A chuva quase torrencial do fim de tarde do dia 1 de fevereiro parecia querer dizer que algo de místico se passava em Lisboa. Por coincidência, às 18h00 inaugurava Vicente. O Mito em Lisboa, no Palácio Pimenta do Museu de Lisboa, a exposição que reúne, em jeito de retrospetiva, as obras que passaram pela Travessa da Ermida ao longo das 8 edições que fizeram o projeto Vicente, o mito reinventado.

O fim de tarde começava a trocar de turno com a noite fria de inverno, e o início do caminho até à exposição era indicado por Amor Libera Lux (2013) de Xana, uma espécie de sinalética com palavras, pendurada entre duas árvores. As indicações continuaram a ser dadas pelas luzes do jardim e pela iluminação das peças de Raoul Kurvitz (2014), na estufa, e de MOOV + Miguel Faro (2012) com a instalação de luminárias com frases atribuídas a santos e hereges que fazia os visitantes irem tropeçando de “Melhor iluminar do que apenas brilhar, para entregar aos outros as verdades contempladas em vez de simplesmente as contemplar” em “Arrebatavam-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões”, até chegar ao destino final: a cidade das oito ermidas.

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Na fachada do Pavilhão Preto, os cartazes com corvos que João Ribeiro fez para Vicente’11. Reza a lenda que 50 anos após ter sido escondido para o proteger dos mouros, o corpo de São Vicente foi encontrado por Afonso Henriques com a ajuda de um bando de corvos; dois desses corvos acompanharam a embarcação do rei até Lisboa, e é por isso que o brasão da cidade os tem representados. Em compasso de espera para a entrada, os visitantes já tinham as folhas de sala e o jornal explicativo; sabiam o que podiam encontrar dentro do palácio, só não sabiam de que forma.

Na primeira sala, peças do acervo do Museu de Lisboa davam a conhecer o São Vicente tradicional que, ermida a ermida, foi sendo desconstruído aos olhos da contemporaneidade. O martírio de São Vicente como ponto de partida para o de Anne Frank pela mão de André Graça Gomes, em contraste com a paz da sintonia entre corpo e mente na prática do Qigong, de Gabriele Seifort, que iam desaguar no Refúgio de André Banha, que abraçava os mais curiosos numa espécie de ninho em que se respirava a solo com a multidão do lado de lá.

Do Refúgio viam-se as portas abertas para o relicário de Simeon Nelson — Chryptosphere — onde, na altura, se encontrava o curador da exposição, Mário Caeiro. Chega-se à frente para explicar ao Gerador do que trata, afinal, a exposição: “Aqui o importante é traduzir para um espaço uma experiência de 8 anos num outro espaço. Em Belém, numa travessa e numa ermida — que é o Projeto Travessa da Ermida — fez-se durante 8 anos várias coisas, e quando o Museu de Lisboa abriu uma porta pensou-se o que se podia fazer. Uma retrospetiva; mas não é uma retrospetiva normal, é uma experiência imersiva onde cada ambiente comunica uma determinada atmosfera.”

A sala onde Mário se encontrava era, a seu ver, “assumidamente um velório”, pela carga dramática do relicário de Simeon Nelson. Os restantes iam do céu à calçada e aos becos da cidade de Lisboa, até a lugares que se aproximam mais do imaginário. Para aprofundar o conhecimento acerca do projeto, Mário recomendou a leitura do livro que compila os oito anos de projeto e onde está, entre outras coisas, a investigação que foi sendo feita. Ao mostrar a satisfação com o resultado final não deixou de mencionar o projeto de arquitetura e de destacar a única obra nova na exposição, o néon a dizer Fim, de Sandra Baía: “Este projeto está cheio de ironias e brincadeiras e como este é o fim, a Sandra Baía cria uma obra nova que diz Fim e se encontra no final do percurso.”

Quanto à continuidade do projeto, Mário Caeiro deixa a dúvida no ar, ainda que com a certeza de que este é o fim de Vicente Reiventado, pelo menos como foi conhecido ao longo dos últimos 8 anos — “Não existe ideia nenhuma para continuar; se existir continuação é noutra forma. A cidade que o diga.”, afirma. Até 2018 era lançado um tema relacionado com o mito, e Mário fazia o convite a artistas com quem já se tinha cruzado, para repensarem, ou pensarem pela primeira vez em alguns casos, São Vicente. De países relacionados com o mito, como França, Inglaterra, Alemanha e claro, Portugal, a países que nada tinham que ver com a história, como a Estónia, a única regra era escolher dois artistas por ano, um para pensar o exterior e o outro o interior.

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De portas abertas umas para as outras e para todos, as oito ermidas não se deixavam esconder; tocando-se entre si, a desaguar umas nas outras, e com um ponto de encontro comum: o corvo de Jana Matejkova-Middleton a sobrevoar o átrio com uma ode à Metamorfose de Kafka. Ora pro nobis de Dominik Lejman e Luz no Rumo de Nino Alfieri faziam-nos regressar à Travessa da Ermida em 2017 e 2018, preparando o caminho para a última sala com Play! Mobile III (Vicente-Circles), a instalação que o artista alemão Rochus Aust pensou para a edição de 2016. “É o artista?” — perguntou alguém a um rapaz que subia o escadote no meio da instalação — “Não, aquele é o artista”, respondeu a apontar para Rochus Aust.

No canto da última ermida, estava Rochus Aust, que facilmente podia passar despercebido no meio do grupo que brincava com a sua instalação sem fazer ideia de que era o autor. “A História é um círculo, a vida é um círculo e, por isso, a minha instalação é composta por três círculos; um é dedicado a Schiller, o outro a Casanova e o terceiro a Vicente. Um representa o círculo político, outro o círculo feminino, e o que resta com o círculo religioso, que se viram uns para os outros. A política, a sexualidade e a religião vão ao encontro umas das outras e não estão, de todo, separadas.”, começou por explicar. O jogo podia conter camadas temáticas complexas, mas era simples: deixar deslizar uma bola pelos tubos amarelos que passavam por cima das cabeças das pessoas. Do outro lado da parede e num canto mais escuro, estavam as projeções de vídeo também da sua autoria. “Esta instalação foi feita para a Travessa da Ermida e, ao trazê-la para aqui, eu não queria simplesmente adaptá-la ao museu. Aqui consegue atravessar as paredes e as portas, ganha uma vida um bocado diferente neste espaço”, diz Rochus Aust. Sobre o processo de passar a instalação para um espaço diferente daquele que tinha sido o inicial, disse ainda que “Os arquitetos fizeram um ótimo trabalho ao criar pequenas capelas, juntamente com o curador. Quando eu vim para cá discutimos ideias e havia algumas que eles gostavam, outras que não gostavam, e no fim percebemos juntos que esta opção era a melhor.”

No exterior, a chuva continuava a cair e as portas de vidro que se abriam na última ermida deixavam ver as camisolas estendidas por Miguel Januário com o símbolo do projeto Mais Menos.

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Ao longo do percurso, o projeto de arquitetura foi sendo elogiado pela forma como trouxe subtilmente peças de site specific para dentro do museu, sem que parecesse forçado. Pouco antes da hora de fecho da noite de inauguração, Ana Neiva e Carlos Lampreia, do estúdio de arquitetura [CLAN], juntaram-se para explicar o processo. “Nós tentamos de algum modo replicar o espaço da ermida original e a ideia é isto serem oito capelas, que de repente são uma cidade, de repente são labirintos, ruas e praças.”, começa por explicar Ana Neiva. “Outra coisa muito interessante é o facto de os artistas alterarem as suas instalações iniciais em função do espaço, o que se consegue ver muito bem na do Rochus Aust, com esta ideia que quase sai da própria ermida e que acaba por responder também ao espaço que nós propusemos”, acrescenta a arquiteta.

“Para nós, arquitetos foi muito importante perceber que neste processo do Vicente eles trabalhavam com dois tipos de espaço: a ermida, um espaço interior, e a rua, o exterior. Temos aqui duas coisas que constituem cidades: casas e ruas, cheios e vazios; daí termos pensado fazer uma cidade com as oito ermidas”, remata Carlos Lampreia. “Foi um trabalho de grupo feito entre nós, o curador e os artistas”, começa por dizer Carlos; Ana termina naturalmente a frase com “Como tem de ser”.

“O ponto inicial foi pensarmos o que significava o corpo reunido, o mito e a cidade de Lisboa; esse era o nosso conceito mais lato. A partir daí, todas as contribuições dos artistas, que exploram pontos de vista muito diferentes, acabavam por ser integrados. Pensámos até na ideia da cidade e do mar, e do fim e do limite. Tudo aquilo que significa Lisboa de uma forma mais geral.”, explica a arquiteta do grupo [CLAN]. Carlos completa a ideia: “A investigação foi sendo feita no processo. Nós tínhamos os livros do Vicente com textos de artistas, historiadores… todo o tipo de reflexões. E isso acabou por ser muito útil.”

As ruas apertadas, a meia-luz simulada em 2019 que se assemelha à do tempo de Vicente — onde apenas o Sol, a Lua e o fogo iluminavam os dias e noites —prolongam no tempo o mito e põe-no em confronto com as reinterpretações que, a partir dele, foram sendo feitas, dentro e fora do Palácio Pimenta.

A noite já tinha caído, e a chuva teimava em ficar. O Fim era ditado pelo néon de Sandra Baía, e o museu dava por terminado o dia de inauguração, que serviu de estreia para a exposição que fica até ao dia 28 de abril. Até lá estão programadas conversas — Relíquias. Do Corpo no dia 7 de fevereiro, e Narrativa(s) no dia 14 de Março, às 18h00 —, uma visita guiada pelo comissário no dia 9 de fevereiro às 15h00 e o lançamento do livro Vicente. Símbolo de Lisboa. Mito Contemporâneo. No dia 16 de março às 16h00.

Fim, Sandra Baía (2019)

Texto e fotografias de Carolina Franco

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