Em 2017, um problema nas cordas vocais fez Márcia voltar a escrever poemas. Este ano, o confinamento despertou a necessidade de desenhar. Aos poemas, a artista juntou canções, crónicas e pensamentos soltos, ilustrados pela própria, numa espécie de autorretrato em livro, editado, em outubro último, pela Planeta.

Em As estradas são para ir, o primeiro livro da cantautora, Márcia regressa ao passado, com os pés assentes no presente e os olhos postos no futuro. “Acho que todos nós passamos algum tempo a mergulhar na infância e em episódios que temos. São reminiscências. E acho que faz sentido, mas sempre numa perspetiva de aprender”, diz. “O meu caminho é sempre em frente. Não gosto de ficar mergulhada no passado. Mas faz parte, para saber de onde vimos.”

Entre poesia, crónicas e ilustrações, a artista convida-nos a conhecer os caminhos que percorreu e as várias saídas por que optou, com o propósito lato de que “mais gente se revisse ou se encontrasse”.

Gerador – A ideia deste livro surge no momento em que ficaste sem voz, na altura da tua segunda gravidez, em 2017, e em que voltaste a escrever poesia?

Márcia – A ideia do livro não surgiu quando fiz esses poemas. Surgiram foram os poemas. A ideia do livro só surgiu mais tarde, mas também não muito mais tarde, porque sou muito impulsiva às vezes. Quando fiz uma série de poemas, achei que os podia editar logo no próprio ano e, como tinha esse problema na voz, fiquei com aqueles poemas. Tenho muito a necessidade de expressar e de cantar e, de facto, já tinha deixado um bocado de lado essa voz dos poemas, porque tinham dado lugar à voz das canções, que é uma voz que, ainda por cima, é gravada, já está completamente assumida. Já é uma voz que está exteriorizada.

G. – E que voz é esta a da poesia?

M. – Essa voz da poesia é uma voz muito mais grave e muito mais interna e, por isso, é uma voz muito mais sussurrada e cada um tem a sua. Ao leres os poemas hás de ter a tua própria voz, enquanto as canções associas a voz ao intérprete.

A maior parte dessas canções que aí estão, o intérprete sou eu, mas há outras em que não. Há a Ana Moura, há o Zambujo, há a Cristina Branco. Por isso, não associas uma voz. Hás de ter a tua. Acho que é sempre uma voz dumas profundezas de nós próprios, onde nós sabemos mais coisas do que aquilo que achamos. Uma voz muito íntima muito profunda.

G. – Porque só decidiste publicar o livro agora?

M. – Tinha esses poemas desde 2017 e, no verão do ano passado, em 2019, fui a Paredes de Coura participar nas Vozes da Escrita com o Valter Hugo Mãe e li alguns poemas, e havia pessoas que lá estavam que me pediram para editar, e tinha esse bichinho ainda lá escondido – "Ainda tenho isto por editar, tenho isto para partilhar e nunca o fiz". Então comecei a desenvolver uma ideia de fazer um pequeno livro com um disco que também estava a compor. Só que, entretanto, caiu a pandemia, tive mais tempo para desenhar e comecei a ver outro tipo de livro na minha cabeça – e coincidiu depois com o convite desta editora que foi um acaso de muita sorte, frutuoso. Acabou por ser uma fase muito diferente. Este ano foi diferente para toda a gente, mas tive de facto a vontade de me vingar nos desenhos. Ou seja, como não tinha capacidade para estar a tocar em casa, ou para estar a compor um disco, vinguei-me um bocado no desenho, voltei um bocado às minhas origens. É engraçado, estamos sempre a voltar um bocado às origens, e depois a ir outros sítios.

G. – Porque és formada em Belas Artes. Este é um projeto onde acabam por emergir vários “eus” artísticos teus?

M. – Sim, acabaram por ganhar muito espaço, porque sempre que imaginei o livro, imaginei um livro muito pequenino com alguns poemas e umas anotações de desenho. Acabei por investir muito nos desenhos. Já não fazia uma série de desenhos há muito tempo. Em Belas Artes, fazemos as coisas em séries. Temos o projeto e fazemos uma série de desenhos a ver com isto ou com aquilo. E aqui fiz uma série de desenhos como já não fazia há muitos anos, e podia ter continuado. É inacabado, porque está sempre inacabado. Porque mexe em vários temas, mexe em vários elementos. São desenhos que falam do céu e do mar. Isso é infindável, graças a Deus. Depois, é um universo muito contemplativo e que, apesar de ser do meu íntimo, acho que consegue encontrar eco nas outras pessoas e naquilo que as outras pessoas conhecem. Todos nós conhecemos aquelas paisagens.

G. – Porquê este encontro com a natureza?

M. – A natureza é vital. Aliás, durante quarentena, até comprei plantas, que era uma coisa para a qual achava que não tinha jeito.

G. – Sentes pena de ter nascido na cidade, não é?

M. – Tenho muita pena. Até na faculdade tinha imensa pena, porque as minhas colegas iam para “a terra" ter com os pais e sentia-me uma desterrada, porque a minha terra é a cidade. Quer dizer, tenho o Alentejo do meu pai, tenho a zona de Viseu por parte da família da minha mãe, mas não tinha assim um lugar para voltar e para ir por os pés na terra. É uma coisa que me faz muita falta. Não sei porque é que me faz falta, se é uma coisa que nunca tive, mas é uma coisa que acho que ancestralmente nos faz falta como seres humanos, lidarmos com a natureza. E nós passamos muito por cima disso, como se fosse um luxo, ou como se fosse uma “freckalhice” a pessoa ter de ir ver as árvores ou ter de ir lidar com o mar. Não é. Acho que é uma coisa muito fundamental na nossa vida. Nós fazemos também parte da natureza e, às vezes, esquecemos, estamos num ritmo tão frenético que esquecemos dessa parte. E claro que ali viajei. Até arranjei plantas na quarentena, estava-te a dizer, que era uma coisa que achava que não tinha jeito. Mas muita gente arranjou plantas, reparei nisso. Acho que era para te rodeares de vida e te lembrares de que a vida continuava a florescer.

G. – Neste livro, deixas muito a ideia de que “as estradas são para ir”, num sentido de encontrar saídas, mas também deixas a ideia de que é um caminho que não se faz sozinho...

M. – Completamente. Nós somos seres que sem os outros não interessa muito. Isso é uma coisa que dava horas e horas de conversa, porque nós aprendemos com o individualismo das Belas Artes, da arte contemporânea e, por outro lado, com esta coisa mais pop – pop no sentido popular – da autoajuda, do autoconhecimento e dessas doutrinas – sei lá como chamar – a sermos um bocado autossuficientes, mas não acredito na total autossuficiência. Acho que nós somos muito seres sociais, precisamos muito uns dos outros, e sem ser uma dependência. Não significa que a pessoa não possa fazer o seu caminho, independentemente dos outros, mas acho muito importante os outros. Sem os outros isto tem pouco sentido.

G. – Falas inclusive, numa entrevista, na cura do entendimento.

M. – Aquele que nos ouve é um precioso lugar. Sim, a cura do entendimento é uma troca. Já viste a solidão que é achares que és a única que sofreu um desgosto amoroso, ou uma deceção com um amigo, ou a dor da perda. Se fores a única a sentir isso, a tua dor vai ser muito maior. Se repares numa canção, e essa canção disser aquilo que estás a sentir, sentes que exprimiste aquilo que estás a sentir, que conseguiste deitar cá para fora. Acho que as canções têm esse lugar e, em contrapartida, o público tem esse lugar para o próprio artista. É uma troca. 

G. – O público acaba por influenciar no teu processo de composição.

M. – Se me perguntasses isso há uns anos dir-te-ia que achava que não, se bem que acho sempre que sim, porque estás sempre a escrever para alguém. Não significa que esse alguém seja o público que te vê nos concertos. Isto é, se escrevias canções de amor tens sempre um destinatário para as canções, há sempre alguém para quem estás a falar. Agora, esse alguém transformou-se cada vez mais no meu público, sim, porque já quero ter uma mensagem mais coletiva. Mas, às vezes, ainda me sai uma mensagem mais íntima, acho eu. Não sei avaliar isso, mas se formos música a música do meu último álbum consigo-te dizer que sim. "Do que sou capaz", por exemplo, é uma música para um grande auditório, e o "Amor Conforme" é uma música sussurrada ao ouvido. Há sempre um destinatário para aquilo que nós escrevemos e dizemos. Obviamente que quanto mais gente te ouvir, mas difícil vai ser a tarefa, mas também mais prazeroso, porque vais ter mais sentido. 

G. – Ao contrário deste livro que é, sem dúvida, mais íntimo.

M. – Não o sinto como um livro meu. Aquilo que as pessoas me dizem até do livro é que se identificam em bastantes passagens, por isso, o que quis foi claramente abrir um pouco mais, digamos, o coração, de forma a que mais gente se revisse ou se encontrasse. Também digo isso no livro: «Se não dissermos a verdade, a verdade dos outros não se encontrará através da nossa». Uma pessoa para se reconhecer numa situação, tu tens de dar o primeiro passo. Se vais escrever uma coisa, és o primeiro a falar. Se estás a escrever uma coisa para alguém, tens de contar primeiro o que se passou contigo, para que a outra pessoa se sinta também à vontade para pensar no que se passou com ela e se identificar. Por isso, sinto sempre, a ler o livro, que estou a ser íntima, mas não é uma coisa como um diário. É uma coisa com um destino, com um destinatário, e um destinatário bem lato. 

G. – Até porque no fundo são emoções, e as emoções são transversais a todos nós, mesmo que em diferentes situações.

M. – Era isso também que queria falar, porque não posso ser honesta se só falar da luz, sem falar da sombra. Não estou a ser justa. Há muito essa vontade de falar. Acho que refleti muito sobre isso na pandemia. São muito antigas as canções que ali estão, têm dez anos de trabalho. Os poemas têm três ou quatro anos de trabalho. Mas as crónicas são muito mais recentes, e as crónicas falam sobretudo dessa verdade, ou, às vezes, do lado menos soalheiro das coisas, ou do lado mais sombrio das coisas. Porque senti, na pandemia, que faltava também falar sobre isso. Não podemos andar aqui só a fingir que está sempre tudo bem e que estamos sempre muito bem vestidas e muito bem maquilhadas e que é só isso a vida. Não. A tristeza faz parte da vida e nós todos passamos por ela, e, se não falarmos sobre isso, vai haver coisas muito piores, porque ela também tem de descolar. 

G. – Há mais de contemplação ou de reflexão neste livro?

M. – Acho que é capaz de ser as duas coisas. Há sobretudo dois ou três momentos no livro que foram bastante esclarecedores para mim. O livro naturalmente, para mim, foi um salto muito grande emocionalmente. Nunca tinha escrito sobre estas coisas, nunca tinha falado sobre estas coisas. Por isso foi um salto emocionante. Eu deixei-me ir, não me travei, mas também, como digo no livro, acho que só podes fazer uma viagem assim ao passado e a coisas do passado, se estiveres num presente bem firme. Gostava de saber estar sempre no presente. Muitas vezes viajo, mas sou mais apologista do presente e do futuro.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de NashDoesWork

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