Eram sete e meia quando a luz da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa saía num rasgo pela entrada. Do lado de fora um grupo que, ao longe, facilmente se confundia com uma sombra coletiva, mas de onde saiu Francisco Correia, um dos pintores e ex-alunos das Belas-Artes que apresentavam a exposição “isto é. achas” na galeria da Faculdade. A Francisco, juntaram-se Alberto Rodrigues Marques e Gonçalo Gouveia, os parceiros de exposição, para regressar à galeria.

O copo de vinho — que é “da praxe” nas inaugurações ­— já tinha feito as honras às seis, e dentro das Belas-Artes já só se ouvia o silêncio normal de um horário fora do contexto de aulas. Alberto, Francisco e Gonçalo estavam prontos para revisitar o seu próprio trabalho que, em parte, representava a fase que viveram juntos naquela faculdade. A exposição que “está pensada para que se faça um percurso coreografado em zig zag”, como Alberto começou por explicar, foi pensada pelos três e montada com o apoio de Rui Serra.

Entre 2014 e 2018, foram alunos de pintura e sempre tiveram liberdade para criar o que bem lhes apetecesse. O percurso académico e a vida andaram de mãos dadas e o que criavam não respondia a desafios propostos pelos professores; era antes um reflexo dos desafios a que cada um, individualmente, se queria entregar.

Alberto parece saber descrever bem os três: “Aqui temos três casos completamente diferentes. O mais diferente de todos é o Francisco, que é capaz de estar a trabalhar numa peça durante um ano, é um processo demorado e que acontece num lugar recôndito. O Gonçalo precisa de encontrar um objeto; precisa de viver e ir encontrando coisas que se enquadrem na teoria que ele vai formulando. No meu caso, há uma ideia que tem de ser materializada; há um suporte que é pensado e desenhado e que está à espera da reação de um material, que também já está pensado”.

“2, 340Lx5707” (2018), Alberto Rodrigues Marques

Na entrada da galeria, estavam as duas peças de Alberto, uma de cada lado. “Aqui o material intervém no suporte, que não é o tradicional da pintura, são chapas de aço vazias por dentro.”, explica enquanto se olha de frente no efeito espelhado criado pelo acabamento de verniz brilhante da primeira pintura. Atrás de si a outra pintura, pertencente à série da primeira, que também foge ao convencional: a chapa de aço virada do avesso, microperfurada e com o acrílico a ganhar vida, quase a querer tocar o observador.

No meio da sala, surge a primeira peça de Gonçalo, impossível de ser ignorada, a criar uma ponte entre o trabalho de Alberto e Francisco. Dos três, Gonçalo é o que explora mais a tridimensionalidade que aparece nos detalhes de Alberto e está ausente em Francisco. Uma porta de frigorífico que encontrou no lixo foi o ponto de partida para criar uma coisa que durante algum tempo não sabia bem o que poderia vir a ser; sabia que aquele ia ser o suporte e, depois de a ter deixado a um canto no ateliê, Gonçalo teve um clique e lembrou-se que fazia sentido pintar comida para pousar nas prateleiras da porta.

“O olho no céu o relógio na garganta” (2018), Francisco Correia

Ao fundo, a pintura num formato mais tradicional de Francisco. “Eu tenho um bocado o hábito de ir a sites de museus para procurar coisas antigas e andava, na altura, a pensar em vasos gregos, e fazia uns desenhos nos meus diários gráficos para arranjar forma de aquilo se parecer com outras coisas”, explica Francisco à frente de “Ahhhhhh(x3)”. Interessam-lhe as diferentes interpretações que podem querer dar às pinturas dele, mas não procura criar uma narrativa; quer “criar coisas que fiquem nesse limbo de possibilidades”. “Ahhhhhh(x3)”, “O olho no céu o relógio na garganta” e “Roubar um museu (o que fica depois de despidas todas as peles?)” são três pinturas que criou em alturas diferentes, mas que resultam sempre numa perda de controlo — “Eu acho que as coisas se tornam mais interessantes quando perdes o controlo e não sabes bem o que vai sair dali”, diz Francisco.

Sem Título (2018), Gonçalo Gouveia

A exposição acaba com uma obra “Sem Título”, que imediatamente se percebe que é de Gonçalo. Um barril, que também encontrou algures, com um cão-salsicha a morder a própria cauda, pintado à volta da forma circular. “Também estava a pensar nos vasos gregos, pela forma em si. O plinto de tijolos aconteceu na montagem da exposição, mas até acaba por fazer lembrar uma coluna com capitel”, conta Gonçalo. Encontrar objetos e dar-lhes uma nova utilidade — que lhe dê jeito — é o ponto fulcral do processo criativo. Acrescenta que “É a vida; e mais do que isso é questionares-te sobre o que é a vida, e ao mesmo tempo sobre o que é a pintura”.

Depois da visita pela exposição, uma troca de ideias. Francisco acredita que as pinturas são “as coisas mais íntimas” que os três têm e que pintar é um questionamento constante. Mais do que pôr em causa determinadas ideias, é um reflexo (que não precisa de ser explícito) da vida. Para esta exposição pensaram, segundo Alberto, que o que queriam fazer não era uma exposição de pintura mas uma tentativa, “uma ideia que seria falhada e que acabou por ser”.

“isto é. Achas” é uma exposição que levanta uma série quase infindável de questões que podem ser formuladas por qualquer um de nós— “Isto é uma exposição de pintura. Achas?”, “Isto que está escrito na folha de sala é o que vais ver. Achas?”, “Isto é uma reflexão coletiva. Achas?”, “Isto é… Achas?”.

As obras de Alberto Rodrigues Marques, Gonçalo Gouveia e Francisco Correia habitam a galeria da Faculdade de Belas-Artes até ao dia 30 de janeiro. As visitas podem ser feitas entre as 11h00 e as 19h00, de segunda a sábado, e a entrada é gratuita.

Texto de Carolina Franco

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.