A Moda Lisboa levantou o véu ao conceito desta edição, semanas antes do evento, que decorreu entre 7 e 10 de março e se montou com desfiles, performances, Fast Talks e umas quantas atividades paralelas. Insight prometia ser o espelho da moda para uma introspeção que a levasse aos meandros do que não se encontra à primeira vista, de uma realidade que, por vezes, só é entendida por quem estiver disposto a interpretar os desafios que (essa realidade) vai propondo.

Uma introspeção coletiva foi sendo feita através de momentos de reflexão nas Fast Talks e no Checkpoint, onde conversas, workshops e masterclasses foram tocando em pontos-chave para pensar a moda hoje, como a ecologia. A introspeção eclodiu com o desfile de Dino Alves, a fechar a edição com um apelo ao consumo justo e pensado.

Uma semana antes de as Carpintarias de São Lázaro abrirem as portas para mostrar as criações de jovens designers, o Gerador começou a tentar desmontar a Moda Lisboa para perceber o seu processo de montagem e o impacto que um evento desta dimensão pode ter em Portugal e além-fronteiras.

Foi para falar de processos que, através de um diário que não foi cumprido à risca, visitámos, numa primeira fase, o atelier de Constança Entrudo e Dino Alves —, dois designers separados por gerações mas unidos no mesmo evento —, e falámos com Eduarda Abbondanza, a diretora da Moda Lisboa, Manuela Oliveira, a responsável pela comunicação, e Cláudia Nunes, responsável pelo concurso Sangue Novo.

Continuámos o diário aquando do começo do evento, através de encontros nas Carpintarias de São Lázaro, no espaço circundante ao Pavilhão Carlos Lopes, no backstage e na sala de imprensa — com a blogger Maria Sousa, a vencedora do concurso Sangue Novo Carolina Raquel, o manequim Joaquim Arnel, o designer da Workstation António Castro, a fotógrafa Dulce Daniel, e o jornalista da Vogue Rui Matos.

 

Lisboa, 26 de fevereiro de 2019 — Visita ao atelier da Constança Entrudo

Combinámos às 11h00 no atelier da Constança, na zona do Príncipe Real. Com um fato de veludo cor-de-rosa, abriu-nos as portas da casa onde a sua nova coleção ganhou forma, acompanhada por Ana, Alexandra e Pilar, e entre ferros de engomar e máquinas de costura. Nas paredes moodboards e amostras de tecidos criados por Constança, à volta o caos arrumado de uma sala onde se trabalha o tempo que for preciso para acabar The Clock has Stopped (o nome da coleção que só descobrimos no dia 9 de março), o conjunto de propostas para os próximos Outono/Inverno.

Falar sobre o processo criativo de Constança Entrudo é, inevitavelmente, viajar para onde tudo começou. Após uma primeira tentativa falhada de estudar no Central Saint Martins (CSM), em Londres, conseguiu entrar num ano zero e seguir para uma licenciatura em Design Têxtil. Depois da licenciatura, seguiram-se as experiências na Marques’Almeida e na Peter Pilotto.

“Se eu tivesse de escolher os melhores anos que eu tive até agora, foram lá (no Saint Martins) porque é uma experiência que faz valer o nome que tem. Enquanto nos abrem a mente e não nos dão restrições para nada, são muito exigentes e existe imenso sentido de responsabilidade e profissionalismo. Lá, eu sentia que estava rodeada dos melhores, tanto professores como alunos. Acabamos até por nunca estar satisfeitos com aquilo que temos porque, por exemplo, quando achamos que arranjámos um bom estágio, a pessoa ao nosso lado foi contratada pelo John Galliano para ser o braço-direito dele e vai ter de deixar a faculdade para trabalhar”, recorda Constança. Confessa que uma das lições que retirou dos tempos no CSM foi perceber que não existe apenas um caminho.

Estudar Design Têxtil não foi uma opção óbvia, mas acabou por ser a mais natural tendo em conta as capacidades e interesses da designer. “Eu não sou uma designer de moda, eu tenho essa consciência. Eu sou uma designer têxtil”, explica. A vocação de Constança foi confirmada pelos professores da faculdade que, depois de contactarem de perto com o trabalho que foi desenvolvendo, lhe disseram: “Tu adoras antropologia, por isso faz todo o sentido que os teus têxteis estejam em pessoas. E tu queres ter um impacto e, para isso, tens de fazer roupa; não te podes limitar a fazer têxteis”.

Outra herança que trouxe do CSM foi a importância que o processo e as referências têm, não só no conceito, mas também na sua materialização. “Eu tento tornar o meu conceito escrito, mais literário, numa referência visual.”, explica enquanto vai mostrando exemplos através das imagens dispersas pela parede ao seu lado esquerdo.

Constança no atelier ©João Ribeiro

Moodboard ©João Ribeiro

Na parede, desenhos das peças da nova coleção ©João Ribeiro

The Clock has Stopped partiu de um livro sobre o traje português de onde retirou palavras-chave, que mais tarde cruzou com o trabalho de artistas que usam a mesma linguagem (desse livro). Confessa que gostava de fazer uma coleção onde não tivesse nenhuma referência visual — apenas a partir de uma obra literária —, mas que é um exercício que exige o tempo que não tem neste momento. Ainda assim, os livros são peças fundamentais no processo de criação de Constança; na coleção anterior Os Amores Difíceis de Italo Calvino foram uma referência-chave, nesta foi um manifesto do século XIX escrito por um “senhor do Norte”, no qual (o autor) se mostra indignado com a utilização dada aos trajes pelos portugueses, sem respeitar as regras. A partir deste manifesto, tentou reinventar as regras que o autor considerava fundamentais e que, para si, estão em desuso. “Outras referências que influenciaram muito esta coleção foram o Derek Jarman, que tinha um filme na exposição Haus Wittgenstein, que fui ver ao MAAT. Aí fui buscar muitas referências visuais — como a cor —, mas também alguma da falta de senso que esta coleção vai ter. A personagem que eu imagino ser aquela que veste esta coleção é a personagem do filme: o rapaz super baralhado, mas ao mesmo tempo com as ideias no lugar, que se mascara e muda de cena em cena”, conta.

A partir da exposição, começou a procurar mais sobre Derek Jarman, que além de realizador também assumia ser jardineiro, e, a partir dos jardins construídos por ele, recolheu mais referências de cores. Além das novas referências, foi buscar outras mais antigas, como Erwin Wurm, “pela maneira como ele faz sentido e não faz”. “Para mim existem várias maneiras de vermos a moda, mas acho que tem de ter uma influência artística para existir. A arte também é uma maneira de questionar a sociedade, de pensarmos de outra forma, de nos fazer falar e discutir; e a moda também deve ser isso, se não caímos num ponto em que já não sabemos o que estamos a fazer, o que estamos a vestir e quem somos”, explica criando uma ponte com as suas referências artísticas.

Estava a trabalhar para a Balmain, em Paris, quando recebeu um telefonema da Moda Lisboa com a proposta de integrar o LAB sem nunca ter feito um desfile. A resposta foi positiva. Confessa que quando aceitou “não sabia se o impacto ia ser positivo ou não”, mas decidiu arriscar.

Detalhe de desenhos e imagens de traje português ©João Ribeiro

Detalhe de confeção I ©João Ribeiro

Detalhe de confeção II ©João Ribeiro

Constança considera-se “quase mais madeirense do que lisboeta” e vai realçando a importância que as suas origens têm para o que vai criando. Assume-se cosmopolita, “mas com traços de personalidade de pessoa de um meio pequeno” e vai buscar à ilha a proximidade que vai criando com tudo aquilo em que se envolve — seja com as pessoas ou com os têxteis. Com as roupas que cria gostava de contribuir para que as pessoas não se levassem tão a sério e se soubessem rir de si próprias.

Enquanto a máquina de costura ia encenando uma banda sonora, sem que nos esquecêssemos por um minuto de que estávamos num atelier, Constança contou uma última história que influenciou o trabalho que foi fazendo a posteriori desse acontecimento: “Uma vez conheci uma senhora no avião, com quem mantenho contacto até hoje, e que afetou imenso as minhas criações. Contou-me que veio do nada e que hoje trabalha na banca de investimento e tem um trabalho excelente entre Angola, Lisboa e Londres e disse-me que, quando começou, tinha de se vestir de certa maneira. Agora, como tem um cargo de liderança, sente necessidade de ter peças com outro corte — foi aí que eu percebi que o design de moda é tão importante.”

O processo resumido por Constança é cíclico e aplica-se de estação para estação, sempre com alguma componente de inovação à mistura: pesquisa, testes, confeção, desfile e vendas. No atelier junto ao Príncipe Real, o processo é feito sob o olhar de Constança, mas a várias mãos e com todas as sugestões em cima da mesa enquanto possibilidades.

Deixámos Constança, Ana, Alexandra e Pilar num “até já” com a certeza de que as voltaríamos a rever no dia 9 de março às 14h30 no Mustik Warehouse.

 

Lisboa, 28 de fevereiro de 2019 — Visita aos escritórios da Moda Lisboa

Ainda antes de marcarmos a visita ao atelier da Constança Entrudo tinha ficado agendada para o dia 28 de fevereiro uma passagem pelos escritórios da Moda Lisboa. O objetivo era perceber com a Cláudia Nunes de que forma é que os jovens designers como a Constança entram para o Sangue Novo, para a Workstation ou até para o LAB; com a Manuela Oliveira o processo de preparação da comunicação da semana da moda e a importância que a imprensa tem num evento destes; e com a Eduarda Abbondanza fazer uma retrospetiva da Moda Lisboa ao longo dos anos, com todos os avanços e recuos na sociedade que a moda inevitavelmente foi acompanhando.

Nos sofás do escritório da Rua do Arsenal — junto à Câmara Municipal de Lisboa —, conhecemos primeiro a Cláudia, o rosto da gestão dos designers emergentes. “O Sangue Novo surgiu em 1992, teve uma interrupção de 10 anos e voltou em outubro de 2013 e eu estou à frente do concurso a partir dessa segunda fase.”, começa por contextualizar. Explica ainda que “o Sangue Novo foi quase o primeiro concurso de moda nacional e teve um impacto tão grande que, de repente, surgiram muitos mais concursos em Portugal” e que, “a dada altura, a Moda Lisboa achou que não fazia sentido dar continuidade a este projeto, focando-se noutros projetos, como a plataforma LAB”.

Cláudia frisa as diferenças entre o Sangue Novo e o LAB: “O Sangue Novo é um concurso dirigido a jovens finalistas de cursos de design de moda nacionais e internacionais ou jovens designers em início de carreira; ainda não têm de ter marca ou uma estrutura montada, nem a obrigatoriedade de dar resposta a encomendas. No LAB já têm de ter uma marca formada, uma estrutura minimamente consistente com pontos de venda, e apresentar coleções de 6 em 6 meses.”

Com um novo regulamento há apenas um ano, o Sangue Novo é anual, mas tem duas fases de seleção. Entre maio e junho decorre a fase de candidaturas, o júri seleciona entre 8 a 10 projetos que serão apresentados em outubro, e nessa edição são escolhidos 6 finalistas para apresentarem uma coleção em março do ano seguinte. Os finalistas recebem uma bolsa de 1000 € para ajudar a desenvolver a nova coleção e, em março, são escolhidos um vencedor nacional e outro internacional. “A criatividade, a criação de imagens muito próprias e que os distingam do resto, a confeção e os acabamentos” são, segundo Cláudia, os pontos-chave para ser selecionado para o concurso.

Desfile de Carolina Raquel na primeira fase do concurso Sangue Novo ©Moda Lisboa

Na edição de março de 2019, o júri, escolhido pela organização da Moda Lisboa e pelo presidente (do júri), Miguel Flor, é composto por Cláudia Barros (diretora de moda da Vogue Portugal), Alfredo Orobio (designer e fundador da Awaytomars), Danilo Venturi (diretor da Polimoda) e Diane Pernet (fundadora e diretora do ASVOFF, o primeiro festival de moda). No dia 7 de março, atribuem ao melhor designer nacional um mestrado na Polimoda, em Itália, e uma bolsa de 5000 €, uma decisão que Cláudia considera “importante para permitir que o vencedor possa usufruir do curso e não deixe de aproveitar a oportunidade devido a falta de financiamento”.

A responsável pelo Sangue Novo destaca ainda a Workstation, a plataforma que começou por ser um concurso de fotografias e, no ano passado, se tornou multidisciplinar. “Neste momento, inclui happenings de moda, fotografia e ilustração. Em relação aos happenings de moda, funciona como uma espécie de plataforma intermédia entre o Sangue Novo e o LAB; os designers estão numa fase de descoberta do caminho que querem seguir, a definir estética e estratégia”, explica.

Cláudia voltou para o escritório para se dedicar ao novo site da Moda Lisboa e o lugar no sofá foi ocupado por Manuela, para percebermos o processo de comunicação da Moda Lisboa. “Nós começamos, antes de mais, a trabalhar o conceito. Partimos de uma palavra que traduza a atualidade e, a partir daí, começamos a aprofundar o conceito geral de cada edição. Depois passamos para a imagem (apesar de algumas vezes serem tratados em simultâneo), com a produção fotográfica da campanha — que temos de fazer três meses antes da Moda Lisboa acontecer por causa do fecho das edições das revistas de moda especializadas — e para o spot publicitário”, conta.

Spot Publicitário da Moda Lisboa Insight ©Moda Lisboa

As equipas responsáveis pela campanha de cada edição são, grande parte das vezes, diferentes. Manuela explica que “a Moda Lisboa já tem 27 anos, e é importante ter novas perspetivas, uma linguagem diferente” e que isso se consegue “através da rotatividade das equipas”. Quanto aos media partners, que nem sempre se repetem, diz que a escolha é feita “de acordo com a linha editorial da Moda Lisboa, privilegiando os meios especializados em moda ou que a tratem de uma forma que faça sentido e chegue a novos públicos”.

Já a equipa de Manuela — que em parte se encontrava do outro lado da parede a preparar os últimos ajustes antes do dia D — é constituída por mais 2 pessoas a tempo inteiro. A Cláudia (Nunes), responsável pelo site e pelo Facebook, e outra pessoa no Instagram, nesta altura de contagem decrescente. Um mês e meio antes de cada edição entra um reforço para coordenar a imprensa internacional, “que vai ter 6 pessoas a trabalhar com ela durante a edição, e às quais também se vão juntar mais 6 ou 7 para ajudar no trabalho com a imprensa nacional”. A essa equipa que cresce durante 4 dias juntam-se fotógrafos que produzem conteúdo que, mais tarde, é enviado para a imprensa.

Quanto à resposta aos pedidos de credencial, que Manuela confessa ser “uma avalanche”, o processo é bastante pragmático: “Nós temos uma lotação na sala, que normalmente não ultrapassa os 1000 convidados e temos de responder a várias secções dentro da Moda Lisboa — convidados dos criadores, imprensa internacional e nacional, patrocinadores, protocolo, influencers —, então dividimos os lugares existentes por esse número de secções”, explica a responsável de comunicação. Conta que o número máximo para acreditações de imprensa é 350 e, a partir desse número, é feita uma seleção final.

Manuela encaminhou-nos para Eduarda, na sala imediatamente ao lado. Recebeu-nos com um sorriso de boas-vindas e, tal como Constança Entrudo tinha feito no dia 26 de fevereiro em relação ao processo de criação de uma coleção, simplificou o processo de organização desta semana da moda, em particular: “A Moda Lisboa começou por ser feita por designers, e a nossa metodologia de trabalho nasce do design. Apesar de termos alguns desvios pelo caminho, porque são muitos anos, continuamos a manter a mesma estrutura faseada. Primeiro, fazemos um fecho da edição anterior e uma análise crítica, e depois começamos a fazer o diagnóstico do que temos e o que queremos atingir ou mudar na edição seguinte”, conta Eduarda.

A cidade afirma-se no nome do evento e, ao longo da conversa, Eduarda frisou várias vezes a relação de proximidade desta semana da Moda com Lisboa. “A localização é muito importante para nós porque define muito o modelo do que é possível fazer. Nós temos uma relação de grande proximidade com a cidade e, como a nossa sede é cá, estamos sempre atentos a possíveis lugares para utilizarmos na edição seguinte”, conta. As visitas aos espaços são feitas com a produção porque, nas palavras da diretora, “há sempre questões técnicas que ultrapassam o feeling que se tem em relação ao espaço”. A atribuição dos espaços não tem regras estabelecidas e é feita pela organização de acordo com uma sensação de ligação estética de um determinado designer ao lugar. Quanto ao calendário, Eduarda conta que é feito de maneira a rentabilizar o casting (dos manequins): “A distribuição dos designers pela programação acaba por ser feita para rentabilizar o casting, porque é uma grande fatia do orçamento. Mas também temos de responder às necessidades dos criadores, conforme a disponibilidade deles para cada dia”. Em números, são escolhidos 100 manequins para cada edição, que se distribuem pelos diferentes criadores, e são formando grupos que vão ao encontro das preferências de cada designer.

“A moda só é entendida se for contextualizada pelo país e pela cidade”, afirma Eduarda. “E nós temos de trabalhar para a cidade que temos”, continua, “que está notoriamente diferente, e o evento tem de acompanhar essas mudanças com os desafios que elas trazem.” Além do pensamento comercial da moda, destaca os eventos que têm feito de portas abertas para todos, com o intuito não só de chegar a novos públicos, mas também às pessoas que já estavam interessadas mas, por algum motivo, não tinham acesso ao evento.

Como que numa reflexão em voz alta, Eduarda diz-nos: “A moda é uma disciplina efervescente, e é isso que me faz querer continuar à frente da Moda Lisboa depois de todos estes anos. Para mim, é a única (disciplina) que traduz o que se está a passar no mundo. E como eu tenho umas antenas sempre ligadas ao mundo, a moda é naturalmente a atividade criativa que me ajuda a transmitir, a percepcionar e comunicar o que vou captando.”

Antes de irmos embora, Manuela deu-nos os nomes das pessoas que, para além de si, compõem o escritório da Moda Lisboa, edição após edição: Fátima, a secretária da presidência; António, assistente de comunicação; Cláudia, responsável pelo Sangue Novo e pelo online; Joana, diretora executiva; Inês, na produção, e, claro, Eduarda, a presidente da Moda Lisboa. Não os vimos a todos, mas sabíamos que, a qualquer momento do evento, nos cruzaríamos, direta ou indiretamente, com o trabalho que desenvolveram ao longo dos últimos 6 meses.

 

Lisboa, 4 de março de 2019 — Visita ao atelier temporário do Dino Alves

Para o fim da tarde do dia 4, conseguimos marcar uma conversa com o Dino Alves no atelier temporário em que tem trabalhado desde que teve de sair daquela que foi a sua casa durante anos. A gentrificação e a especulação mobiliária ameaçaram, e Dino teve de sair, preparando posteriormente um desfile em que os manequins (aparentemente) se mudavam de malas e bagagens para outro lugar.

Na sala pequenina onde tem criado nos últimos tempos estava acompanhado por Margarida Sales, a sua assistente há alguns anos, e Francisca Oliveira, que também já trabalha com Dino “há uma série de anos”. Nesta sala, fazem as peças com técnicas que nunca fizeram antes, e que ainda se encontram numa fase de experimentação até ao objeto final.

O processo criativo de Dino segue a ordem natural das coisas e “começa sempre pela ideia”. “De alguma maneira, ou por sequência ou por oposição àquilo que disse antes, surge uma ideia quase sempre no dia imediatamente a seguir ao desfile que acabei de fazer”, conta. Dá como exemplo o desfile de Verão de 2018, Silêncio: “Surgiu depois do desfile de Inverno 17/18 em que fiz aquele manifesto que foi muito falado e teve até algum impacto, no qual fiz um texto no qual disse o que me apetecia dizer em relação ao sistema da moda — desde as pessoas gostarem muito de ir aos desfiles, mas é para postarem no Instagram e poderem dizer que estiveram lá, ao facto de depois muito poucas irem visitar os ateliers. E achei que depois de ter feito um manifesto destes devia ficar em silêncio, que também pode ser uma ótima arma.”

Dino na sala provisória onde fez a nova coleção ©Diana Mendes

Detalhes de peças de Dino Alves, de coleções anteriores ©Diana Mendes

Dino quer “dizer coisas que tenham a ver com o mundo” e começa por se questionar o que é que quer fazer desta vez. O resto confessa que é “um bocadinho caótico”, mas que tem vindo a perceber que é um mal comum entre os artistas. Não tem uma fórmula que repita e o desenho das peças, a escolha dos tecidos e outros momentos do processo podem surgir e acontecer ao mesmo tempo. Confessa que na azáfama da preparação dos desfiles pensa que não pode continuar neste método, mas que acaba por ser inevitável as coisas acontecerem como acontecem e percebe que “o aspeto final das peças mostra uma certa espontaneidade porque é feito assim. Só o instinto é que dá um cunho real às coisas.”

Neste desfile, fez poucos desenhos em papel e sente que cada vez tem menos necessidade de o fazer. “Às vezes, faço uns rascunhos para não me esquecer da ideia, mas desta vez só fiz para enviar a uma costureira que mora muito longe e precisava de ver como eu queria a peça”, explica. “Eu não tenho uma fase em que desenho a coleção toda. Provavelmente alguns dos meus colegas — os mais organizados — fazem assim: desenham, vão escolher os tecidos para o tipo de peças. O processo pode acontecer de várias formas, e a escolha dos tecidos pode vir depois do desenho, porque sabemos aquilo que procuramos; ou então podemos ir primeiro a uma feira escolher os tecidos todos que gostamos e depois desenhar a coleção a partir daí. Eu não faço de uma maneira nem de outra”, explica Dino.

Quanto à materialização do conceito, Dino diz que “há algumas ideias que são mais fáceis do que outras”. “Essa ideia inicial funciona como uma inspiração. Eu tento sempre que o conceito esteja presente nas peças, mas às vezes pode estar mais diluído. A inspiração e o tema são coisas para nos agarrarmos, mas que até podem sofrer alterações no próprio processo.”

O designer que ganhou o título de enfant terrible da moda confessou que nesta coleção — que adiantou chamar-se Reação — vai “reagir a uma série de coisas que não estão bem, como a desigualdade social, o preconceito social e racial, a ditadura da beleza, a falta de uma noção de ecologia”. Conta que “há muitos anos nunca reagia a nada e era capaz de não fazer nada quando via uma situação injusta na rua”, para não se chatear. Hoje isso não acontece.

Sem querer incentivar reações desmedidas e violentas, vai mostrar neste desfile que podemos reagir com a nossa postura, com a nossa maneira de estar; com a nossa imagem. Dá o exemplo dos punks, que reagiam ao sistema através de um estilo de vestir e de viver. “É isso que eu quero fazer nesta coleção”, conta. Admite que com o passar dos anos se começou a preocupar mais com a possibilidade de vender as peças e que vai tendo em consideração os seus clientes, mas sempre com um esforço para não se deixar manipular por essa preocupação. “Eu não quero perder a minha essência, que me acompanha desde o início. Quero continuar a dar-me liberdade a mim próprio para criar.”

Pormenor de uma das peças de Reação, a nova coleção ©Diana Mendes

Dino no local de criação de Reação ©Diana Mendes

Recorda a Moda Lisboa nos primeiros tempos: “Naquela altura, nem havia Instagram, nem redes sociais, e eu, pelo menos, sentia que era tudo mais verdadeiro; que as pessoas que iam ver o desfile estavam ali realmente porque o queriam ver. Hoje em dia, eu tenho algumas dúvidas. Acho que há pessoas que estão ali porque isso lhes dá um status qualquer.” Dino conta que com o tempo aprendeu a fazer roupa porque “no início não sabia fazer roupa, o que sabia fazer era comunicar através de imagens que inventava”. Sente que, hoje em dia, consegue realizar com muito mais facilidade as ideias que tem e que juntou capacidades de confeção ao que já sabia sobre comunicar e contar histórias. “Eu sinto que estou sempre a aprender e quando vou a uma loja com roupa de designer, procuro as soluções de confeção que os meus colegas aplicaram nas peças”, confessa. “Outra coisa que eu fazia era comprar peças de roupa antigas e fazer essa investigação, para perceber que técnicas podia utilizar também nas minhas criações.”

Além das coleções que apresenta na Moda Lisboa, Dino faz figurinos para teatro. Explica que isso acontece porque “a venda da roupa dos desfiles não é suficiente”, até porque não é possível confecionar um número maior de peças nas fábricas, porque “não compensa fazer peças que não sejam em série”. Ainda assim, sente que ao longo dos últimos anos as fábricas portuguesas têm valorizado mais o facto de estarem associadas a designers portugueses.

Dino admite que por vezes se questiona relativamente ao porquê de continuar a trabalhar enquanto designer de moda, mas que no fim percebe que “como artista esta é a melhor forma” de se expressar e que “desistir disto seria como desistir da vida”. “Às vezes parar pode ser importante para as pessoas perceberem que não podemos andar aqui sempre a fazer bonito, só porque as pessoas gostam de ir ver… porque depois o resto é que dói e se calhar precisamos de nos afirmar em relação a isso. Se calhar, um dia, eu devia ter essa atitude, mas até agora fui continuando pela minha necessidade de me expressar. Tal como um artista faz uma pintura que não sabe se vai vender, eu faço a minha coleção sem ter essa garantia.”

Deixámos a sala temporária de Dino com uma compreensão diferente relativamente ao designer, à sua evolução e até ao sistema da moda. Apesar de eterno enfant terrible, Dino carrega consigo as duas décadas de experiência neste mundo (da moda) e todas as lições que foi guardando.

 

Lisboa, 7 de março de 2019 — Moda Lisboa dia 1

Depois da visita aos ateliers de Constança Entrudo e Dino Alves, e das conversas com Cláudia, Manuela e Eduarda nos escritórios da Moda Lisboa, levávamos uma bagagem maior para o evento.

No dia 7, conforme marcava o programa, as Carpintarias de São Lázaro abriram-se para receber os designers da Workstation, que mostraram as suas criações através de performances feitas pelo espaço disponível no primeiro piso do edifício. António Castro, Filipe Augusto, David Pereira e Cristina Real mostravam a unicidade de cada peça criada para ser mostrada ali, num momento que se queria de profunda intimidade com os visitantes.

Filipe Augusto / Workstation ©Matilde Cunha 

Filipe Augusto / Workstation II ©Matilde Cunha 

Cristina Real / Workstation ©Matilde Cunha 

Eram mais ou menos 18h30 quando no piso de baixo começavam as Fast Talks, com Catherine da Silveira, Flávia Aranha, Julien da Costa e Miguel Bento, moderadas por Joana Barrios. Ao mesmo tempo, cá fora, conhecemos a Maria Sousa, criadora e autora do blog Contemporary Lives Here. A Maria trabalha em comunicação e produção de moda e já trabalhou com algumas pessoas que gosta de reencontrar sempre que vai à Moda Lisboa. Conta que decidiu vir a esta edição “para apoiar alguns amigos que estão a apresentar coleções” e para ver outras (coleções) de pessoas que não conhece tão bem.

Confessa que não perde muito tempo a pensar no que vai vestir para ir a este tipo de eventos e que o próprio blog, que já mantém há alguns anos, é pensado mais a partir de conceitos que materializa em conteúdo fotográfico do que propriamente num registo de “look diário”. Maria vê o blog como uma extensão dos momentos e processos criativos em que vai tropeçando, e como um projeto à parte do que tem vindo a desenvolver profissionalmente e que a levou à London Fashion Week. Depois de estudar Design de Moda na ESART viveu em Londres durante meio ano, onde estagiou numa revista de moda, e regressou para Portugal onde começou a trabalhar na área em que está agora.

David Pereira / Workstation ©Matilde Cunha 

David Pereira / Workstation II ©Matilde Cunha 

“Desenvolvemos a produção do show da Alexandra Moura, em Londres, e fazíamos showrooms para tratar da parte das vendas. Esse é um ponto comum entre todas as semanas da moda e um dos mais importantes: as vendas”, explica Maria. Considera as semanas da moda fundamentais para os criadores terem plataformas em que possam mostrar o seu trabalho, que não seja apenas online ou em showrooms.

Democratizar a moda é um ponto que não deixa escapar na conversa e que realça como sendo de grande importância — “Eu já fui mais nova, estudava design de moda e tenho a certeza que viria nessa altura. As Talks também são abertas ao público e muito importantes, para a indústria se questionar a si mesma e gerar debate com os visitantes”.

Maria não se considera uma influencer na medida em que não se identifica com o termo, mas sente que tem (ou pode ter) um papel importante para lançar alertas relacionados com diferentes temáticas como a ecologia, o minimalismo na moda ou até a importância do apoio à moda portuguesa.

A noite começava a cair e combinámos com a Maria fazer-lhe um retrato no dia seguinte, para que fosse possível mostrar o rosto do testemunho que tinha acabado de nos dar.

António Castro / Workstation ©Matilde Cunha

António Castro / Workstation II ©Matilde Cunha

António Castro / Workstation III ©Matilde Cunha

 

Lisboa, 8 de março de 2019 — Moda Lisboa dia 2

 No dia 8 de março a Moda Lisboa começava oficialmente naquela que tem sido a sua casa oficial nos últimos tempos, o Pavilhão Carlos Lopes. Ao levantar a credencial cruzámo-nos com a Maria e tiramos-lhe o prometido retrato, antes de entrarmos para assistir à final do concurso Sangue Novo.

Maria Sousa / Contemporary Lives Here ©Matilde Cunha

Archie Dickens, Carolina Raquel, Frederico Protto, Opiar (Artur Dias), Rita Carvalho e The Co.Re (Inês Coelho e Rachel Regent) apresentaram as coleções finais que criaram ao longo dos últimos 6 meses e, logo de seguida, foram anunciados os vencedores. O primeiro a ser chamado de volta foi Archie Dickens, vencedor do prémio The Feeting Room, seguindo-se-lhe Frederico Protto enquanto melhor designer internacional e Carolina Raquel como melhor designer nacional.

Encontrámos a Carolina ainda no embalo da vitória, na sala de imprensa. Contou que voltou de Londres depois de ter sido selecionada na primeira fase do Sangue Novo, para preparar a coleção que a tornou vencedora desta edição. “Uma das primeiras coisas que delineei foi que, como na primeira parte da coleção eu tinha acessórios e pormenores em técnicas têxtil, queria desenvolver melhor isso agora. Contudo, o meu curso é de design de moda e sei que não tenho capacidades para desenvolver isso tão a fundo, então decidi colaborar com uma designer têxtil que acabou por fazer um trabalho de consultoria.”, explicou.

Backstage Sangue Novo / Opiar I ©Matilde Cunha 

Backstage Sangue Novo / Opiar II ©Matilde Cunha 

Backstage Sangue Novo / Rita Carvalho I ©Matilde Cunha 

Backstage Sangue Novo / Rita Carvalho II ©Matilde Cunha 

Backstage Sangue Novo / Opiar III ©Matilde Cunha 

“O conceito desta coleção também já estava mais ou menos criado na anterior, mas acabei por pô-lo de parte porque achei que já não fazia sentido explorá-lo para já. Acabei por desconstruir o processo de desenvolver uma escultura — o primeiro coordenado funciona como uma espécie de bloco, que vai sendo fragmentado até ao fim e se reduz a um vestido leve, em organza”, conta Carolina. “O primeiro passo foi pensar no conceito e depois a escolha dos materiais, que acabou por ir ao encontro desse conceito que defini inicialmente. Por exemplo, os acessórios que estão nas peças são em resina, que é um material muito utilizado pelos escultores para fazer os moldes das suas peças.”

Apesar de já ter a experiência de viver em Londres durante quatro anos e meio, sente que esta é a altura certa para continuar o seu caminho em Itália (com o mestrado da Polimoda que ganhou no concurso), onde vai poder “explorar outros terrenos e conhecer outras pessoas”. “Ganhar o Sangue Novo é uma maneira de me expor, não só aqui mas também internacionalmente, porque a Moda Lisboa cada vez está mais virada para fora também. E estudar na Polimoda é uma oportunidade para aprender mais, porque ainda tenho um longo caminho pela frente”, conclui.

Carolina Raquel / Sangue Novo ©Matilde Cunha

Carolina, a vencedora do Sangue Novo ©Matilde Cunha

Momentos depois começava o desfile de Duarte, que seguiu de Carolina Machado, ambas designers da plataforma LAB. Valentim Quaresma e Ricardo Preto fecharam o dia com The Future is Now e Here, respetivamente.

 

Lisboa, 9 de março — Moda Lisboa dia 3

 O terceiro dia começava mais cedo, com o desfile de Constança Entrudo marcado para as 14h30 no Mustik Warehouse. A luz natural de um dia de Inverno disfarçado de Primavera rasgava as janelas do armazém onde pouco se esperou para ver as criações de Constança.

A percorrer o espaço subordinado ao desfile estavam as criações de que nos tinha falado no dia 26, no atelier. Da Madeira a Derek Jarman com coordenados escolhidos por David Mota, o desfile de Constança trouxe a frescura e o atrevimento de quem quer que as pessoas se levem menos a sério. Acabou com “Ain’t Got Life” de Nina Simone, um mar de aplausos de amigos, desconhecidos, colegas e da imprensa, e com o sorriso genuíno de Constança.

The Clock has Stopped , Constança Entrudo / LAB I ©Matilde Cunha

The Clock has Stopped , Constança Entrudo / LAB II ©Matilde Cunha

Constança no final do desfile ©Matilde Cunha

Constança de volta ao backstage no final do desfile ©Matilde Cunha

Do Mustik Warehouse fomos para o Pavilhão Carlos Lopes e ainda chegámos a tempo do desfile de João Magalhães. Com uma rampa de skate a fazer adivinhar uma parceria com a Vans e depois de um preâmbulo dado por um rapaz e uma rapariga a skatar, as propostas para o próximo Outono/Inverno foram surgindo na sala, com um casting alternativo que ia de Joana de Verona (atriz) a Rita Rolex (membro da organização da Moda Lisboa). No fim do desfile cruzámo-nos com António Castro, que há dois dias apresentava a sua coleção na Workstation.

Junto à tenda da Prinçipal, no exterior do Pavilhão Carlos Lopes, recordou com o Gerador o desfile de quinta-feira e explicou como é que foi o processo criativo da coleção. “Esta coleção foi criada através de uma bolsa de estudo que eu ganhei da Fundação Oriente, para fazer uma visita de estudo no Japão em julho e agosto. No início foquei-me mais no têxtil e na moda japoneses e tive a oportunidade de estar com artesãos, de aceder ao arquivo do Kyoto Costume Institute onde descobri coisas de Commes des Garçons e Issey Miyake e também percebi o processo deles e o quão avant garde foram e continuam a ser”, começou por contar António.

António Castro, designer da Workstation ©Matilde Cunha

Dois dias de workshop com Yoshito Ono, onde percebeu o que era o Butoh (género de performance japonês que eclodiu nos anos 60); e uma visita ao Monte Fuji (à região de Yamanashi), onde contactou com artesãos e produtores têxteis, deram-lhe pontos de sensibilidade que o ajudaram a pensar a coleção quando voltou para Portugal. Do Japão também trouxe uma peça muito antiga de Boro com o ponto de bordado japonês Sashiko e obis (elemento tradicional de traje japonês) — estes últimos que apenas mais tarde descobriu serem “ainda mais bonitos na parte interior e que não estava visível”—, que readaptou e utilizou na sua coleção.

“Neste momento eu vejo as minhas coleções como experimentas ou ensaios porque são a compreensão de como estou a crescer a nível pessoal e profissional, com as pessoas que tenho à minha volta e com quem trabalho”, confessa António. Sobre a performance de quinta-feira, na Workstation, diz que houve uma relação direta com a experiência que teve no Japão ao descobrir o Butoh e que tentou que também o cabelo e a maquilhagem dos manequins remetessem para essa experiência. Desvendou a identidade dos manequins que não faziam parte do casting da Moda Lisboa: entre profissionais estavam alguns amigos e uma antiga professora sua da António Arroio, Altina Martins.

Tenda da Prinçipal ©Matilde Cunha

Pormenor do interior da tenda da Prinçipal ©Matilde Cunha

Fomos ver as peças de António expostas na tenda da Prinçipal e seguimos para o backstage à procura de um manequim que pudesse, também ele, partilhar connosco o processo de semana da moda através da sua experiência. Encontrámos o Joaquim Arnel a descansar entre desfiles e pedimos-lhe 5 minutos para falar com ele. No meio da azáfama contou-nos com um ar tranquilo que tem apenas 18 anos, mas já faz semanas da moda há 3. “Comecei aqui na Moda Lisboa, mas já fiz semanas na Moda em Londres, Paris, Milão e Nova Iorque. Já desfilei para algumas grandes marcas… a carreira vai andado”, explica com naturalidade. As diferenças que encontra entre as semanas da moda internacionais e a Moda Lisboa são “lá fora cada marca fazer o seu evento, enquanto a Moda Lisboa engloba todos os designers num só evento”, mas quer deixar claro que “o sentimento e a emoção são os mesmos em qualquer lugar”.

O caso de Joaquim não é o exemplo mais comum de um manequim da Moda Lisboa. Cá em Portugal não fez castings, foi convidado diretamente para integrar o grupo de manequins e dentro do backstage, nos momentos mais parados, acaba por se juntar a quem tem mais afinidade. “Não temos grupos, mas juntámo-nos às pessoas da mesma agência, porque são pessoas com quem estamos mais à vontade e com quem costumamos trabalhar. Pessoalmente gosto sempre de vir à Moda Lisboa, porque é uma forma de encontrar outros modelos portugueses que até já não vejo há algum tempo porque tenho estado a trabalhar mais fora do país.”

Joaquim Arnel, manequim da Moda Lisboa ©Matilde Cunha

Joaquim sente que em Portugal há uma relação de maior proximidade entre os manequins e os designers, “enquanto lá fora é mais distante, se calhar mais profissional e essa relação se cria mais com o stylist do que com o designer”.

O que no início era um passatempo passou a uma profissão a tempo inteiro, preenchida por momentos altos em apenas 3 anos. Não sabe bem o que o futuro lhe reserva, mas gostava de ir trabalhar para a Ásia.

Enquanto a azáfama continuava no backstage com pequenos momentos de pausa, o resto do terceiro dia de Moda Lisboa foi sendo preenchido pelos desfiles de Imauve (LAB), David Ferreira (LAB), Carlos Gil, Awaytomars, Kolovrat e Luís Carvalho. A noite acabou com a apresentação de Ernest W. Baker na abertura da concept store TEM-PLATE.

 

Lisboa, 10 de março — Moda Lisboa dia 4

 Perto das 14h30 as portas da sala de desfiles do Pavilhão Carlos Lopes abriram-se aos convidados e à imprensa para Nuno Gama. Um desfile itinerante, onde os manequins ocupavam todos os espaços da sala, deixando caminhos abertos para que fosse possível circular à sua volta e ver as propostas do designer.

No backstage Dulce Daniel, fotógrafa oficial da Moda Lisboa, esperava o regresso dos manequins e de Nuno Gama para os fotografar. Combinámos encontrar-nos depois do desfile de Andrew Coimbra para que nos explicasse o seu processo de trabalho e que tipo de momentos procurava captar, dentro e fora do backstage.

As criações de Andrew Coimbra trouxeram para o palco uma paleta cromática que viajava entre o azul, o laranja, o rosa e o preto, “num tom de streetwear mais refinado”, como o próprio define no texto sobre a coleção. Coordenados consistentes e seguros, que tanto podiam servir a um jovem dos anos 70 (uma referência temporal que assume) como a um millenial que se quer vestir com sobriedade mas com um toque de irreverência e atitude — seja através de detalhes de cores quentes em coordenados aparentemente pretos na sua totalidade, ou de padrões em contraste com peças de cor sólida.

Andrew Coimbra / LAB ©Matilde Cunha

Reencontrámos a Dulce no exterior, quando tentava captar os melhores looks de Street Style. “Neste momento estou a tirar fotografias para a Máxima, mas o meu trabalho principal é fotografar backstage para a Moda Lisboa”, contextualiza. “Dão-me acesso ao alinhamento e sei que tenho de fotografar todos os desfiles, mas dizem-me sempre quais são as fotografias mais prioritárias para conseguirem fazer a gestão de redes sociais.”

Dulce explica que trabalhar em backstage não é previsível e que às vezes é preciso adaptar-se “ao que há”. Foi através deste tipo de fotografias que começou a trabalhar nas semanas da Moda, contactando diretamente designers e fazendo fotografias de backstage exclusivamente para eles — entre eles Luís Carvalho, Marques’Almeida, Carolina Machado. A organização da Moda Lisboa gostou do trabalho de Dulce e a partir daí surgiu o convite para trabalhar com o evento.

 

Durante 6 meses, entre as semanas da Moda, vai fotografando editoriais, campanhas para marcas, lookbooks, fotografia de produto e tudo o que for necessário dentro deste universo. Na Moda Lisboa e no Portugal Fashion, onde também trabalha no mesmo registo, aproveita para fazer um tipo de trabalho que apenas nesses contextos consegue fazer: “Ao fotografar backstage consegues ver detalhes que até num desfile não consegues. Desde a maquilhagem até fazerem o alinhamento da entrada em cena, consegue-se dar uma visão ao público da preparação daquilo que eles viram apenas em alguns minutos.”

No caminho de regresso para o backstage explicou como tudo começou e que começou a fotografar moda porque lhe agradava “a ideia de criar algo de raiz e de contar uma história através de fotografias”.

O alinhamento para o desfile de Gonçalo Peixoto começava a ser feito e no espaço de meia hora começou o desfile.

Gonçalo Peixoto / LAB I ©Matilde Cunha

Gonçalo Peixoto / LAB II ©Matilde Cunha

Gonçalo Peixoto / LAB III ©Matilde Cunha

A Gonçalo seguiram-se Olga Noronha, Nycole, Ricardo Andrez e Aleksandar Protic. Numa pausa entre desfiles encontrámos Rui Matos, jornalista na vertente online da Vogue. Com pouco mais de 20 anos já colabora com a Vogue há algum tempo — começou como estagiário, passou a colaborador e em Janeiro de 2018 foi contratado para a equipa de redação digital.

“Comecei a vir às semanas da moda há um ano, quando fui contratado. O nosso trabalho passa por pôr os desfiles no site, cobrir backstage e falar com os designers. Nesta edição estamos a fazer um preview das coleções e um exclusivo de backstage com os designers, e vamos fazendo reportagens ou notícias que se justifiquem”, explica Rui.

No caso de Rui, a preparação pré-semana da moda é feita pela editora online, Lígia Gonçalves, e depois “vai-se adaptando de acordo com o que vai acontecendo”. A pertinência de vir a semanas da moda reside, na sua opinião, “na oportunidade de dar a conhecer novos criadores portugueses e difundir esta parte da cultura”. Nesta edição destaca Gonçalo Peixoto, Luís Carvalho, “que trazem uma visão muito própria para a moda”, e Ricardo Andrez, “que traz sempre novas propostas”.

Rui Matos, jornalista na Vogue ©Matilde Cunha

Na altura da Moda Lisboa a redação do online para nos escritórios da Vogue e muda-se para a sala de imprensa do evento. Vão atualizando as redes sociais, o site e o local de trabalho passa a ser no Pavilhão Carlos Lopes durante 3 dias.

A Moda Lisboa Insight fechou com Dino Alves e um apelo ao consumo justo. Reação foi o reflexo da conversa que tivemos com Dino no atelier; no fundo da postura que quer manter enquanto designer de moda: de constante manifestação criativa, manifestando-se relativamente a questões que mexem consigo. As frases de reação aplicadas nas peças acabaram por surgir novamente numa pequena (mas sincera) manifestação conduzida por uma criança a representar uma geração que vive na incerteza do futuro que se está a criar.

Reação, Dino Alves FW 19/20 ©Moda Lisboa

Depois de 7 dias de reportagem, não foi possível descobrir todos os meandros de uma semana da moda. Um evento desta escala é composto por grandes equipas com colaboradores a perder de vista e com papéis de igual importância entre si. Ficou a conclusão de que não há fórmula para processos, mas quando se trabalha por uma causa, as coisas acabam por encontrar o seu rumo.

Os desfiles da Moda Lisboa Insight podem ser vistos aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Matilde Cunha
A Moda Lisboa e o Gerador são parceiros

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