A 5 de março de 1881, um teatro erguia-se por vontade e pelas mãos dos cidadãos numa cidade que estava longe de ser a capital de um país. O Teatro Aveirense surgiu pela vontade de quem queria mais para si, enquanto cidadão, e não por motivações políticas. Desde então, já teve várias vidas, diferentes arquitetos a pensarem a organização do seu espaço, muitas direções, e uma crescente vontade de fazer e mostrar mais.

Há cinco anos que José Pina está no leme da gestão deste equipamento que agora pertence à Câmara Municipal de Aveiro e tem contribuído para fazer deste um teatro que se enquadra numa dimensão nacional e europeia, que quer mostrar "o que de melhor se faz por aí". No ano em que o teatro comemora os seus 140 anos de vida, serve também de navio de uma candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura 2027, deixando bem vincados os seus valores e para onde quer ir. No Teatro Aveirense cabe inovação, mas também reflexão sobre o passado; cabe a dimensão local e internacional. Cabe o apoio à criação, aos artistas e técnicos.

Naquela que já é uma segunda casa para os seus públicos, José Pina recebeu o Gerador através de uma videochamada para conversar sobre de onde vem e para onde quer ir o Teatro Aveirense. Os desafios têm sido muitos, mas está a chegar onde queria quando há cinco anos assumiu a direção; "só por uma calamidade" o Teatro Aveirense não chega ainda mais longe, garante-nos.

Gerador (G.) - Setembro marca sempre o início do novo ano para os espaços culturais. No mês em que se anunciam as programações do ano que se segue, festejaram de forma mais evidente os 40 anos do Teatro Aveirense, também com a inauguração da exposição que está patente até março, e que percorre todos estes anos de história. Quais diria que foram os momentos mais marcantes, de viragem, para o teatro ao longo de toda esta história que já conta com mais de um século?
José Pina (J.P.) - É uma pergunta difícil, até porque eu não estive presente em tanto tempo quanto isso na gestão dos destinos do Teatro Aveirense. Estou cá há cinco anos, mas geralmente tenho uma visão daquilo que é a história do teatro e o papel que tem desenvolvido ao longo deste tempo na cidade e no território. Nesse sentido, eu diria que o momento mais marcante é precisamente aquele em que um conjunto de cidadãos da sociedade civil decide avançar para a compra de um terreno para a construção de um teatro municipal em Aveiro - à semelhança de teatros com outra dimensão, com outra capacidade de acolher projetos sobretudo na área do teatro, como acontecia um pouco por todo o país, sobretudo nas duas grandes cidades do Porto e Lisboa, e que em Aveiro não existia.  Portanto foi esse lado colaborativo, de participação da comunidade, de proatividade, de resiliência, que marcou muito o surgimento do Teatro Aveirense, e acho que este é um ponto absolutamente marcante porque, ao contrário daquilo que está na origem deste tipo de equipamentos municipais de programação regular, que saem muitas vezes fruto de opções políticas de governação das câmaras municipais para a implementação das suas fronteiras culturais, este surgiu pela vontade das pessoas.

Surge da comunidade, por parte de um conjunto de cidadãos que decide pôr mãos à obra e tomar para si a iniciativa de criar condições para o surgimento de um teatro capaz de albergar um determinado tipo de projetos que os pequenos espaços que estão na cidade não tinham essa capacidade. Um outro momento marcante foi o período que antecedeu a grande reformulação do Teatro Aveirense, que aconteceu entre 2000 e 2003 com as intervenções de fundo no teatro, que o tornaram na infraestrutura que hoje é.  Essa data marca também uma alteração muito significativa no equipamento, porque o teatro passa a ter um tipo de características e condições de acolhimento de projetos, e a partir daí passa a ser o teatro que é hoje.

Entre estas datas há um conjunto de momentos que foram marcantes naquilo que foi o surgimento de algumas dimensões das artes performativas na cidade como por exemplo o teatro, o cinema, o teatro de comédia. Desde que desde que o Teatro Aveirense passou a pertencer à Câmara, começou a assumir um papel central naquilo que é a dinâmica cultural da cidade e do município. Até porque é o único teatro com determinadas condições técnicas e de público para receber projetos na cidade e no município, mas até essa altura houve momentos fundamentais à sua edificação e, mais recentemente, a partir de 2016 adotou um novo modelo de gestão, uma nova filosofia de programação em que o Teatro Municipal de Aveiro passa a ser o centro de toda a dinâmica cultural protagonizada pela cidade e pelo município. Portanto, a partir daqui muitas das ações que são marcantes no território além da sua programação regular emanam desta equipa e deste equipamento, como é o caso do Festival dos Canais, do festival de luz Prisma, ou o Criatech que é um evento focado na criatividade digital e tecnológica, e também o próprio processo de construção de um plano estratégico para a cultura em 2019 até 2030, bem como a candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027 que também são protagonizados e tiveram a sua génese aqui na equipa do Teatro Aveirense e a partir do equipamento.

G. - O José falava há pouco da importância da comunidade e eu pensava como ao longo destes 140 anos de história também os públicos vão mudando, naturalmente. Momentos de programação paralela como as Conversas do Aveirense, que comunicam com a programação propriamente dita, têm sido uma forma de perceber quem é que são os vossos públicos e de chegar até eles?
J.P. -  Estas ações visam também criar essa relação mais direta entre a programação e o nosso público-alvo, ou seja, os nossos espectadores. É uma ação de mediação cultural com nosso público e que nos permite ir percebendo cada vez melhor, de uma forma mais profunda, qual é a tipologia de grupo que nós temos e de onde é a sua proveniência, quais são os seus gostos, quais são as suas motivações. E sim, essas ações servem muito para nós auscultarmos e para sentirmos também o pulsar do nosso público, sendo que esta em concreto, as Conversas no Aveirense, são parte de um ciclo de conversas temático que aborda vários temas a partir daquilo que é um tema de referência que se prende com o questionamento do papel do teatro municipal nos dias de hoje no território, e temos um conjunto de painéis que discutem várias dimensões em diferentes áreas.

G. - Nesse sentido como é que caracterizaria os diferentes públicos do Teatro Aveirense? São sobretudo pessoas de Aveiro que procuram a cultura na cidade, ou são também pessoas de fora que acabam por ir até lá?
J.P. -  Temos de tudo. Em primeira instância, grande parte do nosso público é manifestamente de Aveiro, mas também dos municípios limítrofes, porque estamos todos numa grande continuidade urbana muito próximos uns dos outros. Podemos falar de uma comunidade de aproximadamente 365 mil habitantes aqui da região, que com muita facilidade se mobilizam e se deslocam para ir de um ponto ao outro da região, e depois temos um outro público que é claramente um público que vem de outras proveniências geográficas e que vem à procura de determinados conteúdos muito específicos, que ou são nichos ou são pessoas que têm maior procura de conteúdos mais abertos, mais mainstream e que vêem no Teatro Aveirense uma possibilidade ou uma oportunidade de poder consumir esse bem cultural. Depois temos públicos que se deslocam de todo o país, e sentimos isso, acima de tudo, quando temos projetos que são claramente diferenciadores naquilo que é o panorama da oferta de programação em determinados ciclos do ano, sobretudo no período que vai entre finais de setembro e maio, em que temos conteúdos que vêm cá [ao Teatro Aveirense] em estreia absoluta a Portugal, ou que passam apenas pelo Aveirense, e esses são públicos provenientes de vários pontos do país. Ultimamente temos sentido que sobretudo no período que decorre entre a Páscoa e o Verão temos muito público internacional, porque Aveiro é um território com muitos turistas e determinados conteúdos que são claramente procurados por esses turistas, desde logo na música - sempre que é fado sentimos isso - na dança contemporânea,  nas disciplinas mais abertas e que não têm texto, como é também o caso do circo contemporâneo. De resto, dentro do nosso público no município temos um pouco de tudo, porque o Teatro Aveirense é um teatro que não tem uma filosofia de gestão nem uma direção artística muito focada num determinado tipo de oferta cultural. Como teatro municipal que somos, e sendo o único espaço no município deste tipo, temos um desenho de programação que é aberto a todos os públicos, desde os  infanto-juvenis aos mais avançados e de diferentes estratos sociais, porque a nossa política de preços visa promover a acessibilidade ao equipamento e ao produto cultural que oferecemos. Portanto, temos públicos com muitas proveniências sociológicas e também a nível de idade.

G. - Vi até que tiveram este ano uma parceria com o Museum of Broken Relationships, de Zagreb,  juntamente com a Câmara de Aveiro, e achei curioso criarem estas parcerias além fronteiras, não só no sentido de ter uma programação de teatro ou de música em que em que estas ligações existam, mas haver uma parceria com instituições que estão noutros lugares da Europa, neste caso. É uma forma de ampliar as possibilidades do Teatro Aveirense, mas também de criar pontes com outras cidades europeias, já que existe também uma candidatura a Capital Europeia da Cultura em curso?
J.P. - É um pouco de tudo isso que acabou de dizer. Nós estamos numa cidade que cada vez mais pretende ser aberta, cosmopolita, contemporânea, e obviamente aqui a dimensão da oferta cultural é relevante e acompanha este raciocínio. Não se trata só de um discurso politicamente correto ou artisticamente bonito e bem feito, trata-se de ter uma ação que o concretize e que dê corpo a esse curso e, sendo o teatro o epicentro da candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, para nós faz todo o sentido que esta estrutura, este equipamento, esta equipa permitam ter cada vez mais conteúdos que sejam diferenciadores, que abordem as agendas que fazem parte do nosso dia-a-dia e do nosso futuro, mas que também tenham esse olhar para lá do que são as nossas fronteiras geográficas, não só do município como também do país, porque obviamente estamos num mundo aberto e para nós, programar um conteúdo que vem da Eslovénia, da Croácia, de Espanha, de Santarém ou do Algarve é precisamente o mesmo exercício. Tem que cumprir com um conjunto de objetivos que nós pretendemos para o teatro e para a cidade -cidade essa que se quer candidatar a ser a referência cultural do país nos próximos anos e em 2027 ser a referência cultural da Europa. É neste enquadramento que a nossa ação acontece, nunca esquecendo que acima de tudo somos um teatro que trabalha para o nosso público local, de Aveiro, mas que tem esta ambição de trazer a Aveiro aquilo que se faz de melhor por essa Europa fora, e o que se faz de melhor por Portugal ao nível da criação e da co-produção e do acolhimento dos projetos.

G. - Olhando para a programação deste ano, nota-se que de facto há uma intenção de estar em contacto com o que se faz de inovador a nível nacional e internacional, mas que há também esta preocupação de que falava antes de manter uma relação com o local. Um desses exemplos, além dos que falou há pouco, é a projeção do documentário "Vozes e Retratos das Fábricas de Cerâmica da Ria".
J.P. - Pelo menos enquanto esta filosofia de gestão e de programação estiver à frente dos destinos do Teatro Aveirense, e também da Câmara Municipal de Aveiro, em primeira instância somos um teatro que trabalha para o público da geografia em que está inserido. Portanto, a nossa prioridade é este público. A nossa prioridade é também trabalhar com este público aquilo que são os seus fatores identitários e perceber que aquilo que é a sua história, a memória e identidade deste território, é muito importante para nós, e também pode ser matéria para o desenvolvimento de determinados conteúdos artísticos, seja nas artes performativas, seja na música, seja no cinema, porque esta relação local com o Teatro [Aveirense] para nós é absolutamente crucial. Nós nunca vamos abandonar este público, nem deixar de ter este olhar sobre o contexto geográfico em que estamos e, a partir daí, trabalhar matérias de índole local, quer seja numa dimensão mais nacional ou internacional. Este patamar, para nós, é basilar e estruturante, e é inquebrável esse compromisso que nós temos com o nosso público e com o espaço em que estamos inseridos. E claro, depois há outro lado de querermos ter e trazer à nossa cidade o que de bom se faz pelo país e pelo mundo fora, percebendo que obviamente tem que haver gestão, tem que haver bom senso naquilo que são as opções programáticas. Para nós, trabalhar as agendas que fazem parte do nosso dia-a-dia como a sustentabilidade, o género, ou seja, a reflexão sobre assuntos como a democracia estão numa primeira linha de abordagem tão prioritária como está trabalhar o nosso território. Porque somos cidadãos do país, somos cidadãos do mundo, e esses temas também se cruzam no nosso dia-a-dia, na nossa vivência. O Teatro Aveirense,  sendo o Teatro Municipal, tem que abordar essas questões. Não faz sentido termos um teatro que se quer assumir contemporâneo, que não tem tabus naquilo que programa, sem pensar dessa forma, na minha perspectiva. Mas também nunca tiramos os pés da terra e temos sempre presentes para nós que o nosso público prioritário é o público de Aveiro, a nossa geografia é aquela que também nós queremos trabalhar. Trabalhamos as várias dimensões em simultâneo, com o mesmo carinho, com a mesma dedicação, mas sempre tendo presente que somos o Teatro Municipal de Aveiro e, como tal, temos esta missão como prioridade do nosso trabalho.

G. -  Quais são os desafios de programar cultura quando se é uma das únicas, senão a única, grande sala de espetáculos da cidade? Acredito que muito fique de fora.
J.P. - O trabalho de programação é um ato de escolha entre conteúdos com o fim de conseguir atingir um conjunto de objetivos que se pretende. O ato de programar, por si só, é um ato de opção. No nosso caso, uma escolha que tem que ver com opções de gestão e de oferta cultural. Temos um diálogo permanente com um conjunto de estruturas e instituições locais, e também com nosso público, mas é por si só um ato de escolha. E claramente há muita programação que nos vemos, muitas vezes, impossibilitados de programar quando queremos, desde logo porque os projetos não estão disponíveis para circulação ou estão condicionados, depois porque também temos aqui uma relação custo-benefício que temos que preservar e salvaguardar, que é perceber que nem sempre estamos em condições de programar o que queremos por questões financeiras ,e acho que é importante perceber e ter esta noção de que, não fazendo uma relação de causa direta entre o investimento e as receitas a nível financeiro de públicos, temos que ter um equilíbrio razoável e que seja sustentável para uma estrutura como esta. Depois também temos outras vicissitudes que, muitas vezes, nos limitam essa capacidade de programar: nós temos datas que são mais procuradas do que outras no nosso calendário semanal e mensal, e Aveiro apesar de ser uma cidade que tem esta ambição e de, felizmente, não nos podermos queixar de públicos para os nossos projetos culturais, não é a mesma coisa estar a programa à segunda, terça ou quarta-feira como numa grande cidade da Europa, e ficamos condicionados desde logo a esta disponibilidade de datas porque, associado a isso, temos um outro conjunto de eventos que acontecem durante o ano que nos retiram essas possibilidades de datas para programar, assim como também a equipa não tem um número muito significativo de colaboradores. Entre aquilo que é a gestão de recursos humanos, de trabalho de planeamento e a sua apresentação, nós estamos condicionados também àquilo que a disponibilidade dos recursos humanos e das datas da sala. Um último aspeto é que o teatro municipal, sendo o único teatro na cidade com estas capacidades técnicas e de produção, também é solicitado para o acolhimento de alguns projetos do movimento associativo de alguns setores privados, não só locais como também nacionais, e que faz sentido estarem também no teatro porque é um teatro  que é todos, não só de alguns, e então temos algumas cedências que temos que fazer. Há um conjunto de vários itens que condicionam o ato da programação. Mas é um ato que é desafiante e estimulante, que exige constantemente um olhar perante o todo, não só numa dimensão mais local, regional mas também numa dimensão mais nacional, porque se nós queremos apresentar o que de bom acontece em Portugal e no estrangeiro, temos que ter essa perspetiva, esse conhecimento do que acontece, ao mesmo tempo que temos que perceber o que está a acontecer de bom no território, o que é que tem valor, o que pode ser potenciado através da nossa estrutura junto dos nossos agentes culturais e criativos locais. Portanto, o ato de programar é, muitas vezes, um ato de decisão, de solidão, e depende de muitas variáveis. Como o ato de promoção tem que ser mais profundo, temos que investir o tempo também nessas outras dimensões, no conhecimento dos projetos, muitos deles ainda em ideia para depois os podermos produzir, co-produzir ou co-apresentar.

G. -  Existem dois teatros nacionais em Portugal, o D. Maria II e o São João. Tem sido importante também estabelecer relações com estes dois teatros? Penso nos desafios que se podem sentir, eventualmente, também no orçamento que existe para teatros municipais que acaba por ser um bocadinho mais baixo.
J.P. - Os teatros nacionais têm um papel crucial naquilo que é o apoio à criação artística nacional, tanto apoiando as criações, como apoiando os jovens artistas emergentes. Estes teatros têm vindo a desempenhar um papel de parceria não só ao nível do apoio à criação, como também no apoio à circulação de projetos que depois são apresentados em teatros como o Aveirense, depois de estreados no Dona Maria II ou no São João.

No nosso caso, a relação é mais intensa com o São João por uma questão de proximidade geográfica, e tem sido uma relação excelente, muito efetiva, entre aquilo que é a dinâmica de criação e de promoção do Teatro São João e a nossa capacidade também de produzir e de programar. No ano passado, no nosso aniversário, tivemos uma estreia do Teatro Nacional São João produzida e apresentada em estreia nacional aqui no Teatro Aveirense, o que é um facto marcante e não muito usual de acontecer com teatros. Essa relação é muito importante para nós, ajuda-nos a viabilizar também a existência de determinados conteúdos em primeira mão, que de outra forma não seria possível, e também permite que as pessoas não tenham que se deslocar de Aveiro a Lisboa para ver determinadas produções, porque também podem vê-las aqui na sua cidade, no seu teatro, desde que este tenha tecnicamente condições para o acolher e que esteja dentro daquilo que são os seus parâmetros de gestão.

G. - Falava há pouco da criação e do facto de estes teatros terem mais capacidade para apostar na mesma, mas penso que também vocês têm vindo a fazê-lo, nomeadamente através do Laboratório de Criação Coreográfica. O José acredita que vale a pena investir na criação e na experimentação sem que exista a pressão de um objeto artístico final que tem que ser rentável? Pergunto-lhe isto porque acho que em conversas com artistas jovens criadores ,às vezes, esta é uma das grandes questões: que nem sempre existe espaço, seja para fazer residências artísticas ou para fazer estes laboratórios de criação ou de experimentação, porque parece que se tem de ter sempre esta garantia de que se vai ter um objeto final que vai ser rentável, e que temos de pensar a longo prazo. Que importância é que podem ter aqui também os teatros como o Teatro Aveirense?
J.P. - O papel que o Teatro Aveirense pode ter no apoio ao setor cultural, e em teatros como o Teatro Aveirense, é absolutamente crucial. No nosso caso, temos tomado a posição, desde 2016, de o Teatro Aveirense ser um teatro  que apoia também a criação - não só a criação local e dos seus setores culturais e criativos locais, mas também a criação de nacional. E porquê? Porque, para nós, é importante que haja um resultado artístico final, que esse resultado seja o melhor possível do ponto de vista artístico e técnico, mas não tem que ter essa rentabilidade económica e financeira associada a esse objeto. Quando nós apoiamos e apostamos nas criações, tem um sentido de, por um lado apoiar o setor cultural e criativo nos processos de criação - os artistas, os técnicos, todo o ecossistema que está à volta do setor cultural- e por outro, é permitir que através dessas criações em que, muitas vezes, não é propriamente muito fácil de identificar qual vai ser o resultado final artístico, exista um estímulo à à experimentação. É nesse exercício de reflexão que a evolução se faz artisticamente, e aqui nós estamos conscientes de que a relação custo-benefício é uma dimensão que não pode ser perspectivada da mesma forma quando estamos a falar de um conteúdo mais comercial, mais mainstream, com outra capacidade de atratividade de público e de financiamento. Mas esse não tem sido o sentido que nos tem norteado, tem sido exatamente o contrário: há espaço para as duas realidades. Quando falamos da criação, do apoio à produção local e nacional, estamos sempre a ver isto como uma forma de apoio ao setor cultural e criativo e, por outro lado, contribuindo para que esse setor a nível nacional ou local vá evoluindo qualitativamente, vá subindo para patamares que se aproximam o mais possível de um país europeu moderno, com uma massa criativa de excelência e com um público que cada vez é mais exigente, mas que também tem que passar por estes processos para chegar lá de facto. Esse é um trabalho de longa duração, em que nós não fazemos estas opções por determinadas agendas políticas, circunstanciais, programáticas ou pessoais. Fazemo-lo com um sentido lato do serviço público, com sentido de missão, quer seja para o setor cultural local, quer seja para o setor cultural nacional.  Daí que o Teatro Aveirense apoie não só as criações do setor cultural e criativo nacional, como também apoia muito aquilo que são os valores emergentes, os jovens que demonstram qualidade e que têm vontade em encetar este o caminho da artes e da produção cultural, localmente falando.

G. - É inevitável enquadrarmos tudo isto na pandemia que ainda estamos a viver. É uma altura que continua a ser muito difícil para os trabalhadores da cultura, e em que muitos tiveram mesmo de procurar alternativas e, por isso, no sentido de tudo isto que temos vindo a falar, pergunto-lhe também em que sentido é que os municípios - e aqui não digo só os teatros em particular - podem ajudar ou podem contribuir para a garantia de não perdermos bons criadores? 
J.P. - Claramente que o papel dos teatros e das autarquias é absolutamente crucial. Eu diria mesmo que é quase incompreensível o peso que o apoio e a importância que os teatros municipais, e automaticamente as câmaras - porque os teatros municipais são serviços das câmaras - têm no panorama nacional no apoio às artes, porque este contexto está desequilibrado. Nós deveriamos ter mais fundos, mais apoios para a criação, para a programação, para a fruição, para a comunicação cultural, para a experimentação, para a internacionalização da cultura do que o que temos, de forma também a equilibrar aquilo que é o apoio central e o apoio municipal. De facto, o apoio municipal é incompreensivelmente muito grande face aos apoios globais para a área da cultura no país. Eu diria mesmo que se não fossem as câmaras municipais através de suas estruturas de programação, a cultura neste país tinha andado irremediavelmente para trás nos últimos anos, se virmos que são os teatros municipais que acolhem, que apoiam os projetos da criação artística, o que é que seria da cultura neste país e nestas áreas em concreto se estes teatros não existissem; onde é que os conteúdos eram apresentados,  onde é que os artistas tinham condições para apresentar? Acho que neste momento o país está muito bem servido de espaço para a apresentação, o que tem acontecido ultimamente é um papel incompreensivelmente maior das autarquias do que se calhar deveriam ter face à sua dimensão e à sua responsabilidade no atual contexto e no atual enquadramento que existe no país. No que diz respeito àquilo que é, ou que foi, o papel do teatro municipal e da Câmara Municipal de Aveiro nestes tempos de pandemia, foi muito relevante. O teatro fechou quando foi obrigado a fechar por decreto, porque até lá o nosso sentido de resiliência, com ponderação e cuidado, sempre esteve na nossa filosofia e na nossa gestão no dia-a-dia. Se não fomos o primeiro, fomos dos primeiros a abrir, porque temos que ver estas coisas com muita positividade, com muita responsabilidade também, obviamente, mas com um sentido de missão e de que se nós estivermos fechados, o setor pára, o setor morre. E isso não pode acontecer. Quando aconteceu este período de covid-19, até ao Verão deste ano, o que nós fizemos foi o lançamento de um programa chamado "Cultura em tempos de incerteza", em que apoiamos a criação artística local, através de financiamento como contrapartida à apresentação de objetos artísticos, de resultados finais por parte do setor cultural e artístico local, e também fizemos uma call para técnicos de som, de vídeo, de luz, de produção também com uma contrapartida que é ser um apoio de financiamento, mas que tinha como retorno um trabalho efetivo assim que pudesse ser concretizado. Assim aconteceu, a partir do momento em que o teatro começou a trabalhar Tivemos esta dupla preocupação: olhar não só para aquilo que era a dimensão da criação dos artistas, como também dos técnicos, porque por detrás desta equipa artística está uma outra equipa e nós não fomos insensíveis a ela, e a Câmara Municipal felizmente também não foi.

G. - Acredito que tenha sido uma altura desafiante para quem gere  um teatro. Na verdade, nestes 140 anos o teatro já passou por grandes guerras, por uma ditadura, agora por uma pandemia. O Teatro Aveirense já está no lugar em que acreditava que devia estar desde que assumiu funções como diretor?
J.P. - Nunca é um bom período para nós passarmos pelo que passamos, mas de facto o teatro estava numa dimensão única na sua história mais recente, porque desde que há registos de bilheteira no Teatro Aveirense, o teatro tinha registado no ano de 2019 o seu melhor ano de sempre a nível de bilheteira, e nos quatro anos anteriores tinha obtido dois dos melhores de sempre. Portanto, nos últimos quatro anos de atividade o Teatro Aveirense tinha as melhores performances de sempre desde que há registos de bilhética, e a pandemia veio num período em que estávamos com uma dinâmica muito forte de públicos e foi duplamente triste por esse motivo. Nós temos uma sessão de cinema de autor todas as terças-feiras em colaboração com uma estrutura aqui da região, que é o Plano Obrigatório, e nessa altura nós já tínhamos duas sessões por dia à terça-feira, ao final da tarde e à noite, o que demonstra o quanto estávamos com dinâmica de público e de aceitação da nossa programação, e com números muito interessantes para uma cidade com esta dimensão como é Aveiro. É óbvio que não foi fácil o período de pandemia, como não está a ser fácil este período de transição. Quando voltámos a abrir, voltámos a ter bons indicadores, muito bons números, e quando estávamos a sentir um bocadinho a retoma do que tínhamos perdido, eis que voltamos a fechar. E no momento de fechar neste segundo ciclo da pandemia, tivemos esta opção de gestão com a Câmara Municipal que foi fechar para obras, para a requalificação do teatro, que era algo que nós pretendíamos fazer no sentido de dotar o teatro cada vez mais com melhor equipamento, com melhores condições não só para o público como para os artistas, de forma a poder ter no teatro condições de acolhimento e de conseguir fazer, e bem, como o que há de melhor na Europa. Temos tido muita aceitação por parte do público, tem sido  voltar aos momentos antes da pandemia com muito boas salas, temos também uma nova identidade gráfica, temos uma nova capacidade de poder fazer e acolher cada vez mais e melhor os nossos públicos e as nossas equipas artísticas e técnicas. O teatro, neste momento, está a tentar recuperar essa velocidade que perdeu quando em 2020 teve que ser encerrado por motivos da pandemia. O teatro, indo à sua pergunta de fundo, está no caminho que nós queríamos quando eu cheguei cá e que me levou a aceitar este desafio, que é ter um teatro cada vez mais centrado na cidade e no território em que está inserido, com uma ótima relação com o seu público, com o setor cultural e criativo, com dinâmicas de criação com estes agentes muito fortes intensas.

No que toca à nossa gestão interna, não se trata de ter mais equipa, mas de ter uma equipas cada vez melhor coordenada, com uma comunicação interna muito eficaz e efetiva. E nós estamos quase a atingir esse objetivo. Há uma estabilidade também de governação, ao nível político, que foi reiterada no passado mês de setembro, o que nos permite pensarmos também para os próximos anos, e depois é uma questão de responsabilidade nossa que é ter boas opções, bom gosto, e continuar a ter esse trabalho de dedicação e entrega com a nossa comunidade, com os nossos artistas, para continuarmos a ter o nosso público. As condições estão aí todas, só por uma calamidade é que não vamos conseguir atingi-las.

Texto de Carolina Franco