Quando ouvimos falar em cultura, é previsível que nos venha à memória o rosto de um(a) músico, pintor(a), escritor(a), um/a ator/atriz, entre outros. Aqueles que dão a cara pelo objeto artístico. Mas serão estes os únicos a compor o setor cultural? Por detrás dos artistas, existe uma série de profissionais cujo trabalho permite que possamos ir ao concerto daquele artista que admiramos, assistir ao espetáculo de teatro que nos fica na memória ou visitar a exposição que nos consegue transportar para um universo novo. Podemos, então, nomear aqueles que trabalham no setor cultural, mas cujo rosto desconhecemos, recentemente apelidados de “invisíveis da cultura”. É sobre eles que vamos demorar o olhar na reportagem desta semana. 

No passado dia 4 de abril, o Público publicou a “Carta aberta: Os invisíveis da Cultura”, em que se foca a defesa destes profissionais que podem não ter acesso aos apoios já anunciados pelo Governo. Sempre foram invisíveis, mas com o anúncio do estado de emergência a propósito da covid-19, importa levantar o véu da invisibilidade, pois, para além dos artistas que todos conhecemos, também estes profissionais de rosto desconhecido ficaram sem trabalho, resultando na ausência de fontes de rendimento. Um cenário que se agrava quando se pensa que, ao contrário dos artistas, estes profissionais não têm a hipótese de fazer diretos nas suas redes sociais ou ganhar algum rendimento, por mais baixo que seja, com direitos de autor ou a venda da sua obra online.

Esta carta aberta foi assinada por quase duas centenas de personalidades, defendendo a criação de uma plataforma que ajude os trabalhadores, então apelidados de invisíveis da cultura. Na mesma carta, pode ler-se que a precariedade associada a profissões na área cultural não é um tema novo, mas que agora se vê agravado, principalmente quando se pensa nos trabalhadores independentes. Embora se refira a gratidão em relação às iniciativas e medidas que concernem estes profissionais, os signatários da carta apontam o receio de que “os profissionais que compõem o setor cultural possam não ter acesso, neste momento, a qualquer dos apoios anunciados.” Desta forma, a máxima deste movimento pode ser resumida na afirmação de que “é imperioso garantir o presente para se poder planear o futuro.” 

É difícil determinar quem são todos os invisíveis da cultura, uma vez que há uma imensidão de pessoas que concorrem para ela, enquanto profissionais, muitas vezes, de forma indireta. Quais são os limites? Podemos pensar, por exemplo, nos colaboradores de um bar situado numa associação cultural, cujo lucro suporte esta última, ou no(a) funcionário(a) de limpeza que permite que seja agradável estar num espaço cultural. Esta carta foi assinada por diversos profissionais, desde artistas àqueles que se reconhecem nesta condição de invisibilidade, acolhendo atores, encenadores, fotógrafos, realizadores, museólogos, professores universitários, gestores e mediadores culturais, técnicos de produção, diretores artísticos, coreógrafos, intérpretes de audiodescrição, artistas plásticos, cenógrafos, dramaturgos, diretores de comunicação, programadores, técnicos de serviço educativo, galeristas, figurinistas, sociólogos, pontos/ anotadores, assistentes de ensaio, historiadores, escritores, bailarinos, estudantes, arquitetos, músicos, artistas de circo, riggers, buriladores, animadores socioculturais, curadores, juristas, investigadores, economistas, agenciadores, gestores de eventos, marionetistas, diretores de instituições culturais, técnicos de turismo a jornalistas. 

O Gerador procurou abrir, um pouco mais, os olhos e  aproximar-se da situação destes invisíveis. Embora não tenha podido contar com a partilha de todos, pôde conversar com Alain Vachier, detentor de uma empresa de management, Fernando Ribeiro, cenógrafo, Igor Azougado, proprietário da empresa de audiovisual Caramelo Prod., técnico, roadie, produtor e músico na banda Shivers, Joana, nome fictício, assistente de sala, Patrícia Paixão, produtora no Teatro Estúdio Fontenova, Tânia Guerreiro, produtora no Teatro do Vestido, bem como Manuel Carvalho, sócio-gerente da Complt’Arte, empresa que presta apoio na produção de espetáculos, em diversas vertentes, como serviços de frente de sala, distribuição de publicidade, transporte de cenários, aluguer de praticáveis, stage hands, som e audiovisuais, acompanhamento de artistas, serviços de bilheteira, de cargas, descargas e montagens, entre outros.

Como estão a ser afetados estes profissionais?

Embora os contornos possam ser diferentes, quando se tenta perceber de que forma este isolamento está a afetar os seus trabalhos, os entrevistados arrancam com uma premissa comum - todos os seus trabalhos foram cancelados e não existem certezas de quando o voltarão a poder executar. 

No caso da Complt’Arte, a empresa confirmou que continua em atividade durante este período, em que assumiu os custos para com os seus funcionários. De entre estes, Manuel partilha ainda que têm trabalhadores a contrato e outros a recibos verdes. Durante este período, o acordado com os trabalhadores foi que “iam fazendo aquilo que no dia a dia não tinham tempo para fazer e trabalhavam semana sim, semana não.” Dirigindo um olhar para o futuro, Manuel prevê “um regresso muito lento à atividade.”

Fernando Ribeiro, partilha que o seu dia a dia de trabalho passava por “assistir a ensaios, criar um cenário para um espetáculo, estudar o texto, falar com o encenador, estar com os atores, acompanhar a construção do cenário, montar o cenário no palco, acompanhar os ensaios e ser responsável pela assinatura da cenografia dos espetáculos.” Neste novo contexto, viu serem postos em espera os quatro espetáculos que tinha agendados até agosto. Estando ligado a várias entidades empregadoras, conta que “há situações em que estão a responsabilizar-se por metade do trabalho feito, a adiar, a reagendar”. Noutros casos, “estou à espera, porque ainda não chegámos ao limite do contrato. Isto depende muito de se a instituição é estatal, se é independente, privada.” Para já, consegue dizer que não vai ter de mudar de área por ter algum trabalho programado até ao final do ano.

Igor Azougado revela que não tem trabalho desde dia 7 de março e que a “área dos eventos foi completamente paralisada e foi a primeira a ser impedida de trabalhar”. De entre trabalhos que tinha em vista, enumera cinco adiamentos e três cancelamentos. No seu caso, é complicado pensar na possibilidade de fazer teletrabalho porque faz pouco trabalho na área da pós-produção de áudio, dedicando-se, na sua maioria, a eventos ao vivo. Uma das suas principais preocupações é conseguir prever qual a altura em que a sua atividade poderá ser retomada. “A nossa área vai ser mesmo a última a ser reativada, talvez só mesmo quando existir vacina. Apenas posso especular, porque o futuro na nossa área ainda é demasiado denso para conseguir descortiná-lo. Mas os factos são estes: fomos os primeiros no país a parar e vamos ser os últimos a poder voltar ao trabalho.”

Joana, trabalhadora independente, diz-nos que está sem salário por parte da empresa que presta assistência de sala, neste momento. Graças ao trabalho que desempenha no âmbito das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), em que dá aulas de “Expressões Artísticas”, continua a receber o seu salário por inteiro, o que na prática significa que fica desabilitada a concorrer aos apoios anunciados para trabalhadores independentes, embora o seja. Com a empresa , nada ficou acordado. “Não houve propriamente um acordo em relação ao que ia acontecer nos próximos meses. Eles próprios assumem que não sabem. Continuamos a ter vínculo profissional, mas tal não se reflete numa questão monetária. Ou seja, quando retomarem a atividade, contactam-nos.”

Tânia Guerreiro ia estrear “Mina”, de Carlota Lagido, dois dias depois de ser anunciado que os espaços teriam de fechar, um espetáculo que tinha vindo a desenvolver nos últimos meses. Este espetáculo ir-se-ia realizar no Teatro Municipal São Luiz, a propósito do Festival Cumplicidades. Sendo uma produtora responsável pela reunião de recursos para uma criação, perante esta nova conjuntura, Tânia conta-nos que a equipa foi avisada de que iria receber de acordo com o combinado, embora ainda não saiba se será o valor acordado por parte do Festival. Entretanto, a produtora partilhou com o Gerador que a proposta foi alterada, consistindo em apresentar o espetáculo em 2021 “com pagamento máximo de mais 40%”. “Nesse caso, a equipa trabalharia em duas semanas de trabalho pelo valor de um dia de trabalho. Essa é a proposta atual e não quero aceitá-la, porque não é justo para a equipa.” 

Alain Vachier, estando à frente de uma empresa de Management de artistas, afirma que não identifica um aumento ou diminuição na procura dos seus serviços. “Neste momento, vivemos (nós, os artistas, técnicos, todo o pessoal ligado ao espetáculo) um verdadeiro lay off sem os benefícios. Não conseguimos prever quando vamos voltar aos concertos, sejam em sala, teatro, coliseu ou estádio.” Como tal, admite que a sua empresa está a passar por “muitas dificuldades” que resultam da “falta de trabalho e consequente falta de dinheiro para poder pagar as contas, ao pessoal, etc.” Para já, afirma que nenhum dos artistas que representa decidiu rescindir contrato. Embora tudo esteja passível de alteração, os próximos concertos que tem marcados datam os meses de julho e agosto.  

Patrícia Paixão trabalha como produtora no Teatro Estúdio Fontenova, uma companhia setubalense que tem apoio da DGArtes. Na semana que antecedeu o anúncio do estado de emergência, encontrava-se a preparar o espetáculo “A Paz Perpétua”, de Juan Mayorga, que seria apresentado em Viana do Castelo, no Centro Dramático Sá de Miranda, tendo sido precedido de um acolhimento em residência artística pelo Teatro Noroeste. Patrícia integrava a produção também como atriz e soube que o espetáculo seria cancelado a duas semanas da estreia. Conta-nos que a decisão de cancelamento chegou por parte do Teatro do Noroeste. “Tivemos uma reunião de direção e da equipa integrante no processo, onde analisamos possíveis datas de re-calendarização, tendo em conta as disponibilidades de uma equipa, que inclui atores que, numa situação ideal, teriam um estatuto de intermitente. Foi nossa prioridade manter os compromissos remuneratórios e financeiros com todas as pessoas envolvidas nas nossas atividades.” Os principais problemas que emergem prendem-se com o reagendamento dos espetáculos que não puderam concretizar. “Temos de ver que existem problemas que ainda não se ‘levantaram’, que se irão levantar. Certas oportunidades que existiam, de propostas espontâneas e convites para programar é provável que não surjam com tanta frequência, ou que os valores se alterem… estamos a falar de dois meses (no mínimo) de paragem, o que reestrutura toda a atividade e vida das pessoas.”

Que respostas têm à vista?

Diríamos que, quem consegue responder, está a dar o máximo nos mínimos. A Caramelo Prod., tem procurado auxiliar os artistas no que diz respeito ao desenvolvimento do seu trabalho nas redes sociais, de forma a melhorar a rentabilidade deste. 

O cenógrafo Fernando Ribeiro está a trabalhar a partir de casa, “a tentar adiantar o máximo de coisas possível”, no que diz respeito aos trabalhos agendados a partir de setembro, e a acompanhar os construtores de cenário, cuja a atividade depende dele. Dos quatro espetáculos agendados até agosto, com entidades estatais e independentes, um dos quais passaria por uma digressão, diz-nos que está “a tentar controlar” a situação. Contudo, mesmo este “adiantamento possível” encontra limites no que toca, por exemplo, ao material, tendo em conta que muitos dos postos de venda estão fechados. O cenógrafo é o mediador entre os construtores de cenário e a instituição para a qual prestam serviço. Ainda no dia anterior ao que prestou declarações ao Gerador, havia ido ter com o construtor para “tirar fotografias e mostrar o trabalho que está feito à produção das instituições, tentando, o máximo possível, que essas pessoas tenham alguma subsistência, algum pagamento do trabalho que fizeram até agora.” “Basicamente, estamos todos a tentar resolver um problema que ninguém sabe como o fazer”, confessa.

No caso de Igor Azougado, o trabalho é em “99% em eventos ao vivo”, deixando clara a impossibilidade de realizar as suas funções em quarentena.

Joana também não tem forma de responder à paralisação dos serviços que prestava. Enquanto colaboradora em escolas, no enquadramento das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), encontra, neste momento, a sua atividade suspensa e, apesar de saber que haveria a possibilidade de a realizar via online, tal decisão não lhe compete. 

Patrícia Paixão, juntamente com toda a equipa do Teatro Estúdio Fontenova, “foi alocada para teletrabalho.” “Tendo em conta que estávamos num processo de ensaios, começámos a colmatar outro tipo de trabalho que estivesse em falta. E, ao contrário do que se possa pensar, o trabalho burocrático é algo que nunca finda. Relatórios, traduções, organização de um Festival Internacional de Teatro, etc… Mas, como seres sociais e criativos, a chama continua viva em querer, não apenas mantermo-nos em contacto, mas criar e partilhar.” Neste sentido, as redes sociais têm sido a via possível de comunicação com o público. Estas tornaram-se num arquivo vivo, num tempo em que as salas de teatro estão adormecidas, através da disponibilização de “gravações de espectáculos e memórias (com o mote “Não se deixem abater, em breve voltaremos aos palcos…”). Trata-se de “testemunhos de antigos colaboradores da companhia, histórias da participação em projetos e momentos que poderiam parecer que fossem correr menos bem, mas em que se acabou por dar a volta.” A procura de proximidade estreitou-se e foi iniciado um ciclo de conversas, intitulado “Co-Agitar – Conversas para Agitar”, que decorre, todas as quartas-feiras, entre as 16h30 e as 18h00, com live streaming para o Facebook e YouTube. Estas “terão diversos temas como móbil, tendo como pano de fundo a situação atual e o efeito da pandemia no mundo artístico (desde o panorama internacional, à sustentabilidade e direitos laborais, ou às questões de programação).” Estes movimentos de esperança foram intensificados através de dois projetos, desenvolvidos no seguimento de um desafio lançado pela Casa da Cultura, de Setúbal. “No primeiro, a ser lançado em vídeo no dia 25 de abril, abordamos a poesia de Ary dos Santos. No segundo, exploramos o texto “A Doença Branca”, de Karel Čapek (escrito em 1937, conta-nos acerca de uma pandemia que se espalha pelo mundo, tendo origem na China e afetando pessoas com mais de 45 anos).” Patrícia manifesta ainda o desejo de “‘explorar’ e ‘experimentar’ esta ideia de um teatro online, em streaming, convidando pessoas que se encontram em diferentes localizações, mantendo também, assim, o contacto com os colegas e tentando contribuir para a sua sustentabilidade.”

A produtora Tânia Guerreiro não se deixa levar pelo “excesso de produção com sobreposições impossíveis de resolver”, que temos vindo a verificar neste contexto de luta pela sobrevivência e, muitas vezes, simultaneamente de generosidade, onde também acontece, em muitos casos, uma perda de qualidade, que se poderá refletir, mais tarde, no valor do trabalho. Para Tânia, há que se “garantir que, em vez disso, existe investimento na criação e investigação durante este período”, de forma a que este seja usado “para aprofundar processos que são tão importantes e necessitam de tempo e investimento. Acredito que se formos nesta direção teremos cada vez mais impacto no contacto com o público,” acrescenta.

A representatividade dos apoios anunciados

Desde que estalou esta nova conjuntura em Portugal, têm sido anunciados alguns apoios que visam a área cultural. Um destes exemplos é a plataforma Portugal Entra Em Cena, com um investimento superior a um milhão de euros para projetos até 20 mil euros cada, em que empresas e entidades públicas e privadas podem investir diretamente em projetos artísticos que sejam submetidos online

Ainda na primeira quinzena de março, havia sido anunciado um decreto-lei publicado em Diário da República que se destinava a ajudar os trabalhadores independentes que passam exclusivamente recibos verdes, com um apoio que pode ter uma duração máxima de seis meses e um teto mensal de 438,81 euros. Porém, este apoio tem sido contestado por alguns trabalhadores independentes que não se enquadram nos critérios de elegibilidade. Tal como se pode ler na Carta Aberta publicada no Público, as especificidades destes trabalhadores, incluindo a sua intermitência, obrigam-os a abrir e fechar atividade com frequência, o que os impede de fazer descontos regulares para a segurança social. 

A DGArtes anunciou que iria manter “os pagamentos calendarizados dos apoios financeiros durante o período de suspensão das atividades e projetos”, mesmo que a reprogramação dos mesmos não seja possível. Patrícia Paixão, que referiu estar a trabalhar num projeto com apoio desta entidade, partilhou com o Gerador que tiveram uma conversa recente com a DGArtes para se perceber como estão a lidar com a situação e que atividades estão a conseguir desenvolver. 

A 8 de abril, foram ainda aprovadas em Assembleia da República duas propostas de um projeto de lei do Bloco de Esquerda que enuncia o dever de entidades públicas pagarem espetáculos cancelados, como se se tivessem concretizado. 

Mas serão estes apoios suficientes ou adequados para os invisíveis da cultura? Estará este setor a sentir-se representado junto dos decisores políticos e contemplado por estas medidas extraordinárias? De uma forma geral, os nossos entrevistados deram uma resposta negativa. 

Por um lado, Fernando Ribeiro assume que a tarefa de “resolver esta situação” não é fácil. Porém, não pode dizer que esteja satisfeito. “A nossa área ainda está muito aquém do que precisamos.” De uma forma geral, não se sente invisível na profissão que desempenha, o que não significa que sinta que a sua classe esteja a ter a visibilidade merecida. “Pelas entidades da cultura, não me considero invisível. No público, em geral, acredito que muita gente não tenha totalmente a noção. Mas penso que nos teatros, cinema, televisão, toda a gente tem noção. Em relação ao Governo, acho que não é uma coisa totalmente certa a questão da invisibilidade, ou não. Não sei se por questões de orçamentos. Percebo que seja difícil encontrar soluções, mas não estamos a ter a visibilidade que merecíamos.”

Para Igor Azougado, a resposta a esta pergunta não é fácil. “No meu caso, tenho uma micro empresa em que os cancelamentos/adiamentos criaram um problema de tesouraria na empresa e as linhas de crédito covid-19 para apoio às tesourarias das empresas nesta altura estão com um processo demasiado lento. Dei entrada do processo no banco a 20 de março e ainda não tenho feedback do mesmo. Ainda existe demasiada burocracia nas coisas, muitas empresas em grandes dificuldades e o Estado tem de ser mais célere nos processos. A nossa área está unida. Criámos o Movimento Cancelado e a União Nacional Empresas Fornecedoras Audiovisuais e o grupo de trabalho tem feito chegar aos nossos políticos de todas as bancadas as nossas propostas para o setor.”

Tânia Guerreiro também sente uma sub representação nas medidas que têm sido apresentadas. “As leis que estão a ser aprovadas não são as melhores e, mesmo que sejam alteradas, a sua aplicação é difícil, porque temos naturalmente uma posição fragilizada que nos impede de fazer exigências. As medidas extraordinárias que têm saído são de valores insignificantes para o impacto e a dimensão do setor, pelo que a sua dignidade fica abalada com estas medidas, dando ideia de que algo está a ser feito, embora não haja nenhuma ação de fundo.” 

Joana afirma não se sentir representada. “A nossa situação é tão precária que acaba por ser quase inexistente. Não sei até que ponto, seja quem for, nos considera propriamente trabalhadores. É mais ‘aqueles miúdos vão fazendo uns trabalhitos’. Percebo que não haja uma maior representação. Todo o trabalho tinha de ser encarado de uma outra perspetiva para fazer sentido haver mais apoio.”

Seja como “produtora, como representante do meio artístico ou como cidadã de uma classe média baixa”, Patrícia Paixão também não se sente representada. “O sistema precisa de mudar, o nosso estado social precisa de se fortalecer. Precisamos de nos tornar mais inclusivos e apoiar quem está em situação precária, seja no mundo das artes, ou em outros mundos. E, para isso, é preciso analisar as situações. Porque é que temos situações tão precárias? O que é que falta fazer?”, questiona a produtora. “Num debate recente, um colega checo dizia como noutras situações de crise a cultura ‘é a primeira a sair, e a última a entrar’ no que toca a orçamentos e a financiamento. Aqui, temo que o que aconteça seja semelhante. Os fundos de emergência surgem, porque o estado que tínhamos antes já não era sustentável, e esta situação revela esse enorme contraste. Se o nível de vida fosse mais equitativo e equilibrado, se não tivéssemos este número de pessoas a recibos verdes (sem outro tipo de redes, a nível de apoios), de desempregados, etc. talvez, neste momento, a situação fosse menos assustadora. Mas não é essa a nossa realidade, e é aqui que devemos perceber quais as medidas que queremos ver implementadas e que nos representem.”

Sem uma resposta final à vista, há um sentimento comum que transparece. Falar em normalização da situação destes trabalhadores pode não ser o advinhar de um futuro risonho. Tal como avança Patrícia Paixão, se o “sentido de normalização” se materializar no paradigma que existia antes da pandemia, esse não seria um ponto de partida favorável uma vez que se vivia num sistema, já por si, precário. Fica, então, a proposta de capitalizar este tempo dilatado para dar corpo a uma reflexão alargada sobre a forma de agir e criar. 

Ao longo das entrevistas que o Gerador foi realizando para as reportagens de investigação sobre o impacto da pandemia na cultura, que tem vindo a desenvolver, a maioria das fontes sinalizou os profissionais que concorrem para a sua “visibilidade”, mostrando-se sensíveis com a situação em que estes se encontram. Os rostos que não estão no palco do espetáculo, também não estão no palco dos media, nem no do Governo. Os rostos que não vemos, não se sentem vistos.

Esta semana foi anunciada uma nova medida do Governo em relação aos que nos chegam em páginas. No dia 23 de abril, o Ministério da Cultura anunciou que irá apoiar, com 600 mil euros, a aquisição de livros e antecipar a abertura das bolsas de criação literária. “Se cada entidade pedir o apoio máximo, e sendo a verba total de 400 mil, apenas 80 têm direito à medida agora anunciada. Só a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) representa 191 editoras e 21 livreiros, de acordo com números internos atualizados”, detalha o Observador, a partir de fonte do gabinete da Ministra Graça Fonseca. Em declarações ao mesmo órgão de comunicação social, João Alvim, presidente da APEL, refere que este apoio é insuficiente. “Uma pequena livraria tem certamente um ou dois empregados, tem uma renda para suportar e está fechada. Todos os custos estão a cair lá. É bonito dizer que paga a renda daqui por uns meses, mas com a expectativa de vendas extraordinariamente baixa para os meses que vêm e de recuperação muito lenta nos anos que se seguem, não vai ter capacidade nem para sustentar futuramente a renda nem para pagar as rendas que ficaram para trás. Ficam mais endividadas e não têm caminho para a frente”. A APEL, “em nome dos seus editores e livreiros, está neste momento sozinha e num monólogo que terá como conclusão breve a extinção de empresas de edição e de venda de livros”, comentou João Alvim, citado, no dia 17 de abril, pela Lusa.

Não era esta decisão que a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros esperava, pois havia apresentado propostas, que o Ministério garantiu ter em conta. Aliás, a Federação Europeia de Editores enviou, no dia 20 de abril, uma carta ao Governo, apelando para a necessidade de trabalhar em cooperação com a Associação, apontando-a como a orientadora mais indicada para esta reflexão no contexto português. Mostrou-se conhecedora das medidas que esta última fez chegar aos decisores, referindo-as como “necessárias” e “urgentes”. Lamentou ainda a desatenção e indiferença para com o setor, comentando o cancelamento de última hora da reunião de Graça Fonseca com a APEL, substituída pela conferência de imprensa onde medidas respeitantes à comunicação social foram divulgadas. 

Também as editoras têm lutado pela sua proteção, tentando destapar a sua condição. No dia 17 de abril, enviaram propostas à Ministra da Cultura com medidas que pudessem cuidar do setor, “entre as quais a redução da carga fiscal, apoio à divulgação e compras institucionais”, aponta a Lusa.

Se, de alguma maneira nos pudessemos atrever a estabelecer graus de invisibilidade, poderíamos considerar os/as assistentes de sala ou de exposições como integrantes de um nível bem elevado. Tal como apontado anteriormente, Joana refere que a sua situação profissional “é quase inexistente”, e uma das provas disso é o facto de nada ter sido anunciado pela entidade no que toca à remuneração, inclusive em relação ao espetáculo que foi cancelado na véspera. Esta realidade foi subentendida imediatamente pelos colaboradores. Quando não podem comparecer e não avisam com 72h00 de antecedência, ou chegam um minuto depois da hora agendada, é-lhes descontado no salário, o que é incoerente com o facto da empresa não ter assumido a responsabilidade perante os cancelamentos em cima da hora. A assistente de exposição do Museu Berardo, Maria, nome fictício, partilhou, também, o reconhecimento do seu trabalho como inexistente, no âmbito da reportagem Entre o real e o virtual, as artes visuais não se querem isolar. Este aspecto concorre para que nem sequer se pense numa possível readaptação. “Talvez, se a nossa atividade, enquanto assistentes de exposição (ou assistentes de museu), compreendesse outras funções, que até vão ao encontro da formação superior geral dos assistentes, para além da experiência profissional, neste momento, pudéssemos estar em casa a fazer mais pelo Museu Coleção Berardo e pela divulgação e proteção cultural – e já agora pela produção artística – em Portugal”, defende. 

Porém, há quem encontre possibilidades, mesmo que extremamente precárias, de caminho. É o caso de Fernando Ribeiro, que nos disse “adiantar” o trabalho, que pode até nem vir à luz do público, enquanto vai segurando os frágeis fios daqueles que com ele colaboram, intervindo junto das entidades para quem presta serviços. Algumas destas, estão a adiar, outras comprometem-se a cobrir metade dos custos do trabalho desenvolvido. Há ainda aquelas que não se prenunciaram. 

Patrícia Paixão leva-nos ao exemplo do Teatro Estúdio Fontenova, que já se encontra a desenvolver projectos online, manifestando a vontade de continuar a explorar e a investir nesta plataforma. Isto não significa que estes passos parem quando este contexto acalmar. Na verdade, não é o regresso ao estado em que a cultura estava que se ambiciona. Isso seria descansar no precário:

 “Eu não sei o que é o “sentido da normalização”. O normal seria o que tínhamos antes? É que se é isso, não é bom. O momento deve ser também para reflectirmos sobre como agimos e criamos. Nas nossas actividades como grupos e indivíduos, mas também como nos relacionamos… Os passos que procuro dar são os de uma luta e crítica constante, pessoal e coletiva, e espero que na procura e criação de algo melhor, mais justo e equitativo. É o momento para percebemos também, o potencial que cada um tem, para olharmos para as nossas comunidades, onde estamos inseridos, e do que é que elas necessitam, de um ponto micro, para o macro, e, assim, capacitarmo-nos cada vez mais. Se a questão é a nível prático, acho que é relevante percebermos o que podemos fazer enquanto estruturas, como continuar as nossas atividades, mas também auscultar os colegas, o que está em falta… e o que realmente precisa de mudar. É preciso seguirmos um caminho que seja transversal, de visibilidade para os invisíveis e ‘invisíveis dos invisíveis’, para artistas e para toda a comunidade que possibilita a visibilidade artística (técnicos, produtores, figurinistas, cenógrafos, designers…). A minha situação é a excepção em Portugal, a de uma aparente estabilidade, no entanto, aquilo que assistimos (desde sempre) é a enorme discrepância, entre artistas e de artistas para as restantes profissões das artes. Sinto sim, que em Portugal a profissão de produtor é subvalorizada, associada muitas vezes a um faz tudo, e muitas vezes acumulando tarefas, num quadro pessoal de uma boa qualificação profissional. Este caminho de visibilidade deve ser feito com a luz daquilo que o Tiago Rodrigues colocava no seu recente texto sobre a situação atual: a solidariedade. Onde acrescento, a luz da equidade e justiça.” - Patrícia Paixão 

Texto de Andreia Monteiro e Raquel Botelho Rodrigues
Ilustração de Priscilla Ballarin 
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