De muito sol era o que todos estávamos a precisar. De muita vitamina D, de ar puro e de uma nova espécie de normalidade.

O desconfinamento tinha começado no início de maio e, gradualmente, as pessoas começavam a sair dos seus casulos: primeiro um passo, depois dois e a seguir os mais destemidos arriscavam um primeiro abraço. Se estávamos todos fechados, se conhecíamos os comportamentos dos nossos amigos e familiares que também tinham confinado nas suas casas, com as mesmas precauções de higiene e segurança, então porque não dar um passo maior na aproximação?

Pela porta grande da entrada do prédio podia-se ver a luz forte que invadia todo o hall da entrada, quase até ao elevador. O teto branco do hall possuía uma rosácea branca, esculpida de forma cuidadosa por algum artesão do passado. Percebia-se que nalgumas partes existiam algumas falhas no gesso, reflexo da passagem do tempo. As flores da entrada tinham sido cuidadosamente tratadas pela Dona Esperança e tinham brotado numa explosão de cores e odores que perfumavam todo o ambiente. A primavera estava em força no prédio. 

Depois do último passeio da Isabel do 7º esq. e do Rui do 2ºesq., as coisas tinham avançado bastante. Após uma série de noites com sonhos eróticos, Isabel decidiu que estava na altura de avançar na relação com o Rui. Já há muito tempo que não falava ou partilhava tanto de si, antes de ir para a cama com alguém. Depois do divórcio teve muitos envolvimentos sexuais com parceiros ocasionais ou mais ou menos ocasionais. Sempre se tinha sentido bastante resolvida sexualmente e facilmente um jantar ou uma conversa boa podiam levar ao sexo. Por vezes essas relações duravam dias, outras vezes não duravam mais do que um ciclo menstrual. Ela não estava nada interessada em saltar de um divórcio para uma relação estável. Nada disso. Queria sentir-se livre e apetecia-lhe experimentar a vida e os dias sem grandes projetos sentimentais. Tinha baixado o tinder no seu telemóvel e já tinha tido vários encontros por essa via. Uns especialmente interessantes e empolgantes com muita tesão à mistura. Outros um verdadeiro flop. A Isabel preferia selecionar os seus parceiros ocasionais em festas de amigos ou em tertúlias. Preferia o jogo real ao virtual. Dessa forma conseguia acertar melhor nas suas escolhas. O olfato era um sentido muito importante na escolha de um parceiro sexual, que para ela funcionava como se fosse o seu sexto sentido. Nunca falhava!

Sentia-se solta e feliz quando se apercebeu do que estava a sentir pelo Rui. Foi inesperado, pois não procurava um homem para uma relação séria.

Este compasso de espera, que pôs a humanidade em standby, deu-lhe tempo para conhecer o Rui de uma forma bem diferente do seu habitual. Talvez as conversas telefónicas, os passeios e as mensagens fossem responsáveis por isso. Já se tinha apercebido que até no tinder os convites para sexo se tinham transformado em chats de conversa …  quem sabe se muitos também acabariam apanhados, sem querer, nas malhas do amor.

No prédio da Dona Esperança, a clínica e a empresa de contabilidade do primeiro andar já tinham voltado a abrir as suas portas. O movimento no prédio sentiu-se e, por isso, decidiu-se em reunião de condomínio, com a concordância de todos, que as pessoas exteriores ao prédio não poderiam usar o elevador e teriam de subir as escadas até ao primeiro andar, para deixarem o elevador imaculado para os moradores. A Dona Odete e o seu cãozinho tinham voltado lentamente às suas rotinas e passeios. Voltou a combinar com as amigas um cafezinho na esplanada e passou a ir à mercearia do Sr. António. Levava sempre um saquinho para apanhar os cocós do seu cão, álcool-gel e uma máscara alaranjada com um cravo em forma de sorriso.

Percebia-se que ela estava verdadeiramente feliz por ter voltado à sua vida e a sua gargalhada solta e contagiante às vezes ecoava no prédio, quando encontrava alguém que a fazia rir. A Dona Odete estava mais gordinha. Efeitos secundários da quarentena e dos mimos do Sr. António da mercearia que lhe levava a casa, todas as semanas, um queijo de ovelha e de cabra. Um queijo delicioso, segundo ela, que acalmava os humores e a solidão dos dias.

Os dias pareciam maiores e melhores e, apesar dos receios, Isabel decidiu convidar o Rui para jantar em sua casa e desconfinarem juntos. Ele não hesitou.

A Isabel resolveu fazer um jantar a partir de um tutorial que viu na net – vários cozinheiros e plataformas tinham começado a fazer e a divulgar vídeos de receitas que ela adorava experimentar. No sábado, tinha começado a ver as propostas na plataforma Gerador, que tinha um workshop de cozinha de que ela gostava.

O Rui disse que levaria uma sobremesa e vinho. Chegou mais cedo do que ela esperava. Ela tinha previsto tomar um banho cheiroso, estrear uma lingerie que tinha comprado online e vestir um vestido supér sexy, que era sempre muito eficaz nas suas manobras de acasalamento.

Quando abriu a porta estava descalça, com uma camisa oversize de homem, de avental e com um bocado de puré de batata na testa e no cabelo. O que se passou a seguir foi bastante intenso e rápido: o Rui entrou em casa, fez um sorriso arrebatador, pousou o doce e a garrafa e abraçou-a cheio de desejo. Beijaram-se intensamente nesse primeiro beijo há muito desejado, sentiram as línguas dançarem com o mesmo ritmo e caíram no sofá como dois adolescentes sôfregos pela sua primeira experiência sexual. Foi intenso, foi rápido, foi perigoso, foi delicioso e apenas o cheiro intenso a queimado os separou, com a mesma pressa com que se tinham amado.

Um fumo negro saía do tacho e o cheiro intenso inviabilizava qualquer iniciativa para salvar aquele conduto. Desalinhados e sem jantar, riram-se com a situação e improvisaram um jantar com o puré que tinha escapado aos malefícios do fogo e com uns ovos mexidos com farinheira.

Limparam os despojos do amor e a Isabel não pôde deixar de sentir que aquele tipo era, de facto, o seu tipo. Um match perfeito. Mesmo com aquele começo avassalador, ele tinha usado um preservativo, sem que ela tivesse dito algo. Era muito raro que isso acontecesse nas experiências sexuais que costumava ter. Regra geral, era ela quem levava os preservativos e exigia sempre ao parceiro que os utilizasse. Aliás, ela tinha um lema: no condom, no fun! Gostava muito de sexo, mas sabia que tinha de se proteger e, apesar de tomar a pílula, a utilização de um método de barreira era tão instintivo para ela como lavar os dentes depois de uma refeição. Talvez fosse da educação sexual que teve em casa, talvez fosse pela clara noção de que não queria deixar à sorte a sua vida íntima e o seu corpo. Não queria apanhar nenhuma doença e queria decidir conscientemente quando ser mãe.

O jantar foi delicioso, repleto de cumplicidades e desejos expressos sem pudor, que culminaram numa longa noite de amor.

Cansados e felizes, ainda assistiram ao nascer do sol pela janela do quarto, mas o chilrear matinal da passarada parecia querer embalá-los com os seus cantos.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
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