Há pessoas que parecem nascer com uma predisposição para as coisas, que faz com que nadem nelas, tal e qual como peixe na água. Leonor Bettencourt Loureiro já via o mundo da sua forma, interpretava-o e materializava-o em pequenos filmes para a família com apenas 13 anos. Em abril, abriu um novo espaço colaborativo multifuncional em Arroios, a Corrente, e ganhou, pela quarta vez, um prémio no Fashion Film Festival.

Nascida em 1993, no Porto, o cinema tem sido uma constante na sua vida e há quem a apelide de Sofia Coppola portuguesa. Há nove anos a fazer cinema, campanhas de moda, programas de televisão, publicidade e videoclipes, Leonor não tem braços a medir e abraça o multitasking pela sua vontade de fazer sempre mais. Começou na Escola António Arroio, em Lisboa, passou pelas Belas-Artes e tirou o curso de Realização na Restart. Mas foi na Academia RTP 3.0, que criou o salto na sua carreira, o programa #Hashtag, da RTP2. Tem sido no mundo da moda que tem ganhado mais prémios e sido reconhecida internacionalmente. Do Fashion Film Festival, já trouxe quatro prémios: em 2017, recebeu o prémio de Melhor Filme de Autor, com Genes; em 2018, o de Melhor Filme Marca, com Cómo, Cuándo, Dónde?, Latitid; em 2019, o de Melhor Realizador Autor com Fleurs du Mal, e, mais recentemente, a 29 de abril de 2021, trouxe para casa o troféu de Melhor Filme, o mais ansiado do Fashion Film Festival, com Escapism, uma obra que encapsula a emoção da marca Latitid – uma história que se sente na pele e que nos lembra de que o verão não é uma estação: é conforto, leveza, toque, paz, tudo o que procuramos incessantemente, especialmente dentro de nós.

Em abril, Leonor Bettencourt Loureiro juntou-se a uma amiga de longa data, Catarina Monteiro, e juntas criaram um novo espaço na Rua Passos Manuel, em Arroios. Corrente, foi concebido e idealizado com o objetivo de oferecer um espaço e uma infraestrutura local, que apoie a criação de eventos comunitários, servindo também como palco temporário e experimental para artesãos, artistas, marcas e projetos independentes. O espaço, que abriu ao público no passado dia 16 de abril com a exposição SURROUNDINGS, já conta com um núcleo fixo de residentes.

Em entrevista ao Gerador, Leonor Bettencourt Loureiro desvendou-nos o processo de Escapism, o que podemos esperar do seu novo espaço Corrente e, para além de nos guiar pelo seu percurso profissional, falou-nos sobre como é ser jovem e mulher no mundo do cinema.

Gerador (G.) – Quem é a Leonor por trás das câmaras?

Leonor Bettencourt Loureiro (L. B. L.) – É engraçado, porque a primeira vez que ganhei um prémio foi no Fashion Film Festival, em 2016, e a Leonor dessa altura era muito inexperiente, mais sensível, emocional, e agora, com 28, sinto que os meus 27 foram uma grande prova a todos os níveis, principalmente o mundo artístico. Foi um ano em que evoluí profissionalmente mesmo em pandemia, e parece que de repente, por trás das câmaras, tive de começar a perceber o que era realmente o meu caminho. Não é feito em linha reta, porque gosto de fazer várias coisas, mas por trás das câmaras está uma mulher, e não uma criança.

G. – No teu site, descreveste como pertencente a uma nova geração de criativos multitasking. O multitasking surge da necessidade ou da vontade de fazer algo diferente?

L. B. L. – É uma necessidade porque sou assim. Se não trabalhar nesse sentido, sinto-me incompleta. Acredito também que, para muita gente, seja uma necessidade para estar em várias frentes, pela questão financeira nos ramos artísticos. No meu caso é mais do que isso. É muito normal que surja, por exemplo, um projeto como a Corrente na minha vida, que é um espaço onde todas as semanas pode ser algo diferente. Pode acontecer porque eu própria, todos os meses, posso estar a fazer algo diferente, normalmente relacionado com audiovisual, mas já se vai abrindo para outros ramos também. Seja uma coleção cápsula de malas, como já fiz, ou outras colaborações que já estou a fazer, mas passa por ter também vários projetos a acontecer ao mesmo tempo. Gostava muito de avançar para projetos mais socieis e penso que a Corrente vai ser um espaço para isso.

G. – Também estás muito ligada à música…

L. B. L. – Sim, e tive uma banda quando era miúda, mas depois percebi que gostava mais de filmar a banda. É curioso porque todos os membros da banda seguiram carreiras musicais e eu segui mais pelos videoclips e filmes, e por acaso estou agora a fazer um videoclipe para uma banda francesa residente em Portugal, e já não o fazia há dois anos. É algo que me dá muita satisfação, porque é quase como fazer um filme autoral, sem ter uma marca do outro lado. Obviamente existem regras, necessárias, mas é diferente, permite entrar mais nos campos do cinema.

G. – Lembras-te do primeiro vídeo que produziste?

L. B. L. – Eu lembro-me do primeiro que criou algum impacto em mim e nas pessoas à minha volta. Foi uma viagem a Marrocos que fiz com o meu pai, e que já tinha uma câmara que me tinham oferecido há algum tempo, e comecei a filmar tudo, estava sempre, acho que as memórias do meu pai, dessa viagem, devem ser a Leonor com uma câmara à frente. Cheguei a Lisboa e comecei a refletir sobre a viagem, eu tinha 13 ou 14 anos, e comecei a perceber que tinha muitos sentimentos encapsulados nas imagens. Fui pesquisar o que era um road movie e gravei uma voz off, comecei a editar aquilo, e lembro-me de ter estado muito tempo com um computador superlento. Acho que foi aí que a minha mãe viu que havia algo, que estava cada vez mais direcionada e lembro-me de ela me incentivar. Esse momento consolidou as dúvidas que tinha. Até porque ia para a António Arroio, que era algo mais sério, e tinha de escolher a minha área e, apesar de ser muito complicado ter de escolher uma área tão cedo, para mim estava facilitado desde cedo, que era artes. Foi interessante, porque eu percebi que era cinema, e como tinha tanta certeza do que queria fazer, ia aproveitar a António Arroio para experimentar coisas completamente diferentes. Foi um momento meio catártico, porque quando acabei o curso na António Arroio, foi quase como se começasse a vida profissional e enveredei pelo cinema. Mas esse filme foi um momento decisivo, sem dúvida.

G. – Tinhas 21 anos quando o #Hashtag passou na RTP2. Que balanço fazes de todo este caminho já percorrido?

L. B. L. – Eu nessa altura já tinha dois anos de trabalho, porque sou drop out, tinha notas excelentes, mas queria trabalhar, e acabei por fazer um curso profissional que me deu as ferramentas que me faltavam e mandei-me para todos os trabalhos. Editei casamentos, o que consolidou o meu olhar para a montagem que é provavelmente o mais importante no processo, apesar de ser altamente desvalorizado e massificado. Ou seja, eu já tinha uma bagagem de esforço e muitas horas de trabalho, mas quando chego, aos 21 anos, à Academia RTP, foi engraçado porque senti como se já não estivesse a trabalhar de novo, senti que me deixaram fazer o que queria, e isso é raro quando se é tão novo, porque me deixaram fazer algo sobre o meu público alvo preferido, sobre uma faixa etária que me foi tão querida e pouco acarinhada, a adolescência. E ainda hoje é, provavelmente, o projeto com mais feeling de todos os que fiz. E gostava muito de voltar a ele. É, sem dúvida, um público-alvo para o qual vou continuar a trabalhar. Aos 14 anos, tive aquele momento marcante em que a minha família acarinhou aquele projeto, que não era nada de especial para ninguém, se não para mim, e de repente tive um momento supercarinhoso da televisão pública, em relação a um projeto que era serviço público e para mim é muito importante este conceito de serviço público. Marcou tudo o resto.

G. – Durante este caminho, ser jovem realizadora em Portugal, tem sido um desafio, ou já nem é uma questão?

L. B. L. – Claro que é. Eu costumava gozar com o jovem realizador de 35 anos, e agora já percebo o porquê desta frase e já não gozo, pelo contrário. Porque realmente demora a consolidar várias coisas, dentro de nós, o olhar de fora para dentro, o nosso nome no mercado, ganhar respeito, é quase como o currículo inteiro. Ninguém nos diz isto, e tenho pena, mas de certa forma temos de passar por várias coisas na vida a nível curricular e mesmo quando os estudos são interrompidos ou terminam, é como se existissem vários passos invisíveis que temos de fazer também, existe uma forma bastante fria de ver estes passos. Se vão resultar para toda a gente, sabemos que não, mas é como se esse esqueleto invisível existisse e seria mais fácil se se falasse mais sobre ele. Como se deve fazer e como se vai buscar financiamentos, por exemplo. Felizmente, já começam a existir associações que até juntam várias candidaturas e exemplificam como se faz, e isso facilita o processo. Por isso, temos cada vez mais realizadores bastante novos a expor em festivais a partilhar ideias e estruturas completamente diferentes.

G. – E ser mulher neste meio?

L. B. L. – Essa ainda é uma grande questão. Até pensei, no momento em que vi exibirem o meu nome no Porto Fashion Film Festival, e as probabilidades de ganhar eram maiores, o que vou dizer se ganhar. Lembro-me de pensar sobre ser mulher, mas depois pensei que era uma estupidez, mas ao mesmo tempo não é. Há sempre aquela questão de parecer que estou a diminuir o meu sexo, mas se não disser estou a apagar todo o passado que fez com que chegássemos aqui e conquistar a igualdade, de alguma maneira – ainda que ainda longe. Finalmente, quando soube que tínhamos ganhado o melhor filme disse: “Como mulher realizadora…” É impossível retirar isto de todas as conversas que tenho com clientes, de todas as ideias que tenho autorais e que estão em processo, e de qualquer das maneiras, é sempre importante ver a coisa deste prisma: sempre que uma mulher alcança algo importante, no fundo alcançamos por todas nós, e eu sinto muito esse peso. Acredito, e a minha última curta- metragem, Intra Inter Subjetivo, reflete isso, sobre nós sermos completamente irrelevantes, somos um pequeno ponto no mundo, mas ao mesmo tempo, vários pontos juntos formam uma comunidade. E quando eu escrevo emails com ‘e’ em vez de ‘o’ e ‘a’ não é um erro gramatical, é uma linguagem inclusiva.

G. – Escapism vence o prémio Best Brand Fashion Film no Porto Fashion Film Festival. É o teu quarto filme vencedor neste festival. Como surgiu a ligação ao mundo da moda?

L. B. L. – Surgiu naturalmente, sempre foi uma área que fez parte da minha vida. Claro que começamos sempre a olhar para os exemplos que temos na nossa família e a minha avó e a minha tia, sempre fizeram vestidos para a família toda, e para mim a ideia do que é um molde e costurar à mão sempre foi algo banal. Sou capaz de fazer um vestido à mão, por exemplo. Esse lado tátil sempre esteve muito presente, em relação ao têxtil, e é normal que quando começo meio aleatoriamente a trabalhar com marcas de moda, talvez tenha um olhar um bocadinho mais de dentro, porque sempre existiu na minha vida, sempre foi mais do que roupa. Muitas vezes deparo-me com outros trabalhos e que talvez sejam melhor tecnicamente, mais equipa, ou não, outras coisas que passam uma maior força, mas comecei a perceber que realmente esta pode ser a coisa que me distingue, o cuidado com o material, o material junto ao corpo, o que é que as duas coisas criam, e tentar ver de um prisma mais sensível e menos audiovisual. Eu costumo dizer que sou mais analógica em termos de pensamento e nunca gostei muito de computa dotes, mas é a minha vida de todos os dias.

G. – Podes contar-nos um pouco sobre o processo do Escapism?

L. B. L. – Foi um filho de pandemia, e quase metade do filme não ficou gravado. Tinha um pouco mais de narrativa do que acabou por ter. Mas fomos para o confinamento e tínhamos uma obra incompleta, uma coleção que não estava totalmente filmada, e tivemos de pensar criativamente sobre ela para arranjar uma solução. Começámos com um texto que retratava o que toda gente estava a viver e, como através do escapismo podíamos imaginar que o verão continuaria a existir mesmo que na nossa varanda. Através de imagens de trabalhos passados, e do André Fonseca Carvalho o diretor criativo dos filmes da Latitid, que faz dupla comigo, percebemos que se comprássemos mais 4 planos, conseguíamos dar um toque de imaginário. A marca concordou que estava bem representada. E através das redes, foram conseguindo mostrar o resto da coleção. Estávamos preocupados porque achávamos que era um filme quase remendado e não víamos esse valor, mas acabámos por ter reações muito boas a dizer que choraram a ver o filme e não percebíamos o porquê. Um ano depois, ganhamos este prémio e se calhar, está tudo lá.

G. – Tens um novo projeto em mãos, o espaço Corrente. Como surgiu esta ideia?

L. B. L. – Surgiu muito naturalmente, como quase todas as coisas no meu percurso. De uma vontade que eu tinha de ter um espaço onde pudesse concretizar ideias, porque estou sempre a ter, mas, por vezes, não tinha espaço para elas. E também da Catarina Monteiro, que faz parceria comigo, de apoiar as artes de alguma forma, a palavra comunidade também é algo bastante importante para ela e tínhamos muitos interesses em comum, e percebemos que estava na altura para fazer algo em conjunto, até porque apareceu o local perfeito, no nosso bairro.

G. – Vocês querem envolver toda a comunidade, os habitantes do bairro, os negócios vizinhos. De que forma querem fazê-lo?

L. B. L. – Não temos uma open call, mas, realmente, queremos saber o que as pessoas querem concretizar ali, porque nós temos, no fundo, uma maneira de nos salvaguardar, cada uma já precisava de espaços de ateliê de trabalho e fizemos isto para mais pessoas. Dos 200 metros quadrados, 100, são escritórios e ateliês, que nos ajudam a que a Corrente possa existir no futuro. Posto isto, os outros 100 metros quadrados não são só nossos, são dos outros também. Claro que há uma curadoria implícita, nós gostamos muito de adolescentes, crianças, e já percebemos que estamos num bairro que tem muitas famílias com crianças pequenas, e queremos organizar coisas para esse target. Queremos obviamente envolver as outras lojas da rua e do bairro e estamos a começar a criar ligações com a junta de freguesia. Somos muito proativas, temos a garra de fazer coisas pelos outros, não numa ótica de Madre Teresa, mas às vezes é difícil ter uma vida profissional e ainda termos arcaboiço para pegar noutros projetos e fazer acontecer. Temos essa alma de produtoras. Queremos deixar de ficar só pelo sonhar um projeto, e começar a fazer acontecer.

G. – Quem, ou quais, são as tuas referências?

L. B. L. – Não tenho pratos favoritos ou pessoas favoritas. Claro que há sempre um top, mas são muito amplos. Gosto muito dos realizadores do Nicolas Winding Refn e da Sofia Coppola, duas pessoas completamente diferentes. Isto vai mudando ao longo da vida, mas a parte estética sempre foi muito importante para mim, e gosto que não fique por aí, que haja uma leitura e tempo para perceber o que está por trás das personagens. É curioso porque quando filmo moda, e filmo muitas vezes, sinto que, por vezes, ao trabalhar com modelos e marcas, há uma expectativa do que é suposto que eles façam, e o meu discurso é sempre limpar e explico muitas vezes isso aos modelos. Quando comecei a trabalhar, havia um grande preconceito de quem fazia moda não podia fazer cinema, e vice-versa, menos nos videoclipes. E, hoje em dia, já não é assim, e noto que as pessoas mais novas com quem trabalho, já não pensam nisso, é interessante que se misturem estas linguagens todas. Porque, no geral, estamos a fazer produtos audiovisuais mais fortes.

G. – Há algo que ainda falte mudar no cinema português?

L. B. L. – Acho que está cada vez mais acessível. Acho que quem ainda tem a ideia de que o cinema português é lento e aborrecido ficou noutro século, e há vários festivais que provam o contrário. O que falta mudar é talvez a questão de não existir propriamente mercado. Ou seja, muitas das curtas que levam à consolidação de uma carreira, e passam a longa duração, são curtas que pecam em financiamento e apenas acontecem pelo esforço coletivo de um grupo de amigos ou de uma comunidade. E acho que isso tem de acabar, por mais importante que seja. Eu, por exemplo, não tenho feito muitas curtas, fiz uma em 2013 e fiz uma há dois anos que esteve num circuito de festivais nacionais e internacionais, e ficou por ali, porque para fazer uma narrativa, com tudo o que quero fazer, vejo-me numa encruzilhada muito grande. Eu não acredito em trabalhar de graça, e como quem teve a ideia fui eu, eu não posso pedir que as pessoas estejam disponíveis um mês sem receber nada. E acho que é importante, ganhar alguma consciência política nesse sentido, de que é importante elevar a fasquia e profissionalizar o cinema, porque, muitas vezes, o cinema é visto como um hobby. Realmente ganhamos prémios, mas é importante profissionalizar, recorrer aos financiamentos. Falta profissionalizar o sector, sem dúvida.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias da cortesia de Leonor Bettencourt Loureiro

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