Em 1946, a atmosfera podia não ser convidativa a que muito se fizesse na cultura. Salazar estava no poder há mais de uma década, e a Polícia Internacional e de Defesa do Estado - PIDE havia sido criada no ano anterior para garantir que nada que pudesse ser contra o regime era publicado, lido ou partilhado. Ainda assim, nesse ano de estreia para Eunice Muñoz no cinema (com “Camões” de Leitão de Barros), António Paulouro decidiu unir forças para criar um jornal regional que se viria a tornar uma referência: o Jornal do Fundão. 

Arnaldo Saraiva, que em 1946 tinha apenas sete anos, recorda que quando o Jornal do Fundão nasceu, “na Beira hoje dita Interior não havia livrarias dignas deste nome e só havia a bem dizer imprensa diocesana, paroquial, beata, salazarenta e, como regra, graficamente pobre e mal escrita”. E “apesar de nessa altura não se ter ainda distanciado do salazarismo, o fundador do jornal, António Paulouro empenhou-se, ‘de mãos limpas e coração puro’, como disse à partida, no ‘cumprimento de deveres simples, no amor à Terra Mãe’, ‘à solidariedade que devemos ao Homem nosso irmão’, e garantiu que o jornal estaria ‘ao lado dos que trabalham e dos que sofrem’.” Foi por a liberdade não ser compatível com o regime que acabou por se afastar do salazarismo. 

As palavras recuperadas por Arnaldo Saraiva estão no primeiro texto do primeiro número do jornal semanário que completa agora 75 anos, e surgem também na capa da edição comemorativa que foi para as bancas na semana passada. Ao longo destes três quartos de século, o Jornal do Fundão (JF) fez questão de estar sempre “ao lado dos que trabalham” e de seguir a linha fundadora de António Paulouro, que via no JF muito mais do que apenas um jornal regional. Hoje a redação é bastante diferente, mas há quem ainda se tenha cruzado consigo por lá, a subir e a descer escadas, a ler notícias e a garantir que tudo dava certo nos dias de fecho. Todos e todas lhe reconhecem uma força e um legado que permitiu ao jornal resistir à suspensão de seis meses pela PIDE, alcançar um estatuto nacional num contexto regional e firmar a valorização da cultura. Do lado dos jornalistas, sempre — como recorda Batista-Bastos numa reportagem feita no jornal no último ano do século XX, quando Fernando Paulouro já era chefe de redação. 

Anos mais tarde, com Nuno Francisco, diretor desde 2013, ao leme, a liberdade, o “amor à Terra” e o bom jornalismo continuam a estar, nos valores-base do JF. E mesmo com uma redação pequena, o trabalho que fazem, em equipa, pela Beira Interior é de uma importância inegável. Celebrar os 75 anos do Jornal do Fundão é, por isso, celebrar o jornalismo e a luta pela democracia. 

Desafiar expectativas. Mais do que um semanário “de província”

Lúcia Reis é uma das jornalistas que trabalham há mais tempo no Jornal do Fundão, e que foi crescendo à medida que o jornal crescia também. Quando entrou, nos anos 80, era a única mulher na redação — o que, nas suas palavras, “tem graça, porque hoje em dia é totalmente diferente”. “Mas devo dizer que o Jornal do Fundão sempre foi um jornal progressista e, portanto, isso não era um problema. Era um jornal aberto à mudança, aberto ao mundo, aberto à cultura”, recorda. 

Foi pela mão de Fernando Paulouro que Lúcia se juntou à equipa, depois de ter frequentado uma disciplina opcional de Jornalismo e Relações Públicas, de que Fernando era o professor, na Escola Secundária e ter estado na equipa responsável pela criação de um suplemento para estudantes, no JF. O chefe de redação reconheceu talento em Lúcia e convidou-a a passar pela redação sempre que lhe apetecesse e não tivesse aulas. E assim foi: “o jornal era uma referência, e quem é que jovem, a aprender alguma coisa, não quer integrar uma aventura daquelas, conhecê-la de perto? Foi essa a oportunidade que me foi dada e eu segui com muito prazer esse convite. Fui indo até à redação, porque eu não vivia no Fundão, vivia numa aldeia próxima, e ia e vinha todos os dias... e quando não tinha aulas, de vez em quando ia até ao JF, e foi assim que começou a minha ligação com o jornal”, conta ao Gerador em entrevista, por telefone. Tudo o que aprendeu de essencial sobre jornalismo, foi no Jornal do Fundão, tendo Fernando Paulouro como seu mestre e António Paulouro, tio de Fernando e fundador do jornal, ainda na direção. 

É com carinho que recorda essa relação de mestre e aprendiz: “o Fernando Paulouro era o mestre e uma pessoa extraordinária do ponto de vista do diálogo, do trabalho, da entreajuda, da capacidade de ensinar os outros, de ajudar os outros a perceber que no mundo, e sobretudo no jornalismo, o mais importante, muitas das vezes, não é o que está à frente dos olhos; é também tudo o que está por trás dessa realidade que nos é oferecida à priori”.

Arnaldo Saraiva lembra António Paulouro como um “homem de carácter, laico, republicano” que, por ter de começar a trabalhar muito jovem, “não pôde fazer estudos secundários nem no módico seminário próximo da sua casa, que frequentaram José Marmelo e Silva e Virgílio Ferreira”. O poeta e professor de Literatura Brasileira, natural da Covilhã, acredita que “foi talvez a sua condição de autodidata, junto à sua inegável e nunca devidamente cumprida vocação literária (ele escrevia com garra e, às vezes, com muito humor), que fez com que o seu jornal prestasse sempre muita atenção à educação e à cultura (tradição prosseguida pelo seu sucessor e sobrinho, o também escritor Fernando Paulouro)”. E, com o passar do tempo, o JF mostrou ser mais do que um semanário “de província”, como lembra Arnaldo Saraiva, através da edição de suplementos culturais dirigidos por Artur Portela Filho (Nova Literatura), Alexandre Pinho Torres (Nova Literatura) ou Vítor Silva Tavares (&etc), tendo este último criado a mítica editora &etc, que teve como ponto de partida o suplemento homónimo. 

No ano passado, foi publicado um livro que reúne todos os números do suplemento &etc

À semelhança de Lúcia, Arnaldo Saraiva juntou-se ao jornal quando chegou ao Fundão para concluir o último ano do ensino secundário no Colégio de Santo António e foi “surpreendido com um convite de António Paulouro”, que não conhecia pessoalmente, “para trabalhar no jornal”. “Ainda hoje ignoro o que determinou esse convite; creio que mais do que alguma juvenil colaboração minha noutras publicações foi o facto de num concurso do Jornal do Fundão sobre os “Dez Melhores Livros” da literatura universal (!) eu ter ficado em segundo lugar, sendo o primeiro atribuído ao futuro bispo Januário Torgal. Um ano depois tive de partir para Lisboa, para fazer o meu curso universitário, mas nunca mais me desliguei do JF, a que com intervalos maiores ou menores sempre dei a minha colaboração, e não só literária”, partilha com o Gerador. 

Foi Arnaldo Saraiva o responsável por levar as “provas [do JF] à horrenda Censura”, por algumas das homenagens prestadas a alguns escritores, mas também pela angariação de novos assinantes. E se o fez, conta, “foi por admiração (e memória) do seu fundador mas também por ter consciência de que o jornal representava e representa para a região e para o país, para os beirões, incluindo os emigrantes, mas também para muita gente da cultura que vê nele o símbolo de uma imprensa regional honrada e honrosa, com uma independência e com um amor à verdade ou à causa pública que não se vê sempre na grande imprensa lisboeta”. 

Na edição especial de 75 anos, o JF recuperou a primeira página do jornal

Quando acabou a licenciatura e um estágio no Diário de Notícias, em 1999, também Nuno Francisco foi convidado a deixar a capital e voltar à terra. O desafio era ir para a delegação da Guarda, que aceitou “com muita felicidade”, e seguiu-se de uma mudança que viria a ser efetiva para o Fundão. Sem ler previamente as palavras de Arnaldo Saraiva, Nuno Francisco corrobora a ideia de que o JF sempre teve algo “que não se vê sempre na grande imprensa lisboeta”: “quando estava na licenciatura, em Lisboa, e falava com os meus colegas - numa época em que o jornalismo não estava na crise em que está hoje- , olhávamos sempre em grandes títulos, mas quando vim para o JF, vim com uma alegria imensa. Jornalismo é jornalismo em todo o lado. Seja no Porto, seja em Lisboa, seja no Fundão, seja em Beja. O jornalismo pode ser bem feito e desafiador em qualquer jornal.”

Arnaldo Saraiva, Lúcia Reis e Nuno Francisco juntaram-se ao Jornal do Fundão em momentos e contextos diferentes, mas nutrem os três uma profunda admiração e respeito pelo o que o semanário representa. Em comum têm, também, todos, o facto de serem “filhos da Terra”, de terem crescido com uma presença viva do JF nas suas casas e de saberem não só o que os cidadãos e cidadãs da Beira procuram, mas também a importância de levar o jornal além dos limites do território. 

“O JF nunca foi um mero repositório de notícias”

O Jornal do Fundão foi, no período da ditadura, o único jornal a ser suspenso por um período de seis meses, no ano de 1965. A notícia que levou à suspensão era, claro está, sobre cultura, e integrava o suplemento Nova Literatura: dava conta da distinção de Landino Vieira, então preso político, num prémio literário da Sociedade Portuguesa de Escritores. Não era muito comum a censura acontecer desta forma, motivada por uma notícia literária, num jornal regional, e também isso causou alguns espanto em membros do governo, à época. Como lembra António Paulouro na reportagem feita pela RTP no jornal em 1999, “o então Secretário de Estado da Presidência do Conselho, Paulo Rodrigues, sublinhou que os jornais regionais não tinham nada de ter suplementos literários”. Continuar, depois dos seis meses de fecho por obrigação, foi um ato de pura resistência. 

Lúcia Reis acredita que ir contra o que era suposto foi, na verdade, o que sempre distinguiu o JF: “defendia-se muito a ideia de que sem cultura não há desenvolvimento e, portanto, essa era uma marca do jornal e uma preocupação permanente. Penso que foi isso que distinguiu, também, este jornal dos demais, porque não era comum um jornal regional do interior ter esse tipo de preocupação.” Não só havia essa preocupação como passaram pelas páginas do jornal nomes como António José Saraiva, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade, José Régio, Fernando Namora, Eugénio de Andrade e Herberto Helder, que contribuíram para que esse legado se fosse compondo.  

O período de censura marca profundamente a história do JF

Ir além do que é suposto podia passar por uma grande valorização da cultura num “jornal regional do interior”, mas também pelas posições políticas que o jornal sentiu que devia tomar ao longo da sua vida, pensando de forma alargada o “amor à Terra mãe” e a fidelidade com os seus leitores. “O Jornal do Fundão nunca foi um mero repositório de notícias”, deixa bem sublinhado Nuno Francisco. “O JF, seja quem for que esteja à frente do título, tem a obrigação, incutida pelo fundador, de pensar a região, procurar com os meios que estão ao seu alcance o desenvolvimento da Beira Interior… até porque estamos historicamente numa das regiões mais desfavorecidas do país. O JF tem essa obrigação, sempre, dentro das suas possibilidades e dentro do seu âmbito ajudar a região. E por isso é que o jornal é hoje o que é, porque a região lhe reconheceu muito bem esse papel. As pessoas dizem que é mais do que um jornal, e de facto é mais do que um jornal; tem, obviamente, a componente informativa que é fundamental, mas depois tem uma componente extra, que começou a ser semeada pelo fundador e que todos nesta casa seguimos. Não teria lógica se fosse de outra forma.” 

Entre algumas das maiores conquistas do jornal, está a reivindicação pela construção do túnel da Gardunha, que tanto Nuno como Lúcia reconhecem ter sido uma das mais marcantes. “O Jornal do Fundão orgulha-se de ter no seu património causas absolutamente essenciais para a região, e algumas vitórias, no sentido em que fez de questões regionais questões de todos os dias, do ponto de vista da reivindicação dos direitos da região, e foram lutas que acabaram por produzir efeito — isso diz bem o que é a força do jornalismo regional. O JF conseguiu pôr o ministro das obras públicas, na altura, a falar na Assembleia da República sobre a campanha que o JF tinha em curso. Foi um brado público, digamos assim, que produziu efeito. Estava a ser construída a via IP2, depois foi construída a auto-estrada da Beira interior, e a Serra da Gardunha teve que ser esventrada para criar os túneis para atravessar [a serra]. E a verdade é que um projeto que andou adiado, adiado, adiado e o fundador do jornal, que ainda era o diretor na altura, assumiu que semanalmente o JF ia dedicar um espaço regular a essa questão, do túnel da Gardunha. O governo acabou por ser tocado por essa campanha reivindicativa do Jornal do Fundão e o túnel acabou por se fazer, com algum atraso, mas mais depressa do que se teria feito não tivesse o JF assumido essa luta”, recorda Lúcia. 

Na edição comemorativa, também o túnel da Gardunha foi assunto de destaque

Para garantir que o jornal se mantinha vivo, seguindo sempre os ideais de liberdade promovidos desde o primeiro ano de fundação, um grupo de jornalistas e docentes universitários, do qual fazem parte Nuno Francisco, Rui Pelejão Marques, Fernanda Gabriel, José Ricardo Carvalheiro, Paulo Serra, e ainda o engenheiro José Pedro Gavinhas, compraram à Global Media, que detinha o jornal há já duas décadas, 90% das ações do jornal. Por essa altura, o grupo assinou um texto coletivo em que explicava que com esta compra garantiam a vida de um título que "não merece estar encerrado num museu, mas na banca ou na caixa do correio”. Tinham em vista a digitalização, que conseguiram com sucesso, bem como a criação de uma webTV, nunca esquecendo o principal meio para informar os seus leitores: o jornal semanário. 

Desde então, os tempos não têm sido fáceis, porque o panorama do jornalismo não o permite. “As dificuldades são seríssimas”, partilha Nuno Francisco com o Gerador. Com a queda da publicidade no papel e a importância do digital, os leitores crescem, mas a receita não crescem ao mesmo nível. “Levámos algumas noites e alguns dias a pensar, porque nós não éramos, nem somos, gestores; somos jornalistas. Somos pessoas apaixonadas pelo Jornal do Fundão e pelo seu legado, e de facto isto era muito assustador, e continua a ser. O Jornal do Fundão é uma luta de mês a mês. Isto é assustador porque há muita boa vontade, há muita determinação, e raramente hoje em dia se encontra um grupo de jornalistas amigos que decidiram pegar no barco e tentaram levá-lo para a frente - não é propriamente algo que esteja na moda hoje em dia, olhando para o contexto em que a comunicação social está”, continua o diretor.

O futuro do jornalismo também passa por aqui

É pelos leitores e pela importância que o jornal continua a ter na região que Nuno e a restante direção ganham, todos os meses, força para transformar os problemas em soluções. “Durante séculos a informação era só oral”, recorda Arnaldo Saraiva, e se “hoje na Beira, como em todo o mundo, o jornal convive com a rádio, a televisão, a internet”, é porque “não perdeu a sua qualidade comunicativa, informativa e educativa”. É por ser “facilmente transportável e legível em qualquer lado, sem exigir rede, eletricidade, baterias” que um jornal como o JF “continuará a ser fonte, suporte e memória aberta ao progresso e à criatividade”. E é importante não esquecer, também, que este foi - e continua a ser - “uma bênção  na formação e informação de muito cidadão, não só da Beira” pela “valorização regional, o progresso geral, a integridade moral, a solidariedade pessoal, a exigência cultural (rima e é verdade)”, diz o Professor com humor. 

Com o tempo, criou-se uma relação de proximidade natural com os leitores que, nas palavras de Lúcia, “sentiam que faziam parte do jornal”. “Há uma relação muito mais próxima do que entre os leitores dos órgãos nacionais. Porque é inevitável, é uma questão de proximidade, de identidade. Passa-se tudo num mundo mais conhecido, as pessoas conhecem-se, nós cruzamo-nos com as pessoas na rua. São as pessoas com quem lidamos, com quem vamos à procura das coisas, portanto há aqui uma relação recíproca e de respeito mútuo.”

Há leitores que se mantêm há décadas, que encontram desde sempre no Jornal do Fundão a fonte de informação que fala de assuntos que lhes são próximos e que raramente vêem na televisão ou conseguem ler em jornais generalistas. Há também muitos emigrantes, que “recebem semanalmente um pedaço de Beira, que vem embrulhado em papel de saudade”, como refere Nuno Francisco, e que mesmo com as dificuldades no transporte preferem o papel ao digital. “As provas que temos tido dizem-nos que é uma espécie de ritual que é celebrado, sempre que alguém pega no jornal, enquanto objeto, para se conectar com a sua terra de origem”. E há muitos jovens que, “apesar de serem mais permeáveis à leitura digital, também valorizam o papel” e procuram o JF para se informarem sobre assuntos da região.

O grupo de leitores do JF é hoje, também, bastante heterogéneo, como reflete a ilustração que o JF partilha nas suas redes sociais

Na redação de 8 pessoas que, em tempos sem confinamento, se juntam diariamente no Fundão, é o leitor que está em mente, sempre. Ter uma equipa composta por elementos de diferentes gerações é uma mais-valia que logo conseguimos notar assim que conversamos com Inês Gonçalves, a jornalista mais nova. “Os meus avós sempre foram assinantes do Jornal do Fundão, sempre li o jornal, por isso foi com muito orgulho que me pude juntar à equipa”, conta. “Vamos escrevendo um pouco sobre tudo, essa é uma das características de um jornal regional. Eu fui ganhando mais confiança tanto em mim a partir do momento em que comecei a sentir que o resto da equipa também confiava, e que podia recorrer a eles sempre que fosse necessário. Estou há dois anos no jornal, mas aprendo todos os dias a ser jornalista.”

A história de Inês não é muito diferente da de Nuno, que foi seu professor na Universidade da Beira Interior e é hoje o seu diretor. Depois de um estágio no Diário de Notícias, em Lisboa, surgiu a oportunidade de se juntar ao Jornal do Fundão — que, confessa, já era uma vontade antiga porque queria “voltar às origens”. A experiência no DN foi boa, mas é no Jornal do Fundão que se sente em casa, e que acredita que consegue efetivamente contribuir para a mudança: “aqui, ganhei outra liberdade”, partilha.  

Nesta constante procura pela liberdade, que se sente nas palavras de Nuno Francisco, Lúcia Reis, Arnaldo Saraiva e Inês Gonçalves, fica a certeza de que pensar o futuro do jornalismo também passa por repensar na importância do jornal e do regional. “Durante muitos, muitos anos, o interior estava muito distante e as populações precisavam de alguém que amplificasse a sua voz. Precisavam de algo que fosse o eco até Lisboa, onde se encontrava o poder central, e tinha várias formas de fazer chegar a informação até lá”, lembra Nuno Francisco. O Jornal do Fundão, assim como outros jornais regionais e locais, ocupou naturalmente esse lugar, e continua a fazê-lo uma vez que “não existe uma plataforma intermédia de poder regional”. “Quando são várias vozes a pedir o mesmo ou a exigir o mesmo é melhor do que uma voz dispersa aqui e outra ali”, e os jornais regionais e locais têm esse poder de reunião. 

Num gesto de profunda gratidão, Arnaldo Saraiva diz que não pode, nem quer “esquecer o que o JF fez e faz pela cultura, não só beirã e  portuguesa, pelo progresso e dignidade da minha região, tão esquecida ou maltratada pelos poderes centrais, e por mim”. “Sem a passagem por ele, sem ele, talvez eu não tivesse fundado dois jornais e duas revistas, e talvez não fosse o beirão, o português e o escritor que sou.”

E para que o Jornal do Fundão continue a ser essa fonte de inspiração para novas gerações, por muitos mais anos, Lúcia Reis espera (e acredita) que este terá de “continuar a ser uma voz firme, sem medo, na reivindicação daquilo a que esta região tem direito”. No que depender desta equipa, certamente continuará. 

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Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia do Jornal do Fundão / Na capa: António Paulouro

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