Arrancou neste mês de julho o Lisboa Criola, um projeto cimentado no ideal de uma cidade mais inclusiva, igualitária e representativa. Cultural, criativa, transversal e participativa, a iniciativa quer celebrar e amplificar a mistura de culturas existente na capital, dando a conhecer comunidades e histórias que estão na essência de um local que é feito por todos os que o habitam e que por lá passam.

Com coorganização da Câmara Municipal de Lisboa, o projeto concretiza-se, para já, numa programação online, que junta artistas de áreas como a música, gastronomia e as artes plásticas, visuais e performativas. Até ao final do ano, estas personalidades vão dar a conhecer a sua Lisboa numa série de minidocumentários e, em conjunto, vão criar uma obra artística partilhada.

Num conjunto de workshops online, vários artistas vão partilhar conteúdo inédito, com ideias e pistas sobre os seus métodos, que servirão de mote para um desafio criativo lançado a toda a comunidade. Os atores Jani Zhao e Welket Bungué são os primeiros em foco, neste mês de julho. Seguem-se depois as Batucadeiras com o rapper Sam The Kid; a designer de moda Alexandra Moura com o fotógrafo Daryan Doernelles; o cantor Paulo Flores com o DJ Marfox; o coletivo de chefs NKOTB com a chef Jeny Sulemange; e, a fechar o ano, a fadista Sara Correia com o artista plástico Tony Cassanelli.

Mensalmente, entre julho e dezembro, um tema será o ponto de partida para um conjunto de ações. Com esta mesma cadência, um poeta, escritor ou liricista será desafiado a fazer um pequeno exercício literário, e a jornalista e editora residente Cláudia Semedo irá escrever uma crónica e entrevistar uma figura ligada à crioulidade. Será ainda dado destaque a um conjunto de projetos culturais ou sociais emergentes, entre outras iniciativas, que compõem este projeto, que pretende, de resto, contribuir para a mudança mentalidades e de comportamentos, como nos explica, nesta entrevista, Mónica Rey, diretora de produção do Lisboa Criola.

Gerador (G.) – Como é que surgiu a ideia deste projeto?

Mónica Rey (M.R.) – Esta ideia veio da cabeça do Dino D’Santiago. Costumo dizer que o Dino tem esta aura de conseguir juntar várias pessoas para concretizar o que ele pensa e sonha. Ele tem esta ideia, desta Lisboa que todos vivemos e de que acabamos todos por ser filhos, desta uma mistura de origens. Neste caso, Lisboa Criola não é PALOP, é lusofonia, e não só. É esta mistura toda cultural que temos em Lisboa, desde o Bangladesh à China. Dizemos que Lisboa é um ponto de encontro de todas estas culturas e dizemos até que Lisboa é a capital crioula.

O Dino sempre teve esta ideia de querer celebrar. Normalmente, falamos de imigrantes, por exemplo, de uma forma negativa. Ou vieram para aqui fazer isto, ou fizeram aquilo, e nunca há aqui um ponto que seja para celebrar realmente esta mistura. Porque todos acabamos por viver depois desta mistura, seja na gastronomia, na forma como falamos ou na nossa vivência. Então, o Dino desafiou-me a mim – que sou produtora do projeto –, ao Francisco e à Mafalda. Somos quatro. O Francisco e a Mafalda são os nossos diretores criativos, ajudaram-nos a pôr o projeto lindo e maravilhoso, a criar um projeto que espelhasse esta celebração. Porque o que queremos, no fim do dia, é realmente celebrar a mistura.

G. – Esta crioulidade, digamos assim, que existe em Lisboa, é diferente daquela que possa existir noutras cidades, nomeadamente, europeias?

M.R. – Agora começamos a ter muito mais nacionalidades em Lisboa. Claro que ainda estamos um bocadinho longe de Londres, Holanda, Bélgica. Mas achamos que sim, que Lisboa é mesmo este ponto de encontro. E cada vez mais as pessoas procuram, não só Lisboa, como Portugal. Lisboa, por ser a capital, acaba por ter mais esta curiosidade por parte destas pessoas que vêm para cá, vindas de outras realidades. Mas acreditamos que sim, que somos assim uma cidade cosmo.

G. – O projeto tem um manifesto. Há um ideal de cidade, digamos assim, que vocês imaginam e que está por detrás deste projeto.

M.R. – Sim, nós escrevemos um manifesto. Essa Lisboa é a Lisboa que vemos e a Lisboa que idealizamos. Queremos ter uma participação ativa nesta construção de uma sociedade mais unida, mais igualitária e mais representativa. Essa é a nossa ideia. E como é que queremos fazer isso? Através do exemplo, ou seja, mostrando que várias culturas ou várias nacionalidades, quando se misturam, podem resultar em algo algo muito bom, bonito e inspirador.

Acho que o futuro – e falo em nome dos quatro – está nos nossos filhos, na educação. E será pela educação que iremos sempre entrar. Estamos já a pensar no próximo ano, porque queremos estar dentro da educação, de alguma forma. Este ano foi muito Covid. É algo que não dá para controlar. Tivemos de ir muito pelo nosso site e tudo gira muito em torno da internet. Por isso é que teremos os workshops, em que misturamos várias culturas, para podermos inspirar as comunidades.

Vou dar-te o exemplo deste primeiro workshop que vai sair, em que vamos falar de comunicação. É com o Welket Bungué e Jani Zhao. Ela tem origem chinesa, e o Welket é da Guiné. O Welket também é ator, mas entrou no workshop mais com uma parte da visão dele como realizador e produtor. E a Jani é atriz. Este workshop é para cada um passar a sua experiência enquanto profissional, enquanto artista e também alguém que tem origens.

No caso, por exemplo, da Jani, ela tem origens chinesas e acho que o pai é norte-americano. E ela disse-nos algo que me marcou e que costumo sempre dizer: ela nasceu em Portugal e, quando era pequena, olhava para os bonecos e não percebia por que é que nunca encontrava ninguém parecido com ela. Achava aquilo estranho, porque não havia representatividade. Até chegar a Mulan. Aí, ela encontrou alguém que era parecido com ela. Isto é a génese da Lisboa Crioula. Não vamos mudar o mundo, mas  podemos fazer a nossa parte.

G. – Este projeto acaba também por dar um sentimento de propriedade, se calhar, da própria cidade a pessoas e comunidades que, eventualmente, não sentissem a cidade tão como sua. Falo de estrangeiros, de afrodescendentes, de outras nacionalidades. Existe também aqui esta noção de uma Lisboa que é assumidamente de todos?

M.R. – Exatamente.

Sei que, nesta fase dos workshops e tudo mais, as pessoas vão pensar “ok, mas vocês vão mudar o quê?” É mesmo pelo exemplo. A ação pelo exemplo. Mostrar para educar, ou para inspirar, e mostrar que da mistura de culturas ou de etnias, seja do que for, pode, sim, sair uma coisa boa, ou um projeto bom. Porque cada um de nós tem uma experiência diferente. Eu tenho a minha, tu tens a tua. Temos, por exemplo, o Tony Cassanelli. Ele é italiano e também vai participar no projeto. Ele é um italiano a viver em Lisboa e tem a experiência dele como italiano, em Lisboa. É isso que queremos passar.

O nosso principal foco é mesmo esse, passar a experiência de cada um, enquadrada depois nos workshops, na experiência que os artistas podem passar para as comunidades e pessoas – como alguém de origem chinesa, que vê uma Jani e diz “ok, a Jani conseguiu. Como é que eu também posso?” Porque a Jani não irá dar uma aula – nem ela, nem o Welket –, mas, sim, vão passar a experiência, na primeira pessoa, de como é que eles fazem determinadas coisas. E, às vezes, as pessoas que querem e que estão no início de carreira, ou de vida, precisam só de ouvir uma palavrinha de incentivo, para encaixar e perceber o sentido das coisas.

G. – E, neste caso, nem precisam de ser pessoas que queiram enveredar profissionalmente no mundo das artes.

M.R. – Não, claro que não.

G. – Esse é só o ponto de partida…

M.R. – Claro. O acesso é para todas as pessoas e gratuito, o que é importante dizer. Ou seja, vamos dar formação gratuita. É para toda a gente, senão também não faria sentido.

Este ano, vamos estar muito focados na parte de querermos criar uma base do que é esta Lisboa Crioula e aquilo que queremos celebrar. No próximo ano, temos muita coisa, que não te posso ainda adiantar, porque estamos ainda a fechar, mas que passa muito por sensibilizar. Eu tenho uma filha, e a minha filha também é filha de uma mistura e ela, no normal da escola que é um cabelo liso, se calhar, não se enquadra pela lógica dos dias de hoje, e eu não quero que a minha filha, no futuro, olhe e ache que um cabelo liso, por exemplo, é que é o normal, entendes? Então, também queremos estar nesse papel, porque, às vezes, os pais não sabem como explicar.

G. – O papel das representações sociais que são importantíssimas para a autoestima e para confiança das pessoas, para a maneira como interagem com os outros, sem dúvida.

M.R. – Acho que o nosso papel também é muito esse, de ajudar a chegar às crianças e aos pais, e a todas as pessoas que queiram realmente aprender e respeitar, como é que podemos viver nesta sociedade mais unida, igualitária.

G. – Para além de toda a programação que têm planeada, há uma coisa muito interessante também, existe um mapa…

M.R. – O mapa da Lisboa Criola. Todas as pessoas que vão participar no projeto vão indicar um espaço ou um sítio – seja um cabeleireiro, um estúdio de gravação, um restaurante… – e nós vamos assinalar no mapa, identificando o nome da pessoa que disse aquele espaço. A ideia é este mapa fazer mesmo parte do Turismo de Portugal e que as pessoas possam conhecer esta Lisboa mais alternativa e mais crioula.

Manifesto Lisboa Criola

Promover a diversidade por uma melhor sociedade. Valorizamos a diversidade, a inclusão, a igualdade e a justiça e queremos contribuir para uma sociedade que cresce e floresce com relações de empatia, partilha e aprendizagem. Uma sociedade onde não há lugar para o racismo ou qualquer forma de preconceito - cultural, religiosos, sexual, económico. Uma sociedade de respeito pleno pela diferença com espaço e tempo para olhar e conhecer “o outro” naquilo que nos une, mas principalmente, no que nos difere. Uma sociedade geradora de oportunidades onde Todos podemos contribuir. Acreditamos que uma sociedade assim se constrói através de medidas políticas e sociais adaptadas, coesas e de longo prazo, que permitirão maior participação e mudança de mentalidades. Mas sem esta última, as primeiras são insustentáveis, e vice-versa. Queremos mudar mentalidades através da aproximação e partilha de experiências. Queremos usar a linguagem universal da criatividade, das artes e da cultura como gancho unificador para criar pontes e estabelecer maiores ligações entre pessoas de comunidades, culturas e origens diferentes. Um elo comum capaz de educar, aproximar e promover mudanças de comportamentos e ideias positivas.

Assistimos em Lisboa a fenómenos socioculturais inspiradores que devem ser potenciados e podem ser potenciadores desta sociedade que ambicionamos, em Lisboa, no país e fora dele. Uma cidade onde traços socioculturais de diferentes origens se afirmam cada vez mais como traços da própria cultura local. Onde se assiste a quotidianos pautados por hábitos de várias origens, resultado de uma natural aculturação. Queremos afirmar Lisboa como uma cidade que pertence agora, em partes iguais, a todos os que nela habitam. Lisboa Criola, tem como objetivo primordial usar os seus meios para dar a conhecer o máximo de comunidades, culturas e histórias que compõem hoje a cidade. Seremos agentes ativos no fortalecimento e na criação de pontes sustentáveis entre comunidades, valorizando o respeito pelo “outro” tendo como veículo a educação e a aprendizagem intercultural. E assim, sermos galvanizadores de uma mentalidade de inclusão, diversidade e igualdade.

Texto por Flávia Brito
Fotografia - still do vídeo promocional da Lisboa Criola

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