Joana Vasconcelos tem expandido a rota da arte contemporânea portuguesa nas últimas décadas. Começa a expor com regularidade a partir dos anos 90, até "A Noiva" projetar internacionalmente a sua carreira com a participação na Bienal de Veneza, em 2005. Enquanto artista e mulher tem sido frequentemente pioneira.  Em 2012, foi considerada a primeira e a mais jovem artista a expor no Palácio de Versalhes, em Paris. I’m Your Mirror, uma das últimas exposições que reúne a sua obra desde 1997, esteve patente no Museu Guggenheim Bilbao e foi considerada a 13.ª exposição mais visitada a nível mundial, segundo The Art Newspaper. Em solo português, reconhecemos as intervenções monumentais no espaço público ou a presença do seu trabalho em locais como o LuxFrágil, o Palácio da Ajuda e o Museu de Serralves.

A transformação da banalidade dos objetos mundanos é um dos grandes marcos distintivos da produção artística de Joana Vasconcelos, que se foca sobretudo nos domínios da escultura e da instalação. Ao articular o design e a arquitetura, cria novos significados e novas aplicações para as peças do quotidiano, seja do ponto de vista crítico, funcional ou estético.

O Atelier Joana Vasconcelos permite a articulação de vários agentes, várias equipas, para a criação dos seus projetos. Contudo, não se apresenta como espaço unicamente centrado na sua produção artística: “Este atelier tem uma componente de espaço cultural, não só dedicado à minha obra mas também à obra daqueles que interagem comigo.” É exemplo o filósofo Gilles Lipovetsky que, em setembro de 2019, esteve no seu ateliê para uma conversa entorno do luxo, da moda e da arte. É assim que o seu espaço de trabalho serve o propósito de “melhor comunicarmos com a sociedade, pois é também um espaço de reflexão artística”.

A sua equipa abrange dezenas de pessoas, entre os 18 e os 70 anos, com backgrounds e experiências de vida distintas que se cruzam:  O meu ateliê é uma interação de diferentes padrões de vida. Não estou ligada apenas às artes plásticas, estou ligada à cultura e estar ligada à cultura é estar aberta a ela.” As atividades que dinamiza no ateliê representam um ponto de encontro para muitas pessoas, criando momentos de partilha e de espiritualidade. Além da articulação entre as equipas (como é o caso dos departamentos de arquitetura, têxtil e das oficinas), o horário semanal prevê momentos destinados ao bem-estar do corpo e da mente. Há meditação e yoga, mas também há conversas quinzenais. Destacam-se temas próximos das pessoas, sejam hobbies particulares, personalidades que são convidadas ou questões oportunas que são trazidas para cima da mesa: “Quanto mais artes e pessoas se cruzam, mais potencialidades se geram. A tendência que temos vindo a desenvolver aqui é a de abrir essa dimensão, ou seja, assumir que vêm sempre pessoas.”

Joana Vasconcelos oferece uma enorme projeção à arte contemporânea portuguesa, em grande parte pela presença que marca em vários espaços prestigiados. Contudo, a arte contemporânea ainda não chega a todos, especialmente aos espaços menos privilegiados: “A arte contemporânea devia chegar a mais lugares do que aqueles que chega e isso está relacionado com os equipamentos e os programadores existentes. Começam a existir mais programadores fora dos grandes centros e pessoas preocupadas com isso, mas continua a haver pouco acesso à arte contemporânea. Devia haver mais, mas é um processo evolutivo. As pessoas precisam de identificar que é preciso fazer e fazer de facto.” Quando surge a oportunidade, também participa no movimento de propagação da arte contemporânea ao disponibilizar peças para projetos com poucos recursos, mas boas motivações.

Desde o princípio até agora, Joana Vasconcelos nota naturalmente maior reconhecimento do seu trabalho: “Sinto que o público me conhece melhor. Cria-se familiaridade. É um processo que vais criando ao longo dos anos, mas no princípio não imaginava que isso acontecia. Só estava a fazer a minha obra.” Expôr o seu trabalho em espaços internacionais torna-a atenta ao modo como diferentes culturas apreendem e interpretam a sua obra. São exemplo as cerâmicas de Bordalo, cujo animal favorito varia consoante o país onde se apresenta. Em Londres, procuram-se cavalos, mas nunca os burros. Já em Portugal vende-se o touro branco ou bege, por contraste ao touro vermelho de Espanha. Os caranguejos são os favoritos dos franceses. No fundo, pequenas nuances e preferências que se prendem justamente com a realidade cultural de cada sítio. Ainda sobre o assunto, afirma: “Não és dissociável do teu país, da tua cultura. Podes sair do teu país, mas as referências ficam lá. A cultura é o lado de quem tu és, onde nasceste, aquilo que trazes junto a ti. Tu és o sítio onde nasceste, a família e o grau social. Depois podemos alterar isso, mas somos o resultado de uma situação. Toda a gente influência, para o bem ou para o mal, mas és o produto do conjunto.”

 

Foi a primeira mulher em várias ocasiões e ao olhar para o seu percurso já se questionou: “Mas porquê eu a primeira? O que aconteceu? Aconteceu que as mulheres, antes de mim, não tinham hipótese de chegar lá. Eu estou num tempo em que é possível. Gerações anteriores tiveram muito menos espaço para fazer o que estou a fazer. Se a igualdade de direitos fosse real, ouras mulheres teriam feito o que fiz.  Agora é que isso está a ser realidade. Hoje em dia as mulheres podem ser artistas, as nossas mães não o eram.” Quando questionada sobre a sua definição de feminismo, Joana Vasconcelos considera que este movimento deve ser interpretado “na ótica dos direitos humanos, sendo que as mulheres devem ser vistas na sua particularidade, mas também na sua igualdade”.

Aproveita para encontrares as sugestões culturais de Joana Vasconcelos no Boca-a-Boca da Revista Gerador 29. Descobre também as fotografias de Diana Mendes para o 6 Faces da Mesma Moeda no Atelier Joana Vasconcelos.

Texto de Mafalda Lalanda
Fotografias de Diana Mendes – 6 Faces da Mesma Moeda

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