Desde 1987 que a Associação Cultural Moinho da Juventude (ACMJ) tem trabalhado no bairro da Cova da Moura, na Amadora, na criação de projetos sociais, culturais e profissionais que vão ao encontro das necessidades da população. Um das faces desse trabalho é visível no Kova M Estúdio, um projeto de formação e divulgação musical, que dá azo às aspirações dos jovens do bairro, que desejam aprender mais sobre música.

Em entrevista ao Gerador, a associação conta que o projeto surgiu em 2007, depois de terem questionado os jovens sobre que áreas mais gostariam de aprender. “Após conversar com eles sobre o que é que gostariam mais de aprender, quase todas as respostas andavam em torno da música: uns queriam ser DJ’s, outros queriam produzir, uns cantar, uns dançar. Perante este cenário, nada melhor do que criar um estúdio para abranger todas estas áreas”, contam.

Hoje, passados 13 anos, os resultados do projeto estão à vista: o estúdio foi casa de criação de nomes que têm uma carreira promissora no universo do hip hop e do rap, tais como Mynda Guevara, Timor YSF, Vado Más Ki Ás, Niko O.G., tendo por lá passado ainda Puto G e o Dany G, cujas carreiras continuam a ser recordadas.

“O balanço é positivo”, sustenta a associação, que espera igualmente que a reabertura do estúdio traga de novo “muitos dos artistas que ocupavam esta casa”, assim como as “camadas jovens que estão entusiasmados para aprender e entrar no mercado”.

Novos cursos a partir de novembro
O ano é verdadeiramente atípico devido à situação de pandemia, e isso também se reflete no trabalho destas associação, que fazem um notável esforço para manterem as suas estruturas ativas.

Neste sentido, o Kova M Estúdio irá apresentar novos cursos já a partir de novembro. De acordo com a associação, o estúdio irá contar com três cursos de formação musical - de Produção, DJ e Voz - e ainda workshops mensais, onde se insere um conjunto de talks com diferentes artistas. Por outro lado, a ACMJ irá também voltar a alugar o estúdio para artistas que queiram gravar os seus temas.

“Estes cursos foram pensados entre nós membros da ACMJ e também com uma equipa de produção externa. O objectivo dos cursos é forma os jovens e dar-lhes ferramentas e plataformas para que eles consigam entrar no circuito musical. O custo para os jovens da comunidade é suportado pelos nossos financiadores e pela ACMJ”.

A planificação do estúdio está feita de forma a que cada aluno do curso possa ter aulas semanais em grupo com a duração de 2horas, sendo que “os alunos dispõem ainda de tempo semanal de treino no estúdio mediante marcação”, adianta a ACMJ.

Concerto online para angariação de fundos
Questionados sobre os próximos desafios deste projeto, a associação realça que o estúdio tem estado em busca mais apoios financeiros (ou em material) que possam contribuir para a “solidez a longo prazo”. Neste âmbito, está a decorrer uma campanha de crowdfunding na página de Instagram do estúdio, onde qualquer pessoa pode contribuir.

Encontra-se ainda em preparação um concerto online, em parceria com o Branko e  Dino d’Santiago, no sentido de promover o aumento de donativos para aquisição de equipamento de som, desenvolvimento de cursos, entre outros custos envolventes.

Num trabalho que prima pela criação de mais e melhores oportunidades, a associação acredita que o trabalho desenvolvido valoriza o talento dos mais jovens, como também ajuda a combater a estigmatização que alguns destes bairros sofrem. A tendência reflete-se aliás nos artistas que se têm promovido.

“Sentimos que cada vez mais existe o apoio do mercado e de investidores para artistas formados em bairros. Por exemplo, a Sony recentemente assinou com o artista Vadu, formado neste mesmo estúdio. É importante que empresas valorizem e apostem no talento dos jovens de bairro, pois não só promovem a inclusão social como desmistificam esse mesmo estigma”, concluem.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Maria Figueiredo Martins

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