Junho é o mês de Portugal e com ele vêm as festas populares que duram todo o verão, por todo o país. Em Lisboa, o Santo António é sinónimo de trânsito nas ruas mais estreitas dos bairros emblemáticos da cidade. Disso, e de cheiro a churrasco, sardinhas e qualidades de dança inigualáveis. É sobretudo curioso observar como é que uma das tradições mais antigas de Portugal que remonta ao século XIX, as primeiras marchas, permanece quase intacta nos dias de hoje. Quase intacta, visto que todos os anos, as festas populares trazem novas opções.

Durante os próximos dias, o cheiro a sardinha será substituído pelo cheiro a soja, húmus e todo um leque alimentar alternativo, respondendo às necessidades alimentares de quem escolhe uma alimentação sem carne, peixes, e ainda outros alimentos de origem animal, preservando a animação singular que as festas populares portuguesas proporcionam.

Desmistificando esta escolha de uma dieta alternativa, Mia Persson explica que se apercebeu de “que estava a contribuir para uma indústria que não me fazia sentido, fez com que eu tivesse de questionar as minhas ações e valores”. Um dos principais motes do veganismo é a luta contra a indústria alimentar massiva de animais, pondo em causa o sofrimento por que estes passam. “Depois de treinar o meu cérebro a fazer a ligação entre o ser vivo e o pedaço de ‘comida’ no prato, tornou-se impossível ingerir produtos de origem animal sem sentir enjoo ou nojo”, acrescenta a jovem ativista.

O termo vegan, não é algo recentemente inserido na cultura millenial, está presente na sociedade desde 1944, a primeira vez que foi empregue com o sentido a que hoje lhe atribuímos. Desde então expressa uma liberdade de escolha, como uma ideologia política, social e ambiental que nos últimos anos tem vindo a ganhar uma certa propulsão na sociedade atual.

“Trabalhamos para ajudar a sociedade e os indivíduos a mudarem, de mãos dadas com os mesmos e integrando-nos nessa mudança. Ninguém nasce ensinado, mas existem muitas pessoas com vontade de mudar, que a única coisa que precisam é de um empurrão e de uma ajudinha para mudarem efetivamente”, diz João Galvão, coordenador da plataforma do Desafio Vegetariano.

A Weggan, em parceria com o Desafio Vegetariano, a Setúbal Animal Save – Stop Live Exports, o Pistácio, e a Aliança Animal, propõe no restaurante Horácio, um arraial alternativo, apelidado de “Santos não Populares” que tem por objetivo fornecer uma segunda via alimentar durante três dias de festa. João Galvão, afirma que a importância em oferecer uma alternativa alimentar durante os Santos Populares “é a mesma para qualquer pessoa. Ou seja, como sabemos, todas as pessoas se querem alimentar e querem comer coisas boas! Para além disto, sabemos também que cada vez mais pessoas estão a perceber as vantagens de uma alimentação estritamente de origem vegetal, sendo que as principais razões para isso são a saúde (individual e coletiva) e a consciência do sofrimento desnecessário a que estamos a submeter os animais e o nosso planeta, para que nos possamos alimentar deles. Assim, sabendo que podemos manter o prazer da experiência da comida, mas sabendo também que estamos a contribuir para um mundo melhor, ao escolhermos essas opções, é muito importante que todas as pessoas tenham opções que vão ao encontro do seu regime alimentar para poderem realmente festejar os Santos Populares e, mais importante ainda, para poderem festeja-los em paz.”

Tal como os tempos mudam, os nossos organismos adaptam-se a novas realidades, de maneira voluntária ou involuntária. Paloma Brum, fundadora do projeto Think Veg, conta que, já depois de se tornar vegan, descobriu há cerca de nove meses a sua intolerância tanto ao glúten como à soja, dois dos pilares alimentares da dieta vegan. “Tinha muita dificuldade em comer na rua, então comecei a pesquisar sobre pastelaria vegana e, a partir do momento em que comecei a desenvolver algumas coisas, o café em que trabalho começou a pedir que fizesse algumas coisas para o café e a gente começou a perceber que tinha demanda e pronto, assim se desenvolveu a ideia do negócio”. A empreendedora brasileira diz ainda que “quando você pensa em Santos, você pensa em sardinhas, chouriço e bifanas, o vegano fica sem comer. Porque o arroz-doce é feito com leite, com ovos e eu não podia comer nada, então acho incrível os Santos não Populares, porque isso denota uma mudança crescente, não só em Portugal, como no planeta e que é mais que uma simples dieta, é uma consciencialização por uma emergência climática inclusive, por um problema de sustentabilidade do planeta, então que isso ao encontro com o que a sociedade está demandando. Senão também não teríamos grandes indústrias a investir no mercado, como a Danone, ou a Nestlé que já se lançaram.”

Renata, da Weggan Mag, sublinha o interesse do evento como uma oportunidade de “mostrar que mesmo o mais tradicional pode ser celebrado sem crueldade. Daí também o nome, Santos não Populares, porque, apesar de não ser comum, é algo viável e com bastante oferta ao contrário do que se pensa.” Acrescenta ainda que “sendo os Santos Populares uma festa tradicional com muita adesão do público, achamos uma ótima maneira de mostrar às pessoas o que ainda é diferente e também haver oferta para quem já é vegano.”

Para além de uma simples alternativa, os arraiais vegetarianos e vegan, apresentam-se como uma primeira porta para o seu universo. “Para as pessoas que não são veganas, e que não conhecem a alimentação vegana, primeiro que acham que a gente só come alface, segundo que pensam ‘ai sem graça, sem sabor’, então poder ir aos Santos Populares da Weggan e poder comer um arroz de leite e achar que está comendo um arroz de leite tradicional e perceber que não tem diferença quase nenhuma, que pode ser inclusive mais gostoso, mais leve, mais suave, e você ter num evento tradicional essas opções, está fazendo uma forma de ativismo. Porque você está oportunizando para as pessoas que não são vegan, a provarem e a perceberem que dentro do veganismo nós temos a opção para tudo, sem necessidade de sofrimento animal, de coperpetuar essa ação que é muito péssima, que é muito dolorosa, que não cabe mais, eu acho, para uma consciência de uma forma geral, de uma sociedade que deseja paz, mas que vive gerando sofrimento e ingerindo sofrimento e não tem como a gente ter paz ingerindo sofrimento.”

“Olhamos para o aumento do surgimento deste tipo de iniciativas com muito agrado e como parte normal do acompanhamento da sociedade e da continuidade para com os valores e ideais dos indivíduos das mesmas. Hoje em dia, já temos opções de origem estritamente vegetal de inúmeras receitas da cozinha tradicional portuguesa, desde a francesinha, passando pelos rojões ou pela feijoada, entre tantas outras coisas e é também dessa forma que o Desafio Vegetariano trabalha, pois sabemos que as pessoas querem continuar a comer aquilo de que gostam, mas deixando os animais fora do prato. Assim, é normal que haja também cada vez mais eventos que sigam a mesma maneira de pensar, mantendo tudo aquilo a que estamos habituados, mas tirando apenas os ingredientes de origem animal da equação, o que acaba por aumentar, psicologicamente, o prazer percecionado por todos os intervenientes”, justifica João Galvão, quanto à integração deste tipo de iniciativas em tradições portuguesas.

Tendo em conta que os produtos de origem animal são uma fonte de proteínas mais habitual de encontrar, a dieta vegan exige um maior interesse sobre o que é ingerido. Para uma alimentação saudável e equilibrada que exclua todo o tipo de alimentos de origem animal, é necessário constar fruta, cereais e tubérculos, como o arroz, o trigo, o milho, a quinoa, o centeio, a aveia e ainda as batatas, mas também leguminosas, algas, hortícolas, e outras fontes de proteínas como o miso, tofu, tempeh ou seitan. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, ao seguir uma dieta vegan, é também possível cair em excessos de gordura, sal e açúcar, mas as gorduras fazem igualmente parte do plano, como azeite e óleos vegetais, seja de amendoim, de coco ou de girassol.

Durante os três dias de Santos não Populares que decorrerão de 10 a 13 de junho, Paloma contou-nos um bocadinho do que poderá ser encontrado na ementa. A especialidade de Paloma surgiu da necessidade de encontrar um plano B à sua intolerância ao glúten e à soja, que numa busca de sabores e inovação a levou a explorar as raízes da gastronomia brasileira. A empada de jaca será servida com dois temperos, o primeiro agridoce, com especiarias indianas, vegetais como milho, ervilha, feijão-verde e pimentos, e o segundo, inspirado da empada de carne louca, é igualmente feito com o refogado brasileiro que, ao invés de carne desfiado, será feito com jaca.

“A comida é o elemento que junta as pessoas e por isso, para nós, é fundamental que haja comida vegana”, tal como afirma Renata, é à volta de comida que se juntam as pessoas, portanto, talvez este ano, as ruas de Lisboa não sejam apenas uma viagem ao passado por uma tradição longínqua, mas uma viagem a mundo de opções e liberdades, uma aventura de cores e sabores que levem locais e visitantes a fazerem história ao atualizarem uma das mais antigas tradições portuguesas.

 

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de Doyoun Seo, disponível via Unsplash

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