Em 1975, Sophia de Mello Breyner dizia na Assembleia Constituinte que «a cultura não existe para enfeitar a vida, mas para a transformar». Décadas mais tarde, mantém-se essencial olhar para a cultura como ignição da mudança. E isso também passa pelo ensino.

Numa altura em que se aproxima o início de mais um ano letivo, é tempo dos jovens voltarem a estabelecer uma relação rotineira com as escolas. É também o mote ideal para refletir sobre a ligação das instituições de ensino com os diferentes polos culturais, dentro e fora do seu raio de ação.

De acordo com o estudo anual Barómetro Gerador Qmetrics, lançado recentemente, 75,1% dos jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos, sentem que a cultura está mais orientada para as restantes gerações. Num outro dado,destaca-se o facto de que o filme é o elemento cultural mais consumido entre jovens, por oposição a exposições e peças de teatro.

Tendo em conta este sindicadores, procuramos ouvir o lado de quem estabelece pontes entre os jovens e a cultura, através do sistema de ensino e das suas possíveis ramificações. Dos conteúdos programáticos à relação com os espaços culturais, são vários os intervenientes que procuram materializar esse encontro. Nesta odisseia, destaca-se o papel dos professores e dos mediadores culturais.

Adelaide Rodrigues, professora de português do Agrupamento de Escolas Gil Vicente, em Lisboa, defende uma abordagem holística da educação. Ao longo de 30 anos de serviço, a docente tem procurado criar essas sinergias, sentindo que existe, da parte dos alunos, um reconhecimento desse esforço.

«Para mim é de grande importância, porque a educação não é só a parte curricular. Acho que o que se aprende na escola é embrionário e todos os extras que se fazem alargam esse embrião», realça Adelaide Rodrigues, que vê no encontro entre as escolas e os espaços culturais uma mais-valia para a formação dos jovens.

Apesar do esforço por parte dos professores em motivar a ligação das suas turmas com a cultura, a docente não deixa de apontar a obsessão por parte do sistema com a preparação dos alunos para os exames e o posicionamento das escolas nos rankings nacionais. «Acho que isto se tornou numa obsessão e desvirtuou toda a componente de formação holística», adianta.

A mediação cultural como uma «gota no oceano»
Carlos Carrilho e Cristina Campos são ambos mediadores culturais, cujo trabalho se centra nas relações entre o objeto artístico e os seus públicos. Trabalhando com diversas instituições e municípios, entre estes a Fundação Calouste Gulbenkian ou a Câmara Municipal da Amadora, acreditam que o papel de um mediador cultural passa por «promover experiências», que ajudem a «desconstruir a ideia de que a arte e a cultura são elitistas», promovendo assim a dessacralização dos espaços.

O contexto, os objetivos, a faixa etária e a predisposição dos públicos são fatores que pesam não só na preparação das visitas, mas também na abordagem a adotar. «A nossa estratégia não pode ser meramente expositiva, tem de procurar uma empatia emocional», refere Carlos Carrilho, que olha para a medição como «uma criação conjunta».

O trabalho destes profissionais requer, forçosamente, um estudo contínuo de diferentes temáticas relacionadas com os objetos artísticos que vão passando pelo seu percurso. «Vão entrando novas peças, novas temáticas e temos deestar constantemente a estudar e a entrar em universos onde provavelmente não entraríamos», sublinha Cristina Campos. Ainda que este seja um processo «extremamente enriquecedor», Carlos e Cristina sentem que nem sempre lhe é reconhecido o esforço.

«A profissão não está de tal forma valorizada que nem sequer existe», advoga Carlos. Na mesma linha de pensamento, Cristina realça que não existe um «perfil de mediador» –entre vários motivos, por não existir uma formação especializada –, o que faz com que estes possam vir de áreas tão distantes quanto a arqueologia ou a comunicação.

Tanto para Adelaide Rodrigues como para os mediadores, existem fatores que contribuem mais ou menos para o despertar de uma sensibilidade e predisposição dos jovens para a cultura. Os três salientam o papel crucial das famílias no estímulo cultural que podem transmitir aos seus filhos. «Uma pessoa que tenha uma boa formação em termos de cidadania terá capacidade de, a partir daí, ganhar competências pedagógicas e criar uma riqueza cultural mais ampla», ressalva Carlos.

No entanto, e por muito que a relação entre a escola e o espaço cultural possa ser potenciadora de novos estímulos, «a experiência proporcionada pela medição cultural é apenas uma gota de água no oceano», acrescenta.

Um novo Plano Nacional das Artes que põe em causa o atual regime disciplinar
Recentemente foi lançado um novo Plano Nacional das Artes (PNA). Com a tutela dos Ministérios da Cultura e da Educação, o documento aprovado por uma resolução do Conselho de Ministros pretende facilitar o acesso dos cidadãos à cultura e às artes.

Paulo Pires do Vale, professor universitário e comissário do novo plano explica que este é um «projeto para os próximos cinco anos, que será reavaliado para continuar até 2029». De acordo com o responsável, este passa a ser «um plano-chapéu para todos os outros, para que se possa mais facilmente articular atividades e pensar em comum».

Ao conjugar o Programa Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Cinema, o Programa de Educação Estética e Artística, o Plano Nacional de Leitura, a Rede Portuguesa de Museus e o recém-criado Arquivo Nacional do Som, procura «articular e potenciar a ação de todos, construindo pontes entre estes organismos para consolidar a coerência entre todos ao nível dos objetivos, valores e estratégias de intervenção», lê-se nos princípios estratégicos do documento.

Se a experiência da medição cultural é apenas mais um elemento que pode contribuir para uma maior ligação entre os jovens e a práticas culturais, o novo plano surge em momento «oportuno» face à expetativa das instituições quer de ensino, quer da cultura, a quem «faltava um documento que lhes garantisse visibilidade, valorização e ligação às tutelas». Da mesma forma, o responsável refere que, para além de «ambicioso», o novo plano «põe em causa o regime disciplinar de fragmentação do conhecimento».

Dividido em três eixos – Política Cultural, Capacitação e Educação e Acesso –, o novo PNA assume-se como um «manifesto» e pretende alocar a ideia de formação não só aos jovens, mas também a docentes e à comunidade. Através da Academia PNA, dirigida a mediadores, educadores e professores, tem o intuito de lhes dar «ferramentas para que estes possam trabalhar as suas áreas curriculares, usando também as artes como recurso».

Além da Academia PNA, o plano propõe a criação de um Índice de Impacto Cultural, que irá medir o impacto de organizações locais na cultura; de um Plano Cultural de Escola, no qual cada agrupamento terá dedefinir um professor coordenador com uma equipa escolhida por si; de um ID Cultural, que consiste na reunião de elementos fundamentais à cultura de cada território em que as escolas se inserem; e de um Projeto Artista Residente, pensado para que artistas possam fazer das escolas o seu ateliê.

Ainda que este seja um plano pensado à escala nacional, Paulo Pires do Vale realça que «em cada território terá deser ancorado de maneira própria». «Um dos papéis que julgamos que vamos ter é o de esclarecer e tornar cada vez mais evidente a importância das artes e da cultura no desenvolvimento sustentável de cada um. Todas as escolas devem ser polos culturais e não apenas polos educativos», sustenta.

Entre os indicadores e as vozes que aqui figuram, ressalta a noção de que persistem desafios no que toca ao proporcionar o encontro entre os jovens e a cultura. Muito embora os intervenientes que fazem a ponte entre instituições estejam ativamente a potenciar essa empatia, mais do que o nível de escolaridade é a qualidade do ensino regular – em que a cultura é parte integrante e não apenas um extra – que pode quebrar um paradigma, promovendo a mudança de mentalidades. Para que a cultura «não seja qualquer coisa de decorativa, mas estrutural», conclui o comissário.

Este artigo foi originalmente publicado no número 27 da Revista Gerador, disponível numa banca perto de ti ou em gerador.eu.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Monika Kozub disponível via Unsplash

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