Ó leitor, nesta nossa segunda conversa decidi elogiar um livro muito pequeno que ocupa um enorme espaço na minha estante. Não consigo dizer-te, ao certo, quantas leituras já lá vão. Mas são muitas. Há livros que lemos repetidamente, tal como fazemos com determinados filmes (já devo ter visto o Charlie e a fábrica de chocolate umas setenta vezes). Quando damos por isso, já sabemos as falas de cor, o sítio de todas as palavras, o início, o meio, o fim.

“Morreste-me” é uma das minhas principais referências na escrita em português. Não me refiro a questões de narrativa ou de construção de texto. Refiro-me à genuinidade, à dor, à descoberta fulminante de uma tristeza eterna. É a morte de um pai. É a dor de um filho. Não se pode contornar algo tão real e cru. A morte deixa-nos uma lista de perguntas e esquece-se de dar as respostas.

Este livro acompanha-nos. Talvez seja o elogio mais bonito que consigo oferecer. Ler exige sempre alguma solidão (podes discordar, leitor). No entanto, quando observamos palavras tão poderosas, carregadas de uma verdade dolorosa, sentimo-nos, de certa forma, acompanhados para toda a vida.

Deixo-vos esta citação brilhante, que podem encontrar na página 57 e 58:

“Não passa o tempo, sustentado na mentira das coisas pequenas falsas que só já mudam de lugar, que apenas se sucedem, que unicamente tomam o sítio umas das outras, a mentirem, deixando rasto, restolhando o seu caminho com patinhas de rato entre os arbustos secos mortos e os arbustos verdes viçosos: e nasce o sol do ocaso último que morreu contigo; e brisas fingem as brisas verdadeiras que te tocaram o rosto; nem as nuvens nem o firmamento são os mesmos: apenas mentiras a substituírem mentiras a cada momento que não passa. Faltas tu a levar o tempo.”

É curioso que José Luís Peixoto tenha publicado este livro, primeiramente, numa pequena edição de autor. Hoje está traduzido em vários idiomas e até em braille, merecidamente. Vi há poucos dias uma imagem de uma edição indiana. Talvez o título seja o mais difícil de traduzir. Em francês, por exemplo, intitula-se “La mort du Père”, em italiano “Questa terra ora crudele”, em inglês “You died on me”. Será, certamente, algo apaixonante para o autor: um livro tão importante e tão seu, atravessar oceanos e fronteiras, morar em casas tão distantes, respirar em mãos tão diferentes.

Confesso que se torna difícil, enquanto leitor, explicar o verdadeiro impacto deste livro na duração dos meus dias. Resta-me procurar as palavras certas: é paradoxal e fascinante, que um livro sobre a morte possa viver para sempre. Deve ser eterno, tudo o que nos toca assim deve ser eterno.

“Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me.”

Dário Moreira