Fernão Cruz abriu a porta do C.A.R.O., o seu atelier nas Olaias, para uma conversa sobre a arte e a vida — que só fazem sentido de mãos dadas.

“Uma vez perguntaram ao Manoel de Oliveira o que era a arte, numa entrevista. Ele respondeu “diga-me o que é a vida e depois eu digo-lhe o que é a arte” “, diz Fernão Cruz com um sorriso. No atelier, que partilha com Horácio Frutuoso e Tiago Alexandre, nas Olaias, abrem-se as portas para uma parte do seu universo onde peças acabadas convivem com outras que estão ainda em processo de criação. O que ontem foi uma pintura isolada, amanhã poderá encontrar uma nova vida junto a uma peça escultórica.

É precisamente disso que o trabalho de Fernão vive: da vontade de transformar. “Na arte sempre houve esta vontade de transformar. E tudo é válido quando é bem exposto e explorado”, reflete em voz alta. “A minha relação com o fazer é muito mais forte do que com o feito, com o objeto final em si.”

Fernão Cruz estudou nas Belas Artes de Lisboa e fez Erasmus em Barcelona, mas foi na casa de leilões em que o pai sempre trabalhou que estabeleceu uma relação íntima com a arte. Desde pequeno rodeado de telas de Júlio Pomar ou Vieira da Silva, cresceu a conviver com a matéria de pintores portugueses, até naturalmente perceber que também era aquele o seu caminho e que não faria sentido de outra forma.

Na residência artística que fez na China encontrou um ponto de viragem no seu processo criativo. “Houve um distanciamento físico do meu atelier e das pessoas a quem estou habituado, num lugar novo e que de repente me pareceu um vortex em que podia fazer tudo”, explica. Dali surgiu Stretching can be easy, o livro que lançou este ano e que é mais uma porta para o seu universo complexo onde tudo faz sentido, isoladamente ou nas múltiplas constelações em que pode integrar.

Fernão tem 24 anos e o carimbo de “artista emergente” ou “jovem artista” facilmente lhe podia ser atribuído, mas quanto a isso tem reservas. “Eu sou jovem porque sou jovem, sou artista porque sou artista. Acho que a condição de ser jovem artista hoje está mais relacionada com a persistência e com o facto de levares isto a sério e ser o teu trabalho, apesar de qualquer outra questão exterior que te tente forçar a ter calma, por exemplo”, explica.

O tempo é relativo na vida e na obra de Fernão. Não lhe interessa viver ancorado na ideia de que ainda tem muito tempo para pintar ou para chegar onde quer que seja; interessa-lhe aproveitar esse tempo para se relacionar com o que é seu e com os seus, com o que ontem foi um objeto e amanhã poderá ser o ponto de partida para uma nova narrativa.

“O trabalho, mais do que tudo, estas marcas que eu vou deixando, não são nada mais do que uma possível resposta à vida. É um corredor onde vou e há certas portas que decido abrir, e as que não decido abrir na altura se calhar abrem-se um dia mais tarde”, conta com toda a certeza que um jovem pode ter e a dúvida que um artista pode querer levantar.

Fernão não sabe ao certo o que quer, sabe antes o que não quer. No caminho vai continuando “a criar no mesmo parque de diversões — seja ele o atelier, o jardim ou a praia”.

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Texto de Carolina Franco

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