Bro, You Got Something In Your Eye. Este é o título do terceiro trabalho dos Unsafe Space Garden, que é editado dia 23 de abril pela Discos de Platão. A capacidade de abstração e de “meditar” sobre as contradições internas de cada um foi um conceito explorado no disco, que pretende mostrar um outro lado na experimentalidade da banda vimarense. “Quisemos criar um processo de preparação, para que a mensagem pudesse chegar mais a fundo, ou que fosse possível criar uma espécie de chão comum”, explicam.

Split Screen Vision é o primeiro single, que está já disponível nas plataformas digitais. Uma “leveza característica da pop, mas a sobriedade de quem olha ao seu redor”. “Se o objetivo do Homem é a união, não serão as divisórias contraproducentes?” perguntam.

Gerador (G.) - Após o 1º EP, Bubble Burst e do álbum Guilty Measures, lançam agora Bro, You Got Something In Your Eye. O que podemos esperar deste terceiro trabalho (o segundo em tempo de pandemia)?

Alexandra Saldanha (A. S.) - É sempre muito ingrato responder a isto porque depois... Acho que mais vale não esperar nada e só ouvirem. Isso era muito fixe, só ouvirem. Mas certamente que há um desalento qualquer neste disco, que não estava no anterior, porque o anterior, na verdade, foi composto ao longo de 2019 para sair em 2020. Quando sai o Guilty Measures este, o Bro, You Got Something In Your Eye, já estava a ser composto por mim e pelo Nuno (Duarte). Mas já tínhamos mexido um bocado com o que queríamos fazer de raiz e depois vem a pandemia e aí é que começa mesmo a composição do disco.

Ou seja, acho que o desalento desta pandemia — que todos nós conhecemos e que não vale a pena, nem dá para descrever é só aquele fosso aqui no peito — está muito no Bro, You Got Something In Your Eye. E depois, claro, como nós tendemos a não querer — como toda a gente, imagino eu — ninguém gosta de ir completamente ao charco, e o ano passado foi, como este está a ser, um teste a ver quem é que ia ao charco mais rápido. O Bro, You Got Something In Your Eye é um bocado a tentativa de aprender a nadar, já que era inevitável ir ao charco. Foi aprender a nadar no charco e, vamo’ lá, navegar na maionese e seja o que Deus quiser.

(G.) - Mas sentem que houve uma certa maturação da vossa sonoridade?

Nuno Duarte (N.D.) - Sim. Eu acho que, para nós, foi muito a procura de um contexto para as coisas que estávamos a dizer. Porque eu sinto muitas vezes — e nós sentimos muitas vezes – que as coisas que nós dizemos, nas nossas letras ou nas nossas composições, é para as pessoas uma espécie de muro, que elas não conseguem muito bem penetrar. Então, tanto nos olham com um certo “o que é isto”, como adoram, mas muitas vezes nem sabem porquê. E acho que a maturação deste disco tem que ver com pôr as coisas no contexto e pôr as canções todas numa narrativa, em que realmente se sente um chão e se sente o que é que nós estamos a dizer melhor. Então, acho que este disco é um bocado o decifrar daquilo que nós conseguimos dizer. É uma espécie de uma barreira de comunicação que [se quebra] e, se calhar, vai ficar mais claro. Acho que tem que ver com isso.

(G.) - Há então uma narrativa ao longo das várias faixas? Há alguma continuidade?

(A.S.) - Sim. Foi uma epifania que o Nuno teve, por volta de janeiro. O contexto que se mostrou ser o mais apropriado para as músicas que nós tínhamos foi uma meditação guiada. Muito porque era uma prática que nós já andamos a explorar há muito tempo e que nos permite ser o que quer que seja que nós somos, seja musicalmente, seja só como sistemas, seres vivos, pessoas com nome e número de contribuinte, mas também porque pareceu mesmo a forma mais indicada para dizer o que nós estávamos a dizer. Porque são tudo apercebimentos que nós fomos tendo no final de 2019 para 2020, e mesmo até muito recentemente. Pequenas coisas que nós fomos notando em nós mesmos, que parece ser só lutas transversais ao ser humano – pelo, espero eu, que sejam e que sejam também elas ultrapassáveis. A meditação guiada aparece, mas não é nada de extremamente sério, até porque se fosse já não éramos nós. [Este trabalho] tem a seriedade de uma meditação guiada por estarmos a tentar guiar o ouvinte ao longo do disco – mesmo que seja só na medida em que “agora fazemos um exercício”, como o da respiração, mas musical. Há uma faixa que é a Defesa do Sol em que nós brincamos um bocado com esta ideia dos media, de sugar o sumo todo da existência. E, em vez de falarmos da própria vida, falamos de pequenas charadas [acerca do] que é a vida, que nunca são realmente um retrato certo. Nós temos a Defesa do Sol que tem uma brincadeira com uma entrevista ao sol... porque o disco tem [faixas] em Português e em Inglês.

(G.) - Essa era também uma pergunta que eu queria fazer... tem muitas músicas em português neste disco?

(A.S.) - Tem assim bocadinhos, porque, lá está, o inglês não foi uma escolha. Provavelmente és da nossa idade, mais ou menos, ‘vintes’ não é?

(G.) - Sim.

(A.S.) - Certamente também cresceste com o massacre da MTV ali ao máximo. Desde pequenina que tanto eu como ele, foi ouvir MTV, ouvir MTV... parece que o português soava mal e que nos roubaram o foco de identidade que existe. O pouco de identidade nacional que um gajo pode aceitar, que é, por exemplo, a tua língua, o teu território, seja a comida, sejam as pessoas, a tua tradição oral... até isso nos tiraram. Já não aprendemos as músicas dos nossos avós, já nem temos um amor à Língua Portuguesa, seja ela como for. Seja o Português do Norte, seja a gramática... Então, ao fazer música acabou por ser em inglês e agora, como começámos a entrar mais pela cena de estudar a tradição oral e perceber o que é que ela diz sobre nós, já começa a fugir para o português, muito de vez em quando. E certamente que é um bocado o caminho que nós vamos tomar daqui para a frente. Mas voltando à pergunta inicial, se tinha uma voz a conduzir o disco todo, [há sim] a voz da meditação guiada.

A ideia é que o disco esteja consciente dele mesmo, porque às vezes poderíamos assumir uma posição, inconscientemente, de superioridade moral que não é o objetivo, obviamente. Nós só estamos a tentar relatar mais ou menos o que é que nós fomos descobrindo acerca de nós mesmos como seres vivos, e talvez isso possa fazer alguém rir ou aprender alguma coisa. A voz da meditação guiada está a relatar esses apercebimentos, a dar uma espécie de direção a quem está a ouvir, e a nós... a nós também que estamos dentro das músicas. E também está a pôr em perspetiva a nossa estupidez, porque, por mais que uma pessoa saia de si mesma, num momento de composição continuamos a ser uns idiotas falíveis e até hipócritas. Ser humano é ser hipócrita, então [o álbum] tem esse joguinho. A Voz está consciente de alguma coisa que chegará até nós – Voz, quero dizer, meditação guiada —  está consciente de alguma coisa que nós normalmente... se calhar no dia a dia não sabíamos, mas também está consciente da sua falibilidade, [pois] continua a ser um ser humano de alguma forma.

(N.D.) - E também, de certa forma, há um objetivo de alterar a experiência de ouvir um disco. Muito também porque agora não há muito esse hábito de ouvir um disco. As coisas acontecem mais como... até as próprias bandas, lançam singles atrás de singles. Continuam a haver [discos], claro, mas queríamos alterar um bocado a experiência de ouvir um disco e não é só ouvir um disco que tenha dez faixas e ouvir as dez faixas e já está. Queremos criar um processo de preparação para que a mensagem pudesse chegar mais a fundo, ou que fosse possível criar uma espécie de chão comum, para que depois as mensagens, realmente, entrassem com outra capacidade.

E é muito isso, o processo meditativo, que é uma coisa que transforma a nossa experiência como seres humanos. A partir do momento em que nós vamos fazendo isso, o nosso dia a dia muda, a maneira como nós aprendemos as coisas muda, a nossa perceção muda.

Lembro-me de uma entrevista do David Lynch, quando lhe perguntaram algo acerca de qual é o valor da meditação para um estudante de cinema, por exemplo. Ele diz — ou faz de conta que — a nossa capacidade de perceber uma coisa é do tamanho de uma bola de golfe. Então, quando vamos ouvir uma música percebemos o tamanho da bola de golfe, ou quando lemos um livro ou vemos um filme, é igual. Mas quando meditamos essa bola expande. Então, há um copo muito maior de coisas que se pode absorver e [este trabalho] é um bocado essa ideia de tornar as músicas mais compreensíveis ou mais passíveis de serem transmitidas, ou seja, a essência de se transmitir de alguma maneira mais profunda.

(G.) - Na vossa música sentiu-se sempre uma certa exploração humorística das nossas contradições humanas. No sentido do que estão a descrever: isso deixou de ser um foco para passar a ser algo mais virado para o público?

(A.S.) - Continua a ser muito de como era inicialmente...


(G.) - Ou seja, agora há uma maior preocupação com o facto de como as coisas vão ser percebidas.

(A.S.) - Acho que a preocupação não foi tanto de “isto não está a bater, as pessoas não estão a perceber”, mas foi mesmo nós, que já estávamos a ficar um bocado frustrados com a forma como fazíamos as coisas. O EP e o [primeiro] disco foi o Nuno que compôs e agora o Bro, you something in your eye” fomos nós os dois. Tem de haver um equilíbrio em tudo e havia um desequilíbrio, porque quando é só uma coisa, é só essa coisa e depois... eu falo muito não é, já deu para perceber que falo muito [risos]. O Nuno tem mais dificuldades em construir frases. Então, depois, de uma maneira muito impenetrável, era muito solipsista, era algo muito dele para ele. De repente, está a ser partilhado com as pessoas à nossa volta, e, em conversas com essas pessoas, percebemos melhor o que é que nós estamos a dizer, porque, lá está, não é só nosso. Então este disco, se calhar, não foi tanto uma preocupação de isto ser mais para o ouvinte, foi mais [a constatação de que] isto é de toda a gente. E nem é o ser de toda a gente, é, quando eu me estou a observar, eu estou a observar um ser humano, num contexto humano, todo ele cercado por barreira humanas, então acaba por ser de qualquer pessoa que se coloque nesse tal sítio.

Nós, neste disco, falamos muito de abrir a porta, falamos [do facto de] não tens de atravessar a porta, não pedimos nada de especial, só que deixes a porta aberta. Abre a porta e espreita só. A ideia do abrir a porta é só tipo, não nos enclausuramos nestes limites de “eu sou assim, eu sou assado, tu és diferente de mim”. Porque hoje em dia até se fala muito nisso como uma espécie de consciência social ou consciência política de haver um qualquer cadastro das gerações anteriores, de criar divisórias com grupos de outros sítios ou grupos diferentes. Mas, depois, a nossa geração que quer combater isso, está a fazer um pouco do mesmo porque não entende que a geração anterior não teve acesso à informação toda que nós temos agora. Então [este disco] é para quem precisa de abrir horizontes, que é toda a gente. A nossa geração e a geração anterior e as que vêm a seguir.

A ideia é não impor limites com o outro que é diferente de mim, seja por ser de outra nacionalidade, seja por ser de outra cor, porque tem gostos diferentes, opiniões diferentes, tudo isso. Essas divisórias não se podem impor de maneira nenhuma.

(G.) - Este é um trabalho político, então?

(A.S.) - Tem muito de. O ano passado, por estarmos todos em casa, certamente toda a gente notou o intensificar de todas estas questões. Parece que todos os meses do ano passado foram marcados por um momento qualquer que nos deixou a todos [espantados]. Então, acabou por ser político, porque estávamos todos focados nisso. De repente, era tudo o que havia, porque estávamos todos fechados em casa.

(N.D.) - É político, mas é mais como consequência. Não é algo que nós pegamos e queremos ativamente falar sobre. É político, porque estamos a falar do ser humano e depois as questões de existir vão naturalmente aí ter. Mas não é uma coisa de que estamos a falar [diretamente].

(A.S.) - Acho que até o mais obviamente político é o single. É o que mais facilmente se traduz em nós a dizer alguma coisa que pode ser pertinente ou não. Como é o Splitscreen Vision, em que nós criámos uma barreira e há este lado e aquele lado, e depois quem está deste lado nunca consegue ter a perspetiva de quem está daquele, porque escolheu estar neste e essa suposição acabou. Ao passo que, se nós escolhermos não ter uma posição é só ir notando o que faz sentido, ou seja, escolher as coisas com compaixão e inclusão.

(N.D.) - E perceber que o ser humano é uma coisa muito mais complexa. Por acaso, nós ontem encontrámos um rapaz numa entrevista para o Gerador, o Tomás Magalhães, e que agora tem uma plataforma chamada Despolariza e nós ficámos perplexos porque é muito a Splitscreen Vision, é muito este disco.

Nós não somos assim uma coisa que nós podemos pôr numa linha reta, num contexto mais político, de centro esquerda ou direita. Há toda uma dimensão de existência humana em que eu posso ter opiniões e posso estar a ver as coisas de uma maneira, nos assuntos, que são mais de direita e a seguir ir completamente para a extrema esquerda. De outra forma, só estamos aqui a jogar com as bandeiras e equipas.

(A.S.) - Que é um bocado o que a nossa geração quer abolir, mas está também a alimentar. Nós queremos abolir fronteiras, mas parece que ao tentar abolir as fronteiras estamos é a alimentar as divisórias. E acho que, mais tarde, vai ser engraçado para quem estudar isto [risos], os últimos dez anos e os próximos cinco. Vai ser engraçado. Para já, está a ser um bocado assustador para toda a gente, mas certamente que no futuro vai ter piada.

(G.) - Mas como é que foi para vocês ter este início de carreira tão marcado com estas restrições e com esta mudança na nossa sociedade?

(N.D.) - É um bocado ingrato.

(A.S.) - Acho que, num plano em que nós somos o Nuno e Alexandra é uma merda [risos]. Mas, depois, no plano em que somos outra coisa qualquer, acho que não importa assim tanto. Porque a verdade é que nós já ficámos — isto vai ser extremamente melodramático – mas já nos tiraram tudo. O acontecer [tudo] em pandemia já nos tirou tudo. Portanto, o pior que podia acontecer meio que já aconteceu.

(G.) - Já percebi que esta fase afetou o vosso processo criativo, mas afetou também o fluir do vosso trabalho e a vossa produção artística?

(N.D.) - Não, isso não. Em termos de composição não. É mais em termos da ativação viva daquilo que é também estar a fazer música, que é tu ires subir a um palco e fazer uma performance para as pessoas e depois falar com elas. Essa interação é um bocado ingrato não a ter, porque é uma parte crucial. Nós sentimos que tem muito de performance, também, naquilo que nós estamos a fazer. Quando isso não está a acontecer, é quase como se as pessoas estivessem a ver apenas uma parte daquilo que é armazenado ao longo de todo o trabalho.

(A.S.) - É só uma bola de golfe [risos].

(N.D.) - E depois é como se houvesse outra parte do puzzle que não está a ser ativada. E aí é um bocado triste, sim.

(G.) - Acham que, se as circunstâncias fossem outras, teriam mais projeção, nesta fase do vosso percurso?

(A.S.) - Não sei.

(N.D.) - Também não sei, mas apontaria a que sim, claro. Porque nós tínhamos muito feedback dos concertos e tínhamos muitas pessoas que nos iam seguindo dos concertos — que foram muito poucos. Para uma banda que vai ter agora três discos ter dado 10 ou oito concertos...

(A.S.) - Foram sete, na verdade.

(N.D.) - É extremamente pouco.

(A.S.) - Ou seja, se calhar a resposta mais correta é mesmo “se calhar”.

(N.D.) - Provavelmente.

(A.S.) - Eu digo se calhar, ele diz provavelmente [risos].

(G.) - E agora, têm atuações planeadas?

(N.D.) - Para este ano ainda não temos nada marcado, estamos a tratar da parte do booking, porque também é uma coisa que está um bocado...

(A.S.) - .... que está toda a gente sem saber se isto [pandemia] vai aumentar, se vai voltar a um sítio possível [de voltar à normalidade], se não, mas acho que está assim para toda a gente. É uma tristeza, mas é o que é.


Texto por Sofia Craveiro
Fotografia de Cisma Studio

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