“Parabéns (instagramer) pelo elogio ao abraço entre a areia e as ondas de Vila do Conde.”, lê-se numa das publicações da página de Instagram do Gerador. E é mais ou menos neste formato – o do elogio – que se vai dando a conhecer, ao longo do ano, os eventuais candidatos ao Insties Gerador, uma iniciativa que visa premiar aqueles que mais se destacam no Instagram. A 2.ª edição aconteceu no sábado passado, na Biblioteca Orlando Ribeiro, e, para além dos vencedores nas várias categorias, contou com conversas, uma exposição, três miniconcertos, e um pequeno convívio entre amigos e amigos dos amigos com direito a comes e bebes.

No 2.º piso da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, marcava o relógio as 18 horas e pouco quando começaram as Altano Talks, um dos acontecimentos da agenda do dia dos Insties Gerador. Ao mesmo tempo, no rés do chão do edifício, inaugurava-se uma exposição com cartazes dedicada aos instagramers nomeados para as várias categorias do Insties, um evento cujo momento alto esperava-se que fosse o último, o da gala bem ao jeito de uns Globos de Ouro.

O Gonçalo Saraiva, natural de Coimbra, apresentava-se como o primeiro orador daquelas Talks que, para quem ali estava, já podia de antemão imaginar que fossem sobre fotografia. Licenciado em Comunicação Social, é um jovem que faz hoje da fotografia a sua profissão. Como chegou até aí, é o que o próprio nos vai contando. Corria o ano de 2015 quando o Instagram, até aí pouco conhecido como uma rede social, lhe era formalmente apresentado por amigos. A partir daí, foi começar a experimentar como é que aquilo funcionava. Mais tarde, com o número de publicações a aumentar no seu perfil, o gosto foi ganhando forma e tamanho até se tornar naquela que, para si, é hoje mais do do que um hobby: uma “grande paixão”. À medida que vai falando, percebemos que, mais do que sobre aquilo que é a vida de um fotógrafo, a conversa vai-se dando em torno do que é o trabalho de um instagramer – uma das mais recentes profissões dos últimos anos.

Altano Talks.

A fotografia urbana, sobretudo na urbe que é a dos estudantes – Coimbra –, é o grande destaque assumido no trabalho que Gonçalo tem vindo a desenvolver, apesar de isso não o impedir de uma vez ou outra, rumar até Lisboa ou Porto para outros “ares”, e assim surgirem novas fotografias. “Um conselho para iniciantes, se mo pedirem, é: comecem por fotografar o sítio que melhor conhecem, o sítio de onde vocês são”, atira. Ainda durante a apresentação, o fotógrafo revela alguns pormenores de natureza mais técnica, como, por exemplo, a máquina que utiliza (uma Canon 700 D), e o tipo de lente; fala-nos abertamente dos processos de edição e de como passou de utilizar os filtros disponíveis pelo Instagram para a edição na VSCO, uma aplicação que o deixou rendido desde que experimentou pela primeira vez. “É uma ferramenta simples e que funciona”, afirma, o que não o impede que, de vez em quando, lá compre um filtro na Internet. O clique para a profissionalização, esse, deu-se quando as suas fotografias começaram a ter um boom de partilhas noutras páginas. Aí, sim, decidiu levar tudo aquilo mais a sério.

É esse, aliás, um traço em comum entre os três convidados daquela pequena conferência – terem começado por gosto e depois, com o tempo, irem-se apercebendo do potencial que as suas fotografias tinham e da oportunidade que se começava a desenhar de começarem a ganhar dinheiro com aquilo.

A Marta, a segunda oradora, apesar de não fazer vida do Instagram, tem nessa rede uma parte muito especial dela. Designer de profissão, estreou-se naquela rede social no verão de 2014, durante umas férias na Costa Alentejana em que se autopropôs fotografar uma praia por dia com um iPhone 5. Mais do que “fazer postais”, palavras da própria, interessava-lhe explorar o olhar que tinha sobre os lugares que ia visitando – logo ela, alguém que tanto gosta de “percorrer o país de lés a lés”. O que, por outras palavras, e em bom português, muito bem se entende: foi juntar o útil ao agradável. No início, e ainda hoje – mas mais naquela altura –, Marta interessava-se essencialmente por fotografar elementos arquitetónicos. Mais tarde, começou por publicar uma ou outra imagem com pessoas, mas sempre assim, esporadicamente, que a ela, como fez questão de sublinhar, o que lhe interessa é que o seu trabalho como fotógrafa espelhe aquilo que pensa sobre o mundo – uma visão na qual, como nos conta, os seres humanos são uma parte muito pequena. Os números, um assunto que todos acabariam por falar, só são importantes, segundo o testemunho de Marta, se forem refletindo o interesse genuíno dos seguidores. Houve um tempo, é certo, em que o Instagram chegou a incluí-la numas listas “especiais” que tinham como benefício um boost no número de seguidores. Contudo, e deixa a ressalva, algumas dessas contas podem até nem ser verdadeiras, traduzindo-se, assim, em quedas rápidas nos tais números. Ora, sem medir o seu trabalho através de um parâmetro por vezes ingrato, já soma hoje, no seu currículo, colaborações com a TAP, com a IKEA, com o Museu Berardo, e esses são só alguns exemplos.

Altano Talks.

Também José Lourenço apresenta no seu percurso vários trabalhos com “marcas grandes”, entre elas o próprio Instagram, a Huawei, a Somersby e a Smart. “Não liguem nenhuma a números e a likes, porque vocês sabem: nós não conseguimos vencer o algoritmo”, adverte, entre risos. O José Lourenço é provavelmente o mais antigo de todos os oradores que ali estão no Instagram. Começou em 2011, com uma fotografia tirada nos Açores – é, aliás, curioso, que entre os três haja mais este aspeto em comum, que é a particularidade de só fotografarem em Portugal. No caso de José, por ser artista plástico, o seu trabalho foi evoluindo não apenas no sentido de fotografar lugares do nosso país como passou por fazer várias “séries” no seu ateliê, quer fotografando materiais, quer fotografando amigos ou a si próprio, até ao presente, em que se dedica sobretudo a fazer pequenas animações para várias marcas. O Instagram, reconhece, permitiu-lhe explorar outra área artística – a fotografia – sem nunca o desviar muito, por isso, do caminho das suas origens. Agora, depois de dois anos sabáticos da pintura, tirados pela rentabilidade que o “negócio” no Instagram começou a ter e pelo prazer que foi tendo, avança que, em breve, irá voltar para o ateliê e para as telas porque as saudades já apertam.

Entretanto, descendo as escadas, cá estava: a exposição de cartazes. Dou, assim, de caras com duas paredes decoradas com 37(!) cartazes, cada um deles alusivo ao trabalho de cada um dos instagramers nomeados para a corrida aos prémios Insties Gerador.

Exposição de cartazes.

“Clima de cinema” foi essa a única exigência feita a Priscilla Ballarin, uma das ilustradoras daqueles cartazes. Tirando isso, houve uma total liberdade criativa da parte do Gerador, que aquilo que fez, como organizador, foi passar a cada um dos criadores o perfil de Instagram e a categoria a que estavam nomeados. À Priscilla, foram encomendados 7 cartazes, o que significou 7 perfis diferentes, alguns mais desafiantes do que outros pelo tipo de fotografia. Assim, como me explica, havendo um “estilo” de fotografia com uma maior aposta na luz e nas sombras, é menos óbvia uma interpretação gráfica. Como não conhecia nenhum dos autores, para ela, ilustradora, foi quase como se lhe entregassem uma folha em branco e tivesse de começar a partir daí, sem qualquer tipo de ideia preconcebida. A parte boa, conta-me, foi ter ficado a conhecer o trabalho desses instagramers.

Mais tarde, quando falo com a Ana Filipa Olimpo, outra das ilustradoras, já uma das “suas” instagramers tinha levado a melhor sobre os restantes nomeados e conquistado o prémio na categoria para a qual estava nomeada. Íamos, portanto, no intervalo da gala. Ela, que teve em mãos 10 cartazes para fazer – feitos num sprint de 7 dias, que isto de ser frelance é cumprir prazos e gerir o tempo de forma a que dê para tudo – confirma aquilo que há pouco a Priscilla me tinha confidenciado. O único brieffing que teve foi “inspirar-se” no perfil de cada um dos nomeados. De resto, era o estilo e linguagem dela. O importante era que a identidade do fotógrafo se refletisse naquele cartaz. Algo que, reconhecemos, não há de ter sido tarefa fácil. “E gostaram, eles?”, pergunto-lhe. “Houve um feedback bastante positivo!”, confirma-me. Primeiro, alguns dos cartazes foram partilhados no Instagram do Gerador, só depois partilhou no dela e aí chegou mesmo a receber mensagens de alguns deles a elogiar o trabalho que tinha sido feito. Também à Priscila tinha acontecido o mesmo, pensei, como se de uma coincidência se tratasse. É que “fazer cartazes sobre outros artistas é diferente de fazer para eventos”, um tipo de trabalho que Ana já teve experiência, porque com estes espera-se que o artista retratado se identifique de alguma forma. Quanto ao processo de trabalho, explica-me, por exemplo, que houve da sua parte um cuidado com a cor, isto é, tentar ao máximo que os tons predominantes de cada cartaz respeitassem aqueles que são utilizados nos perfis de cada nomeado. Se havia um, como me vai mostrando ao apontar, cujo objeto fosse mais direcionado para a arquitetura e que evidenciasse uma preferência pelo preto e branco, também ela, no cartaz, iria optar pelas mesmas cores.

Pátio da Biblioteca Orlando Ribeiro.

Depois de mais algumas palavras off the record, enquanto atravessávamos o pátio que dava acesso ao auditório onde decorria a gala, e que estava, diga-se, decorado a preceito, com umas luzinhas coloridas suspensas, uma banca de comida, outras de patrocinadores, e até um spot à la Hollywood com um fundo cheio de logótipos do Insties para tirar polaroides, voltamos de novo lá para dentro.

Por volta das 21 horas, tinham-se aberto as portas – havia passado cerca de uma desde esse momento. Aí, recordo-me voltando a entrar, ainda antes de abrirem as portas, várias dezenas de pessoas aguardavam cá fora. Já lá dentro, quase todos entretanto sentados, eram várias as pessoas que iam passando aquele compasso de espera algumas a tirar selfies, outras a jogar, e claro, muitas a fazer scroll no Instagram. “Se calhar, não devia incluir esta observação de cusca”, pensei na altura. Mas agora cá vai.

Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro.

Momentos antes de alguém sequer pisar o palco, uma voz, muito segura de si, ecoa à nossa volta. “É favor manterem os vossos telemóveis ligados durante toda a cerimónia.”, dizia, entre outras recomendações, como ir publicando fotos com a #Instiesgerador. Estava dado o recado.

Para além da entrega dos prémios, a cerimónia, apresentada pela atriz Mia Tomé, que num golpe de marketing pessoal chegou a convidar toda a plateia, em tom de troça, a segui-la na rede social mais falada ao longo do evento – e, consequentemente, neste texto – contou também com alguns momentos musicais. Se tivermos em conta a existência de um intervalo, o mesmo que eu refiro acima, podemos dizer que a primeira parte teve em palco Da Chick e que a segunda ficou marcada com as atuações de NOISERV e de Catarina Munhá. Pelo meio, foram feitas as revelações dos nomes que vinham dentro de pequenos envelopes. Foram eles: @luc.at.the.world para Melhor Fotografia Minimalista, @lceusebio para Melhor Fotografia Criativa, @alexcoelholima para Melhor Conteúdo Nacional, @matilde_cunha para Melhor Retrato, @casadamusicaporto para Melhor Entidade Cultural, @dr.bayard para Melhor Marca, @hey.luisa para Melhor Arte, @wandson para Perfil com Melhores Histórias, @joaok2 para Melhor Fotografia, @davidaba para instagramer a seguir em 2019, @joao.galamba para Melhor Mural, e finalmente, @martanferreira, participante nas Altano Talks, para Melhor Instagramer.

Apresentação da gala Insties Gerador.

Estavam conhecidos, assim, os vencedores, mas dali ninguém parecia sair vencido. “Até para o ano!”, deixou escapar a apresentadora, fazendo-nos supor que, querendo participar naquela corrida, o melhor mesmo é começar a ir marcando as fotografias com a #instiesgerador, mas sem esquecer de que: “No final de tudo, não interessa o número de seguidores que temos, mas sim levarmos o nome de Portugal mais longe.”, como alguém dizia num dos discursos.

Texto de Madalena Massena
Fotografias de Carla Rosado

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.