Kastrokriola, do dramaturgo cabo-verdiano Caplan Neves, conta a história de um “amor perigoso” entre duas mulheres. O espetáculo, totalmente falado em crioulo, é o culminar de uma residência artística de artistas e técnicos cabo-verdianos no Teatro Nacional São João (TNSJ). A estreia acontece amanhã, 10 de junho, Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, no Porto, onde a peça permanece até sábado.

“É um amor e uma vontade que, de alguma forma, entra em conflito com a razão e daí produz uma espécie de surdez, de teimosia, de todas as partes, que leva à desgraça. Portanto, de alguma forma, é muito igual à [tragédia clássica portuguesa] Castro. Aliás é A Castro”, disse Nuno Cardoso, encenador de Kastrokriola, em entrevista à agência Lusa, à margem do ensaio de imprensa, que decorreu, ontem, no Mosteiro de São Bento da Vitória, na Invicta.

A localização de uma cena de crime surge no palco com o desenho a branco no chão de um corpo humano, dando informação ao espectador da existência de uma morte, uma morte planeada como sendo a única saída para esconder um “amor perigoso” que é considerado um “escândalo sexual” para o partido político de Petra, a mulher que se apaixona pela "jovenzinha" Kastro.

“Não há amores proibidos, há acima de tudo amores perigosos, que estrategicamente não são úteis, ou que prejudicam alguma coisa”, e as “públicas virtudes e os vícios privados são o traço distintivo de todas as civilizações humanas, mas quando a sociedade é confrontada com um fator disruptor normalmente reage mal. Reagiu mal em 1355 [ano do assassinato de Inês de Castro], reage mal no século XIX”, explica Nuno Cardoso, referindo que a única dificuldade que sentiu para encenar a peça foi a existência da covid-19.

Kastrokriola é o culminar de uma residência artística de artistas e técnicos cabo-verdianos no Teatro Nacional São João (TNSJ), que revela uma certa crioulização de A Castro, de António Ferreira.

A criação materializa também “o ponto de partida de um processo de colaboração” que o TNSJ realizou com Cabo Verde, mas que visa abrir “as portas” a todos os países de língua oficial portuguesa “de uma foram substantiva e não de uma forma 'decorativa'”, acrescenta o encenador, considerando que este projeto tem o poder de confrontar a tragédia clássica com esta outra língua, o crioulo, e com a “energética e o imaginário que transporta o talento de Cabo Verde”.

O espetáculo, todo falado em crioulo, com legendas em português, resulta da adaptação do texto clássico pelo jovem dramaturgo cabo-verdiano Caplan Neves, com encenação de Nuno Cardoso, diretor artístico do TNSJ.

Nesta peça, há “muito de local, a forma de falar, as expressões idiomáticas”, mas ao mesmo tempo há este “apelo universal decorrente da temática da peça e das questões que são pertinentes no momento atual”, conta o dramaturgo cabo-verdiano Caplan Neves, no programa de sala do espetáculo.

“A nossa proposta de crioulização cénica procura desvendar como um texto do classicismo português se conecta, com acurada precisão, simbólica, a aspetos de um Cabo Verde de hoje”, afirma.

Kastrokriola é assim um projeto internacional que materializa o acordo de “cooperação celebrado entre o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde e o Teatro Nacional de São João”. O espetáculo, com entrada gratuita, estreia amanhã, dia 10 de junho, no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, e pode ser visto até ao próximo dia 12, no mesmo local.

A peça ruma depois para Cabo Verde, onde se estreará dia 25 de junho, no Centro Cultural de Mindelo, e onde fica em cena até dia 27 de junho. Seguirá depois, a 3 de julho, para o palco do Auditório da Assembleia Nacional, na Praia, ficando em cena até 5 de julho, dia em que se assinala o Dia da Independência de Cabo Verde.

Texto de Flávia Brito, com Lusa
Fotografia disponível no website do TNSJ

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