advêm do pai e da mãe. Eu não aceitei apenas a informação que cada um tinha do pai ou da mãe. Acabamos por construir cenas que, depois, depois, alimentam um espetáculo com uma série de elementos que têm que ver com o texto, com a dança, a música, o cenário e as luzes”, continua.

Fotografia de Alípio Padilha

Explorando o erotismo e o seu conceito “vago” através das imagens, dos textos e do pensamento, numa fase inicial, foi feita uma pesquisa e investigação que se debruçou sobre as obras de George Bataille, Otávio Paz, Audre Lorde e Camille Paglia. E é a partir de todas estas relações sensoriais, emotivas que a beleza e sensibilidade de cada voz e pele que se (re)vive um mundo “ao contrário” em que as narrativas de cruzam e fazem sentido, depois de meses contornados. A efemeridade torna-se uma sensação. A igualdade de género, a questão do sistema binário, o lugar do corpo, a sua inquietude, a alienação, a vergonha e as heranças genéticas são matérias feitas que se fazem ouvir. Presencia-se uma preocupação conjunta que parte também do individual e das suas experiências, levando o erotismo a uma linguagem transversal.

Entre corpos e referências científicas a conexão com a natureza e o biológico, mostra-se evidente com o contacto através de troncos de árvores viradas ao contrário, representando amendoeiras em flor, construindo uma floresta utópica a partir do teto, “para mim, é como se fosse o mundo virado ao contrário, como está neste momento”, explica a coreógrafa. Este contacto fica ainda mais evidente no seio da peça, quando a natureza se mostra ligada ao ser humano, resultante de uma das improvisações que a artista tinha pedido axs bailarinxs para realizarem, a partir dos troncos que haviam no espaço.

Fotografia de Alípio Padilha

O conceito de diversidade é algo que está inerente no espetáculo, não só pelas diversas narrativas como também pelas experiências representadas nos momentos conjuntos “é quase como se fosse uma caminhada contínua, mas que no fundo, nos mostra como indivíduos. Há um grupo representado por pessoas – comunidade, sociedade ou até mesmo humanidade –, mas depois é como se houvesse um ADN coletivo e um ADN individual”, completa a artista.

Não conseguindo ausentar-se daquela que foi e é uma realidade presente no mundo, a recorrência ao digital e a sua influência na vida física e pessoal do ser humano é também algo que se destaca, segundo Olga “acho que é algo como nós o vivemos, seja de forma crítica ou porque nos ajudou. É algo que, neste momento, está muito mais presente nas nossas cabeças e, no fundo, aquilo que nós criticamos de usar tempo demais, etc., ao mesmo tempo foi aquilo que nos salvou no sentido de comunicar com as outras pessoas”. A coreógrafa partilha ainda que, no primeiro confinamento, sentiu pela primeira vez a sensação do ser humano na sua totalidade, “a globalização foi incrível. A sensação de ir à janela, estar um silêncio enorme, mas sabermos que todas as pessoas estavam na mesma situação e, isso, foi uma coisa muito nova, seja para um jovem seja para o velho”.

Reconhecendo que não pretende explorar trabalhos sobre a pandemia em si, mas sim na forma como a mesma influenciou a evolução do ser humano “é normal que aqui ou ali hajam sinais de reflexão de todas as sensações e sentimentos; de tudo o que nós passamos, estamos a passar e ainda vamos presenciar... só a história o dirá. Foi algo que surgiu de um ponto de vista muito natural”. É a partir destas construções introspetivas que o espetáculo abraça o conceito de Liberdade, através da euforia física, algo representativo ao longo de todo o espetáculo.

Da Insónia e viagem do protagonista de um romance dos anos 80, vêm-se e ouvem-se as insónias de uma sociedade que se sensibilizou ao longo da última década. Depois de passarem pelo processo de reinvenção de todxs xs artistas, a busca das suas identidades foi uma golfada de ar fresco que ultrapassou os sintomas cronológicos e trouxe a cena reflexões cada vez mais urgentes.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias de Alípio Padilha

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