Para se pensar em futuro, é preciso primeiro que se pense em sobrevivência. Em tempos de indigência – como os que se vivem devido à situação pandémica que atravessamos com a covid-19 – as áreas artísticas e culturais são das primeiras a sentir o impacto da maré de cancelamentos, da falta de apoios no setor e da total incerteza face aos próximos meses de trabalho. Para já, o objetivo é claro: colmatar os prejuízos e resistir perante as adversidades de um tempo que esperam que seja de mudança, pelo menos no que toca às políticas que definem o setor da cultura.

Se existem áreas como o teatro ou a música, onde o impacto do encerramento dos espaços é, desde logo, evidente, nas artes plásticas e visuais essa dimensão parece mais invisível, em virtude de um certo distanciamento dos públicos e de uma falta de conhecimento dos processos que sustentam uma área composta por artistas, curadores, galeristas e um número infindável de técnicos e outros profissionais. Essa falta de aparente reconhecimento face ao trabalho desenvolvido por estes profissionais reflecte-se, aliás, num menor número de movimentos de defesa de direitos exclusivamente focados nesta área, o que denota, pelo menos na visão de alguns artistas, a falta de uma voz coletiva, de uma verdadeira consciência de classe.

Por outro lado, também é verdade que as últimas semanas evidenciaram uma maior elasticidade dos próprios artistas, seguidos pelas instituições, em se adaptarem ao contexto digital – espaço transformado numa verdadeira montra de criação artística à distância – com performances, workshops, visitas guiadas virtuais e arquivos de museus pela primeira vez abertos à consulta de qualquer pessoa. Contudo, esta adaptação não só não é totalmente direta nas artes plásticas, como evidencia um conjunto de fragilidades que ganharam força na conjuntura atual e que colocam, uma vez mais, essa mesma área numa sombra nem sempre fácil de explicar.

Se a ideia romantizada do artista a criar isolado do mundo real podia fazer sentido numa altura em que esse conceito era opcional e não mandatório, nos dias que correm esse isolamento forçado levanta questões que podem desaguar na produtividade e na saúde mental, a médio ou longo prazo, desses criadores. E criar isolado no quarto ou sala de estar não é criar isolado no ateliê e voltar para casa ao fim do dia.

Partindo destas dimensões, o Gerador foi ouvir diferentes vozes deste universo, preocupadas com a atual conjuntura e o impacto que a mesma pode vir a ter no futuro. Os diversos profissionais – que também já se começam a juntar através do movimento SOS Arte – anseiam por uma redefinição no sistema de apoios, sobretudo públicos, e que se comece realmente a olhar para as artes visuais com uma parte indissociável da cultura, do diálogo e da reflexão que se pretende promover. 

Assistentes de sala: os imprescindíveis no real, sem lugar no virtual

Na primeira reportagem sobre o impacto da pandemia na cultura, “Em cenário de pandemia, as fragilidades da cultura ficam a descoberto”, publicada a 21 de março, a situação dos assistentes de sala foi abordada a partir do caso dos que colaboram com o Museu Berardo. Maria, nome fictício, atualizou o Gerador sobre os desenvolvimentos que ocorreram desde então. No dia 18 de março, a equipa enviou uma carta, via e-mail, ao director-geral do museu. Nesta apresentaram um “pedido claro” e que lhes “pareceu bastante justo: que fosse pago a cada assistente o valor correspondente aos turnos da escala que já estava acordada antes mesmo do fecho do museu, ainda que esse serviço não fosse efetivamente prestado pelos assistentes. Tratava-se do período compreendido entre os dias 15 de março e 14 de abril. O museu tinha fechado ao público no dia 13 de março, não abrindo mais desde o dia seguinte e esperava-se que reabrisse no dia 14 de abril.” 

A resposta não tardou e “foi positiva”. O diretor disponibilizou “apoio, por parte dos serviços do museu, na instrução dos requerimentos de apoio extraordinário à Segurança Social, após o último pagamento do museu durante este período”. Assim sendo, os assistentes de exposições têm o seu rendimento garantido até ao fim deste mês. A partir daí, “muito provavelmente”, terão de “recorrer ao apoio extraordinário da Segurança Social aos trabalhadores independentes”, caso sejam abrangidos por este, pois muitos abriram atividade há menos de um ano “(e muito provavelmente abriram-na para poderem trabalhar no Museu Coleção Berardo)” ou trabalham por conta de outrem. 

O contacto entre as partes tem-se mantido. Depois deste primeiro contacto, procurado pelos assistentes, “podemos, agora sim, chamar de conversação”, refere Maria. Esta tem sido estabelecida diretamente com o superior hierárquico, ou assistente deste, através do qual foi enviado aos colaboradores “o valor a ser pago pela escala em questão (para o envio do recibo) e as informações atualizadas sobre o decreto-lei que estabelece medidas excepcionais e temporárias relativas à pandemia da doença covid-19, nomeadamente o apoio extraordinário aos trabalhadores independentes.” 

O Museu Berardo foi um dos primeiros a fazer uma inauguração virtual

Não havendo possibilidade de adaptar ao contexto atual a função de assistente de exposição na forma como era desempenhada, Maria considera que poderiam haver outras alternativas, que passariam pelo maior envolvimento desta comunidade, contribuindo com aquilo que são as suas formações académicas e outras actividades profissionais, cuja maioria passa pelas artes: “Talvez, se a nossa atividade, enquanto assistentes de exposição (ou assistentes de museu), compreendesse outras funções, que até vão ao encontro da formação superior geral dos assistentes, para além da experiência profissional, neste momento, pudéssemos estar em casa a fazer mais pelo Museu Coleção Berardo e pela divulgação e proteção cultural – e já agora pela produção artística – em Portugal”.

“Poderíamos ter uma participação menos passiva e menos alienada das decisões e ações do museu. Uma participação que seria, ao contrário da atual, também menos desprotegida. Entre os 51 assistentes de exposição do Museu Coleção Berardo há historiadores de arte, artistas visuais,investigadores e arquitetos (entre outros de áreas mais ou menos estrangeiras à área cultural), de formação e/ou com atividade fora do museu. E este ponto é particularmente importante: se entre os 51 assistentes há muitos que, para além da atividade de assistentes de exposição, têm outros trabalhos, é porque têm essa necessidade, seja por ambição profissional, seja por necessidade financeira, ou até por ambas em simultâneo”, acrescenta. 

Quer na sua atividade profissional como assistentes de sala, quer como artistas e investigadores, encontram-se numa fragilidade acrescida, uma vez que os seus suportes financeiros escaparam e é incerta a duração deste período.

Serralves: o silêncio traz sempre incerteza 

À semelhança do que se passa com assistentes de sala e outros funcionários que compõem a equipa e que tornam vivo um museu, também os educadores e mediadores culturais se encontram numa posição frágil numa altura em que as instituições vivem de luz apagada, um pouco por todo o mundo. No passado domingo, 5 de abril, circulou uma carta aberta a Isabel Pires de Lima, vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves (FS), assinada por 23 educadores do Serviço Educativo Artes da Fundação de Serralves, que punha a descoberto a situação por que estão a passar. 

Depois da vice-presidente ter assinado o “Manifesto em Defesa de um Presente com Futuro” no dia 26 de março, os educadores esperavam que a superior da Fundação de Serralves e ex-Ministra da Cultura agisse em conformidade com as propostas presentes nesse mesmo texto – uma vez que aguardavam uma resposta às propostas de adaptação das atividades de serviço educativo para o online, enviadas no dia 17 de março com urgência. Depois de tornarem a carta pública através da S.O.S Arte, começaram a surgir notícias sobre a Fundação de Serralves ter dispensado esses trabalhadores. 

Para que tudo fique claro, os educadores assinantes da carta explicam ao Gerador que não foram “oficialmente dispensados pela Fundação de Serralves em nenhum momento”, mas que se encontram numa longa espera por uma resposta que lhes indique o seu futuro. “Ficámos sem resposta aos nossos diversos contactos desde o dia em que enviámos as propostas da equipa a 17 de março, e a resposta da FS que finalmente recebemos no dia 1 de abril não nos informa de nenhuma situação de dispensa dos nossos serviços, apenas da intenção de adiar a decisão sobre a programação das atividades online propostas até após o levantamento do estado de emergência, o que estranhamos e naturalmente contestamos, pois durante o tempo de ausência de resposta, contactaram alguns educadores para conceber duas atividades (Miró e Sazonalidades). Pensámos que, com isto, a Fundação já teria uma orientação de atividades para nos atribuir nos próximos tempos, mas a resposta foi negativa”, contam. 

Na verdade, a instabilidade tem presença assídua nos serviços educativos de grande parte das instituições em Portugal. Os educadores de Serralves sublinham que esta atividade “é essencialmente sazonal” e, “tal como noutras áreas das artes e da cultura”, esta seria a altura do ano em que teriam “maior rendimento”. “Todos os educadores do Serviço Educativo Artes da Fundação de Serralves são trabalhadores independentes a recibos verdes e recebem por orientação de atividade (seja visita guiada, oficina, visita-oficina, ou outra atividade, com horários previamente estipulados pela Fundação)”, partilham.

Com vista a um melhor entendimento das fragilidades deste setor, os educadores explicam que “não é possível viver-se somente do trabalho de educador de museu durante o ano, não só porque este trabalho é sazonal e em larga medida dependente do calendário escolar”, mas “acima de tudo porque a precariedade” do vínculo “estipulado pela Fundação de Serralves não permite a remuneração de responsabilidades e funções que são desenvolvidas pela equipa do Serviço Educativo, como a investigação necessária à concessão das atividades”. 

Quando questionados sobre a postura que esperavam que a Fundação de Serralves tivesse, num cenário ideal, os educadores responderam que esta “comunicaria aos seus colaboradores as medidas a adoptar nesta situação de crise, assumindo a sua responsabilidade social e ética”. “Esperamos que a Fundação de Serralves responda de forma positiva às propostas que enviamos por nossa iniciativa no dia 17 de março, com pedido de análise urgente, e que incluem o pagamento das atividades efetivamente canceladas (já orçamentadas pela FS, e para as quais recebe financiamentos públicos do Orçamento de Estado e financiamentos europeus, para além de apoios privados e mecenato), bem como a programação imediata com os educadores de atividades online na linha das nossas propostas (regime de teletrabalho), que a FS está já a implementar com o seu programa SOLE sem envolvimento dos educadores, ao contrário do que anuncia”, rematam.

Entretanto, este sábado, dia 11 de abril, a Fundação de Serralves respondeu ao Gerador, destacando, em primeiro lugar, o facto da atual conjuntura de emergência ter obrigado a instituição a “encerrar ao público e a suspender todas as suas atividades”.

Relativamente à questão laboral dos seus educadores, Serralves afirma que está  “a cumprir todas as suas obrigações para com os seus colaboradores, bem como todas as regras decretadas no âmbito do Estado de Emergência”. Na mesma resposta, a Fundação sustenta que as recentes notícias dizem respeito “a prestadores de serviços externos, nomeadamente a alguns dos monitores do serviço educativo” e que “o tipo de serviços que lhes são solicitados, designadamente visitas guiadas e oficinas dirigidas a escolas e famílias, não podem ser atualmente realizados por força do encerramento ao público a que Serralves se encontra obrigada”.

“Esta situação é similar à de outras instituições que operam no setor cultural e noutros, sejam elas públicas ou privadas. O grupo de prestadores de serviços é composto por trabalhadores independentes e empresas prestadoras de serviços, aos quais o Estado está a garantir medidas de apoio adequadas à sua situação, face à crise que vivemos”, acrescentam.

Por último, a instituição sublinha que tem sido “pioneira” na dimensão digital destacando os diversos conteúdos que têm sido disponibilizados online, nomeadamente a sua coleção, recursos da biblioteca, que incluem publicações de arte contemporânea, arquitetura e arquitetura paisagista, a coleção de livros e edições de artista de Serralves e coleções documentais,  assim como o seu arquivo fotográfico e videográfico.

Além destes, destacam a visita virtual  a todos os espaços da Fundação, bem como a análise ao detalhe e conhecimento de uma parte significativa da coleção, através do Google Arts&Culture; e ainda a app +PARQUE que possibilita a exploração do Parque de Serralves. Destacam ainda o programa  SOLE #Serralves Online Experience, já mencionado pelos educadores entrevistados pelo Gerador, que abarca várias rubricas da instituição.

Garagem Sul – Exposições de Arquitectura (serviço educativo do Centro Cultural de Belém): a resposta que se mantém

Também o serviço educativo da Garagem Sul – Exposições de Arquitectura, do CCB, continua a procurar responder ao fim a que se destina, tornando-se “Cidade Digital”. Neste sentido, foi disponibilizada a oficina “A Sereia e os Gigantes”. Apesar da exposição “O Mar é a Nossa Terra” estar encerrada, a reflexão sobre a temática marítima mantém-se através da disponibilização online do livro Existem Cidades no Fundo do Mar, acompanhada de propostas de actividades. 

Os serviços educativos da Garagem Sul – Exposições de Arquitectura têm equipas internas, “que continuam a trabalhar para garantir a continuidade da programação e para preparar a reabertura ao público da exposição O Mar é a Nossa Terra”, como explica Sofia Cardim, assessora da instituição. 

Para além destas propostas da Garagem Sul, num gesto mais amplo, que toca várias artes, o CCB “está a procurar disponibilizar gratuitamente ao público, conteúdos digitais existentes em arquivo, em colaboração  com a RTP Play, a Rádio Renascença e o Estúdio de Vídeo CFT – FCCN com os artistas, autores e agentes e relativos a momentos altos da sua antecedente programação cultural, transformando-se numa Cidade Digital”. 

“Todas as quartas e sextas-feiras são difundidos através das nossas newsletters concertos de música clássica, espetáculos, conferências e debates sobre Arquitectura, Literatura ou História, e também programação da Fábrica das Artes, que ficarão disponíveis até ao final de Junho. Estes mesmos conteúdos podem ser vistos e ouvidos no site do CCB ou através do Facebook, Instagram, YouTube e Spotify”, informa Sofia Cardim.

Cumprir com o que estava estabelecido e repensar o serviço educativo

Cristina Campos é mediadora na Fundação Calouste Gulbenkian e uma das caras da instituição – que, como outros museus pelo mundo fora, se apresenta não só pelas obras que tem no seu acervo mas também pela sua equipa. Depois de nos termos cruzado consigo na reportagem “Jovens, cultura e educação: a mudança de mentalidades também passa por aqui”, originalmente publicada na Revista Gerador de setembro, reativamos o seu contacto para perceber de que forma está a viver este momento.

“Obviamente fiquei sem qualquer trabalho por um período de tempo indeterminado, com todas as dificuldades que isso implica. No entanto, a Fundação Calouste Gulbenkian, na gestão desta crise, teve uma postura ética irrepreensível: prontificou-se a fazer o pagamento (integral) aos seus mediadores culturais de todas as atividades que, já estando agendadas para os meses de março, abril e maio, não se realizaram em virtude da pandemia”, conta a mediadora, em comparação com a situação que os colegas vivem em Serralves.

O impacto na sua vida “já está a ser devastador”, uma vez que “não existindo trabalho, não existe qualquer fonte de rendimento”. A ausência de um rendimento base, um problema também mencionado pelos educadores de Serralves, traz a impossibilidade de “fazer uma projeção mensal”, que com esta situação se agrava. “Apesar de os serviços educativos serem o rosto mais visível das instituições, humanizando-as e contribuindo de forma determinante para conquistar e fidelizar públicos, existe ainda um longo caminho a percorrer no sentido do reconhecimento. Aliás, a situação atual veio comprová-lo”, relembra Cristina Campos.

Com grupos compostos por elementos de diversas áreas das artes – de artistas e arquitetos a historiadores e profissionais da comunicação, como é o caso também dos vigilantes – os serviços educativos aproveitam “as diferentes valências” dos seus membros, e podem também fazê-lo num momento como este, tendo em vista estimular “a aprendizagem e a imaginação” dos visitantes no online. “Neste momento, muitas instituições já integraram nos seus sites projetos desenvolvidas por membros das equipas dos serviços educativos, nomeadamente a Fundação Calouste Gulbenkian, através do programa Descobrir”, conta a mediadora. Ainda assim, reforça “que estas propostas não têm como pretensão substituir-se à experiência efetiva em contexto museológico, muito pelo contrário, funcionam como estímulos para a sua procura (assim que a situação o permita).”

Do ateliê para a sala de estar: a vida de um artista em estado de emergência 

João Pedro Fonseca é um artista multidisciplinar, cujo trabalho tem ido da performance à instalação, passando pela pintura e pela videoarte. Essa mesma condição tem-lhe permitido trabalhar em diversos locais, sob o signo da experimentação e de uma vivência da arte nómada, mas nem por isso menos térrea. Em virtude das muitas atividades canceladas, da falta de apoios existentes ou da subordinação ao formato dos recibos verdes, considera que os criadores ficaram “sem chão” e que o “Ministério da Cultura tem vindo a desprezar a cultura”, obrigando os artistas a serem “empreendedores e mediáticos, com uma marca ou um logo que se venda bem às massas”.

A invisibilidade que esse mesmo sistema acaba por criar – dando apenas espaço aos mais “conhecidos” – não é de agora, realça, mas prova uma “falta de capacidade” das instâncias governamentais, evidenciando uma “fraca noção do estado da comunidade artística do país”. “Falta uma verdadeira liderança e uma identidade delegada que nos represente e apoie, não um Ministério que provoque a desunião entre os setores artísticos”, sintetiza.

Por essas razões, João Pedro Fonseca considera que nas atuais condições é “insustentável viver exclusivamente da artes”, tendo em conta a ideia de que “vivemos escravos de um aceleracionismo e de um desconhecimento genuíno do futuro”. Em perspectiva, a visão atual é, por isso, necessariamente mais negativa: “as remunerações são extremamente baixas face às rendas e sustentabilidade, o espaços culturais vivem em condições precárias, as equipas técnicas são insuficientes, os impostos inaceitáveis, as casas de espetáculo estão a cair, a distribuição de fundos é desigual e sofremos de um síndrome: a ‘arte’ é gratuita, mas infelizmente não funciona onde um Ministério da Cultura é inexistente”, acrescenta.

Relativamente à adaptação de certos conteúdos artísticos ao online, o artista sustenta que isso não é de agora, embora esta quarentena tenha criado uma certa noção homogénea de que é necessário marcar presença nas redes sociais. “É difícil desligarmo-nos da web. Em consequência, acho que nunca estivemos tão iguais e comuns como agora. Há um tipo de solipsismo em rede, um sistema global de indivíduos que consomem uma cultura cada vez mais homogénea, sozinhos à frente da tela do computador ou conectados com os auriculares nos ouvidos – confinados numa hiper-estimulação. É difícil reinventar o conteúdo online nestas condições, principalmente o stream que carece de um conjunto vasto de técnicas e produção para sair da formalidade tão crua”, refere, acrescentando que no seu caso não sente essa pressão, uma vez que o digital já fazia parte do seu modus operandi como artista.

Para já, o artista irá continuar atento aos apoios que têm sido disponibilizados, sendo que já apresentou candidaturas para alguns destes. “Candidatei-me a todos os apoios disponíveis: da Gulbenkian e da DGartes (Linha de Apoio de Emergência às Artes). Embora tenha havido algumas controvérsias ao apoio da Gulbenkian, esta é uma fundação privada e está no direito de decidir a quem direcionar os apoios. Por sua vez, o da DGartes, um apoio do estado, cai no surrealismo: foi pedido para apresentar um projeto, detalhar, fundamentar, estipular um orçamento e justificá-lo, quando a obrigatoriedade da execução e a apresentação é facultativa, ou seja, este apoio está desenhado para a ajuda à criação e não à sobrevivência do artista”, reitera.

Horácio Frutuoso, o artista representado pela Balcony que foi reinventando o conceito de poesia visual, diz que neste momento ainda “é difícil avaliar todas as mudanças”, mas que teve de “suspender todo o trabalho que estava em curso no ateliê, que já estava a decorrer há alguns meses com um grande investimento em material, para responder a uma série de projetos que tinha em mão até ao final do ano e, que agora, provavelmente já não vão acontecer.” Nas consequências reúne duas exposições “que deram imenso gozo a produzir e que não inauguraram”, a Balcony (galeria que o representa) fechada, e “a possibilidade de poder não ir fazer uma residência artística que já estava a ser planeada há bastante tempo”.

“Estou a aproveitar esta situação como uma altura de oportunidade para revisão, de estudo, parar para (re)ver com um certo afastamento aquilo que foi feito e se está a fazer; sinto que também precisava de um momento de silêncio, de pausa, para quando voltar ao trabalho no ateliê, ir com mais pé”, partilha Horácio. Passar do ateliê para a vida em casa não tem sido fácil, sobretudo porque nos “últimos meses estava a ir ao ateliê todos os dias”, e já se “tinha disciplinado para uma rotina e uma organização de trabalho mais exigente” – voltar a essa rotina não será simples.

Apesar de não ser um meio a que recorra frequentemente, Horácio viu-se obrigado a concorrer a três apoios para tentar remediar o que já perdeu, tal como o colega João Pedro Fonseca. Sente que “estes apoios não estão adaptados a todos os profissionais das artes plásticas” e que trazem consigo um leque de pormenores que rapidamente tornam algumas candidaturas não elegíveis, como “ter de apresentar documentos que comprovem as exposições canceladas ou a remuneração suspensa, quando na maior parte das situações não é feito um contrato ou acordo com os artistas, não existe fee de produção ou remuneração”.

Acrescenta que “que não há uma voz coletiva e, por consequência, não há uma figura ou entidade” que represente os artistas, que acabam “por ficar esquecidos”. De facto, não existe uma entidade que proteja os direitos dos artistas visuais, à semelhança do CENA-STE. “Espero que depois disto, finalmente, haja uma vontade em organizar e estruturar algo para que no futuro sejamos ouvidos e vistos”, diz Horácio Frutuoso.  

Rita GT, que ainda antes de ser decretado o estado de emergência participou no Festival Quarentena, é um dos casos não elegíveis, ainda que não obrigatoriamente pelos motivos referidos por Horácio. Não se revê na “constante competição” gerada por candidaturas, na “criação de escassas e infelizes iniciativas que pretendem potencializar o artista como um empreendedor e a cultura como um marketplace para um grupo de empresas, achando que cultura e indústrias criativas têm o mesmo significado”, nem “em nenhuma medida de apoio” criada para os artistas. “Não sou elegível para nenhuma delas, nem me revejo nesta política (ou falta dela) cultural.”

Com um “pequeno estúdio” em casa, que “neste momento se transformou numa escola” para que possa acompanhar a escola digital do filho, Rita fica com pouco – “ou praticamente nenhum” – tempo para se dedicar à prática artística. Acredita que “este é tempo por excelência para reflexão, para nos unirmos e contribuirmos para a mudança tão necessária” no setor, “em particular nas artes visuais que equivocadamente está à mercê de meia dúzia de colecionadores privados, de concursos competitivos e precários que pretendem investir no trabalho e não nos artistas a longo prazo”.

Se as artes visuais não têm merecido uma cobertura tão dedicada quanto as artes performativas ou a música em tempo de covid-19 (mas não só), a artista acredita que se deve ao facto de “o investimento cultural neste país ser tão irrisório que acaba por se refletir em todos os sectores, nomeadamente na comunicação”.

Quem pinta na rua, o que faz agora? 

Também Jorge Charrua, que iniciou a sua actividade artística com o grafitti, aos 13 anos de idade, em 2004, e concluiu a licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, não tem possibilidade de se dedicar exclusivamente ao trabalho artístico, apesar do esforço nesse sentido. Tal como Maria, é assistente de exposição na mesma instituição, cuja remuneração lhe permite fazer face às despesas. “Da arte, não faço dinheiro nenhum”, diz. Por isso, não é nesta actividade que está a sentir impacto a nível financeiro. Considera que este se verifica mais naqueles que conseguem subsistir a partir desta. 

“Ainda estou com os meus pais. Se não consigo fazer subsistência da arte, não posso sequer pensar em viver independentemente. Nem sequer estou nesse patamar. Isso dá-me liberdade para não ter tanta pressão para produzir, mas quero ter a minha independência para construir algo. Acabei a faculdade em 2015 e comprometi-me a fazer isto o mais seriamente possível. Já passou tempo e não vi frutos nesse aspecto, de forma consistente. Tenho estado aqui a trabalhar no meu ateliê. Mas se ficar a pensar sobre isso, deixo mesmo de trabalhar. Se as oportunidades eram poucas, agora vão ser mesmo reduzidas”, partilha o artista.

Apesar de, neste momento, não poder criar os seus murais, tem-se dedicado ao trabalho de ateliê, completando o seu portefólio. Na verdade, diz nunca ter tido muitas propostas de trabalho no que toca à arte urbana. O maior impacto que este contexto está a ter no seu caso reside na corrida às redes sociais, que se está a verificar, o que resulta num atropelo de conteúdos, onde os autores menos conhecidos são esmagados. “O que está a acontecer é a dificuldade acrescida de dar a ver o trabalho e de, certa maneira, ganhar alguma receptividade acerca do mesmo”, explica Charrua. Considera que a migração exclusiva para o online, vinda também dos nomes mais conceituados, faz com que os outros artistas percam visibilidade.

Perante esta realidade, “o público acaba por tomar uma certa opção. O que vão preferir? (…) A discrepância, se já existia antes, agora existe muito mais”. Chama ainda a atenção para as consequências que estão por detrás das laborais. Nesta conjuntura, “mais do que nunca”, há que ter em consideração o estado psicológico do autor, a sua saúde. “Estamos a falar de uma camada ultra sensível, que vive as coisas muito à flor da pele, que presta atenção a questões muito delicadas e tem dificuldade em encontrar uma voz para dialogar sobre isto. O resto do público é muito rectilíneo perante o modo como consome.”

A discrepância também é vista no que diz respeito aos apoios. O artista dá o exemplo do concurso aberto pela Fundação Calouste Gulbenkian, ainda que num ângulo diferente de João Pedro Fonseca.”Tudo bem, existem esses apoios, mas os critérios e os regulamentos são muito específicos e resultam numa triagem grande. Por exemplo, pessoas que tiveram espectáculos, exposições, que já estavam acordados, podem ter esse apoio. E as pessoas que nem sequer a isso têm acesso, nem sequer têm espaço para expôr? São vistos como não ativos, não tão relevantes.” Tal como grande parte dos artistas que Charrua conhece, não tem condições para se candidatar a algum apoio. 

“Vai demorar muito até termos um sistema inclusivo”, que trate todas as expressões artísticas e, dentro de cada uma, os profissionais de forma igual. Charrua vê esta realidade em ambas as partes. Defende que “entre pares, não há uma sinergia para criar uma voz singular”. Sente a falta do sentido de comunidade, que convoca a atenção ao outro e a “entreajuda”. Neste momento, a visão da  fragilidade em que os artistas se encontram não deve ser entendida apenas em relação aos que conseguem sobreviver exclusivamente enquanto tal. Há que “compreender a fragilidade em várias camadas”. “É muito complicado ter um discurso destes sem, do outro lado, fazerem a interpretação: ‘Ele está a falar desta maneira porque não está no centro, não está a viver isto como os outros’.”

Para além disso, as entidades privadas reforçam também estas desigualdades, alimentando-as numa lógica em catadupa. “As oportunidades no futuro têm que ter um retorno direto. Não temos uma cultura de mecenato. Há pessoas com dinheiro que querem ter pessoas que lhes deem retribuição de estatuto, a nível de portfólio e retorno financeiro, com o que o autor deu à sua marca, para que possa promover o seu trabalho junto de outras entidades e desbloquear dinheiro. Já tive projetos em que fui convidado e, de um momento para o outro, decidiram não me colocar e colocar outra pessoa, porque essa pessoa já tinha estatuto online, nome na praça e era mais rentável para a marca. Como eu não tinha essas qualidades era difícil vender-me como produto.” Ao contrário da música, por exemplo, as suas peças não têm um retorno direto, por mais que o público as aprecie. A maior parte deste não as vai adquirir.

Estas questões são visíveis na forma como os media abordam as diversas artes. O Gerador apercebeu-se de que não se está a dar lugar no espaço público aos artistas plásticos, neste cenário de pandemia, em comparação com outros, nomeadamente a música ou o teatro, por exemplo. “Desde sempre existiu uma hierarquia em festivais culturais. A música é cabeça de cartaz e, depois, em dimensões mais reduzidas, estão os artistas visuais. O artista visual é reduzido a um décor. Isso incute uma mentalidade. Quem for ver um evento cultural diz ‘Ok. O principal é a música e depois há a arte visual a servir de distração’. O que fica na recepção das pessoas, à primeira vista, é que o que vai ser melhor é a música. A música é uma indústria muito bem oleada, mexe com muitas entidades, muito dinheiro. A maior fatia cultural que as pessoas consomem é a música. É natural que a atenção se direcione para aí. Para mim, enquanto autor, não me espanta. Tem muito que ver com a embalagem que é feita.” 

A ocupação no cartaz, bem como a distribuição dos elementos neste, são espelhados no evento em si. “Tens um grande palco para a parte musical e eu estou, literalmente, num canto com a minha peça. Perante isto, como é possível mostrar nivelamento artístico? Isto passa, não por quem pratica, mas sobretudo por quem pode dar a ver. Quem se chega à frente para pôr um artista conhecido da música para pôr mais pessoas, pode pôr um artista visual com o qual possa haver um diálogo direto, para que, quando o público vir, pensar que isto é igualmente importante. Por exemplo, se disseres ‘à conta disto, o Charrua vai deixar de fazer a sua arte’, é completamente irrelevante. Mas se disseres ‘à conta disto, o Sam The Kid vai deixar de fazer a sua música’, isto vai ter um impacto do caraças.”

Galerias: fechar portas e dar a mão aos artistas 

Ao longo da última semana foram espreitando nas plataformas digitais dos principais jornais generalistas as primeiras notícias dedicadas às artes plásticas. Uma notícia redigida pela agência Lusa dava conta da preocupação das galerias no que toca ao futuro dos artistas que representam. 

É também nesse sentido que a Kubikgallery, sediada no Porto e responsável pela representação de artistas como Pedro Tudela ou Salomé Lamas – esta última com uma exposição a decorrer quando o Governo decretou o estado de emergência –,  deu conta ao Gerador do “grande abalo” que já está a sentir há alguns dias. João Azinheiro, o galerista, explica que, apesar de serem três as pessoas a trabalhar na Kubikgallery, o impacto mede-se também nos artistas e “num conjunto de pessoas que dependem da galeria, como  transportes, técnicos de montagem e uma série de outras pessoas que fazem parte de um tecido anexo à realização de uma exposição”.

Entre as viagens canceladas estão São Paulo, no Brasil, e Bruxelas, na Bélgica, onde levariam os artistas que representam as feiras de arte contemporânea. “É uma agenda muito complexa que temos, e que funciona muito por um investimento nosso, privado. Mas deixe-me dizer uma coisa que é muito importante: as pessoas têm muito a conversa de as galerias terem este vínculo comercial e serem o parente menos necessário, porque houve sempre um olhar para a galeria como um ‘é só para ricos’ ou mesmo os próprios galeristas serem pessoas com muito dinheiro e a arte contemporânea que se vende ser para pessoas que são de um estrato social que não é o da pessoa comum – e isso, hoje em dia, não é verdade”, clarifica João Azinheiro. 

Uma vez que o processo de compra das obras de arte vive do contacto físico com estas, é natural que se perca vendas durante e após o momento de pandemia. Se as galerias não podem estar presentes em feiras, ou as feiras são canceladas, os colecionadores e potenciais compradores não têm a oportunidade de se cruzar com as obras – a menos que sejam de artistas “que já estejam no mercado há mais tempo, que tenham um valor de mercado estabilizado”, explica o galerista do Porto. 

Neste momento em que a mostra e venda de obras de arte não é possível, João Azinheiro conta que a Kubikgallery está a aproveitar para criar conteúdo que dê a conhecer os seus artistas, para que se perceba “o que ele pensa, qual é a sua produção e porque é que ele está a fazer aquilo”. “Agora, mais do que nunca podemos tentar identificar isso em cada obra de arte, e penso que estes momentos de paragem por completo – que nunca acontecem por completo, porque os artistas estão em casa, mas estão a produzir e a pensar – são muito importantes para conhecermos a identidade de cada artista, mas também o que está atrás da sua obra e da sua existência”, explica.

Também é nesse sentido que Horácio Frutuoso enquadra “os melhores exemplos nesta área”, a seu ver, pensados para o online:  “os canais de YouTube de alguns museus, galerias ou feiras de arte, onde apresentam vídeos de conversas com artistas ou curadores, e onde podemos ver também os processos de montagem. São conteúdos curiosos para acompanhar e enriquecer os nossos conhecimentos sobre a prática artística contemporânea, que na vida quotidiana “passada” não tínhamos tempo para ver”.

O Tate é um dos exemplos mais completos na relação entre o real e o virtual. Nos Tate Shots mostra ateliês de artistas e dá a conhecer a sua visão do mundo e da arte

João Azinheiro garante que a Kubikgallery está a “tentar salvaguardar ao máximo” os artistas nacionais – esses que, segundo o galerista, são o tesouro da casa. “E essas pequenas pérolas, esses pequenos representantes que são os artistas, que estão lá fora e que dignificam a nossa identidade, têm extrema importância”, mas não representam “algo imediato e de Instagram”. A sua arte “é uma coisa mais vivida e tem um tempo”, refere. 

Também a zetgallery, em Braga, mostra a sua preocupação pela voz de Helena Mendes Pereira, curadora e diretora geral da galeria, e relembra um problema já levantado por Horácio Frutuoso. “Há apoios que podem ser ativados se o artista fizer prova de que teve algum contrato cancelado. Ora, um artista que viva em exclusivo da venda da sua produção plástica, não tem contratos de promessa compra e venda e no que toca aos recibos verdes há muitos casos de artistas que abrem atividade apenas nos meses em que faturam alguma obra de arte ou passam atos isolados só uma vez por ano, logo não são abrangidos pelas medidas.”

Depois de terem preparado uma exposição do artista Francisco Vidal, que estava já pronta a inaugurar no dia 14 de março, sentiram as consequências no imediato, mas preparam-se no mundo virtual: “redobramos os nossos conteúdos online, criámos uma visita guiada à exposição, entre muitas outras possibilidades e estamos a continuar a trabalhar”, conta Helena Mendes Pereira. Na verdade, o online já era um espaço de atuação da zetgallery, uma vez que o seu site é “uma plataforma de e-commerce pronta para a comercialização online de obras de arte” e as redes sociais “estão inundadas de vídeos de artistas e muitos outros conteúdos”. 

Ainda assim, concorda com João Azinheiro dizendo que “nada substitui o contacto corpóreo com a obra de arte, mas é possível alimentar a imaginação de quem está em casa através de conteúdos criativos e de qualidade”. Helena garante que estão “a dar tudo por tudo para fazer chegar dinheiro aos artistas” e conta que ainda não sentiram uma quebra nas vendas, mas recusam-se “a ficar resignadas em casa”. “Em teletrabalho, mas há uma equipa de 4 pessoas a trabalhar incansavelmente”, acrescenta.

Appleton: da pausa necessária à reinvenção do futuro

No caso da Appleton, em Lisboa, que não é meramente um espaço expositivo mas também de criação in loco, aberto a diferentes linguagens artísticas, o momento atual obrigou a um interromper absoluto da sua atividade, estando, por isso, confinada a um regime de lay-off. Em entrevista ao Gerador, a sua diretora executiva, Vera Appleton, explica que neste momento era preciso “reduzir custos”, uma vez que se trata de “uma associação sem fins lucrativos”, que vive dependente de “apoios e de mecenato”.

O espaço tinha duas exposições montadas que não chegaram a inaugurar – uma na Box, do Pedro Valdez Cardoso e outra na Square, da Fernanda Fragateiro – e teve que adiar dois ciclos de música/cinema/videoarte: um sobre o Phill Niblock, artista norte americano, em maio e integrado na Arco Lisboa, e outro sobre o Jorge Bodanzky, realizador brasileiro, que seria apresentado este mês. “Encaramos este momento como se encara uma pausa, a nossa programação foi simplesmente adiada e terá que ser readaptada, mas na essência da nossa missão está o nosso espaço físico. Só quando voltarmos a abrir poderemos voltar a estar ativos”, sustenta.

No futuro, Vera considera que é preciso reinventar, impondo “limites a nível de número de público, o que terá implicações sobretudo nas inaugurações e eventos ao vivo”. Por outro lado, irão passar “a alimentar de uma forma mais consistente” os canais online disponíveis com “concertos, conversas, peças de teatro ou performances cujo acesso ao público seja limitado, tornando-os acessíveis no momento através de streaming”.

Além disso, e dentro daquilo que tinham programado, sustenta que irão “dar prioridade aos que estão mais fragilizados com esta situação e adiar tudo o que seja menos urgente”. “Vai ser uma ginástica muito grande. Estamos a pôr a hipótese de abrir a programação da Box a outras propostas de projetos de curta duração, que estejam absolutamente dependentes de um espaço para garantir que se mantém os seus apoios, mas tudo terá de ser pensado para não prejudicar ninguém, sobretudo todos os que já estavam no nosso calendário”, termina. 

Curadores questionam (cada vez mais) o sistema 

Entre os muitos intervenientes desta história encontram-se curadores que, embora precisem de um tempo prévio de pesquisa, diálogo com artistas e organização de exposições, também sentem as consequências “no imediato”. Sérgio Fazenda Rodrigues é um desses casos que vivem na “inquietude” que “dificulta a vida pessoal e a vida profissional que, muitas vezes, não é possível dissociar”. 

“No meu caso, trabalhando de forma independente e com estruturas muito variáveis, a indefinição é maior. No imediato posso apontar a suspensão de três exposições que estava a comissariar (uma já aberta ao público e duas que iam inaugurar no final de março). Quanto a planos futuros, delineados a médio e longo prazo, tudo permanece em aberto, sem a previsão de um calendário acertado e sem a certeza do pleno comprometimento de todos os envolvidos”, explica. 

A transição de exposições já montadas para o online foi resultando em dois modelos: por um lado o estilo Google Arts&Culture, através do qual vemos salas de museus e galerias em realidade virtual, e por outro visitas em direto comentadas pelos curadores. A eficácia desta passagem “depende dos conteúdos em causa”, segundo Sérgio. “Se os mesmos tiverem sido pensados para funcionar numa lógica de ecrã, então pode ser uma via a explorar. Se, por outro lado, estivermos a falar na adaptação de uma outra realidade, penso que se trata de uma ação forçada que em nada substitui a experiência presencial das obras”, advoga.

“Julgo que se pode e deve reinventar a comunicação, desde que isso explore novos caminhos, mas não acredito na simples migração de imagens que, com toda a certeza, não substitui a realidade da obra”, partilha o curador. Na forma como tudo tem sido pensado, Sérgio Fazenda Rodrigues nota que “estamos quase sempre a falar de estratégias rápidas para mostrar que se continua a trabalhar” e que, tendo em conta a falta de verbas para a cultura em Portugal, “é importante lutar”, mas também é necessário “equacionar novas formas de pensar, problematizar e comunicar conteúdos”.

O MAAT, que tinha fechado portas antes da conjuntura atual para ser reestruturado, comunicou esta semana o que se pode esperar dele e qual a visão de Beatrice Leanza, a sua diretora

É nessa linha que é possível recordar projetos bem sucedidos que vivem no online porque foram concebidos para esse efeito. É o caso, entre outros, da RAUM, a plataforma de residências artísticas online concebida pela curadora Sandra Vieira Jürgens e o estúdio de design V—A, ou do Collecteurs, o museu online que mostra obras de arte pertencentes a coleções privadas. 

Ainda antes da covid-19 pôr em espera alguns setores pelo mundo, inclusive a cultura, certos museus começaram a disponibilizar em acesso aberto os seus arquivos – como contou Diogo Morais Oliveira, membro da Creative Commons Portugal, a propósito da reportagem “O acesso gratuito da cultura online: um problema de sustentabilidade?”, publicada no sábado passado no Gerador. Sérgio Fazenda Rodrigues acredita que esta pode ser uma oportunidade para quem ainda não o fez, fazê-lo, ainda que isso não deva “surgir como uma curiosidade isolada” e que “é mais importante equacionar estratégias de comunicação, envolvimento e captação de públicos, como um todo”. “A disponibilização aberta dos arquivos é importante, mas é pobre encará-la como uma ação não concertada, sobretudo quando as visitas ao ecrã não substituem as visitas ao local”, sustenta.

Por muito que o período seja incerto para todos os artistas, de todas as áreas, a cobertura noticiosa nas artes visuais tem sido um dos pontos destacados tanto por artistas como por curadores, galeristas, mediadores e assistentes de museus. Sérgio Fazenda Rodrigues relembra aos órgãos de comunicação que o papel da arte “é o da expressão e o da troca de ideias que, entre outros, alicerçam o exercício da cidadania” – também é aí que reside a sua importância na sociedade e, consequentemente, na vida política. 

Alerta: a arte recorre a um S.O.S.

A 2 de abril surgiu o movimento SOS Arte. Trata-se de um movimento promotor que aspira constituir-se como associação cultural. Integrando diversos profissionais das artes, “incluindo criadores, críticos, curadores, produtores, historiadores, professores e gestores culturais” (os quais são considerados fundadores ao subscreverem o documento até ao fim do mês), procura “promover o reconhecimento da importância económica, social, educativa e cultural da atividade artística, defendendo e respeitando os interesses económicos, profissionais e sociais dos seus intervenientes.”

O seu foco de ação aponta para  “os mais duramente atingidos por esta crise, ou seja, aqueles que viram e verão no futuro próximo as suas empresas, estúdios, encomendas, e vendas prejudicados ao ponto de desestruturarem gravemente a atividade que vinham desenvolvendo até aqui”, refere António Cerveira Pinto, um dos treze (número não definitivo) elementos que estão a gerir o movimento.

Aspira fazê-lo nomeadamente através da criação de um Fundo de Emergência, gerido pelo Governo, desejando que os ministérios da Economia, Cultura e Educação e as Universidades, que desenvolvem investigação nas áreas da estatística e da sociologia, estejam envolvidos, bem como de “Círculos de Proteção que identificam os principais estrangulamentos da atividade cultural”.

Entre estes estão o analítico, que “observa a atividade do movimento e produz sínteses”; o existencial, pensado para reunir “as pessoas interessadas numa abordagem filosófica da crise”; o económico, com vista a desenvolver “estratégias de resposta económica à emergência e ao quadro sócio-cultural pós-pandémico”; o institucional, que se concentra na procura de “estratégias de articulação e cooperação com entidades públicas e privadas”; o pedagógico, responsável por organizar “pontes entre artistas e públicos”; o experimental, com o fim de desenvolver “cenários pós-crise” e o produtivo, que “reorganiza a atividade artística durante a crise”, lê-se no manifesto. 

António Cerveira Pinto reconhece que os artistas plásticos são “menos mediáticos”, por uma questão de públicos, como referiu Charrua, e porque têm uma menor proximidade a nível “narrativo e tecnológico” com os media. Para além disso, têm estado “menos unidos”. Para fazer face às fragilidades particulares desta expressão artística, o movimento apresenta as iniciativas que se encontra a preparar, como a exposição “100 dias de quarentena, resultante da aquisição de 100 obras de arte a 100 artistas portugueses ou residentes em Portugal, selecionadas por um júri independente, do qual este movimento fará parte”, a possibilidade destas serem adquiridas diretamente aos artistas ou a quem o represente; a Bolsa de Ateliês 3.6.9, “uma plataforma online de procura e oferta temporária de estúdios para artistas, a custo zero (por períodos de 3, 6 e 9 meses) em espaços habitacionais, comerciais e industriais”, e a realização de uma Feira de Arte Online, “em colaboração com as galerias de arte portuguesas”.

Está disponível um inquérito, no site do movimento, que permitirá averiguar empiricamente quais os profissionais mais atingidos pela crise. Esta informação será complementada pela concentração numa plataforma de “todas as propostas e mapeamentos das várias organizações (universidades, fundações, associações e movimentos das artes) que tenham sido efetuados”, de modo a identificar os vazios, as lacunas, logo a população mais afetada, a qual é a destinatária do plano de auxílio e, simultaneamente, esclarecer a comunidade acerca dos apoios existentes, sejam estatais ou de entidades privadas, assim como informá-la no que diz respeito aos recursos legais a que poderá aceder. 

A arte em quarentena, reinventada a partir de qualquer lugar

Os tempos que se vivem são de grande incerteza para as diferentes áreas da cultura. As artes plásticas não escapam a esse panorama, mas talvez mais do que outras carregam o espírito de adaptação e reinvenção que se exige ao pensamento artístico. Em diferentes alturas da história, a arte – nas suas múltiplas abordagens –, foi capaz de produzir reflexões necessárias para uma melhor compreensão da sociedade e do tempo que habitamos. 

Em Portugal, esse mote mantém-se vivo pela voz daqueles, que ao longo das últimas semanas têm produzido reflexões que questionam o próprio estado da comunidade artística e a sua gestão por parte dos centros de poder. Ainda que, como diz Helena Mendes Pereira, curadora e diretora geral da zetgallery, nada substitua “o contacto corpóreo com a obra de arte”, é possível “alimentar a imaginação de quem está em casa através de conteúdos criativos e de qualidade”, algo que, em última instância, pode contribuir para um maior reconhecimento dos públicos face ao trabalho de todos os profissionais das artes plásticas, que de uma forma ou de outra se viram privados das suas normais condições de trabalho. 

Por outro lado, como partilha Charrua, indo ao encontro do que foi ecoando nesta multiplicidade de vozes, é importante que este tempo “sirva de uma janela de oportunidade para a comunidade artística fazer uma reflexão interior”, repensar relevâncias, sentidos, constituindo uma ética que perdure para além deste contexto.

Numa área de criação que vive do tempo e de uma relação indireta com o outro, esta pode ser por isso uma altura para (re)pensar relações entre pares e no valor da arte para a identidade e respiração de um país. A produção pode não continuar no mesmo ritmo, as trocas entre galerias e colecionadores podem não ser as mesmas e os modelos que até agora eram postos em prática podem não resultar da mesma forma – mas importa, acima de tudo, olhar para o estado da arte com um olhar crítico e em construção com o futuro. De casa para a galeria ou para o museu, do diretor para o vigilante ou o artista: de todos, a partir de qualquer lugar, num tom de horizontalidade.  

Texto de Carolina Franco, Raquel Botelho Rodrigues e Ricardo Ramos Gonçalves
Ilustração de Hugo Henriques

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