Em palco, de costas para o espectador, encontra-se a “atriz”, interpretada por Lígia Soares, que grava para um telemóvel o preâmbulo de Civilização, a nova criação da sua autoria, em cena a partir desta quinta-feira, dia 11 de abril, no CAL – Primeiros Sintomas, em Lisboa.

A mensagem, que grava de forma segredada, irá, logo a seguir, ecoar por toda a sala: “Oh, espectador //Queria mobilizar, queria mobilizar-te […]”. A este preâmbulo segue-se um monólogo que dá verdadeiramente mote a esta Civilização.

“É preciso manter o ser humano ocupado”, afirma a atriz, que imediatamente sustenta: “Esqueçamos isto tudo; vamos só viver esta experiência íntima.” Num monólogo que se estende ao longo da primeira parte da peça, é a atriz (também encenadora) que nos interpela, enquanto espectadores, no exercício da nossa função, mas que nos interroga também sobre a verdadeira condição humana.

Desta forma, Civilização aborda o espaço teatral e a representação como elementos criados para nos substituirmos a nós próprios e à nossa ação, refletindo sobre a passividade do espectador.

Em entrevista concedida ao Gerador durante um dos ensaios da peça, Lígia Soares explica que este texto surge no “impulso de escrever algo sobre a personagem que começa a questionar o valor que tem o estar ali em frente de uma plateia. Um lugar questionável e que tem a mesma angústia que vermos as coisas enquanto espectadores”.

Ao explorar essa relação entre um espectador passivo e uma sociedade passiva, o teatro funciona para Lígia Soares como um dispositivo aberto, com caráter potencialmente participativo.

“Há uma linha de continuidade nos meus trabalhos que tem que ver com esse convocar do espectador ao sistema representativo do espetáculo. Sinto sempre o lugar do teatro como uma oportunidade de relação. Para que não seja um corpo neutro”, realça a autora de outras peças como Cinderela e Romance.

Em Civilização, Lígia Soares faz-se acompanhar de Mia Tomé, Gonçalo Plácido e Rui Pina Coelho na interpretação. Os três atores entram em palco na segunda parte da peça que pelo meio tem ainda um “intervalo”.

Neste segmento, a atriz do monólogo inicial esquece por momentos a sua função na peça para interpelar o público. Põe-se no mesmo patamar e por momentos esquece toda a mensagem que, na parte inicial, tinha tentado passar ao espectador. “Vamos lá acabar com isto”, afirma, de repente, a atriz enquanto tenta motivar o público a permanecer até ao fim.

Na segunda parte, os atores juntam-se em palco e desempenham diferentes funções. Ao passo que Gonçalo Plácido e Rui Pina Coelho interpretam espectadores que agora estão também em cena, Mia Tomé veste a pele de uma cadeira, cansada da sua função enquanto tal.

“Eu compreendo a tua revolta, simplesmente não posso fazer nada. Sabes bem que já tentei tirar as pessoas daqui, mas elas insistem em deixar-se ficar sentadas”, interpela a atriz que tenta consolar a cadeira, em vão.

Com as personagens seguintes, a atriz continua a sua interpelação “acusatória e provocadora”, que rompe com os limites da própria função do espectador. “Esta personagem mostra o medo das pessoas se implicarem com ideias. Por outro lado, ela é o conjunto de possibilidades do que um coletivo pode ser”, sublinha Lígia Soares, ao evidenciar o facto de hoje existirem muitas ideias individuais, mas raramente consubstanciadas coletivamente. “Acho que nós sofremos todos de uma crise de valores e falta entre as pessoas a coragem de tornarem ideias comuns em ações”, acrescenta, sublinhando no entanto que essa inquietude pode funcionar de forma positiva e motivar o espectador a agir.

Civilização termina num epílogo que encaixa no mote inicial. Depois de transmitir a sua mensagem, a “atriz” finaliza com um apelo dirigido à plateia: “Abracem-se vocês, abracem-se. Peito com peito. Sintam a fome que se forma na barriga do outro como um vácuo que vos suga a língua. // Deixem os vossos estômagos falar em coro. Como se fossem apenas um.”

A nova peça de Lígia Soares permanece em cena até ao próximo dia 21 de abril, de quinta a domingo. Na estreia da peça, será também lançado um livro com o texto da mesma, editado pela Douda Correria.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Mia Tomé

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